quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Cine Lançamento

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Como você sabe

Desempregada, a jovem Lisa Jorgenson (Reese Witherspoon) reencontra-se com um antigo amigo chamado George (Paul Rudd), por quem se apaixona. Enquanto o rapaz lida com sérios problemas financeiros na firma do pai (Jack Nicholson), Lisa enfrenta uma crise tamanha com o atual namorado, Matty (Owen Wilson). Não querendo abandonar nenhum dos dois, ela decide manter um complicado triângulo amoroso.

Fracasso total de bilheteria, que por pouco não manchou de vez a carreira do diretor bissexto James L. Brooks, um dos criadores do sucesso de TV “Os Simpsons”. Dirigiu duas obras notórias do cinema, “Laços de ternura” (1983 – premiado com vários Oscars) e a irresistivel comédia “Melhor é impossível” (1997), mas que ultimamente deu para trás com “Disposto a tudo” (1994) e “Espanglês” (2004). Para se ter noção “Como você sabe” custou U$ 130 milhões (um absurdo para os padrões), rendendo pouco mais de U$ 30 milhões.
O defeito: uma comédia romântica apagada, com elenco deficiente. Não faz rir, não causa frisson nenhum justamente por faltar ânimo romântico.
Nunca tive paixão por Reese e Owen Wilson, o casal da fita. E aqui ambos ficam inertes, como o elenco em geral. Paul Rudd tenta melhorar as piadas (o melhorzinho da fita), e o monstro sagrado Jack Nicholson, por incrível que possa parecer, pasmem, nem sentimos sua presença. Ele interpreta o pai rico de George (Rudd), com sinais de desânimo, sem contar o cansaço.
Enfim, um filme pequeno que não acertou, que cairá no esquecimento. Por Felipe Brida

Como você sabe
(How do you know). EUA, 2010, 121 min. Comédia romântica. Dirigido por James L. Brooks. Distribuição: Sony Pictures

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Cine Lançamento

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Rango

Após um acidente de trânsito no meio do Deserto de Mojave, Rango (voz de Johnny Depp), um esperto camaleão, fica perdido no Velho Oeste da Califórnia. Vagando sem destino, chega a um vilarejo dominado por animais brutos. Lá, os habitantes sofrem com a falta de água e ao mesmo tempo temem a chegada de um grupo de bichos pistoleiros. Nomeado xerife, Rango passa a ser visto como herói. Sobra para ele organizar estratagemas para proteger os novos amigos da tenebrosa seca.

Impecável animação para adultos produzida em computação gráfica, com uma gama de atores renomados emprestando suas vozes para os mocinhos e os bandidos da trama, como Johnny Dep, Isla Fisher, Abigail Breslin, Ned Beatty, Alfred Molina, Bill Nighy, Harry Dean Stanton e Ray Winstone.
Dirigido por Gore Verbinski (parceiro de Depp nos três primeiros “Piratas do Caribe”), dificilmente servirá de entretenimento para crianças, devido à história transcorrer no deserto, com figuras estranhas, e ter todo o clima de western (saloon, cavalgadas, duelo entre pistoleiros etc).
Todos os personagens são animais típicos da região hostil de Mojave, na California, como tarântulas, raposa-do-deserto, cascavel, ratos, lagartos, águia, além de outros excentricos (e muito feios) – sapo-de-chifre, porco-espinho e o monstro-de-gila, onde lutam pela sobrevivência enfrentando a falta de água, ou seja, o filme tem inclinações críticas insistindo nessa antiga preocupação mundial.
Com ritmo ágil, orçamento alto (custou U$ 135 milhões) e sacadas brilhantes, torna-se ainda mais prazeroso para quem conhece a fundo cinematografia. Sabe por quê? A animação faz referências inteligentes a fitas de faroeste, como vários de Sergio Leone e Clint Eastwood. Aliás, “Clint” aparece personificado pelo “Espírito do deserto” (voz de Timothy Olyphant), um atirador moderno, motorizado. E o próprio Rango (nome dúbio que vem da lenda de Durango Kid e também da cidade mexinaca Durango) acaba vestindo uma malha jogada nos ombros, como a de Clint em “Três homens em conflito”.
As citações aparecem também na trilha sonora de Hans Zimmer, em homenagem ao mago Ennio Morricone, dos faroestes clássicos. Em uma sequências particular, resignifica “Apocalypse Now” com a música “A cavalgada das Valquirias”, de Wagner – em vez de helicópteros, os bichos pistoleiros se equilibram em morcegos.
Ótimo exemplar de animação para adultos, um primor para os mais inseridos. No DVD há duas versões, a de cinema (107 min) e a estendida, com quatro minutos a mais. Como extra traz ainda um material especial sobre os animais do deserto que aparecem em “Rango”. Por Felipe Brida

Rango (Idem). EUA, 2011, 107 min. Animação. Dirigido por Gore Verbinski. Distribuição: Paramount Pictures

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Resenha

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Balé Russo

Documentário sobre a trajetória da companhia “Ballets Russes”, formada inicialmente na França por imigrantes russos na primeira década do século XX, cujas técnicas impulsionaram o balé moderno pelo mundo afora.

Retrato íntimo sobre o grupo de dançarinos e coreógrafos de origem russa que atuaram no “Ballets Russes”, a mais famosa companhia de balé do mundo, idealizada na França e que depois seguiu para os EUA. A partir de uma série de depoimentos dos sobreviventes constrói-se um rico estudo de caso sobre eles, que remodelaram, com técnicas, ritmos e danças inovadoras, essa antiga modalidade de dança.
A Ballets Russes existiu de 1909 a 1929, pelas mãos do empresário artístico Serge Diaguilev (1872-1929), que reuniu os melhores coreógrafos e dançarinos da época, como Balanchine, Nijinski e Anna Pavlova. Com a morte de Diaguilev, o grupo se desfez, só sendo remontado com remanescentes russos e outros parisienses na metade dos anos 30, agora com o nome “Ballets Russes de Monte Carlo”. Este apareceu em filmes clássicos e existiu forte até a Segunda Guerra, quando alguns de descendência judia foram perseguidos pelo Nazismo (alguns morreram em campos de concentração).
Com o tempo de vida contado, frente à crise mundial durante o início da Guerra Fria, o Ballets Russes se cindiu. Cada um dos integrantes trabalhou por conta própria; parte continuou no cinema, outros montaram a própria companhia de teatro, uns rumaram para áreas distintas.
Feito em 2005, esse extenso painel sobre o Ballets é explicado por membros ainda vivos, que narram com saudade a juventude no grupo. Alguns deles são Irina Baronova (1919–2008), Alicia Markova (1910–2004 – falecida durante as gravações), Marc Platt (1917- ator de “Sete noivas para sete irmãos”), Wakefield Poole (1936-, diretor de filmes gays nos anos 70), Yvvonne Craig (1937- que depois se tornaria a Batgirl no seriado Batman) e o famoso dançarino George Zoritch (1917-2009).
Um elegante documentário, um pouco longo e repetitivo, mas que tem todo seu encanto e magia por causa do tema atrativo. Um deleite para quem aprecia dança clássica ou tem afinidade com o balé. Por Felipe Brida

Balé Russo (Ballets Russes). EUA, 2005, 118 min. Documentário. Dirigido por Daniel Geller e Dayna Goldfine. Distribuição: Europa Filmes

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Resenha

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Naked

Johnny (David Thewlis) foge de Manchester para Londres, onde vaga alucinado pelas ruas da capital inglesa. Ele é um pseudo-culto fracassado, de temperamento frio, e falastrão, que despeja todo o ódio que sente nas pessoas. Mas no fundo Johnny é um homem sozinho e romântico. Numa tarde, em frente a um sobrado antigo, depara-se com duas mulheres também solitárias. A partir desse primeiro encontro passa a morar com elas, como amigo, experimentando momentos explosivos de reflexão.

Drama cult de temática difícil, sobre o dia-a-dia de um rapaz à beira do caos imerso na cultura junkie underground da Inglaterra dos anos 90. Ele vive à toa pelas ruas, boêmio de carteirinha, fala mais que a boca, cria situações embaraçosas para aqueles que o cercam. Esse anti-herói porralouca será, para certos tipos de público, irritante e insuportavel. Por isso vá prevenido: é um filme de arte restrito, intelectualizado, cheio de reflexões sobre crise existencial no mundo pós-moderno.
Praticamente desconhecido no Brasil, “Naked” (Nu, em português) desnuda as convenções e falsas aparências projetando os personagens para dentro do universo sórdido das grandes cidades, com enfoque especial ao underground. Bebedeira violenta, drogas e prostituição não faltam nesse clima de extremos sentimentos em torno de Johnny, o rapaz frio e descrente, só que apaixonado.
A partir da metade a trama fica complexa com a entrada de novas figuras em cena, com um desfecho desiludido, típico dos projetos ultra-pessoais do diretor Mike Leigh (ele tem sete indicações ao Oscar entre direção e roteiro), exímio explorador das conturbadas relações humanas (lembram-se dos ótimos “Segredos e mentiras” e “Agora ou nunca”?).
Com “Naked”, Leigh venceu a Palma de Ouro em Cannes, que no mesmo festival deu a David Thewlis (perfeito como o desconjuntado personagem principal) indicação de melhor ator. O filme ainda traz Katrin Cartlidge, morta prematuramente aos 41 anos em 2002. Já em DVD. Por Felipe Brida

Naked
(Idem). Inglaterra, 1993, 131 min. Drama. Dirigido por Mike Leigh. Distribuição: Lume Filmes

sábado, 20 de agosto de 2011

Cine Lançamento

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Sobrenatural

Pacata família acaba de se mudar para uma grande casa recém-reformada. Lá estão Josh (Patrick Wilson), a esposa Renai (Rose Byrne) e os dois filhos pequenos, Dalton (Ty Simpkins) e Foster (Andrew Astor). Certa noite, o garoto mais novo, Dalton, entra em coma inexplicavelmente. Assombrações começam a atormentar o ambiente, colocando o casal e a outra criança em risco. De lá mudam-se para outra casa, afastada. Porém aqueles espíritos malignos continuam a atacar, de forma mais assustadora.

Mistura de “Poltergeist – O fenômeno” e “Evocando espíritos”, com aquele viés que conhecemos bem quando o assunto é casa mal-assombrada. Ou seja, outro bendito trabalho com a variante de filmes sobre espíritos maus.
A crítica, em especial a do Brasil, escreveu maravilhas sobre essa fita dirigida pelo malásio James Wan, do primeiro ‘Jogos mortais’ (e produtor executivo dos outros seis restantes), e produzida por Oren Peli, de “Atividade paranormal”. Duas figuras respeitadas no cinema de terror atual. Só que é ir longe demais apontar qualidades puramente autênticas de “Sobrenatural”. Até os fãs do gênero reclamaram esperando mais.
Falta clima de tensão. Não provoca arrepios como alguns disseram de boca cheia – concordo apenas naqueles breves flashes com aparições de vultos. As explicações sobre a perseguição dos espíritos, num desfecho com direção de arte brega, de mau gosto, empobrece o roteiro que já carregava marcas profundas de plot repetido. Tentei entrar na história, que começa bem, porém aos poucos o aborrecimento tomou conta da meu estado de espírito, literalmente falando e sem piadas a parte.
Será que sou injusto ou é mesmo uma decepção? Mantenho minha opinião afirmando inclusive que a expressão “Muito barulho por nada” cai certinha como uma luva em “Sobrenatural”. Por Felipe Brida

Sobrenatural
(Insidious). EUA, 2010, 103 min. Horror. Dirigido por James Wan. Distribuição: Playarte

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Resenha

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O tango de Rashevski

A partir do funeral de uma senhora judia que odiava a própria religião, a família, Rashevski, entra em conflitos pessoais. Parte não se conhece, outros não se gostam devido a discussões muito antigas. Nesse momento de perda e dor questionam a própria identidade, restando a eles a tentativa de reconciliação.

A intolerância religiosa em forma de comédia dramática tem um enfoque interessante nessa simpática fita produzida na França e na Bélgica. No Brasil ganhou espaço nas salas de cinema, ótimo sinal de que o público comum sinalize com bons olhos o cinema europeu, tachado de chato, cansativo, reflexivo.
Em “O tango de Rashevski” membros de uma família judia que pouco se relacionam precisam, urgentemente, providenciar o enterro de Rosa, uma espécie de matriarca. Esta rejeitava o Judaísmo e os rabinos, até colocava uns parentes contra outros por causa da religião, porém seguia os ensinamentos do Torá em respeito à tradição dos pais. E toda indiferença que ela sentia cai nas costas do restante da família. Nos preparativos do enterro, primos, cunhados, genros terão de deixar os desentendimentos para uma causa nobre.
Em um universo de brigas familiares, o filme se resume a uma reflexão sutil sobre intolerância religiosa, a bem da verdade o ódio sofrido pelos judeus ao longo dos anos na Europa. Nada é decisivo e direto, a história é realizada com leveza, até com piadinhas sobre comportamento humano face às crenças.
Vale apreciar esse trabalho de um diretor alemão chamado Sam Garbarski, que realizaria, quatro anos depois, em 2007, o cultuado drama “Irina Palm”, cujo papel-título ficou para a cantora inglesa Marianne Faithfull, ex-namorada de Mike Jagger e de outros integrantes dos Stones! Conheça. Por Felipe Brida

O tango de Rashevski
(Le tango des Rashevski). França/ Bélgica, 2003, 96 min. Drama. Dirigido por Sam Garbarski. Distribuição: Europa Filmes

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Cine Lançamento

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Invasão do mundo: Batalha de Los Angeles

Imensas naves alienígenas caem na Terra em forma de chuva de meteoros. De dentro delas, criaturas metade robô metade animal escapam, atacando os humanos. A cidade-alvo é Los Angeles, que em poucos dias vira palco de uma batalha entre homens e seres intergalácticos. Para conter a destruição em massa, o sargento Michael Nantz (Aaron Eckhart) convoca uma tropa de destemidos fuzileiros navais, que iniciam uma furiosa guerra. Aos poucos Nantz percebe que o ataque extraterrestre se alastra pelo mundo inteiro, colocando assim a raça humana em perigo.

Com orçamento caro, em torno de U$ 100 milhões, rendeu pouco mais da metade somente no fim de semana de estréia nos Estados Unidos. Ou seja, o filme por si só quase se pagou em três dias de exibição – e depois, com a bilheteria ao redor do mundo, encheu o bolso dos produtores.
Só que “Invasão do mundo” dá errado. É mais uma fita patrioteira sobre marines (ou fuzileiros navais, como queiram) salvando os EUA de ataques extraterrestres. Não tem medo algum em se declarar como uma apologia danada ao revide (duvidoso, claro) que os norte-americanos dão quando se sentem ameaçados, seja por invasão no próprio país ou quando invadem outro.
A história acompanha um grupo seleto de homens bravos que abraçam de corpo e alma a missão de destruir, com metralhadoras singulares, gigantescas naves de outro mundo, que dela saem alienígenas munidos de armas tecnologicamente mais avançadas. Ao longo do filme o público participa de um jogo de videogame, só com efeitos visuais, barulheira, explosões, ETs robóticos, aquela parafernália que já vimos por aí. Precisa mais para saber o final? Quem leva a melhor? Quem?
De novo o diretor Jonathan Liebesman, de fitinhas de terror como “No cair da noite” (2003) e “O massacre da serra elétrica: O início” (2006), comete furada com um roteiro infeliz – só que vibrante o rapaz está, pois faturou um bocado com essa aventura. Por Felipe Brida

Invasão do mundo: Batalha de Los Angeles
(Battle Los Angeles). EUA, 2011, 116 min. Ação/ Ficção científica. Dirigido por Jonathan Liebesman. Distribuição: Sony Pictures

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cine Lançamento

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Baarìa – A porta do vento

Durante a ascensão do Fascismo na Itália, o jovem Peppino (Francesco Scianna), filho de um humilde pastor, testemunha inúmeros acontecimentos na comunidade onde mora, Bagheria, apelidada de Baarìa, na região de Palermo, até eclodir a Segunda Guerra. Apaixonado por política, engaja-se em movimentos contra o regime ditatorial e torna-se comunista. Enfrenta a família e une-se a um grupo de garotos da esquerda. Com o passar dos anos, Peppino aprende a conviver com situações cotidianas nunca antes vividas, como o amor, a maturidade, a perda da família, o afastamento dos amigos e o trabalho.

O importante diretor italiano Giuseppe Tornatore, de “Cinema Paradiso” (1988), retorna ao cinema com bons resultados após ausência de quatro anos. Indicado ao Globo de Ouro em 2010, “Baarìa”, pra começar, é um filme autobiográfico, escrito pelo próprio cineasta. Ele registra rápidas passagens da vida de sua família, os Torrenuova, durante quatro décadas (desde o início do Fascismo, na década de 30, até os anos 80), totalizando três gerações – os avós, os pais e a dele.
Com extrema simplicidade, abre um verdadeiro diário íntimo sobre o cotidiano da família que morava na comuna pobre de Bagheria (ou Baarìa, derivado do árabe, que significa “porta do vento”), situada na província de Palermo, Sicília, sul da Itália. É o ‘Amarcord’ de Tornatore. Enquanto Fellini falava sobre a família inteira exibindo situações inusitadas, outras cômicas, Tornatore recorda a infância de forma estilizada, mais dramática do que engraçada – por exemplo, a truculência dos fascistas com os subversivos. Não dá para se apegar a personagens, pois o diretor optou por um desfile de gente que entra e sai de cena como vento.
Três recursos garantem a boa produção: a música estrombólica de Ennio Morricone, com descidas furiosas alternadas com tons intimistas, a direção de arte de época (rodado em set na Tunísia com mais de 30 mil figurantes) e a notável fotografia ensolarada (o amarelo como símbolo da região quente onde vivem e ao mesmo tempo um paralelo com a efervescência da guerra que estoura).
Uma pena ter obtido pouca repercussão entre o público brasileiro e, pior ainda, ter ficado de fora da lista dos finalistas ao Oscar de filme estrangeiro. Procure já e se prepare para assistir a um belo trabalho pessoal de um dos cineastas mais destacáveis de sua geração. Por Felipe Brida

Baarìa – A porta do vento
(Baarìa). Itália/ França, 2009, 154 min. Drama. Dirigido por Giuseppe Tornatore. Distribuição: Paris Filmes

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Resenha

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A garota da fábrica de caixas de fósforos

Iiris (Kati Outinen) é uma jovem finlandesa amargurada. Trabalha em uma fábrica de caixas de fósforos, mantém péssimo relacionamento com os pais e procura alguém para amar. A cada dia, a rotina parece não dar sinais de mudança até que ela, entediada, planeja um ato desmedido.

Desconhecido no Brasil, o filme de arte finlandês de 1990 foi descoberto pela Lume Filmes e lançado recentemente, em cópia exemplar. É um drama cru, sem concessão, amargo, para público bem restrito.
São alguns dias na vida monótona de uma menina sem perspectivas, rejeitada pelos homens, desprezada pelos pais que não tem diálogos com ela. O trabalho que exerce é fiscalizar a produção de fósforos em um galpão, sem ninguém por perto. Nada muda ao redor dessa personagem infeliz.
Assim todo drama existencial se materializa na pele dessa mulher frustrada com a vida social, com o emprego maçante, até que, após ser colocada de lado por um homem que conhecera, dá o troco a todos aqueles que a cercam. A guinada poderá chocar, por isso não revelarei detalhes.
O filme é de um silêncio profundo, proposital para mostrar a monotonia, com pouquíssimos diálogos. Tudo feito graças ao diretor Aki Kaurismaki, um artesão influenciado por Melville e Bresson. Aqui ele foge do humor habitual para contar uma história pesada com visão nada romântica sobre a região operária de Helsinque, que tanto criticou em seus filmes.
O início belamente fotografado em tons pastéis, na fábrica (mostra etapa por etapa a produção do fósforo) complementa-se com o assustador final, memorável, que alcança o ápice do amargor da vida da personagem central. Vencedor de dois prêmios especiais no Festival de Berlim em 1990. Filme de arte para público específico. Por Felipe Brida

A garota da fábrica de caixas de fósforos
(Tulitikkutehtaan tyttö). Finlândia/Suécia, 1990, 68 min. Drama. Dirigido por Aki Kaurismäki. Distribuição: Lume Filmes

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Resenha

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Descaminhos

Documentário brasileiro sobre ferrovias ativas que cortam 55 cidades em quatro estados. Ao longo de oito mil quilômetros de trilhos, histórias de vida são narradas por uma série de pessoas simples que recordam do passado e comentam a importância do trem para cada uma delas.

“Descaminhos” pode ser definido como um poema filmado, de teor nostálgico. Compõe o documentário seis episódios diferentes, curtinhos, sobre lugares esquecidos e cidadãos humildes, sempre com o trem permeando a rotina desse grupo de indivíduos.
Começa com uma poesia narrada pela atriz Berta Zemel, com paisagens, trilhos e mais paisagens repetindo-se lentamente; em seguida ouvimos depoimentos de maquinistas, construtores de ferrovias e usuários de trem, que moram em cidadezinhas por onde o cavalo de ferro ainda passa. Eles falam com saudosismo de um tempo morto, que não voltará, lembram o progresso que os trens trouxeram no início do século XX, tornando aqueles meros fatos em críticas sociais e políticas. Porém não deixam de contar histórias de encontros, desencontros, de nascimento e morte. As imagens construídas surgem por ângulos inusitados (do alto das locomotivas, de dentro dos vagões, por baixo dos assentos), sem muito compromisso.
Rodado por um grupo de oito jovens cineastas de Minas Gerais, o trabalho tem um quê de videoarte, bem triste. Durante 36 dias a equipe gravou “Descaminhos”, acompanhando as poucas ferrovias que ainda operam no país, em quatro estados – passam pela Serra da Mantiqueira, Serra do Mar, vilarejos em Minas, cidadelas baianas e ruínas no sul.
A abertura do documentário é dirigida pela cineasta Marília Rocha, a mesma de “Aboio”, “Acácio” e “A falta que me faz”, filmes que participaram de inúmeros festivais importantes de cinema.
“Descaminhos” esteve no festival “É tudo verdade” no Rio em 2007 e ganhou ainda prêmios em mostras independentes na Rússia, Espanha e Alemanha e no Festival de Havana.
Bastante curto, com certa aridez na forma, serve de estudo para interessados no assunto. Por Felipe Brida

Descaminhos
(Idem). Brasil, 2007, 75 min. Documentário. Dirigido por oito jovens cineastas. Distribuição: Lume Filmes

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Cine Lançamento

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As mães de Chico Xavier

Três mães enfrentam um período difícil em suas vidas. A artista plástica Ruth (Via Negromonte) questiona seus atos quando interna o filho adolescente em uma clínica de reabilitação para usuários de droga. Enquanto isso a professora Lara (Tainá Muller), grávida, é abandonada pelo namorado. E a jovem Elisa (Vanessa Gerbelli) entra em profunda depressão quando perde o filho pequeno, morto em uma queda. Todas, desconsoladas, procuram conforto nas palavras do médium Chico Xavier (Nelson Xavier).

Na onda de filmes sobre Espiritismo, que vem ganhando força no Brasil devido à grande parcela de espíritas, surge mais essa fita, um projeto fraco dos mesmos criadores de “Bezerra de Menezes – Diário de um Espírito”, a dupla de cineastas cearenses Glauber Filho (sem parentesco com Glauber Rocha) e Halder Gomes. Junto com o precário “Bezerra”, “As mães” é deficiente, cansativo, com excesso de personagens e histórias confusas, mal resolvidas.
No filme, três histórias familiares trágicas se desenrolam sucessivamente, sem amarração. Em todas há a figura cativante do médium e líder espírita Chico Xavier por trás, papel em que Nelson Xavier repete a dose como fez no ótimo “Chico Xavier” – aqui aparece com menos freqüência, mas sempre com simpatia e perfeita composição. Ele transcreve cartas para o consolo dos familiares que perderam um ente e também expõe ensinamentos espíritas para dar apoio ao baixo astral que as três mulheres do filme apresentam. Mas o foco não é nele e sim nas tais mães.
O problema disso tudo é a falta de vigor na direção, que perde a linha misturando as tramas, deixando de mostrar com clareza os acontecimentos (a do filho adicto, por exemplo, só é esclarecido no desfecho), sem contar o roteiro piegas, melodramático. Diferente de “Chico Xavier” e “Nosso lar”, não tem elementos fortes para emocionar ou mesmo prender a atenção.
Em todo caso houve recepção calorosa do público nos cinemas, mas não espere grandes novidades.
Traz participação de Herson Capri e Caio Blat. Encerra, conforme nota nos créditos, as comemorações pelo centenário de vida do médium – no término inseriram a bonita canção “O sal da terra”, de Beto Guedes, aliás a trilha sonora é de outro integrante do Clube da Esquina, Flávio Venturini. Por Felipe Brida

As mães de Chico Xavier
(Idem). Brasil, 2010, 109 min. Drama. Dirigido por Glauber Filho/ Halder Gomes. Distribuição: Paris Filmes

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Especiais sobre cinema

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Os desaparecidos na sangrenta Ditadura Argentina

Por Felipe Brida*

Premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1986, o drama “A história oficial” recria a amarga realidade da Argentina nos anos seguintes à Ditadura Militar, que assolou o país entre 1966 e 1973.
A história se passa em 1983, exatamente dez anos depois do término do governo autoritário, e acompanha o dia-a-dia da professora universitária de História Alicia Marnet de Ibáñez (Norma Aleandro). Ela vive em Buenos Aires, casada com um notório, mas durão advogado, Roberto (Héctor Alterio). Ambos têm uma garotinha adotiva de cinco anos. Certo dia, Alicia passa a suspeitar de que a menina seja filha de uma desaparecida política.
Narrado com lirismo típico do cinema argentino, o filme toca em uma ferida dolorosa frente a esse quadro trágico – o de uma mulher intelectual em busca da mãe biológica de sua filha pequena. A cada amanhecer, luta para descobrir a identidade daquela desconhecida, o que reflete a dor, o choro, o desespero de diversas mães cujos filhos sumiram sem deixar pistas durante a Ditadura Militar na Argentina, a mais sanguinária da América Latina.
Criou-se, nesse período, a figura do “desaparecido”, indivíduo que, pelos ideais subversivos, era levado para bem longe da sociedade, possivelmente assassinado em seguida. A versão oficial dada pelo governo era a mesma para todos: o cidadão sumira sem razão aparente. Desesperadas por uma solução imediata, o país mobilizou-se quando mães saíram às ruas gritando um dos hinos: “Con vida los llevaron. Con vida los queremos” (“Com vida os levaram. Com vida os queremos”), cena que pode ser vista aqui.
Corajoso ao retratar o tema, “A história oficial”, em vez de recorrer a cenas de tortura e discussões políticas, expõe-se como uma fita sensível, trazendo na personagem da professora Alicia o lado terno do ser humano, de moral indiscutível, que procura a verdade, mesmo que esta possa desconcertar por completo a vida de sua família inteira.
É um dos bons filmes sobre a Ditadura na Argentina, junto com “Desaparecido – Um grande mistério” (1982) e do também argentino “Kamchatka” (2002).

Breve panorama da Ditadura

O Regime Militar na Argentina iniciou-se em 28 de junho de 1966 com um golpe de Estado promovido por militares que destituíram o presidente Arturo Illia, que exercia o cargo legalmente. A partir desse ato, assumiram o governo do país, num comando opressor que se estendeu até 1973. Assim como no Brasil, a nova postura política era semelhante. Mas em apenas sete anos de existência da Ditadura na Argentina os casos de desaparecidos políticos e mortos mediante tortura atingiam números infinitamente maiores que nos países vizinhos onde a militarismo se apresentava por excelência.
Cientistas sociais e historiadores nunca se contradizem: na Argentina houve o regime autoritário mais cruel e truculento da América Latina do século XX.
O contexto da Guerra Fria permitia aos militares defensores da extrema direita comandar o país com o discurso de combater o Comunismo, cortando o mal na fonte, ou seja, eliminando idealistas subversivos (professores, escritores etc), já que estes ‘contaminavam’ a sociedade com pensamentos marxistas.
Ao longo da Ditadura na Argentina três generais ocuparam o poder: Juan Carlos Onganía (1966-1970), Roberto Marcelo Levingston (1970-1971) e Alejandro Agustín Lanusse (1971-1973 – o mais temido), além de uma Junta das Forças Armadas.
A Argentina da época registrou manchas sangrentas em sua História. Estima-se que 30 mil argentinos foram seqüestrados, surgindo a figura do “desaparecido”. Outros 2,5 milhões fugiram do país. Oficialmente os militares alegaram que mataram oito mil civis.
Em 1973, após o impedimento do líder populista Juan Perón de concorrer às eleições, o povo elegeu nas urnas Hector José Cámpora, e assim a Argentina iniciava nova realidade político-social. Mesmo depois do fim da Ditadura, poucos presidentes concluíram o mandato por causa da forte instabilidade econômica e social, problema que a Argentina enfrenta na atualidade.

Título original: La historia oficial
País/ Ano: Argentina/ 1985
Direção: Luis Puenzo
Gênero: Drama
Duração: 113 min.
Distribuidora: Europa Filmes

* Publicado na coluna "Cine na Intra", no site do Senac São Paulo (http://www.sp.senac.br/), em 30 de julho de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Resenha

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Infância roubada

Seis dias na vida de David (Presley Chweneyagae), apelidado de ‘Tsotsi’, líder de uma violenta gangue de Johanesburgo, na África do Sul. Tudo começa com uma briga no bar, que desencadeia o roubo de um veículo. David atira na motorista e foge, sozinho. Mas um bebê no banco de trás do carro mudará para sempre a rotina daquele jovem delinquente.

Vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2006, essa co-produção África do Sul e Inglaterra projetou o diretor Gavin Hood, que mais tarde dirigiria “X-Men Origens: Wolverine”. Na época do lançamento, foi apontado como o ‘Cidade de Deus’ africano. Isto porque a história lembra vagamente o filme brasileiro, as favelas de lá e as daqui se assemelham, assim como o estilo dos jovens marginais. Mas não vamos exagerar... o projeto de Hood, pessoal, bonito, com roteiro marcante, não chega perto do nosso, que tem mais profundidade psicológica, narrado com excepcional virtuosismo, além dos momentos nervosos e assustadores, aliás, o plot é outro.
“Infância roubada” existia no papel como projeto antigo do cineasta, baseado no romance do africano Athol Fugard, com apenas a adaptação de épocas – o livro se passa nos anos 70 e agora transpuseram para a atualidade. Retrata breves dias na vida de um jovem sem perspectivas, apelidado de ‘Tsotsi’ (título do filme, que, na língua dos africanos, significa ‘ladrão de rua’). Envolve-se em confusões até roubar um carro, a mão armada – e ferir a motorista. Na fuga, depara-se com uma criança de colo no banco do veículo; a redenção do personagem reside aí: ele não abandona o bebê e passa a cuidar dele, escondido, fugindo da polícia e dos familiares da criança (que são de classe média).
É um pequeno painel sobre a violência na África do Sul, com uma história aonde o vilão desgarrado vai se tornando o herói. Serve também como um estudo sobre a delinqüência na juventude. Procure conhecer.
Saiu em DVD duplo pela Europa Filmes, com making of e o bom curta-metragem “The storekeeper” (1998), primeiro trabalho de Gavin Hood. Por Felipe Brida

Infância roubada
(Tsotsi). África do Sul/ Inglaterra, 2005, 94 min. Drama. Dirigido por Gavin Hood. Distribuição: Europa Filmes