sexta-feira, 28 de junho de 2019

Resenha Especial


Um limite entre nós

Pittsburgh, década de 50. Troy Maxson (Denzel Washington), um homem difícil e amargurado, luta com toda sua força para sustentar a família num bairro de periferia. Beberrão, mora com a esposa, a compreensiva Rose (Viola Davis), ajuda a cuidar de um irmão doente, até que uma notícia abalará para sempre a relação do casal.

Um drama amargo e lírico feito em estilo teatral sobre a dura realidade dos negros nos Estados Unidos na década de 50, o filme é uma adaptação fiel da peça “Fences”, de August Wilson, publicada em 1983. Integrou uma série de dez obras de teatro do referido autor chamada de “Pittsburgh Cycle”, que rendeu a ele o Pulitzer e o Tony Award em 1987, quando da primeira encenação na Broadway - em todas as peças Wilson analisa criteriosamente a relação dos negros na sociedade americana, antes e depois da Segunda Guerra, de forma realista e vívida. Em 2010, ou seja, duas décadas depois da primeira encenação, Denzel Washington e Viola Davis subiram aos palcos para uma nova temporada de “Fences” na Broadway; a dupla ganhou o Tony, e Washington comprou os direitos para transformá-la em filme. Rapidamente assumiu a direção do projeto, lançando o longa em 2016, que recebeu quatro indicações ao Oscar – melhor filme, roteiro (póstumo, para August Wilson, que havia deixado o texto para cinema escrito), ator para Denzel e atriz coadjuvante para Viola (que finalmente ganhou pelo papel de Rose, recebendo também os principais prêmios da temporada, como Globo de Ouro, Bafta e SAG). Ambos os atores arrebentam com atuações memoráveis e emocionantes, as mais importantes de suas carreiras.


Denzel Washington dirige pela terceira vez um filme (antes vieram “Voltando a viver” e “O grande debate”), aqui se apropriando dos elementos centrais da peça original, como personagens, cenários, época e diálogos, onde manteve o estilo de teatro. São poucos ambientes, muita discussão inserida em diálogos primorosos, impactantes, para traçar a história de quatro gerações de uma família de negros operários, os Maxson, suas dificuldades, os comportamentos e suas emoções. Eles descendem de africanos marginalizados na periferia, espremidos na cidade grande, sem oportunidades. Troy é o patriarca, um cidadão simples, desiludido, hoje trabalha como coletor de lixo. Bebe para sufocar as angústias, não tem relação amigável com os filhos. Em certos momentos age com agressividade, descontando raiva e frustração nos moradores da casa. No passado tentou carreira como jogador de beisebol, mas não seguiu o caminho, pois alegava que eram poucos os negros que conseguiam espaço no esporte. Dentro da simplória residência dos Maxson, um microcosmo da sociedade americana da época, Troy convive com outros personagens, como a esposa solidária, uma mulher de fibra, Rose, a única que o suporta, além do velho amigo íntimo Bono, que o visita para discutir sobre a vida, o irmão Gabe, que teve graves ferimentos na Segunda Guerra e hoje vive desorientado, e os filhos - um é músico, e outro, mais novo, ele não aceita, por ser promissor no beisebol (Troy não suporta ver o filho melhor que ele no esporte). Quando os ânimos parecem melhorar na casa, um fato obscuro será revelado, gerando uma explosão de sentimentos no seio da família.
O cenário principal é o quintal da frente da residência da família Maxson, num bairro periférico de uma cidade grande, com uma cerca sempre presente – o título original é “Fences” (“Cercas”), e uma frase simbólica do livro permeia a história: “Você pode construir uma cerca para afastar ou unir uma família”.
Denzel e Viola estão brilhantes, como falei, um brinde de interpretações fortes num drama visceral e íntimo.
Além do filme, recomendo também a leitura da peça – eu a li numa boa tradução pela Única Editora, lançada em 2016.

Um limite entre nós (Fences). EUA/Canadá, 2016, 139 min. Drama. Colorido. Dirigido por Denzel Washington. Distribuição: Paramount Pictures

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Nota do Blogueiro


Filmes em DVD imperdíveis da Obras-Primas do Cinema, lançados em maio com exclusividade no Brasil (e todos inéditos até agora). Tem o drama de ação "Sexy e marginal" (1972), o segundo trabalho dirigido por Martin Scorsese, com Barbara Hershey, além de dois boxes - "Sessão anos 80 - volume 6", contendo quatro filmes que marcaram a geração oitentista, que são "A fortaleza" (1985), "Uma escola muito louca" (1986), "Curso de verão" (1987) e "O rei da paquera" (1987); e "Essencial Agnès Varda", outro box da OPC com a parte da filmografia da falecida diretora e mentora da Nouvelle Vague Agnès Varda - nesta caixa tem três longas, "Kung-Fu Master!" (1988), "Jane B. por Agnès V." (1988) e "Jacquot de Nantes" (1991), e 13 curtas-metragens dela. Todos os títulos vem com cards especiais e muitos extras nos DVDs, Obrigado, pessoal da OPC, pelo envio desses grandes filmes.





quarta-feira, 26 de junho de 2019

Nota do Blogueiro


Lançamentos especiais da Obras-Primas do Cinema deste mês. Um box mais louvável que outro! O primeiro deles é "Coleção Amicus Productions", digistack com três DVDs reunindo seis filmes de terror inglês da lendária produtora que competia com a Hammer na época; tem "Horror Hotel" (1960), "As bonecas da morte" (1966), "Contos do além" (1972), "A cripta dos sonhos" (1973), "Os gritos que aterrorizam" (1973) e "Madhouse" (1974). O segundo box é "Nagisa Oshima", com três fitas cult do cineasta japonês divididos em dois DVDs; há aqui "Juventude desenfreada" (1960), "O enforcamento" (1968) e "Tabu" (1999). O terceiro box, "Bette Davis", traz quatro clássicos do início de carreira de uma das maiores divas do cinema americano, ganhadora de dois Oscars, Bette Davis - "Mulher marcada" (1937), "Cinzas do passado" (1937),  Eu soube amar" (1939) e "Uma velha amizade" (1943). E por último um filme raríssimo europeu, co-produção Suécia e Dinamarca, o documentário com ficção "Haxan - A feitiçaria através dos tempos" (1922). Todos os DVDs são acompanhados de cards colecionáveis e também, nos discos, muitos extras. Obrigado, equipe da OPC, pelo envio dos títulos.







segunda-feira, 24 de junho de 2019

Resenha Especial



Assassino profissional

Gon (Dong-Gun Jang) foi criado por mafiosos para se tornar um assassino profissional. Ele é contratado para a difícil missão de matar a mãe de uma garota que pouco antes ele assassinou por engano. O alvo, Mo-kyeong (Min-hee Kim), é a esperta gestora de uma empresa envolvida numa grande teia de conspiração.

A Coreia do Sul marca território, desde o início dos anos 2000, no cinema de ação, com suas fitas eletrizantes e poderosas que dão espaço para novos cineastas de lá, além de influenciar tantos outros pelo mundo afora. “Mr. Vingança” (2002), “Oldboy” (2003), “A vilã” (2017) e este “Assassino profissional” (2014) são exemplos nítidos desse tipo de produção cinematográfica. Boa parte deles chegam ao Brasil, via DVD ou streaming, Netflix etc
O filme em questão é ardiloso, concebido sob um roteiro complexo, imbricado de tramas paralelas com cenas de ação eficientes e violência gráfica própria dos coreanos. Tem tiroteios sem parar, pancadaria, sangue espirrando, mas também tem um lado mais emotivo quando explica as origens do protagonista, o matador furioso e seu passado de abandono. Aproveite cada segundo, pois o resultado é joia!


Do roteirista e diretor Jeong-beom Lee, de “O homem de lugar nenhum” (2010), “Assassino profissional” traz a atriz mais famosa hoje do país, Min-hee Kim, de “A criada” (2016), “Na praia à noite sozinha” (2017) e “A câmera de Claire” (2017), num papel secundário de destaque para a história.

Assassino profissional (U-neun nam-ja). Coreia do Sul, 2014, 116 minutos. Ação. Colorido. Dirigido por Jeong-beom Lee. Distribuição: Flashstar



Operação Overlord

Na Segunda Guerra Mundial, às vésperas do Dia D, paraquedistas norte-americanos são alvo de um ataque aéreo, e o avião deles cai em um vilarejo. Os sobreviventes descobrem que na região sádicos nazistas comandam estranhos experimentos com humanos.

O teaser que começou a circular na rede na metade do ano passado já supunha um filme de zumbis na Segunda Guerra, chamando a atenção a assinatura de J. J. Abrams como produtor (parceiro de Steven Spielberg, ele realizou fitas de ficção científica fantásticas, como “Star Trek”, “Super 8” e “Star Wars: O despertar da força”). Ou seja, com Abrams à frente do projeto poderíamos esperar um filmão, com um enfoque diferenciado. E não é que deu super certo? O filme é ação sem parar com terror, violência, sangue e criaturas monstruosas, uma coprodução Estados Unidos e Canadá que infelizmente não rendeu bilheteria suficiente (teve o mesmo custo do filme, U$ 40 milhões). Eu assisti numa sessão empolgante e lotada na 42ª Mostra Internacional de Cinema de SP, em outubro de 2018, e revi ontem em DVD, recém-lançado pela Paramount Pictures.
A abertura, com créditos retrô, num design envelhecido, é um legítimo filme de guerra, que prende de imediato a atenção do público: vemos soldados paraquedistas do lado dos Aliados afoitos em um avião, às vésperas do notório Dia D, em 1944. A missão do grupo é destruir uma base dos nazistas na Normandia (França), que é a tal Operação Overlord (que realmente existiu). São atacados no ar, o avião cai e alguns sobrevivem numa floresta. Uma moradora dos arredores os leva para um vilarejo onde detectam terríveis experimentos dos nazistas em um laboratório envolvendo criaturas superpoderosas meio zumbis, criadas para matar em nome do Terceiro Reich. Do filme de guerra parte para uma fita de monstros bizarros, sangue pra todo lado, perseguições etc


Não tem atores conhecidos, há bons efeitos visuais de explosões, maquiagem medonha dos zumbis, é uma boa surpresa que dá uma injeção de adrenalina na mente do telespectador. Lembra, pelo tema, uma fita de mortos-vivos na guerra que vi há muito tempo, a norueguesa “Zumbis na neve” (2009), que teve continuação inclusive melhor que a original.
Quem dirige é Julius Avery, da impactante fita de ação “Sangue jovem” (2014), com roteiro do indicado ao Oscar Bill Ray (por “Capitão Phillips”, e é dele também “Jogos vorazes”) e de Mark L. Smith (de “O regresso”). Vá por mim e experimente!

Operação Overlord (Overlord). EUA/Canadá, 2018, 109 minutos. Ação/Terror. Colorido. Dirigido por Julius Avery. Distribuição: Paramount Pictures

domingo, 23 de junho de 2019

Resenha Especial



 Dias e noites

A atriz Elizabeth (Allison Janney), acompanhada do namorado, Peter (Christian Camargo), visita os pais numa casa do lago localizada na zona rural da Nova Inglaterra. Outros membros da família chegam, culminando em dias e noites de eternas discussões e brigas, em que cada um abrirá velhas feridas.

Escrito e dirigido pelo ator Christian Camargo, que também integra o time de astros dessa modesta fita de drama, “Dias e noites” é um projeto bem pessoal do cineasta. O roteiro foi inspirado na peça de teatro “A gaivota”, do dramaturgo russo Anton Tchekov, de 1896, na época pensada como comédia, mas concebida como drama com ares de tragédia. Ele manteve o clima no filme, transpondo a história da Rússia para os Estados Unidos, quase um século depois, para falar de um encontro de família aparentemente normal que termina em discussões e até em fatalidade. Lento, carrega forte estilo teatral (poucos cenários, poucos atores e cheio de diálogos), onde se discute uma sociedade vulnerável, rodeada de pessoas frustradas, em busca de aceitação e reconciliação, já que erros do passado deixaram cada um deles ferido.
O filme foi gravado em 2012, lançado dois anos depois nos Estados Unidos – passou em apenas oito países do mundo, a maioria em festivais de cinema independente, e saiu em DVD no Brasil em 2018, pela Focus Filmes.
O elenco é um espetáculo à parte; tem muita gente conhecida, de várias nacionalidades, como o falecido ator sueco Michael Nyqvist, os ingleses Ben Whishaw e Mark Rylance (vencedor do Oscar de coadjuvante por “Ponte dos espiões), o marroquino Jean Reno (celebrado no cinema francês de ação) e os norte-americanos ganhadores do Oscar William Hurt e Allison Janney, além de Katie Holmes.


Pode-se dizer também que é um filme entre família: o diretor Christian Camargo é casado com uma das atrizes, Juliet Rylance, que por sua vez é enteada do ator Mark Rylance.
Deixo como dica essa interessantíssima fita independente, voltada a um público apropriado, que poderia ter tido melhor representatividade no restrito circuito de arte.

Dias e noites (Days and nights). EUA, 2014, 92 min. Drama. Colorido. Dirigido por Christian Camargo. Distribuição: Focus Filmes

sábado, 22 de junho de 2019

Resenha Especial



A festa

Para comemorar a promoção de um novo cargo político, Janet (Kristin Scott Thomas) reúne amigos em seu apartamento em Londres. O dia aparentemente festivo vira de cabeça para baixo, com discussões acirradas, brigas, revelações terríveis e extrema polarização de ideias entre os convidados.

Com uma legítima estrutura de teatro, este drama indicado ao Urso de Ouro em Berlim em 2017 traz um elenco de nomes aclamados do cinema, dois deles já indicados ao Oscar. É uma fita cult para público restrito, que se desenrola em apenas um dia na vida de sete personagens, dentro de um apartamento fechado.
Na abertura a anfitriã da festa, Janet (Kristin Scott Thomas), aponta uma arma para receber alguém na porta de seu apartamento. Não sabemos onde isto vai dar... Ela é a líder política da oposição na Grã-Bretanha, que convida amigos para celebrar um cargo que acabou de receber para o Ministério da Saúde. É casada com o acadêmico Bill (Timothy Spall), um homem calado, aparentemente doente. Chegam lá o casal de lésbicas Jinny (Emily Mortimer) e Martha (Cherry Jones), a melhor amiga de Janet, a cínica April (Patricia Clarkson), e o marido alemão Gottfried (Bruno Ganz), adepto da meditação e da medicina alternativa. E Tom (Cillian Murphy), um almofadinha neurótico, viciado em drogas. A tranquilidade cai por terra quando Bill abre a boca para uma notícia estarrecedora. A fala abala a relação de todos os presentes, dando início a um turbilhão de sentimentos e discussões calorosas. Na mesa são colocados segredos obscuros, há bate-boca, choro, guerra de opiniões, cada um defendendo a sua verdade de maneira efusiva ao ponto de cometerem atos violentos. O que era para ser festa vira uma tragédia humana.
Difícil classificar o filme apenas como drama, pois tem humor negro e momentos de uma comédia atípica que provoca risos nervosos. Chamam a atenção a fotografia preto-e-branco puxado para a sépia, a duração curtíssima, de apenas 71 minutos, e o timing preciso entre os vigorosos atores. Traz clara analogia ao momento político atual do Reino Unido; os personagens se dividem com suas opiniões polarizadas, simbolizando a divisão política na Inglaterra (como se fosse direita versus esquerda), desde a crise do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, planejado por partidos políticos há quarenta anos (repare no título do filme em inglês, “The party”, que significa tanto “Festa” quanto “Partido”).


A diretora e roteirista inglesa Sally Potter (de “Orlando, a mulher imortal", “Porque choram os homens” e “Ginger e Rosa”) fez um filme inteligente, com uma mise-en-scène maravilhosa do elenco em harmonia com o espaço - é notável o esforço fora do comum dos atores em situações verossímeis e ao mesmo tempo burlescas, como se estivessem no palco da vida. Lembrei na hora de “Deus da Carnificina” (2011), de Roman Polanski, com pitadas de Woody Allen. Saiu há pouco tempo em DVD pela Focus Filmes, do grupo A2 Filmes.

A festa (The party). Reino Unido, 2017, 71 minutos. Drama. Preto-e-branco. Dirigido por Sally Potter. Distribuição: Focus Filmes

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Cine Lançamento



Resenhas dedicadas ao jornalista, crítico de cinema e amigo Rubens Ewald Filho, falecido anteontem aos 74 anos.

Um homem comum

Um general acusado por crimes de guerra (Ben Kingsley) é procurado pelos quatro cantos do mundo. Ninguém sabe de seu paradeiro. Hoje, com setenta anos, vive numa cidade distante, com outra identidade. Sua rotina muda quando desenvolve uma estranha relação com a nova camareira, Tanja (Hera Hilmar), 40 anos mais jovem que ele. Até que a garota fica sabendo, pelas páginas de um periódico, sobre uma grande recompensa pela cabeça do general.

Modesto drama de ação com um Ben Kingsley em plena forma, ele que é o eterno Gandhi do cinema, em uma trama chamativa, que se passa na antiga Iugoslávia, exatamente no fim do Comunismo, quando rivalidades étnicas e religiosas dividiram o povo. Explodiram, na época, crimes contra a humanidade (torturas, estupros e assassinatos em massa), muitos cometidos por generais, que fugiam para outros lugares do mundo para não serem julgados. Um deles é o protagonista do filme (que não tem nome, apenas se referem a ele como ‘general’), que vive há muito tempo com nova identidade e fisionomia. Ele é o tal do “homem comum”, um anti-herói de alto calibre, que no passado assassinou gente inocente, agora tenta esquecer esse período sombrio fugindo dos atos cometidos. Sua aparência é de um cidadão do bem, com cara de vovô cuidadoso e gosta de cozinhar. Ao mesmo tempo é sarcástico, chega a ser desagradável, e tem plena consciência de que é procurado vivo ou morto – por isso redobra os olhares na porta com receio de ser preso ou assassinado a qualquer instante. Um dia chega até sua casa uma camareira jovem, atenciosa (a atriz Hera Hilmar, de “Máquinas mortais”), disposta a ajudá-lo nos afazeres diários. Mesmo duro com a garota, abre-se para uma aproximação, enquanto ela, que também tem um segredo escondido, descobre que o general é um foragido, com uma grande recompensa por trás, o que altera a relação entre os dois - e um desfecho que indica tragédia à vista.
Prometia ser uma fita de ação, no entanto parte para um profundo drama sobre quem realmente somos, como o passado nos assombra, além de pincelar um pouco sobre a amarga História da ex-Iugoslávia, na época da desintegração (1991 a 2001), que culminou numa triste guerra civil com limpeza étnica nos Balcãs, gerando uma onda de violência tamanha e que marcou um triste capítulo na Europa. Não é uma aula sobre o episódio, fica num nível da menção nos créditos e no clima de perturbação dos personagens – e mesmo assim permite relembrarmos estes horríveis acontecimentos dos anos 90, hoje esquecidos.
Gravado em Belgrado, capital da Sérvia (um dos seis países desmembrados da antiga Iugoslávia), reúne um elenco de atores sérvios e uma participação do filho de Ben, Edmund Kingsley. Escrito e dirigido por Brad Silberling, de “Cidade dos anjos” (1998) e “Desventuras em série” (2004), que realizou “Um homem comum” com baixo orçamento - teve pouca divulgação e ficou míseros dias em cartaz no Brasil saindo recentemente em DVD pela Focus Filmes. Curiosidade: em 2013 saiu uma fitinha fraca de ação com Ben Kingsley com o mesmo título, “Um homem comum”, por isto não confunda - este de 2017 é muito melhor.

Um homem comum (An ordinary man). EUA/Sérvia, 2017, 90 min. Drama/Ação. Colorido. Dirigido por Brad Silberling. Distribuição: Focus Filmes


Letras da morte

O detetive Will Ruiney (Karl Urban) convida um investigador aposentado chamado Ray Archer (Al Pacino) para ajudá-lo na caçada de um assassino em série que vem espalhando o terror em uma cidade. O modus operandi do criminoso é o antigo jogo da forca, em que suspende a vítima com uma corda no pescoço e inscreve em seu corpo uma letra do alfabeto para formar no futuro uma misteriosa palavra.

Suspense lado B cujo atrativo é a participação de Al Pacino como um detetive que sai da aposentadoria para caçar um terrível serial killer. Quando gravou o filme, Pacino estava com 77 anos, com disposição para correr, lutar, repetindo-se num papel já visto centenas de vezes, do investigador linha dura (muito parecido com o de “Fogo contra fogo”). É ajudado em cena por dois talentos, os outros dois detetives, Karl Urban (neozelandês das franquias de cinema “O senhor dos anéis” e “Star Trek”) e Brittany Snow (da trilogia “A escolha perfeita”), todos inseridos numa trama complexa de investigação, com mortes violentas, e a velha fórmula, ainda muito estimulante para fitas como essa, “quem é o assassino”.
Envolve e tem duração rápida (98 minutos). É um passatempo de suspense com cara dos anos 90, como aquelas exibidas no antigo Supercine. Não deseje nada além disto...
Em 2001 houve um telefilme com trama idêntica e, pasmem, mesmo título original, “Hangman” (aqui lançado como “O jogo da forca”, com Lou Diamond Phillips, bem inferior a este). Opte por esta produção de 2017, dirigida por Johnny Martin, que trabalhou como ator e teve uma sólida carreira como dublê de centenas de fitas de ação da década de 90.
“Letras da morte” saiu em DVD discretamente há pouco meses pela distribuidora Flashstar, do grupo A2 Filmes.

Letras da morte (Hangman). EUA, 2017, 98 min. Ação/Suspense. Colorido. Dirigido por Johnny Martin. Distribuição: Flashstar

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Nota do Blogueiro


Triste demais saber do falecimento do mestre e amigo Rubens Ewald Filho, que influenciou gerações como a minha na crítica de cinema... caramba! :/
Ele tinha 74 anos e estava internado desde o dia 26 de maio depois de sofrer uma queda em uma escada. Tive o prazer de viajar com ele para diversos festivais de cinema pelo Brasil (abaixo nosso encontro no Festival de Anápolis, em 2013, e outra no Festival de Goiânia, em 2012).
Pensando aqui, quantas vezes folheei seus dicionários de filmes, o dicionário de diretores, livros importantes para minha formação, além de acompanhar seus comentários sobre o Oscar... um profissional nota 1000, de um coração generoso que era só dele... Descanse em paz, REF.



quarta-feira, 19 de junho de 2019

Resenha Especial



Olhos de gato

Um misterioso gato malhado é o elo que une três histórias de terror do universo de Stephen King.

Na década de 80 o escritor de livros de terror Stephen King virou fenômeno entre os leitores do mundo inteiro. Nessa época grande parte de suas obras receberam adaptação para o cinema, fidelizadas com roteiro do próprio King, como neste bom e menos conhecido “Olhos de gato”, de 1985. O filme reúne três historietas de terror, mistério, suspense, humor negro e a última, em especial, com criaturas bizarras, feitas para consumo rápido e voltadas para os fãs do autor.
Na primeira história, um fumante (James Woods) entra num grupo de ajuda para deixar o tabagismo, porém a terapia é radical, envolvendo tortura e ameaças. A segunda fala de um tenista (Robert Hays) sequestrado por um mafioso desequilibrado (Kenneth McMillan) que o faz caminhar pelo parapeito de um edifício como forma de puni-lo por ter transado com a sua esposa. E na última delas, uma garotinha (Drew Barrymore) é atacada todas as noites por um monstro que sai da parede de seu quarto.


Um pouco irregular pela diferença de tom e gênero entre as histórias, a fita reuniu uma equipe técnica de alta qualidade, com nomes conhecidos do cinema da época: produção de Dino de Laurentiis, fotografia de Jack Cardiff, trilha de Alan Silvestri e maquiagem e criaturas do mago dos efeitos Carlo Rambaldi (de “ET” e “Alien). Fora as referências bacanas do universo de Stephen King – na abertura, por exemplo, há menção aos cultuados “Cujo” e “Christine – O carro assassino”. Outro ponto-chave é a participação de Drew Barrymore, ainda criança, em início de carreira, em papéis diferentes nas três histórias, todas dirigidas por Lewis Teague, de filmes de terror como “Cujo” (1983) e “Alligator – O jacaré assassino” (1980) e de “A joia do Nilo” (1985).
A título de conhecimento, as historietas foram extraídas do primeiro livro de contos do escritor, o famoso “Sombras da noite” (1978) – do livro saíram contos que também inspiraram “Colheita maldita”, “Voo noturno” e “Às vezes eles voltam”.
Saiu pela primeira vez em DVD em 2004 pela Universal e acabou de ser relançado pela Classicline. Fãs de terror devem experimentar.

Olhos de gato (Cat's eye). EUA/Holanda, 1985, 90 min. Terror. Colorido. Dirigido por Lewis Teague. Distribuição: Classicline

terça-feira, 18 de junho de 2019

Cine Lançamento



A caminho de casa

Na cidade de Denver uma lei proíbe famílias de criar cães da raça Pitbull. Isto faz com que o jovem médico Lucas (Jonah Hauer-King) e sua mãe Terri (Ashley Judd) entreguem a cachorrinha deles, de nome Bella, para outras pessoas adotarem. Ela então é levada para uma cidade a 640 quilômetros, sem contato nenhum com a antiga família. Bella não se adapta, foge e inicia um longo percurso de volta para casa.

A jornada de uma cachorrinha que anda milhas e milhas em busca de seus donos é narrada com afeto e simpatia nesse drama feito para emocionar todos os públicos. Prepare os lenços e embarque numa aventura repleta de coragem e entusiasmo!
O roteiro de “A caminho de casa” foi escrito pelo próprio autor do livro original homônimo, W. Bruce Davison, juntamente com a esposa, Cathryn Michon – Davison gosta muito de animais, é dele outros dois best sellers com cães que viraram filmes, “Quatro vidas de um cachorro” (2017) e a continuação, “Juntos para sempre” (2019), em exibição nos cinemas.
A história da cachorrinha Bella lembra as clássicas peripécias de Lassie, que impulsionaram inúmeras imitações nas décadas passadas, e agora o tema volta com tudo inundando Hollywood.
Aqui conhecemos um jovem médico (Jonah Hauer-King) que recolhe uma cadelinha numa casa abandonada, levando-a para casa. Ela foi criada por gatos, e agora servirá de companhia para a mãe dele, que tem depressão (a sumida Ashley Judd). Bella cresce, caseira, até que um vizinho liga para a vigilância sanitária para uma denúncia, pois na cidade de Denver há uma lei que proíbe domesticação de pitbulls; apesar de ela não ser da raça, acaba malvista (na verdade a cadelinha tem vaga semelhança com um pitbull, mas a própria lei diz que cães parecidos podem ser recolhidos pela “carrocinha”). Bella é pega pelos fiscais; para não sacrificarem o animal, a família permite a sua adoção em outro estado americano, 640 quilômetros longe. Ela não se acostuma lá e foge em busca dos verdadeiros donos. No caminho enfrentará perigos e aventuras, como frio, fome, faz amizade com um puma, é perseguida por lobos, atropelada etc – mas nunca perde o objetivo de estar de volta ao lar.


Mistura de drama com aventura, o filme tem bonitas paisagens de gelo, montanha, campos (foi rodado na Columbia Britânica, no Canadá), nos enche de lágrimas ao mostrar a trajetória de amadurecimento de Bella para voltar para casa - quem dubla os pensamentos da cadelinha é Bryce Dallas Howard, filha do diretor Ron Howard. E outro tema tratado com ternura é a fidelidade dos cães e os fortes laços que eles têm com os humanos, além de discorrer sobre os maus tratos a animais e preconceito (na questão da lei que sacrifica pitbulls).
Uma fita irresistível para o público que gosta de pets!
A direção é de outro apaixonado por animais, o ator Charles Martin Smith, de “Os intocáveis” (1987) e “Loucuras de verão” (1973), que dirigiu “Bud: o cão amigo” (1997) e as duas partes de “Winter, o golfinho” (2011 e 2014).
Chegou esta semana em DVD pela Sony Pictures, num disco repleto de extras (cenas deletadas, making of e especiais).

A caminho de casa (A dog’s way home). EUA/China, 2019, 96 min. Aventura/Drama. Colorido. Dirigido por Charles Martin Smith. Distribuição: Sony Pictures

domingo, 16 de junho de 2019

Cine Lançamento



A morte te dá parabéns 2

A sarcástica estudante Tree Gelbman (Jessica Rothe) escapou da morte após enfrentar um looping eterno, em que revivia o dia do aniversário, e na data festiva era assassinada por um bandido mascarado. Dois anos se passaram, e agora ela e seus amigos universitários terão de fugir novamente do psicopata com máscara de bebê, caindo nas garras de um novo looping.

Sequência curiosa e divertida do terrir “A morte te dá parabéns”, um pequeno sucesso nos cinemas em 2017, de novo produzido pela Blumhouse, os mesmos estúdios de uma safra positiva de fitas de horror, como “Corra!” e “Fragmentado”. Esta vívida continuação traz o diretor e todo o elenco do filme 1, subvertendo os acontecimentos do anterior de forma brilhante.
Tree e os amigos Carter e Ryan se deparam com um novo looping, que agora atinge não só a garota, mas os rapazes também. O trio terá de fugir da morte a todo custo, para descobrir quem é o assassino e, logicamente, o porquê de reviverem sempre o dia da morte.
A sacada foi terem incrementado no terrir o gênero ficção científica, que dá um impacto danado na trama, além de pitadas de drama e romance, com foco em outros pontos de vista, no caso os dois personagens masculinos que no primeiro filme eram secundários – destaque para Ryan, o garoto oriental, que na abertura já descobre ter o mesmo poder de morrer e voltar, num looping interminável.


Haverá surpresas incríveis sobre uma máquina do tempo, ideia original para uma fita de terror, que trata de situações sobre viagem no tempo e de um outro tema que está em moda no cinema, os multiversos (ou universos paralelos). Continuam as mortes violentas, muito sangue, no estilão do cinema slasher que predominou nos Estados Unidos nos anos 80 (a ideia era simples: um assassino mascarado matando inocentes com armas variadas, cuja identidade só é desvendada nos minutos finais).
Inventivo, empolgante, tem um bom clima de mistério suavizado pelo humor negro em momentos oportunos, com um bom trabalho dos atores principais. Engraçado, não teve a bilheteria do primeiro (que havia sido sucesso, se pensarmos que era uma fita barata e independente), ficando de fora do ranking norte-americano, já que nos EUA consome-se bem fitas como essa.
Quem não viu na telona, pode assistir agora em DVD ou nas plataformas digitais; é o lançamento da semana da Universal Pictures. O DVD tem extras bacanas, como erros de gravação, making of e cenas excluídas.

A morte te dá parabéns 2 (Happy death day 2U). EUA/Japão, 2019, 99 min. Terror/Suspense. Colorido. Dirigido por Christopher Landon. Distribuição: Universal Pictures

sábado, 15 de junho de 2019

Nota do Blogueiro


RIP: Franco Zeffirelli (1923-2019), cineasta italiano que adaptou boa parte das peças de Shakespeare para o cinema, como "A megera domada" (1967), "Romeu e Julieta" (1968) e "Hamlet" (1990), além de dirigir "Irmão Sol, Irmã Lua" (1972), "O campeão" (1979) e "Amor sem fim" (1981).


Nota do Blogueiro


Lançamentos em DVD da Classicline de junho. Quatro títulos imperdíveis para quem curte o bom cinema! Tem o drama de aviação "Na estrada do céu" (1951, de Henry Koster, com James Stewart e Marlene Dietrich), o western "Texano: O bandoleiro temerário" (1966, com Audie Murphy e Broderick Crawford), a fita de ação e guerra baseada em fatos reais "Os heróis de Telemark" (1965, de Anthony Mann, com Kirk Douglas e Richard Harris) e o terror adaptado de contos de Stephen King "Olhos de gato" (1985, de Lewis Teague, com Drew Barrymore e James Woods). Já nas melhores lojas. Obrigado, Classicline, pelo envio dos filmes!


sexta-feira, 14 de junho de 2019

Resenhas Especiais



 Eu sou Ali: A história de Muhammad Ali

Um olhar íntimo sobre o homem Cassius Clay por trás da lenda do pugilismo americano Muhammad Ali.

Escrito e dirigido por uma mulher, Clare Lewins, este maravilhoso documentário sobre a lenda do boxe Muhammad Ali (1942-2016) é filme obrigatório para qualquer fã dele ou do esporte, um retrato fiel e emocionante sobre a vida e a carreira de Ali, lançado dois anos antes dele falecer (o filme saiu em 2014).
Dos arquivos pessoais da família do pugilista pela primeira vez saíram materiais guardados a sete-chaves, como entrevistas antigas de Ali, bastidores dos treinos dele antes de entrar no ringue, áudios de conversas com os filhos pequenos, misturando depoimentos atuais de amigos, como os boxeadores Mike Tyson e George Foreman, do cantor Tom Jones, além do irmão também pugilista Rahman Ali e de treinadores, ou seja, várias pessoas relembram a carreira gloriosa de Ali prestando a ele uma homenagem. Traz também trechos de lutas históricas com Henry Cooper e Charles Liston.


Sobre Ali: nascido Cassius Clay Jr., de uma família de escravos afro-americanos, foi eleito pela mídia da época como “O desportista do século”. Converteu-se ao Islamismo, mudou de nome e teve participação marcante na luta dos negros contra o racismo, a favor da igualdade entre as pessoas, nos anos 60 e 70 (o documentário foca bem este lado engajado dele; Ali teve como mentor Malcolm X, além de ter sido amigo pessoal de Martin Luther King). Quebrou barreiras ao aliar esporte e política, posicionando inclusive contra a Guerra do Vietnã. No início dos anos 80 descobriu o Mal de Parkinson, passou por tratamentos e até transplante de células-tronco, vivendo bem por quase três décadas - mas sua saúde piorou até que faleceu em 2016 aos 74 anos.
Conheça este importante doc que resgata a incrível trajetória e as facetas de Muhammad Ali, uma lenda do esporte mundial. Disponível em DVD pela Universal Pictures.

Eu sou Ali: A história de Muhammad Ali (I am Ali). Reino Unido/EUA, 2014, 111 min. Colorido. Documentário. Dirigido por Clare Lewins. Distribuição: Universal Pictures


O time de 92

Documentário sobre a trajetória de seis amigos nascidos na região operária do Reino Unido que se tornaram lendas do futebol britânico e inspiraram uma geração inteira.

Excelente doc britânico que não passou nos cinemas brasileiros, mas na época, em 2013, saiu por aqui diretamente em home vídeo, distribuído pela Universal Pictures numa edição estendida (totaliza 123 minutos, com 24 minutos a mais da versão de cinema exibida na Grã-Bretanha). Bem realizado, mostra a árdua trajetória de seis rapazes simples que viraram astros do Manchester United Football Club, da juventude deles até a ascensão meteórica no mundo do esporte, entre 1991 e 1992; seus nomes ficaram na memória de toda uma geração: David Beckham, Ryan Giggs, Paul Scholes, Nicky Butt, Phil Neville e Gary Neville. Conta-se que na época (1992), o Manchester United apostou em jogadores da categoria de base para formar uma equipe, e estes jovens, então com idades entre 17 e 18 anos, entrariam em campo para reconstruir o futebol no Reino Unido. Bons de bola, elevaram o time, colocando-o nas principais disputas em campeonatos mundiais. E os seis magníficos nunca perderam o contato. Agora quarentões, reuniram-se para gravar este filme inspirador, um prato rico para quem curte histórias de futebol com um lado de motivação/superação (o doc não disfarça o saudosismo, tem uma edição primorosa, com muitas imagens de jogos do Manchester e do arquivo pessoal do sexteto, com momentos em família e amigos).


O filme foi dirigido por dois irmãos, Benjamin Turner e Gabe Turner, fascinados por esporte - em 2016 voltariam a dirigir outro doc na mesma pegada, “I am Bolt”, sobre o atletista e jogador de futebol jamaicano Usain Bolt.

O time de 92 (The class of 92). Reino Unido, 2013, 123 min. Colorido. Documentário. Dirigido por Benjamin Turner e Gabe Turner. Distribuição: Universal Pictures

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Resenhas Especiais



Godzilla

O monstro Godzilla emerge do mar no Japão, ataca as cidades litorâneas do país e segue em direção a São Francisco, na Califórnia. Perseguido por criaturas voadoras, ele deixa um rastro de destruição por onde passa. Para coibir o caos nos Estados Unidos, o Exército decreta estado de alerta sitiando a cidade de São Francisco.

Em 2014 produtores americanos e japoneses associados à distribuidora Warner Bros pensaram numa regravação do clássico “Godzilla” (1954), de Ishirô Honda, em comemoração aos 60 anos do filme japonês de sucesso, que caiu no imaginário popular. Como já existiram várias continuações e derivados, a ideia agora foi dar um ar denso de drama numa história de ação com monstros destruidores. O resultado desagradou grande parte do público, que esperava por uma fita violenta e barulhenta, com Godzilla aparecendo todo instante. Reside aí o diferencial do filme que teve uma alta bilheteria em 2014 (arrecadou U$ 530 milhões contra um custo de U$ 160 mi): temos como foco histórias de reconexão entre pais e filhos, muita discussão estratégica do Exército para salvar a população e o principal, aparição menor de monstros e do próprio Godzilla, que surge em cena somente nas penumbras depois de 1h (realmente o filme é bem escuro, com clima de angústia em meio a um apocalipse, com monstros apenas sugeridos, concepção do diretor Gareth Edwards a partir de um filme-revelação anterior dele, “Monstros”, de 2010, indicado ao Bafta, que é super bacana, sobre uma cidade mexicana atacada por uma polvo imenso, que aparece rapidamente – a trama é sobre relações humanas, no caso entre um membro do Exército e uma voluntária, durante o ataque). Deixo em destaque o comentário para explicar e justificar os tais “pontos negativos” do filme levantados pelo grande público e por parte da crítica. Eu gostei e melhorou na revisão dias atrás...
Conta com um elenco renomado, como Juliette Binoche, Sally Hawkins, Ken Watanabe, Elizabeth Olsen, David Strathairn e Bryan Cranston, boa parte com participações rápidas, além do mocinho da fita, Aaron Taylor-Johnson. E a trilha sonora bate bem com a proposta, assinada por Alexandre Desplat.
Aproveitando, “Godzilla” ganhou continuação este ano, ainda está nos cinemas “Godzilla II: Rei dos monstros”, tão bom quanto este primeiro capítulo, com mais destruição e criaturas medonhas, para quem queria ver quebra-quebra – esta parte dois está entre as maiores bilheterias nos Estados Unidos, com parte do elenco original, como Sally Hawkins e Ken Watanabe, e outro diretor, especializado em terror e fantasia, Michael Dougherty (de “Contos do Dia das Bruxas” e “Krampus: O terror do Natal”).

Godzilla (Idem). EUA/Japão, 2014, 123 min. Ação. Colorido. Dirigido por Gareth Edwards. Distribuição: Warner Bros.


Mamãe: Operação balada

Mãe jovem e trabalhadora, Allyson (Sarah Drew) passa as noites cuidando do filho pequeno. Dificilmente encontra um tempo para ela mesma. Até que organiza com duas amigas de passar uma noite na balada, sem maridos e sem filhos. Mas Allyson não imaginaria as confusões pelo caminho, envolvendo marmanjos, polícia e trânsito parado.

Simpática comédia independente norte-americana, de orçamento bem baixo (U$ 5 milhões), assinada pelos irmãos diretores Andrew e Jon Erwin, que no ano passado fizeram sucesso com o filme motivacional “Eu só posso imaginar”. Menos pretensioso, “Mamãe: Operação balada” (2014) acompanha a loucura na vida de uma jovem mãe que se dedica somente para os filhos, sem diversão, com muito estresse ao lado do marido pouco atencioso (papel de Sean Astin, astro mirim na década de 80, lembrado por “Os Goonies”). Para distrair a cabeça, sai com as amigas para uma longa jornada noite adentro, entre bares, baladas e rolês, participando de malucas enrascadas. O filme é montado em cima de uma sucessão de imprevistos cômicos, ou seja, de uma história só, com cenas hilárias – as melhores são a com um passarinho e outra na delegacia. É um humor acertado em cheio, com uma boa atriz principal que segura a fita, Sarah Drew (de “Meu nome é rádio” e da série “Grey’s anatomy”).
Foi um dos primeiros filmes (e o melhor até agora) dessa safra sobre o tema de jovens mães estressadas que saem para a balada com as amigas, longe dos maridos - depois vieram os inferiores “Perfeita é a mãe” (2016), a continuação “Perfeita é a mãe 2” (2017) e o sofrível “A noite é delas” (2017, com Scarlett Johansson, bem absurdo e bizarro). Em DVD pela Sony Pictures.

Mamãe: Operação balada (Moms' night out). EUA, 2014, 98 min. Comédia. Colorido. Dirigido por Andrew Erwin e Jon Erwin. Distribuição: Sony Pictures

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Resenhas Especiais



Assassinato num dia de sol

O detetive Hercule Poirot (Peter Ustinov) viaja a uma ilha paradisíaca no Mediterrâneo para investigar o sumiço de uma pedra preciosa. Ele fica hospedado em um hotel luxuoso, frequentado por figurões. Prestes a desvendar o caso da joia, uma atriz de cinema é assassinada numa praia a poucos metros, fazendo com que Poirot abra uma nova investigação em que todos os hóspedes são suspeitos.

Elegante adaptação para o cinema de uma intrigante história policial de Agatha Christie no melhor estilo de suspense da famosa escritora britânica que conquistou milhões de leitores pelo mundo afora, até hoje a mais comentada quando o assunto é investigação. Um dos personagens clássicos do universo Christie retorna com pompa, graça e inteligência: o detetive Hercule Poirot, novamente vivido por Peter Ustinov, ganhador de dois Oscars – o ator interpretou Poirot em três longas-metragens, “Morte sobre o Nilo” (1978), este “Assassinato num dia de sol” (1982) e “Encontro marcado com a morte” (1988), e em três telefilmes na década de 80.
Repetindo o clima de mistério e o mote das histórias, há um crime sem solução aliado a uma série de suspeitos, sendo que todos eles têm um álibi. Aqui a morta é uma atriz de cinema indesejada, arrogante e chata (papel de Diana Rigg), que faz questão de maltratar os outros. Quem a matou e de que forma ocorreu o crime? Você só saberá nos minutinhos finais, e de forma surpreendente!
Como nos dois melhores filmes anteriores baseados em obras de Agatha Christie (“Assassinato no expresso Oriente” e “Morte sobre o Nilo”), o elenco secundário é um charme só, com atores e atrizes ganhadores de Oscar, Bafta e Globo de Ouro, como James Mason, Sylvia Miles, Colin Blakely, Jane Birkin e Maggie Smith. O brilhante roteiro é de Anthony Shaffer, mestre em suspenses de botar o neurônio para funcionar, como “Jogo mortal” e “Frenesi”, ambos de 1972, e a direção, de Guy Hamilton (de várias fitas policiais da franquia James Bond, como “007 contra Goldfinger”).


Saiu no box Agatha Christie, com outros três filmes inferiores: “A maldição do espelho” (1980), e os telefilmes “Um brinde mortal” (1983) e “Treze à mesa” (1985, com Ustinov como Poirot). Conta com extras (entrevistas) e cards colecionáveis.

Assassinato num dia de sol (Evil under the sun). Reino Unido, 1982, 116 min. Suspense. Colorido. Direção de Guy Hamilton. Distribuição: Obras-primas do Cinema


O mistério de Agatha

Em dezembro de 1926 a escritora britânica de histórias policiais Agatha Christie (Vanessa Redgrave) desapareceu misteriosamente após um acidente de carro. A pedido do marido, Archie (Timothy Dalton), a polícia realiza uma busca frenética por seu paradeiro, mobilizando a família, a comunidade e a imprensa. Contratado para cobrir o caso está o jornalista Wally Stanton (Dustin Hoffman), que descobre que Agatha mudou de nome e isolou-se em um resort em Yorkshire, o que o faz investigar a situação por conta própria e em total sigilo.

Um incrível suspense de investigação digno de histórias do universo de Agatha Christie, mas que em partes ocorreu de verdade com a famigerada escritora britânica. Em 1926 ela ficou desaparecida por 11 dias, depois de um acidente de carro, dando origem a uma sucessão de estranhos acontecimentos. Os fatos até hoje não foram totalmente esclarecidos, e o que temos neste filme, vale destacar, é uma mistura de ficção (incluindo um desfecho imaginado) e momentos reais do caso extraídos de uma extensa reportagem da jornalista Kathleen Tynan que originou um livro controverso.
Sabe-se que Agatha era suicida, não tinha uma boa relação com o marido, um oficial militar que depois virou magnata, e dias antes do sumiço foi abandonada por ele, por causa de uma amante. As circunstâncias do desaparecimento lembram as obras policiais da escritora, ela mesma se entregava intensamente a suas histórias fictícias e para piorar teve amnésia, não se recordando do que houve depois do acidente – situação que implicou na falta de consistência de argumentos e provas para a polícia finalizar o caso.
Não leve o filme tão a sério quanto a uma biografia de Agatha, pois não é. E sim entregue-se a um suspense de época de muitas qualidades, charmoso, cheio de mistérios e reviravoltas impressionantes.


Michael Apted, de “O destino mudou sua vida” (1980), “Mistério no parque Gorky” (1981), “Nas montanhas dos gorilas” (1988) e “Nell” (1994), dirige bem Vanessa, que mesmo não tendo a aparência da escritora, protagoniza com energia; tem Dustin Hoffman num papel de destaque, o do jornalista de intenções indefinidas, e participação de Dalton, o ex-007, em início de carreira.
Em 1980 recebeu indicação ao Oscar e ao Bafta de melhor figurino, que realmente chama a atenção. Em DVD pela Classicline.

O mistério de Agatha (Agatha). Reino Unido, 1979, 105 min. Drama/Suspense. Colorido. Dirigido por Michael Apted. Distribuição: Classicline


* Resenhas publicadas na coluna Middia Cinema, da revista Middia, edição de junho e julho de 2019