sábado, 27 de abril de 2019

Nota do Blogueiro


Estudos de Cinema 

Lançamento imperdível este "Pensando o cinema moçambicano", um livro de ensaios com 11 textos de autores diferentes, organizado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco (UFRJ). Foi publicado em 2018 pela editora Kapulana, especializada em literatura africana, e possui 152 páginas. A obra literária analisa filmes produzidos em Moçambique entre os anos de 1995 e 2012, resultado de um encontro durante a III Mostra de Cinema Africano na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e de um curso sobre cinema na Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, ministrado pela professora Carmen Lúcia na mesma instituição (ambos ocorridos em 2017). Dentre os curtas e os longas-metragens apresentados no livro estão "A árvore dos antepassados", "Virgem Margarida", "O búzio" e "Terra sonâmbula".
Obrigado, equipe da Kapulana, pelo envio do exemplar. :)



sexta-feira, 26 de abril de 2019

Resenha Especial



Mulheres divinas

Em 1971, em um vilarejo na Suíça, um grupo de mulheres liderado pela dona de casa Nora (Marie Leuenberger) aproxima-se dos ideais do Feminismo, que aflorava pelo mundo. Elas dão start a mudanças essenciais na sociedade, visando ampliar a voz das mulheres, especialmente reivindicações pelo voto feminino. Pela frente irão se esbarrar em preconceito, chacota e ameaças.

Representante da Suíça para disputar cadeira no Oscar de filme estrangeiro em 2017, este maravilhoso filme de arte não entrou na lista dos cinco finalistas. Um drama leve, humano, bem-humorado, sobre o movimento feminista na Suíça na década de 70, com foco no sufrágio feminino. Até 1971 na Suíça as mulheres não votavam, e só conquistaram esse direito pela Constituição depois de uma série de reuniões secretas, ampliadas para manifestações pacíficas nas ruas, para reivindicar o voto - os episódios do filme têm embasamentos reais, divulgados pela mídia europeia da época.
Protagoniza “Mulheres divinas” uma excelente atriz, Marie Leuenberger, como Nora, uma dona de casa à mercê do marido, que vive para o lar, cuida dos filhos e recebe ordens do sogro, um senhor preconceituoso. Um dia ouve falar da ebulição cultural que vinha transformando alguns países, como a Contracultura, o Feminismo e o Movimento Hippie. Naquele vilarejo morto onde nada acontecia, ninguém tinha informações sobre tais acontecimentos. Até que é apresentada ao movimento feminista, o que modifica sua mente e a faz quebrar barreiras, juntando uma minoria de mulheres dispostas a contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária.
Em tom de fábula moderna, o filme é um retrato decente de uma época de poderosas transformações culturais no mundo, de como as mulheres deram uma guinada para conquistar espaço na sociedade dominada pelos homens, com discussões pertinentes sobre a atuação da mulher hoje.


O charme da obra está na variação de tipos femininos em cena, mulheres carismáticas, cheias de vida. Numa cena memorável, elas participam de um grupo secreto que as instruem a se tocar e conhecer a anatomia de suas partes íntimas, lugares do corpo que nunca pararam para observar!
Voltada às mulheres, ganhou prêmios no Festival de Tribeca, como atriz, roteiro e um especial de direção (quem dirige é uma mulher, Petra Volpe) e tem uma fotografia deslumbrante do interior gelado da Suíça, que ajuda a dar beleza à obra – o filme foi rodado nos iluminados Cantões Suíços, na região de Appenzell.
Uma fita sensível e necessária, para ser descoberta!

Mulheres divinas (Die göttliche Ordnung). Suíça, 2017, 96 min. Drama. Colorido e Preto-e-branco. Dirigido por Petra Volpe. Distribuição: Mares Filmes

Resenha especial



Crônicas da Tribo Fantasma

Na fronteira da China com a Mongólia, em 1979, exploradores encontram fósseis de estranhas criaturas nas montanhas da região. Um grupo de pesquisa arqueológica é enviada para escavar e auxiliar na investigação. Eles se deparam com uma sucessão de acontecimentos incríveis envolvendo morcegos de fogo, desmoronamentos e a abertura de um portal para um novo mundo.

Sucesso nos cinemas da Ásia, a aventura épica chinesa “Crônicas da Tribo Fantasma” é uma diversão bem bacana, apropriada para públicos que curtem o gênero fantasia, já que no filme há portais para outra dimensão, dragões e muita luta entre humanos e seres fantásticos. Um pouco longo, com trama complexa, a história permeia lugares míticos, como as montanhas de Kunlun, uma das maiores cordilheiras da Ásia, onde pesquisadores descobrem os ancestrais de um povo que habitou a região dez mil anos atrás, chamado de Tribo Fantasma, que tinha relação com alienígenas. Reza a lenda que existiram mesmo e foram dizimados pelos povos que tomaram a Mongólia.


O roteiro foca integralmente os desdobramentos dessa lenda, escrito pelo próprio diretor, Chuan Lu, reconhecido por fitas de ação em sua terra, com colaboração de dois roteiristas americanos (um deles é o diretor Bobby Roth, das séries “Hawaii Five-0”, “Revenge”, “Prison break” e “Grey’s Anatomy”). Para escrever a história se basearam no livro “Ghost blows out the light, de Zhang Muye, alterando boa parte das ações do romance original.
Tem efeitos visuais bem realizados, de criaturas (animais marinhos, morcegos de fogo e até o Demônio de Pagode), uma fotografia estilizada, com cores fortes, figurino adequado dos caçadores e arqueólogos e um elenco de astros e estrelas populares na China, como Mark Chao, Jin Chen, Li Feng, Chen Li e Guangjie Li. Deixo como dica para o final de semana.

Crônicas da Tribo Fantasma (Jiu ceng yao ta). China, 2015, 118 min. Aventura. Colorido. Dirigido por Chuan Lu. Distribuição: Flashstar

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Resenha especial



O programa

Na metade da década de 90, o promissor ciclista norte-americano Lance Armstrong (Ben Foster) vence uma dura batalha contra o câncer e utiliza o esporte como ferramenta de prevenção influenciando milhões de pessoas. Anos mais tarde, adere ao uso de anabolizantes para disputar competições, apontado pela imprensa como líder de um programa de EPO, droga proibida, que o faz ganhar sete vezes consecutivas o famoso Tour de France.

O prestigiado cineasta britânico Stephen Frears, de filmes de época marcantes como “Ligações perigosas” (1988) e “A rainha” (2006), realizou uma fita menor de sua estrondosa carreira, mas muito curiosa, bem produzida e ousada, que refaz a trajetória do discutível ciclista Lance Armstrong. A cinebiografia é baseada no livro do jornalista David Walsh (que desmascarou Armstrong) e divide-se em duas partes: a primeira mostra a superação do esportista quando venceu um câncer que quase o matou, época em que criou uma fundação para combater o câncer infantil - isto deu motivos para continuar seguindo em frente no esporte; e uma segunda parte mais empolgante e derradeira, de quando conheceu o hormônio injetável eritropoietina (EPO), pelas mãos de seu médico, substância proibida que melhorava a performance dos atletas – ele se viciou, por ser um competidor nato injetava altas doses e não bastasse reunia um grupo de esportistas para usar a EPO com ele.


Com atmosfera de denúncia, o filme aponta Armstrong como líder de um esquema de dopping bioquímico. Provas atestam que ele, de 1999 a 2005, ganhou sete vezes o Tour de France por causa das drogas injetadas. Quando descoberto, ele foi banido definitivamente do ciclismo, perdeu títulos notórios e diplomas de honra e teve de devolver os sete prêmios conquistados no Tour de France. Em 2012 confessou a utilização frequente de anabolizantes.
Pouco divulgado no Brasil, o filme tem bastante humor para equilibrar a narrativa. É protagonizado por um personagem difícil de aceitar, controverso, uma junção de mocinho e vilão, uma lenda misturada com farsa e ao mesmo tempo herói, transformado em um monstro pela mídia, e ainda assim continuou reverenciado por uma legião de fãs. O ator Ben Foster ficou parecido com Armstrong debaixo de maquiagem, num de seus melhores papéis no cinema. Além da trajetória dele, outras histórias correm soltam, como a do jornalista David Walsh (Chris O’Dowd) que fica no encalço do ciclista procurando provas sobre o programa de dopping que mais tarde ele revelaria, e a forte relação de Armstrong com o médico Dr. Ferrari (Guillaume Canet, também cheio de maquiagem), que o incentivava no uso dos anabolizantes. E tudo é entrecortado por vídeos reais de competições de Armstrong, numa edição bem movimentada, como se fosse uma corrida de bike. Repare numa rápida passagem do ator Dustin Hoffman. Já em DVD!

O programa (The program). Reino Unido/França, 2015, 99 min. Drama. Colorido. Dirigido por Stephen Frears. Distribuição: Califórnia Filmes

Nota do Blogueiro


"Malorie está remando pelo que parecem ser três horas. Os músculos de seus braços queimam. A água fria balança no fundo do barco, água que ela mesma jogou, pouco a pouco, cada vez que mergulhava os remos. Alguns minutos atrás, a Menina avisou que precisava fazer xixi. A mãe disse que ela podia fazer. Agora a urina da Menina se mistura à água do rio e Malorie sente algo quente batendo em seus sapatos. Está pensando no homem do barco pelo qual passaram".

Trecho do livro "Bird Box - Caixa de pássaros", um best seller mundial, de 2014, que ganhou um boa versão em filme produzido pelo Netflix no final do ano passado, com Sandra Bullock e John Malkovich, também um enorme sucesso de público. No Brasil o livro saiu em 2015 pela editora Intrínseca, e depois teve uma edição especial com luva trazendo na capa uma cena antológica do filme, quando Malorie foge com os filhos por um barco, com os olhos vedados. Esta nova edição saiu em dezembro de 2018 (272 páginas, tradução de Carolina Selvatici).
A trama envolve uma intensa fuga de uma família em busca de sobrevivência, após estranhas manifestações levarem as pessoas ao suicídio. Uma mãe desesperada e seus dois filhos vedam os olhos para não serem contaminados e poder escapar de um mal que os espreita a todo o momento.
O livro é fascinante, e o filme do Netflix, dirigido pela cultuada cineasta dinamarquesa Susanna Bier, segue a mesma linha. Aos fãs do best seller, uma boa notícia: o autor Josh Malerman confirmou presença na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em setembro!
Obrigado, equipe da Intrínseca, pelo envio do exemplar.





terça-feira, 23 de abril de 2019

Resenha Especial


Águas rasas

Nancy (Blake Lively) estuda Medicina e nas horas vagas gosta de surfar. Num dia de sol, viaja sozinha a uma praia deserta no México. O mar está calmo, sem ninguém por perto. Até que Nancy é atacada no meio das águas por um grande tubarão branco. Sem socorro, para sobreviver sobe em uma pedra no meio do mar. Ferida, ela terá de se reinventar para escapar do perigosíssimo animal.

Suspense eletrizante do começo ao fim, com boas doses de ação em alta voltagem, este filme de uma história só, com uma única personagem em foco, é um derivado direto do estrondoso sucesso “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg (o blockbuster setentista gerou imitações infinitas nos anos seguintes, que não chegam nem perto do espetacular resultado de “Águas rasas”).
É um tour-de-force da atriz Blake Lively, sozinha em verdadeiras águas em alto-mar, num de seus papéis de maior destaque (ela não é uma ótima atriz, mas se esforça – muito bonita, é casada desde 2012 com Ryan Reynolds, com quem tem dois filhos). Interpreta a surfista presa numa rocha após um ataque de um tubarão branco mortal. Sem sua prancha, ela está a menos de 200 metros da costa. Debaixo do sol escaldante, cria uma série de planos para escapar de lá, torna-se até “amiga” de uma gaivota machucada, sua única companhia.
Nessa jornada de sobrevivência, há sequências de tirar do fôlego, como o ataque das águas vivas (num espetáculo de cores), tudo captado por uma fotografia magnífica e uma edição parecida com videoclipes, com lances frenéticos de surfe alternando cenas em câmera lenta. Foi todo gravado em praias paradisíacas da costa leste da Austrália, para se parecer com o México, onde a história se passa.


Do produtor e diretor espanhol Jaume Collet-Serra, responsável por quatro fitas de ação com Liam Neeson (“Desconhecido”, “Sem escalas”, “Noite sem fim” e “O passageiro”), “Águas rasas” é o melhor trabalho desse cineasta de alta percepção técnica, que realizou um filme vibrante, em que o público fica agoniado junto da protagonista. Também teve recepção boa de público, além da crítica estrangeira.

Águas rasas (The shallows). EUA, 2016, 86 min. Suspense/Ação. Colorido. Dirigido por Jaume Collet-Serra. Distribuição: Sony Pictures

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Resenha Especial



Cemitério maldito

A família Creed muda-se para uma casa nos arredores de Chicago, ao lado de uma perigosa rodovia, por onde transitam pesados caminhões. A poucos metros de lá existem um antigo cemitério indígena de animais, cravado em um bosque, cuja lenda é de que os bichos que são enterrados naquele solo ressuscitam horas mais tarde. Quando o gato da família morre atropelado, enterram-no no cemitério vizinho, com consequências horripilantes.

Clássico do terror moderno, o arrepiante “Cemitério maldito” fez sucesso nos cinemas há exatos trinta anos, ganhando uma continuação inferior e um remake que estreia no Brasil no dia 09 de maio. Custou caro por ser uma fita de horror (U$ 12 milhões), tendo o próprio Stephen King assinado o bom roteiro, que ele adaptou de seu romance “O cemitério”.
Para público com nervos de ferro! O filme dá calafrios, pesa na mente e dá uma embrulhada no estômago, por tratar de questões como morte, mortos-vivos e assombrações medonhas, de maneira direta, bem sombria, com toques de fantasia do mestre Stephen King. Ficou na memória das pessoas a aparição do gato ressuscitado e de um sinistro fantasma com a cabeça aberta, que conversava de madrugada com o pai da família Creed (uma referência ao fantasma de Griffin Dunne em “Um lobisomem americano em Londres”).
A diretora Mary Lambert voltaria a dirigir a continuação, “Cemitério maldito II” (1992), inferior ao original, que contava com outro elenco, porém história semelhante envolvendo o cemitério indígena com poderes de ressuscitar animais e gente.


No elenco um monte de atores medianos, hoje sumidos das telas, como Denise Crosby (neta de Bing Crosby), Dale Midkiff, Miko Hughes (na época com três anos, depois estrelou alguns filmes teen), e a melhor participação de todas, a do falecido veterano Fred Gwynne como o vizinho (ele trabalhou na série dos anos 60 “Os monstros”). Tem também uma pontinha costumeira de Stephen King. Ah, não posso deixar de mencionar a irônica canção-título do grupo Ramones, sucesso na época, “(I don't wanna be buried in a) Pet Sematary", composta especialmente para o filme. Irônico também é o título original, com “Sematary” grafado incorretamente, como se uma criança tivesse escrito.
Quem curte terror deve assistir. Ou rever, ainda mais agora que sairá o remake na próxima semana!

Cemitério maldito (Pet Sematary). EUA, 1989, 103 min. Terror. Colorido. Dirigido por Mary Lambert. Distribuição: Paramount Pictures

Nota do Blogueiro


"Enquanto meu pai acelerava nas curvas da estrada, por um instante me imaginei abrindo a porta e caindo da caminhonete como havia visto caubóis fazerem. Mas para onde eu iria? Onde encontraria uma nova personalidade? Eu havia percorrido muitas daquelas trilhas nas tardes livres do ensino médio; algumas davam em penhascos de granito branco, outras seguiam até a represa de um lago artificial, mas todas retornavam ao centro da cidade em floreios labirínticos que sempre me deixavam sem fôlego".

Trecho de "Boy erased - Uma verdade anulada", livro de memórias de Garrard Conley lançado em 2016 e que acaba de ganhar edição brasileira com capa dupla pela editora Intrínseca (2019, 320 páginas, tradução Carolina Selvatici). A história gira em torno da dura adolescência de Conley, que, por ser gay, foi internado pelos pais altamente religiosos em um centro de reorientação sexual. O objetivo das terapias em grupo era apagar o comportamento lascivo dos garotos, que deveriam sair de lá heterossexuais, ou como diziam na instituição, "ex-gays". Conley, por meses, testemunhou uma série de fatos bizarros, além de torturas psicológicas agressivas e físicas cometidas pelos funcionários da instituição mantida pela Igreja Batista.
O polêmico livro sobre intolerância e preconceito e que discute de forma impactante a relação "religião x sexualidade" virou best seller nos Estados Unidos. Ganhou também uma ótima adaptação para cinema, de mesmo título, protagonizada por Lucas Hedges, com Nicole Kidman, Russell Crowe e Joel Edgerton no elenco.
Já nas livrarias. Obrigado, equipe da Intrínseca e da Universal Pictures, pelo envio do livro.




Resenha Especial



Boy erased – Uma verdade anulada

Morador de uma pequena cidade conservadora do Arkansas, Jared (Lucas Hedges), de 19 anos, é gay, mas nunca se abriu nem para a família nem para os amigos. Talvez por temer o preconceito da sociedade e dos pais extremamente religiosos. Jared é filho do pastor batista Marshall (Russell Crowe) e da dedicada dona de casa Nancy (Nicole Kidman). Quando o casal recebe a informação que ele saiu com um garoto, força Jared a frequentar um centro de terapia de reorientação sexual, dirigido pelo pastor Victor (Joel Edgerton). Para não ser abandonado pela família e até perder os amigos, ele se matricula no “Love in Action”, onde presenciará uma série de torturas psicológicas, que aos poucos vai apagando a sua própria identidade.

Um dos filmes mais polêmicos e discutidos da temporada, “Boy erased” teve problemas de exibição nos cinemas brasileiros, onde seria lançado em fevereiro deste ano, e chegou diretamente em DVD na semana passada pela Universal Pictures. Os estúdios lamentaram o cancelamento das sessões deste drama inspirado em tristes fatos verídicos. Pelo Twitter, o autor do livro, Garrard Conley, que é o personagem principal do filme (sob o nome de Jared), mencionou censura no Brasil, pelo tema ser impactante e gerar polêmica – porém a Universal negou em um comunicado, informando que outras duas produções que sairiam nos cinemas no mesmo período tiveram de ser canceladas, “por uma questão comercial baseada no custo de campanha de lançamento versus estimativa de bilheteria”. Não passou nas salas, e agora é o momento de se conhecer esse filme de impacto, provocador e que levanta uma série de discussões necessárias para o momento em que vivemos.
Todas as cenas, as bizarras, as polêmicas, as melodramáticas, vieram das páginas do livro homônimo de memórias de Garrard Conley, lançado também esta semana no Brasil pela editora Intrínseca, adaptado para as telas com roteiro de Joel Edgerton (que ainda assina a direção e atua no papel do ameaçador diretor do centro de terapia). Vamos abrir a história: (Para não cometer spoiler nem comprometer o conteúdo, se ainda não assistiu não leia o que vem a seguir). Jared é um garoto gay de 19 anos, forçado pelos pais religiosos a se matricular num centro de reversão sexual, chamado “Love in Action”. Neste “programa de refúgio”, o jovem relembra flashs pontuais de sua intimidade, como a frustração com primeira namorada, quando praticava esportes e optava em ficar perto dos garotos, os envergonhados flertes com homens e a negação de sua orientação sexual. Ele reprime os sentimentos, tem medo de ser exposto à cidadezinha conservadora onde vive, e para piorar, é filho de um pastor muito conhecido. Quando um boato sobre sua sexualidade cai no ouvido dos pais, eles colocam Jared contra a parede: ou vai para o programa de Cura Gay da Igreja Batista ou perderá amigos e a família. Ele segue para o centro onde ficará frente a frente de seus piores pesadelos, num local desesperador, onde os garotos “aprendem a ser meninos de verdade”, a apertar a mão dos outros como homens, praticar esportes “de macho” (baseball, por exemplo), assumir postura masculina, além de muita oração e penitências. Lá dentro não podem se masturbar pois são vigiados a todo minuto pelos guardas. Os que não conseguem seguir as etapas são levados para práticas nada ortodoxas de repreensão, para servirem de modelo, como tortura física e pressão psicológica (apanham com a Bíblia, são ofendidos e assistem a funerais encenados com o possível morto acometido pela Aids, no centro citada como “a doença dos gays”). No “Love in Action” o toque é proibido, ninguém pode se abraçar, apenas apertar as mãos por segundos, como um cumprimento respeitoso.


Estes são alguns dos momentos cruciais abordados no filme. Ficou chocado? Eu assisti ao filme com indignação e com certa repulsa, é um reflexo de como nossa sociedade anda doente. Revoltante saber que hoje cerca de 100 mil garotos e garotas passam por terapia de conversão sexual nos Estados Unidos, espalhados em centenas de centros pelo país. E a Cura Gay é defendida com a boca cheia no Brasil por uma bancada de políticos de linha religiosa... Fim dos tempos! Por isto a história precisa ser contada mesmo, para o máximo de pessoas possíveis.
O elenco brilhante dá uma voz precisa às vítimas e aos culpados. Com destaque para o trio central - o competente Lucas Hedges, indicado ao Globo de Ouro de ator pelo papel de Jared, e Nicole Kidman e Russell Crowe, na pele dos pais. Os coadjuvantes complementam com vigor a história: tem Xavier Dolan (cineasta e ator, dos mais importantes do Canadá, de filmes como “Mommy” e “É apenas o fim do mundo”), Flea (baixista de Red Hot Chili Peppers), Joe Alwyn (de “A longa caminhada de Billy Lynn” e do recente “A favorita”), a veterana ganhadora do Emmy Cherry Jones e Joel Edgerton, como o chefe do centro.
Despertou o olhar da crítica e de uma pequena legião de fãs norte-americanos. Espero que agora, finalmente, em DVD o público possa assistir a esse desconcertante filme, indicado também ao Globo de Ouro de canção original (“Revelation”). Estranho não ter concorrido a nada no Oscar... Mas participou de 25 festivais, exibido em Toronto, uma das vitrines do cinema independente.
OBS: Está em exibição nos cinemas (eu vi na Mostra Internacional em 2018) um outro de tema parecido, que considero melhor que “Boy erased”, chamado “O mau exemplo de Cameron Post”. É também sobre um programa de reversão sexual, mas quem protagoniza é uma garota (Chloë Grace-Moretz).

Boy erased – Uma verdade anulada (Boy erased). EUA/Austrália, 2018, 115 min. Drama. Colorido. Dirigido por Joel Edgerton. Distribuição: Universal Pictures

domingo, 21 de abril de 2019

Nota do Blogueiro


Filmes em casa! Olhem só os títulos que retornam ao catálogo da Classicline este mês! Tem a versão estendida do drama "Tomates verdes fritos" (1991), indicado a dois Oscars e que conquistou públicos do mundo inteiro; a primorosa aventura de guerra "A águia pousou" (1976) e a aventura espacial com grande elenco indicada ao Oscar "Sem rumo no espaço" (1969); e também outro filme indicado ao Oscar, a hilária comédia "Será que ele é?" (1997). Fresquinhos nas lojas! Obrigado, pessoal da Classicline, pelo envio dos DVDs. E parabéns por resgatar esses bons filmes para os colecionadores.




Nota do Blogueiro


Literatura e Cinema

"Na manhã seguinte ao sonho erótico, Billy decidiu voltar ao trabalho no consultório do centro comercial. Como sempre, os negócios iam de vento em popa. Seus assistentes estavam dando conta do serviço com louvor. Levaram um susto quando ele apareceu. Barbara tinha comentado que talvez o pai nunca mais voltasse à ativa. Mas Billy entrou sem delongas na sala de exames  e pediu que lhe mandassem o primeiro paciente. Então, mandaram um paciente - um menino de 12 anos acompanhado pela mãe viúva. Eram desconhecidos, recém-chegados à cidade. Billy fez algumas perguntas particulares e ficou sabendo que o pai do menino tinha sido morto no Vietnã, na famosa batalha de cinco dias pela Colina 875, perto de Dak To. É assim mesmo".

Trecho de "Matadouro Cinco - ou A cruzada das crianças" (1969), de Kurt Vonnegut, que acaba de ganhar este mês uma bonita edição comemorativa de 50 anos, com capa dura, pela editora Intrínseca (288 páginas, tradução de Daniel Pellizzari). Influenciado pela Contracultura e pelo Movimento Psicodélico dos anos 60, este clássico da literatura moderna conta a fantasiosa trajetória de Billy Pilgrim, um americano que podia viajar no tempo e no espaço, onde passeou por diversos momentos da História do Mundo e foi abduzido por alienígenas.
Imaginativo, sarcástico e filosófico, o livro de maior importância na carreira de Kurt Vonnegut mistura ficção científica, humor ácido e traços autobiográficos, e até hoje é considerada uma das maiores obras antimilitaristas já escritas.
Três anos depois da publicação, em 1972, ganhou versão para o cinema, de mesmo título. A excelente produção norte-americana dirigida por George Roy Hill ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi indicada ao Globo de Ouro.
O livro já encontra-se à venda. Obrigado, equipe da Intrínseca, pelo envio do exemplar.




sábado, 20 de abril de 2019

Resenha Especial



Férias frustradas

O piloto de avião Rusty (Ed Helms) tira férias depois de um longo período de trabalho. Para surpreender a esposa, Debbie (Christina Applegate), e os dois filhos propõe uma viagem diferente das que sempre fizeram; a ideia será cruzar os Estados Unidos de carro, com destino a um famoso parque de diversões. Eles topam a parada e caem na estrada, empolgados. Mas uma série de desventuras pelo caminho prometem enlouquecer a família Griswold.

Hilária e politicamente incorreta, esta comédia nonsense é um bom retorno da franquia “Férias frustradas”, reunindo a nova geração da família Griswold. É o quinto capítulo da cinessérie cujo título em inglês é “National Lampoon's Vacation”, antecedido por “Férias frustradas” (1983, de Harold Ramis), “Férias frustradas II” (também exibida na TV com os títulos alternativos de “Loucas aventuras de uma família americana na Europa” e “Férias frustradas na Europa” - 1985, de Amy Heckerling), o mais divertido de todos, o clássico de final de ano “Férias frustradas de Natal” (1989, de Jeremiah S. Chechik) e o dispensável “Férias frustradas em Las Vegas” (1997, de Stephen Kessler). Nestes quatro um típico casal de classe média, Clark (Chevy Chase) e Ellen (Beverly D’Angelo), enfiavam-se em trapalhadas de Norte a Sul no país, sempre na estrada. Os filmes fizeram enorme sucesso nos cinemas, são queridos pelos americanos e passaram milhares de vezes no Brasil na “Sessão da Tarde”.
Dezoito anos depois de “Férias frustradas em Las Vegas”, resolveram ressuscitar a franquia em um road movie divertido, com um novo casal, liderado por Rusty, filho de Clark e Ellen (que nos anteriores aparecia sempre, mas criança), agora adulto, com 40 anos, e a esposa Debbie. Para fugir do batidão dos mesmos tipos de viagem, partem com os dois filhos para uma viagem inesquecível, repleta de perseguições, mal-entendidos, cruzando lugares perigosos e conhecendo pessoas malucas. Em um dos momentos a família visita os pais de Rusty, interpretados pelos próprios Chevy Chase e Beverly D’Angelo, numa sequência nostálgica, de 10 minutos. Além de Helms e Christina com boa química, tem participação de Leslie Mann, Chris Hemsworth, Regina Hall, Ron Livinsgton e do ótimo Charlie Day, numa sequência engraçadíssima no Grand Canyon ao som da romântica “Without you” (de Harry Nilsson). Outra cena legal que prepara o público para o que ele vai ver é a abertura, com fotos reais inusitadas de famílias desconhecidas em férias.


Para quem assistia aos antigos “Férias frustradas” vai adorar, sem dúvida. E vai recordar da música do original, que volta a tocar aqui, “Holiday road”, com a memorável sequência da paquera do pai no volante por uma mulher dirigindo um conversível no outro lado da rodovia. É uma homenagem e um resgate da franquia que estava esquecida, com absurdos altamente engraçados. Uns podem chiar do humor grosseiro, mas nada que atrapalhe o resultado - os americanos curtiram, teve bilheteria boa nos Estados Unidos.
A dupla de roteiristas John Francis Daley e Jonathan Goldstein, de “Homem-Aranha: De volta ao lar” (2017), assinaram a direção, aproveitando o foco da história do primeiro “Férias frustradas” (a viagem ao parque de diversões). No ano passado os dois fizeram outra comédia absurda, com violência e um roteiro caprichado, “A noite do jogo” (2018), que deixo também como dica.

Férias frustradas (Vacation). EUA, 2015, 99 min. Comédia/Aventura. Colorido. Dirigido por John Francis Daley e Jonathan Goldstein. Distribuição: Warner Bros.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Resenha Especial



Me chame pelo seu nome

No verão de 1983, numa cidadezinha tranquila no Norte da Itália, o jovem Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, chega com a família para passar lá a temporada. Os dias são calmos, Elio está entediado, afunda-se nos livros, toca piano, ouve música clássica e paquera uma amiga. A lentidão das horas mudará com a chegada do estudante Oliver (Armie Hammer), que ficará hospedado para ajudar o pai de Elio, um professor, em uma pesquisa. Entre os dois despertará uma forte paixão.

Nome de destaque do cinema italiano atual, Luca Guadagnino está com seu mais novo filme nos cinemas brasileiros, o estranho e ainda mais psicodélico remake de “Suspiria”, com o subtítulo “A dança do medo”. Ele é um realizador diferenciado, com fitas de arte refinadas, como podemos perceber em “Um mergulho no passado (ou “A piscina”, de 2015) e “Um sonho de amor” (2009). Com o independente “Me chame pelo seu nome”, que custou apenas 4 milhões de euros, atingiu certo sucesso nos cinemas. Guadagnino foi convidado pelo veterano cineasta James Ivory para dirigir um roteiro que ele escreveu muitos anos atrás, a adaptação do livro de mesmo título, do escritor nascido no Egito André Aciman. Ivory guardou os direitos para entregá-lo a alguém competente, surgindo o nome de Guadagnino. E a parceria não poderia ser melhor! Pelo belíssimo drama romântico, Ivory ganhou o Oscar de roteiro adaptado, o homem mais velho da história a receber o prêmio na categoria – ele estava com 89 anos e foi seu primeiro troféu da Academia).
“Me chame pelo seu nome” é uma joia do cinema de arte, poético, sincero, sobre um romance entre dois homens de idade diferentes numa curta temporada de verão. Elio é o protagonista (Chalamet num momento especial, indicado ao Oscar), um garoto americano que viaja com a família ao Norte da Itália para descansar na casa de veraneio deles. Estão juntos o pai, um professor (papel sensato de Michael Stuhlbarg) e a mãe, uma mulher dedicada. A monotonia dos dias naquela cidadezinha pacífica, sem muitos atrativos, faz Elio desmoronar no tédio. Mas seus dias mudarão profundamente com a vinda de um estudante mais velho, o charmoso Oliver (Hammer, em sua primeira indicação ao Globo de Ouro, de ator coadjuvante). Pintam flertes, toques ocasionais, a atração entre os dois aumenta a cada raiar do dia. Elio e Oliver têm medo do que pode ocorrer (preconceito, dificuldade de se expor, a diferença de idade etc), por isso nunca se abrem. Até quando conseguirão suportar?
O filme discorre em 132 minutos uma história sobre o amor pleno e o poder da paixão. Soa ingênuo, até pueril (de maneira proposital mesmo), narrado com muita poesia visual e toques de sensualidade. Exerce uma força sublime sobre os personagens a fotografia, excepcional, bem reluzente e clara, com lindas locações de uma Itália parada no tempo (foi rodado em vilarejos de Lombardia, no extremo Norte da Itália). Tudo faz ser um trabalho marcante, um dos melhores filmes de 2018!


Não tem como não se emocionar com a história de Elio e Oliver. E aguarde um dos diálogos mais bonitos que já vi no cinema, na cena final entre pai e filho, com uma interpretação emblemática de Michael Stuhlbarg (só por este momento o ator deveria ter sido indicado ao Oscar de coadjuvante).
Produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, que vem ganhando notoriedade em Hollywood, “Me chame pelo seu nome” vibrou os principais festivais de cinema do mundo; abriu Sundance, concorreu ainda ao Oscar de melhor filme e de música (a linda “Mystery of love”, de Sufjan Stevens), foi indicado a três Globos de Ouro, esteve no Bafta, SAG, Teddy em Berlim, Grammy e em Toronto.
Se ainda não conferiu, não deixe para depois!

Me chame pelo seu nome (Call me by your name). Itália/França/Brasil/EUA, 2017, 132 min. Drama/Romance. Colorido. Dirigido por Luca Guadagnino. Distribuição: Sony Pictures

Resenha Especial



A viatura

Dois garotos encontram, por acaso, uma viatura policial estacionada numa área rural. Curiosos, eles entram no carro para brincar, acabam dando partida e dirigem pelos arredores. O que não imaginavam era que no porta-malas havia um corpo, além de armas de grande porte no banco traseiro, pertencentes a um xerife, Kretzer (Kevin Bacon). Momentos depois, o homem, ao descobrir que a viatura foi roubada, segue atrás dela numa busca alucinada.

Uma dupla de ótimos atores mirins (James Freedson-Jackson e Hays Wellford), trama envolvente, roteiro bem sacado com jeitão de filme dos anos 80 e um desfecho tenso, bem violento, são elementos marcantes desse suspense policial rodado com um orçamento muito baixo - custou em torno de U$ 800 mil, que garante um resultado impressionante ao espectador. Quando conheci em DVD, em 2015, achei uma surpresa, e agora ao rever em casa, continuo com a mesma impressão. Culpa do diretor Jon Watts, que logo se revelaria bom cineasta de blockbuster. O roteiro foi assinado por ele juntamente com Christopher Ford, e ambos escreveram juntos o fraquinho terror “Clown” (2014) e depois de “A viatura” veio o badalado “Homem-Aranha: De volta ao lar” (2017) – Watts retorna como roteirista e diretor no novo “Homem-Aranha: Longe de casa”, que estreia em julho.


O filme prende a atenção, não permitindo o público piscar sequer um segundo. Trata de temas como a amizade (no caso a de dois garotos de 10 anos), abuso de autoridade, corrupção e repressão policial, sempre no clima de suspense. Preste atenção nos pormenores da história para não se perder! E até Kevin Bacon, com seus altos e baixos na carreira, está verdadeiro na pele de um xerife alucinado, imprevisível, violento.
Gosto do filme e recomendo de primeira!

A viatura (Cop car). EUA, 2015, 88 min. Policial/Suspense. Colorido. Dirigido por Jon Watts. Distribuição: Universal Pictures

Resenha Especial



A lenda de Barney Thomson

Em Glasgow, o desajeitado barbeiro Barney Thomson (Robert Carlyle) não tem perspectivas de vida. Leva uma rotina monótona, é desprezado pela família e motivo de chacota dos amigos. Um dia, sem querer, mata um cliente, algo que o faz se sentir poderoso. Deste crime por engano o calado barbeiro vai se tornar um caprichado serial killer.

Uma curiosa comédia de erros com assassinatos e um típico humor inglês misturando investigação criminal produzida no Reino Unido, cujo destaque é ter sido o primeiro (e único) filme dirigido pelo ator Robert Carlyle, de “Trainspotting: Sem limites” (1996) e “Ou tudo ou nada” (1997). Ele também interpreta o papel-título, o tal Barney, um barbeiro puxador de brigas, desconfiado com Deus e o mundo, que vive uma vida medíocre dentro do salão de barbearia. Além de tudo, o cara é desprezado pelos que o cercam. Quando mata, sem intenção, um cliente, toma gosto pela coisa e inicia os primeiros passos no mundo de serial killer. O personagem sai do marasmo ao ter prazer em matar pessoas, dedicando meticulosamente seus dias para os crimes.
Baseado na série de livros de Douglas Lindsay, de uma certa forma é um “Sweeney Todd” moderno, sem as apetitosas tortas - ambos os assassinos são barbeiros, matam no salão com navalhas e tesouras e guardam os corpos das vítimas.


Pouco conhecida do público, a comédia é em tom de farsa com muitos absurdos (propositais no roteiro), com humor negro afiado e trocadilhos (muitos dos quais só os ingleses entendem) atingindo o ápice numa trama policial tresloucada. Tem participações de Emma Thompson (caricata, de sotaque carregado, com maquiagem para ficar mais velha, no papel da mãe do barbeiro) e Ray Winstone, como o detetive mal-encarado, líder da investigação.
Abriu o Festival de Edimburgo em 2015 e ganhou o Bafta Escocês nas categorias de melhor filme e atriz par Emma. No Brasil saiu diretamente em DVD pela Universal Pictures.

A lenda de Barney Thomson (The legend of Barney Thomson). Reino Unido/EUA/Canadá, 2015, 96 min. Comédia/Policial. Colorido. Dirigido por Robert Carlyle. Distribuição: Universal Pictures

terça-feira, 16 de abril de 2019

Cine Lançamento



Bumblebee

O planeta dos Transformers, Cybertron, vira palco de uma estrondosa batalha entre os Autobots e os Decepticons, façcões rivais que habitam o local. Optimus Prime, líder dos robôs do bem, envia Bumblebee para um lugar desconhecido chamado “Planeta Terra”, para que encontre refúgio. Ele se transforma num Fusca amarelo, e pelos danos em suas peças, é abandonado num ferro-velho. Tempos depois Bumblebee é descoberto pela garota Charlie (Hailee Steinfeld), que fica amigo de dela e inicia uma longa jornada para salvar os robôs de Cybertron e fugir dos perigosos Decepticons.

Spin-off da franquia de sucesso “Transformers”, a divertida, nostálgica e agradável fita de aventura de enorme bilheteria do ano passado chega esta semana em DVD e Bluray pela Paramount Pictures, para alegria dos fãs. Adorei o resultado nos cinemas e anteontem revi vibrando!
Os produtores Michael Bay e Steven Spielberg acertaram mais uma vez. “Bumblebee” é a saga de um dos personagens mais queridos do universo Transformers (ele já apareceu na série de animação nos anos 80 e depois nas versões para cinema, a partir dos anos 2000). Ele é um robô amarelo, tenente auxiliar de Optimus Prime, o líder dos Autobots, com a missão de vir montar uma base na Terra, que logo será a morada deles. Em Cybertron travou-se uma guerra épica dos Autobots contra a poderosa facção do mal, os Decepticons. Como um meteoro, Bee cai numa cidade da Califórnia, disfarça-se de Fusca e é guinchado para um ferro-velho, onde é levado para casa por uma garota que gosta de consertar carros (papel de Hailee Steinfeld, boa atriz, cheia de energia, já indicada ao Oscar pela irregular refilmagem de “Bravura indômita”, de 2010). Nasce entre os dois uma amizade inusitada, porém verdadeira, de um robô sensível com uma jovem rebelde. Ela tem de escondê-lo da família, mas será por pouco tempo, pois os Decepticons, auxiliados por um agente policial (John Cena, em segundo plano devido à presença marcante de Bee e Hailee) pretendem capturar o robô foragido.


Com menos ação que os outros Transformers, este investe mais num clima de romance, na amizade, amenizando aquela barulheira infernal que presenciamos nos quatro filmes anteriores. É uma homenagem alegre aos blockbusters de Spielberg dos anos 80 (como “ET – O Extraterrestre), que detinha altas doses de magia/fantasia. Colocaram inclusive uma trilha sonora adequada da época, com canções pop marcantes de Duran Duran, Jon Bon Jovi, The Smiths, Rick Astley, A-Ha, Oingo Boingo e Tears for Fears. Ou seja, o público acima de 30 anos vai embarcar legal no filme.
O diretor desta façanha inteligente é Travis Knight, indicado a dois Oscars, pelas animações “Os Boxtrolls” (2014, que ele produziu) e por “Kubo e as cordas mágicas” (2016, que dirigiu). Um cara jovem que acertou em cheio num prazeroso entretenimento para a família inteira assistir. E nos cinemas a bilheteria atingiu um bom patamar arrecadando U$ 450 milhões, de um orçamento de U$ 135 milhões. Quem perdeu pode agora ver em casa; DVD e Bluray chegaram fresquinhos, com muitos extras! Boa sessão.

Bumblebee (Idem). EUA/China, 2018, 114 min. Aventura. Colorido. Dirigido por Travis Knight. Distribuição: Paramount Pictures

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Cine Lançamento



Infiltrado na Klan

Na década de 70, Ron Stallworth (John David Washington) torna-se o primeiro policial negro a atuar no Departamento de Polícia de Colorado Springs. E também o único a se infiltrar na Ku Klux Klan, com o objetivo de revelar os temíveis segredos da organização secreta. A estratégia dele era a seguinte: conversava com os membros da Klan, por telefone, e quando precisava participar de reuniões pessoalmente, enviava um comparsa, o policial branco de origem judia Flip Zimmerman (Adam Driver), que assumia o seu lugar.

O filme definitivo de Spike Lee, que demorou para ser reconhecido pela Academia de Cinema de Hollywood. Depois de duas indicações ao Oscar, ganhou somente agora o de melhor roteiro por este trabalho sensacional, engajado e crítico. É uma incrível história real, corajosa também, que parece absurda, uma verdadeira trama policial de filmes da Blaxploitation, movimento que o cineasta presta homenagem.
Ron Stallworth existiu mesmo, era um policial novato (interpretado por John David Washington, filho de Denzel Washington, em seu primeiro grande papel, pelo qual recebeu indicação ao Globo de Ouro) que acabava de chegar ao Departamento de Polícia do Condado de Colorado Springs. Enfrentou piadas dos colegas brancos e de repente teve uma ideia inusitada, bem perigosa, de se infiltrar na Ku Klux Klan local, para descobrir as ações do grupo e trazer informações para a polícia. Como era negro, precisava de um branco para assumir seu lugar nas reuniões presenciais da KKK, então convidou um comparsa do departamento, um judeu melindroso - Adam Driver, super bem, indicado ao Oscar de ator coadjuvante. As investigações avançaram assim como o risco de serem revelados...


Em tom divertido, com diálogos afiados e hilários, o filme denuncia os atos extremistas da temível KKK, ainda existente em alguns estados americanos, escancara o racismo institucionalizado, dialogando sobre as relações raciais nos Estados Unidos e com a trajetória dos negros na América, uma história de dor e perseguição. Stallworth, infiltrado na Klan, ajudou a sabotar linchamentos, evitou até destruição por bombas de locais frequentados por negros e enganou o próprio David Duke, o líder máximo da organização criminosa.
A sequência de abertura, com Alec Baldwin, já é histórica. Ele, como um supremacista branco, discursa contra os negros, e ao fundo são exibidas cenas dos filmes “O nascimento de uma nação” (1915) e “E o vento levou” (1939), hoje condenados pelo teor racista.
Spike Lee provoca com elegância, inclui na ficção passagens reais extraídas da TV, de passeatas a favor da igualdade e também dos horrorosos atos da Klan pregando cruzes em chamas. Deu voz ainda a figuras importantes, como Stokely Carmichael no auge dos Panteras Negras, traduzindo a incansável luta por igualdade de tudo aquilo que surgia da onda do Black Power. Um filme para não esquecer!
Destaque para o nome do visionário diretor Jordan Peele, de “Corra!” (2017) e “Nós” (2019), que assina como produtor.
É difícil classificar o gênero do filme (Drama? Policial? Comédia?), que reúne referências inteligentes, desde o título original misturando Black com a KKK, e letreiros criativos, como o do início: “Este filme é baseado numas paradas que rolaram mesmo”.
Ganhou no Festival de Cannes o Grande Prêmio do Júri e o Ecumênico, indicado ainda à Palma de Ouro - e ao Oscar de melhor filme. Baseado no livro “Black Klansman”, do próprio Ron Stallworth, conta com um fabuloso elenco de coadjuvantes: Topher Grace, Laura Harrier, Alec Baldwin, Corey Hawkins, Ryan Eggold, Michael Buscemi, Paul Walter Hauser e aparição rápida de Harry Belafonte.
Não perca de vista esta pequena joia do cinema atual, contada com muita solidez pelo cineasta Spike Lee, aquele que mais deu voz aos negros no cinema.

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman). EUA, 2018, 135 min. Drama/Comédia. Colorido. Dirigido por Spike Lee. Distribuição: Universal Pictures

domingo, 14 de abril de 2019

Viva Nostalgia!



A troca

O músico John Russell (Geroge C. Scott) perdeu a esposa e a filha num acidente de carro. Por causa da tragédia, mudou-se de Nova York para um casarão isolado em Seattle. Aos poucos volta a compor e tocar piano até que estranhos barulhos o deixam perturbado. Ao vasculhar os aposentos da casa, encontra uma passagem secreta interligada ao sótão, onde um espírito começa a se comunicar com ele.

Também conhecido no Brasil como “O intermediário do diabo”, esta intrigante fita de terror canadense foi baseada num caso real ocorrido nos anos 60 num casarão em Denver, no estado do Colorado, e aqui jogaram a história para Seattle. Para mim o melhor exemplar sobre casas mal-assombradas, um filme chocante, de causar medo, com um roteiro inteligente que não fica apenas no terror. Tem uma trama de mistério e investigação, que faz o público roer as unhas, com o coração palpitando. Duas cenas ficaram famosas: as da cadeira de rodas de uma criança e a da mesa de invocação de espíritos (foi um dos primeiros a mostrar isto, com realismo).


Na época o ator George C. Scott e a atriz Trish Van Devere eram casados (eles ficaram juntos de 1972 a 1999, quando o ator faleceu), bem orientados em cena por um cineasta húngaro cuja carreira oscilava muito, Peter Medak. É o melhor filme dele, que realizou, por exemplo, grandes obras como “A classe governante” (1972), mas caiu na bobeira de rodar “A experiência II: A mutação” (1998) e outras fitas irregulares. Tem aparição menor e ao mesmo tempo notória do vencedor de dois Oscars Melvyn Douglas, que morreria no ano seguinte, aos 80 anos.
“A troca” venceu prêmios em pequenos festivais de cinema de horror e está na lista dos 100 melhores do gênero pelo IMDB. Assustador, incomoda e fecha com um final sombrio. Depois deste muitos vieram como imitação, mas nada que superasse essa joia!

A troca (The changelling). Canadá, 1980, 102 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Peter Medak. Distribuição: Universal Pictures