quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Nota do blogueiro


Pessoal que curte cinema, aviso bom para vocês!
Além do Cine Debate 2019 (cuja programação completa divulguei ontem aqui) também continuaremos com o "Encontro com o Cinema Brasileiro", projeto do Sesc em parceria com o Senac Catanduva.
Segue abaixo o que exibiremos este ano (as sessões são gratuitas e abertas ao público, uma vez por mês, às quartas-feiras, às 19h30, no auditório do Senac). OBS: Este não tem debate, somente exibição.

13/03 (Quarta) - 19h - Barravento - Abertura da Mostra "Glauber Rocha 80"
10/04 (Quarta) - 19h30 - Joaquim
15/05 (Quarta) - 19h30 - Corpo elétrico
12/06 (Quarta) - 19h30 - A terceira margem
17/07 (Quarta) - 19h30 - Era o hotel Cambridge
14/08 (Quarta) - 19h30 - Praça Paris 
18/09 (Quarta) - 19h30 - Martírio
16/10 (Quarta) - 19h30 - Meu corpo é político 
20/11(Quarta) - 19h30 - Divinas divas




terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Nota do Blogueiro


Cine Debate 2019 reúne nove filmes premiados com exibição gratuita ao público

O Imes Catanduva, em mais uma parceria com o Sesc e o Senac Catanduva, inicia em março as sessões do Cine Debate 2019. O projeto completa sete anos de existência levando filmes cult de maneira gratuita a toda a população.
No mesmo formato (uma vez por mês, aos sábados, das 14h10 às 17h), será realizado novamente no auditório do Senac Catanduva. O idealizador do projeto, o jornalista e crítico de cinema Felipe Brida, professor do Senac e dos cursos de Psicologia e Publicidade e Propaganda do Imes Catanduva, continuará responsável por conduzir os debates no final.
Vamos prestigiar, participar e debater cinema! Todos estão convidados!
Confira abaixo a programação completa do Cine Debate 2019.

Dia 23/03 – 14h10 – Deus e o diabo na Terra do Sol (2014, 101 min) – Especial “Glauber Rocha 80”
Dia 13/04 – 14h10 – Eu não sou seu negro (2016, 93 min)
Dia 18/05 – 14h10 – O cidadão ilustre (2016, 118 min)
Dia 15/06 – 14h10 – Sabor da vida (2015, 113 min)
Dia 20/07 – 14h10 – Com amor, Van Gogh (2017, 94 min)
Dia 17/08 – 14h10 – Tenebre (1982, 101 min) – Especial “Mostra de Terror Giallo”
Dia 21/09 – 14h10 – Minha vida de abobrinha (2016, 66 min)
Dia 19/10 – 14h10 – Fátima (2015, 79 min)
Dia 23/11 – 14h10 – Uma mulher fantástica (2017, 104 min) – Especial “Mostra da Diversidade”





segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Especial de Cinema



Oscar 2019: Uma noite de cinema, surpresas e emoções!

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood realizou na noite de ontem a entrega do Oscar 2019, uma dos festas de cinema mais prestigiadas e que chegou à 91ª edição. Sem apresentador, o evento, que durou 3h20, foi marcado por longos discursos e várias surpresas. Também foi um ano especial para os negros e os latinos! Vamos conferir alguns pontos:
- O drama biográfico de cunho racial “Green Book: O guia” levou o prêmio mais disputado, o Oscar de melhor filme, além de outros dois (roteiro original e ator coadjuvante para Mahershala Ali, seu segundo prêmio);
- Duas outras produções empataram com “Green Book”: o também drama biográfico “Roma”, um dos favoritos da noite, que levou os prêmios de direção, para Alfonso Cuáron, filme estrangeiro e fotografia, e a empolgante fita de super-herói da Marvel “Pantera Negra”, que recebeu as estatuetas de trilha sonora, direção de arte e figurino;
- Já o drama musical “Bohemian Rhapsody”, sobre a vida de Freddie Mercury e a banda Queen, foi o maior vitorioso em quantidade de prêmios – recebeu quatro Oscars, nas categorias de ator (para Rami Malek), edição, edição de som e mixagem de som;
- Cotadíssima para o prêmio de melhor atriz, Glenn Close, que recebeu sua sétima indicação por “A esposa”, perdeu para a atriz inglesa Olivia Colman, que brilha no papel da rainha Anne em “A favorita”.


Confira abaixo a lista de todos os vencedores (em negrito):

MELHOR FILME

Green Book - O Guia
A Favorita
Roma
Vice
Pantera Negra
Nasce uma Estrela
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody

MELHOR DIREÇÃO

Alfonso Cuarón (Roma)
Spike Lee (Infiltrado na Klan)
Yorgos Lanthimos (A Favorita)
Pawel Pawlikowski (Guerra Fria)
Adam McKay (Vice)

MELHOR ATOR

Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Bradley Cooper (Nasce uma Estrela)
Christian Bale (Vice)
Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)
Viggo Mortensen (Green Book - O Guia)


MELHOR ATRIZ

Olivia Colman (A Favorita)
Lady Gaga (Nasce uma Estrela)
Glenn Close (A Esposa)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Yalitza Aparicio (Roma)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Mahershala Ali (Green Book - O Guia)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Sam Elliott (Nasce uma Estrela)
Sam Rockwell (Vice)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Marina de Tavira (Roma)
Amy Adams (Vice)
Emma Stone (A Favorita)
Rachel Weisz (A Favorita)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Green Book - O Guia
Roma
No Coração da Escuridão
A Favorita
Vice

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Infiltrado na Klan
A Balada de Buster Scruggs
Se a Rua Beale Falasse
Nasce uma Estrela
Poderia Me Perdoar?

MELHOR ANIMAÇÃO

Homem-Aranha no Aranhaverso
Os Incríveis 2
WiFi Ralph
Ilha de Cachorros
Mirai no Mirai

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Roma (México)
Guerra Fria (Polônia)
Assunto de Família (Japão)
Cafarnaum (Líbano)
Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha)

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Free Solo
RBG
Minding the Gap
Hale County this Morning, the Evening
Of Fathers and Sons

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Pantera Negra
O Retorno de Mary Poppins
A Favorita
O Primeiro Homem
Roma

MELHOR FOTOGRAFIA

Roma
Nasce uma Estrela
A Favorita
Guerra Fria
Nunca Deixe de Lembrar

MELHOR FIGURINO

Pantera Negra
A Favorita
A Balada de Buster Scruggs
Duas Rainhas
O Retorno de Mary Poppins

MELHOR MAQUIAGEM

Vice
Duas Rainhas
Na Fronteira

MELHOR EDIÇÃO

Bohemian Rhapsody
A Favorita
Infiltrado na Klan
Green Book - O Guia
Vice

MELHOR TRILHA SONORA

Pantera Negra
Se a Rua Beale Falasse
Ilha de Cachorros
O Retorno de Mary Poppins
Infiltrado na Klan

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Shallow" (Nasce uma Estrela)
"All the Stars" (Pantera Negra)
"I'll Fight" (RBG)
"The Place Where Los Things Go" (O Retorno de Mary Poppins)
"When a Cowboy Trades His Spurs for Wings" (A Balada de Buster Scruggs)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

O Primeiro Homem
Vingadores: Guerra Infinita
Christopher Robin - Um Reencontro Inesquecível
Jogador nº 1
Han Solo: Uma História Star Wars

MELHOR EDIÇÃO DE SOM

Bohemian Rhapsody
O Primeiro Homem
Pantera Negra
Roma
Um Lugar Silencioso


MELHOR MIXAGEM DE SOM

Bohemian Rhapsody
O Primeiro Homem
Roma
Nasce uma Estrela
Pantera Negra

MELHOR CURTA-METRAGEM

Skin
Marguerite
Fauve
Mother
Detainment

MELHOR CURTA-METRAGEM - ANIMAÇÃO

Bao
Animal Behavior
Late Afternoon
Weekends
One Small Step

MELHOR CURTA-METRAGEM - DOCUMENTÁRIO

Absorvendo o tabu
A partida final
Lifeboat
A Night at the Garden
Black Sheep

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Resenha Especial



O enigma de outro mundo

No rigoroso inverno da Antárctica, um grupo de doze cientistas e operários de uma base de pesquisa é atacado por uma criatura alienígena monstruosa.

Do mestre do horror John Carpenter, “O enigma de outro mundo” é um dos filmes mais impactantes do gênero da década de 80. Na verdade é um remake de “O monstro do Ártico” (1951), e ambos eram baseados numa história scifi do escritor John W. Campbell Jr. Com clima claustrofóbico repleto de cenas bizarras e bastante violência, a fita abre com a famosa cena de um cachorro correndo pela neve, perseguido por um helicóptero que quer caçá-lo. O animal chega a uma base de pesquisa e é acolhido por um grupo de cientistas e operários ilhados na Antárctica. Ninguém de lá imagina que o cão hospeda uma criatura milenar horripilante, disforme e gosmenta, que tem patas, garras e tentáculos... E naquela noite o pesadelo tomará conta do local, quando um a um dos homens será devorado – detalhe: o monstro, quando invade o corpo da vítima, altera sua forma e se transforma numa cópia exata do hospedeiro.
Homenageando o cinema B, em especial as fitas scifi com horror dos anos 50, só que turbinado com um grau máximo de violência, proporciona ao público uma experiência única, angustiante, com tensão crescente. Seguindo a linha impressionante do Body Horror (do qual John Carpenter, Peter Jackson e David Cronenberg se destacam), tornou-se memorável justamente pelas criaturas grotescas, criadas a partir de ótimos efeitos visuais da época (a maioria eram robôs). Não rendeu bilheteria suficiente, mas virou cult entre o público americano.


Lidera o time de atores Kurt Russell, bem novo, aos 30 anos, junto de bons veteranos, como Wilford Brimley, Richard Dysart e Donald Moffat, além de Richard Masur, Keith David e Charles Hallahan.
Produzido por Larry Franco, parceiro de Carpenter em diversos filmes, o terror teve a trilha sonora assinada por Ennio Morricone e uma grande fotografia do indicado ao Oscar Dean Cundey, que trabalhou com Steven Spielberg em “Hook: A volta do Capitão Gancho” (1991) e “Jurassic Park” (1993).


Rodado no Alaska, o filme fez parte da minha infância - já assisti dezenas de vezes, recentemente revi em DVD e não me canso. Obrigatório aos fãs! Dica: o DVD que saiu pela Universal Pictures em 2005 tem um rico material de bônus, para se conhecer a fundo os bastidores do filme.
Em 2011 teve outra versão, muito decente por sinal, com o mesmo título.

O enigma de outro mundo (The thing). EUA, 1982, 108 min. Horror/ Ficção científica. Dirigido por John Carpenter. Distribuição: Universal Pictures

Resenha Especial



Papillon

Em 1935 um prisioneiro francês apelidado de Papillon (Steve McQueen) organiza uma série de fugas na Penitenciária da Ilha do Diabo, que aloja os criminosos mais perigosos do mundo. Nas idas e vindas das tentativas de escapada torna-se amigo de outro preso, Dega (Dustin Hoffman), um notório golpista de Paris.

Clássico inquestionável da Sétima Arte, o drama de aventura é uma biografia romanceada de Henri Charrière (1906-1973), conhecido como Papillon (“Borboleta”, em francês, pois ele tinha uma tatuada no peito), um ex-militar da Marinha Francesa que abandonou o cargo para viver nas ruas. Ele aplicava golpes em Paris até ser injustamente preso pelo assassinato de um gigolô, por isto foi exilado na Ilha do Diabo para cumprir prisão perpétua. O filme conta a dura vida dele nos anos que seguiu preso, fala da descida de um homem inocente ao inferno, num local terrível, a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Era uma colônia penal que abrigava criminosos de toda a estirpe, viviam confinados em celas minúsculas no alto de um penhasco, de impossível acesso, cercado por um mar com tubarões – e ainda eram mal alimentados, muitos morriam nas primeiras semanas. Na penitenciária, Papillon tentou fugir inúmeras vezes – o filme também acompanha essas escapadas mirabolantes, e sempre era traído por alguém, e quando capturado, ficava na solitária onde comia baratas. Um dos fiéis amigos era Dega, papel de Dustin Hoffman em início de carreira, um golpista de coração bom.
Longo, duro e violento para a época, a obra alinha duas vertentes: o espírito libertador de um personagem audacioso contra o tratamento brutal que sofria nas mãos dos soldados franceses. Os poderosos tentaram calar uma voz, mas não conseguiram (Papillon fugiu, sobreviveu mesmo com inanição, escreveu o romance sobre sua vida que virou best seller, e morreu pobre e alcoólatra, aos 66 anos. Há inclusive contestações sobre os fatos narrados na prisão, no entanto inegavelmente como cinema é uma aventura caprichada, famosa, que foi sucesso de bilheteria).


O roteiro foi escrito por Dalton Trumbo, baseado no romance de Charrière, que ajudou em toda a concepção do filme, mas faleceu seis meses antes dele ser lançado. Tem duas cenas antológicas, como o encontro de Papillon com os leprosos num casebre na floresta, e o desfecho deslumbrante.
Rodado em cinco países (Espanha, Venezuela, Jamaica, França e EUA), recebeu indicação ao Oscar de melhor trilha sonora (fantástica, do mestre Jerry Goldsmith) e ao Globo de Ouro de ator para McQueen.
Excelente direção de atores, do cineasta de “O planeta dos macacos” (1968), “Patton – Rebelde ou herói” (1970) e “Os meninos do Brasil” (1978), Franklin J. Schaffner, que admiro bastante.
Em 2017 ganhou um remake muito bom, com Charlie Hunnam e Rami Malek, nos papéis de Papillon e Dega, e por causa da nova versão a editora Bertrand Brasil relançou o livro no Brasil. Em DVD pela Classicline.

Papillon (Idem). EUA/França, 1973, 150 min. Drama/Ação. Colorido. Dirigido por Franklin J. Schaffner. Distribuição: Classicline. Disponível em DVD.

* Publicado na coluna Middia Cinema, na revista Middia, edição de fevereiro/março de 2019

Viva Nostalgia!


Tarântula!

Em um laboratório isolado no deserto do Arizona, um renomado cientista, Dr. Deemer (Leo G. Carroll), realiza experimentos com animais que os faz crescerem. O seu novo teste é com uma tarântula, que acaba aumentando 200 vezes o tamanho original. Porém a aranha escapa, espalhando o terror em uma cidade. Resta ao médico local, Dr. Matt (John Agar) e a assistente do cientista, Stephanie (Mara Corday), criar um plano emergencial para eliminar aquele monstro gigante.

Memorável B-movie dirigido por Jack Arnold, criador de muitas fitas scifi que caíram no gosto popular, como “Veio do espaço” (1953), “O monstro da lagoa negra” (1954) e “O incrível homem que encolheu” (1957). A fórmula do cinema B renovou a indústria de Hollywood nos anos 50 e 60: filmes de baixo orçamento (com custo em torno de U$ 1 milhão, como “Tarântula!”), roteiro barato e reciclável, elenco com 90% de nomes desconhecidos (parte dele estreante), criaturas bizarras num nível elevado do mundo fantástico, efeitos especiais artesanais com jogos de ilusão de ótica, aventura, momentos de horror, sustos e emoções. Neste exemplar tem tudo isto, e quem comanda a cena é uma temível aranha gigantesca, que foge do controle humano destruindo postes de energia elétrica, carros e chega a devorar pessoas! Ótima pedida para conhecer o cinemão de outrora...


Original da Universal Pictures (que produziu boa parte dos filmes B desse período), saiu há poucos meses em DVD com ótima qualidade de imagem e som no box “Invasão Scifi – Ataques”, pela distribuidora Obras-Primas do Cinema; além deste bom exemplar scifi/horror, vem três outros filmes – “O monstro do mundo proibido” (1949 – primeira versão de “Poderoso Joe”), “O escorpião negro” (1957) e “O ataque da mulher de 15 metros” (1958). Caixa em disco duplo, com extras variados e cards colecionáveis.


Tarântula! (Tarantula). EUA, 1955, 80 min. Terror/Ficção científica. Preto-e-branco. Dirigido por Jack Arnold. Distribuição: Obras-Primas do Cinema

* Publicado na coluna Middia Cinema, na revista Middia, edição de fevereiro/março de 2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Resenha Especial



Feito na América

Na década de 80, o piloto Barry Seal (Tom Cruise), um dos melhores da aviação americana, recebe a proposta de trabalhar para a CIA para investigar o Cartel de Medellín, mantido pelo colombiano Pablo Escobar. A grana é alta, então ele aceita. Mas se torna um agente duplo: enquanto investiga o caso para a Central de Inteligência, atua com a turma de Escobar fazendo o transporte de cocaína da Colômbia para os Estados Unidos com seu avião. 

Três anos depois da surpreendente fita de ação “No limite do amanhã” (2014), o diretor Doug Liman voltou a filmar com o astro Tom Cruise, agora numa história controversa e maluca com assustadora base real. Com perspicácia, Liman e Cruise realizaram esta biografia com jeitão de farsa, ação e um humor afiado sobre Adler Berriman "Barry" Seal (1939-1986), um piloto de extrema experiência, que trabalhou como agente da CIA, traindo a corporação para se tornar um dos braços direitos do poderoso barão das drogas Pablo Escobar. Enaltece-se a figura de um cidadão americano comum e batalhador, com família formada, que atuava com ética no ramo da aviação até se envolver com o crime organizado, no caso tráfico de drogas e armas, em troca de milhões de dólares. Seal teve vida dupla, enganou a esposa e os amigos, e por muito tempo voou despercebido pelos céus dos Estados Unidos em um avião de pequeno porte lotado de toneladas de cocaína...
A época do caso de Barry Seal era de um contexto caótico: os dois governos de Ronald Reagan na década de 80. Havia a Guerra Fria, a guerra contra as drogas, greves pra todo lado, crise política e extenso gasto bélico para promover a invasão americana em vários países. Seal era fruto desse meio – e o filme busca esses tantos retalhos de informações, alguns até impossíveis, para criar a figura controversa dele, o que faz o público duvidar se aquilo realmente ocorreu. A obra não foi baseada em livro, mas de matérias jornalísticas, que compõem um roteiro esperto, do estreante Gary Spinelli.
A fim de realçar os golpes e as proezas desse homem, a fita recorre a uma linguagem divertida aliada a uma edição explosiva, que tornam especial este filme de 2017 que não teve a repercussão merecida nos cinemas.
Tom Cruise não parece nada com o verdadeiro Barry Seal, por isso precisou rejuvenescer, com auxílio de maquiagem, uns 12 anos (Cruise tinha na época 55 anos, enquanto Seal, 43), mas nada disso atrapalha a composição da alma do personagem.


Tem até fotografia do uruguaio Cesar Charlone, indicado ao Oscar por “Cidade de Deus” (2002), que vive bastante no Brasil e em nossas terras dirigiu um episódio do filme “Rio, eu te amo” (2014) e vários da série “Cidade dos homens” – Charlone é um cara super bacana, tive a honra de dividir com ele, por uma semana, a mesa de júri durante o Festival de Cinema da Fronteira, em Bagé, em 2012.
De 2015 para cá a vida do narcotraficante colombiano Pablo Escobar (1949-1993) apareceu inúmeras vezes em séries de TV e do Netflix, bem como no cinema. Repercutiu o seriado “Narcos” (2015-2017), com Wagner Moura no papel de Escobar, e ele foi até indicado ao Globo de Ouro; e também tivemos dois bons dramas para cinema, “Escobar: Paraíso perdido” (2014 – com Benicio Del Toro) e “Escobar: A traição” (2017, com Javier Bardem). Na mesma safra veio “Feito na América”, um filme de grande relevância, cuja diferença para os anteriores é o foco em um novo personagem, tão polêmico como Escobar.

Feito na América (American made). EUA, 2017, 115 min. Ação. Colorido. Dirigido por Doug Liman. Distribuição: Universal Pictures

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Cine Lançamento



O primeiro homem

A trajetória do astronauta norte-americano Neil Armstrong (Ryan Gosling) contada em oito anos (1961-1969), quando ele integrou os projetos Gemini e Apollo, na Nasa, para viajar até a Lua. Cercado por dilemas familiares, Armstrong foi o primeiro homem a colocar os pés no solo lunar numa arriscada missão que durou oito dias.

Produzido por Steven Spielberg, o filme tinha a intenção de ser um épico contemporâneo que resgatasse a biografia do célebre astronauta Neil Armstrong (1930-2012), o primeiro homem a pisar na Lua. Havia por trás uma forte campanha da Universal Pictures e chegou a abrir o Festival de Veneza, indicado ao Leão de Ouro. Até Clint Eastwood iria dirigir, porém abandonou o projeto, assumindo Damien Chazelle, o diretor mais jovem da História a ganhar um Oscar – em 2017, por “La La Land: Cantando estações” (2016), com apenas 32 anos. Ele convidou o ator desse seu ótimo filme musical, Ryan Gosling, para ser o protagonista, optando por uma produção ambiciosa, com mais drama do que ação. Infelizmente a campanha não gerou os resultados esperados, muita gente reclamou da duração, chiou da lentidão da história, pois aguardavam uma fita de aventura espacial, e tudo isto refletiu na bilheteria (arrecadou U$ 100 milhões, num orçamento de U$ 60 milhões). O reflexo negativo também se deu no Oscar, onde recebeu este ano menos indicações do que se almejava (foram quatro ao todo, de prêmios técnicos: melhor direção de arte, efeitos visuais, edição de som e mixagem de som, portanto nada nas categorias principais).
Na verdade, tem o porquê dessa lentidão, da poesia, de um lado mais íntimo da história: Chazelle quis uma fita de dramas existenciais, conflitos internos, algo sentimental com um pano de fundo de ficção científica não tão ficção científica assim, com um ar filosófico, como a moda dita hoje obras desse estilo. Beira a linha de “Interestelar” (2014) e “A chegada” (2016), sabe?
Bem acabado, o roteiro de Josh Singer, ganhador do Oscar por “Spotlight: Segredos revelados” (2015), baseou-se na biografia do astronauta detalhada no livro “O primeiro homem: A vida de Neil Armstrong”, do historiador James R. Hansen (disponível no Brasil pela editora Intrínseca). Singer desenhou os oito anos que antecederam a viagem dele à Lua, um exaustivo período de preparação do piloto a nível psicológico, espiritual e físico, focando suas angústias enquanto se dividia entre a esposa e o filho com o trabalho na Nasa. É menos a missão espacial e mais sobre o homem (matéria-sentimento) Armstrong, em busca de respostas para os acontecimentos de sua vida pessoal.
Gosling interpreta um cidadão discreto, calado, de olhar temeroso, que sofria com a morte da filha pequena. Discutia com a esposa, Janet (Claire Foy, indicada ao Globo de Ouro pelo papel), que tentava convencê-lo a não participar da arriscada missão Apollo 11, em nome do filho que poderia perder o pai no espaço. Armstrong também viu amigos morrerem em treinamentos espaciais, e tudo isto pesava em sua decisão, mas que no fim aceitou a imprevisível missão rumo à Lua, considerada arriscada para a época. Seus sacrifícios tiveram um custo altíssimo, no entanto mudou o rumo da nação e consequentemente da humanidade – ele disse a famosa frase, “É um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”.
Contado sob o ponto de vista do astronauta, o filme chama a atenção pela câmera observadora, muito detalhista, que capta sensações do ambiente, pormenores dramáticos, trazendo luz para uma história triste, que nos emociona. E ausente de heroísmo e patriotismo.


Intercalaram nas cenas áudios reais de Armstrong gravados na missão Apollo 11, outro ponto alto do filme, e o melhor para mim é a admirável trilha sonora, de Justin Hurwitz, parceiro de Damien Chazelle e duas vezes ganhador do Oscar, ambas por ‘La La Land: Cantando estações” (2016) – a trilha recebeu o Globo de Ouro este ano, e estranhamente ficou fora do Oscar. Vai entender...
Boa parte das sequências foi rodada em cenários gigantes, com uma técnica pioneira de telas de LED com imagens impressionantes que simulavam as viagens fora da órbita terrestre, provocando alto grau de realidade, além da reconstituição perfeita de naves e módulos espaciais (veja nos extras que acompanham o DVD e o Bluray). Também foi filmado na Nasa e na Força Aérea Americana, que apoiaram o filme.
Repare no elenco de bons coadjuvantes do cinema atual, como Lukas Haas, Jason Clarke, Corey Stoll, Ciarán Hinds, Pablo Schreiber, Patrick Fugit, Brian d'Arcy James e Kyle Chandler.
Indicado também ao Bafta e a dezenas de prêmios em festivais internacionais, “O primeiro homem” é o grande lançamento do mês em DVD e Bluray pela Universal, com um disco inundado de extras, como cenas excluídas, making ofs e comentários do diretor.

O primeiro homem (First man). EUA/Japão, 2018, 141 min. Drama. Colorido. Dirigido por Damien Chazelle. Distribuição: Universal Pictures

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Resenha Especial



A viagem de meu pai

Aos 80 anos, o aposentado Claude Lherminier (Jean Rochefort) briga com suas enfermeiras por causa dos lapsos de memória. Tem um lado temperamental forte, que afugenta amigos e familiares, e por isto insiste em morar sozinho. Um dos poucos frequentadores de sua casa é a filha mais velha, uma empresária, Carole (Sandrine Kiberlain), que quer colocá-lo num asilo. Porém os planos de Claude vão além: ele pretende viajar para a Flórida, nos Estados Unidos, sem que ninguém saiba, para visitar a filha caçula.

Produzido pela Gaumont e exibido no Festival Varilux de Cinema Francês 2016 (que ocorre em 60 cidades brasileiras, na metade do ano), “A viagem de meu pai” aborda um tema comum no cinema, a velhice, aqui elaborado sem dramalhão pesado, mas com humor e candura, apropriado para o público que curte filmes mais lentos, reflexivos. Foi o último trabalho do excelente ator francês Jean Rochefort, falecido em 2017 aos 87 anos. De maneira exata e brilhante, ele interpreta um aposentado que outrora havia sido um importante industrial em sua cidade. Hoje, senil e rabugento, enfrenta problemas de memória, não aceita ser cuidado pelos outros, tampouco pela filha mais velha, que o visita sempre (uma boa Sandrine Kiberlain, com química com Rochefort). O idoso se vê diante de fantasmas do passado, constantemente à espera de uma filha que nunca vem, mas deseja ir até ela, em Miami, no estado da Florida (daí a explicação do título, Floride, como metáfora aos sonhos desse senhor protagonista) – e nesse ponto haverá uma surpresa em relação à filha caçula, que o faz ser hostil com a primogênita, aquela que tenta cuidar dele e atualmente conduz os negócios do pai, na indústria.


Vendido erroneamente como um road movie (quase não existe esse tema no filme), aparece num bom momento das comédias dramáticas francesas, de forte aspecto intimista, sobre relações humanas, conflitos familiares e aceitação (no caso deste, aceitação da senilidade e a possibilidade da morte).
Mais um bom trabalho do diretor Philippe Le Guay, de “As mulheres do sexto andar” (2010) e “Pedalando com Molière” (2013), dois filmes que eu adoro e indico. Em DVD pela Mares Filmes.

A viagem de meu pai (Floride). França, 2015, 109 min. Comédia dramática. Colorido. Dirigido por Philippe Le Guay. Distribuição: Mares Filmes

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Resenha Especial



Thelma

Thelma (Eili Harboe), uma jovem tímida, deixa a casa dos pais para estudar Biologia numa faculdade em Oslo, capital da Noruega. Mesmo à distância, pai e mãe, muito religiosos, controlam a garota. Na faculdade, torna-se amiga de Anja (Kaya Wilkins), que a leva para a balada e a apresenta a novos amigos. A vida de Thelma se transforma radicalmente quando, sem explicação médica, ela desenvolve epilepsia, chegando a uma descoberta sobrenatural.

Instigante, perturbador e original na técnica e no conteúdo, “Thelma” é um achado do cinema norueguês. Participou de 32 festivais de cinema e foi indicado como representante do seu país no Oscar 2018 (mas inacreditavelmente ficou fora da lista final). Um filmão cult inteligente de primeira classe, que alinha com precisão drama e suspense num clima de total mistério.
Fala de uma garota tímida (uma atriz jovem, norueguesa, a talentosa Eili Harboe), novata na faculdade e criada em uma família religiosa, bem metódica (o pai é um médico, e a mãe utiliza cadeira de rodas para se locomover). Ela conhece uma outra garota, trocam flertes, até que começa a sofrer convulsões. A partir daí a história muda de tom quando, em flashbacks, fatos assustadores renascem sobre o passado da protagonista, na época da infância, para traçar um paralelo com seus dias na faculdade envolvendo discussões sobre sexualidade, repressão e libertação.
“Thelma” não é um filme fácil de se digerir e tampouco de se comentar, pois há revelações surpreendentes a cada meia hora de filme. Assista com calma, prestando atenção nos mínimos detalhes da história, intensa e de conflitos únicos.


O primor está na direção, um trabalho fantástico do cineasta e roteirista Joachim Trier, filho do diretor Jacob Trier e neto do renomado cineasta Erik Løchen (nenhum deles tem parentesco com Lars Von Trier). Ele conduz de forma atraente este drama estiloso, com domínio de enquadramentos, jogos de câmeras diferenciados e contornos sombrios dos misteriosos personagens. O diretor leva o público para além dos limites da mente! Se gostou dos dois filmes anteriores dele, “Mais forte que bombas” (2015, indicado à Palma de Ouro em Cannes) e “Oslo, 31 de Agosto” (2011, indicado ao prêmio Um Certo Olhar, também em Cannes), com certeza “Thelma” irá te causar deslumbramento.
Disponível em DVD pela Mares Filmes (que vem se destacando no mercado de filmes cult no Brasil e integra o grupo da A2 Filmes).

Thelma (Idem). Noruega/França/Dinamarca/Suécia, 2017, 117 min. Drama/Suspense. Colorido. Dirigido por Joachim Trier. Distribuição: Mares Filmes