sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Resenhas Especiais


Zona de conflito

Razi (Tsahi Halevi) é um agente do Serviço Secreto Israelense que recruta um garoto palestino, Sanfur (Shadi Mar'i), para ser seu informante. Entre eles nasce uma relação de confidência e lealdade. Enquanto isso, a crise entre Israel e Palestina aumenta a ponto de novos conflitos armados terem início.

Também intitulado “Belém: Zona de conflito”, esse drama de guerra vencedor do prêmio Fedeora no Festival de Veneza em 2013 aborda com outro olhar a Questão Palestina, a partir da amizade pouco provável entre dois homens. De um lado, um inteligente agente secreto de Israel, do outro, um menor nascido e criado na Palestina. Entre eles haverá uma ligação muito forte, quase um laço de pai e filho, na medida que explode no Oriente Médio uma série de conflitos armados entre os países que eles representam. Eles convivem bem, mas em segredo, numa área que mais se parece uma bomba-relógio, onde quatro de suas gerações morreram por disputas religiosas e de terras – o centro da história é em Belém, na região militarizada da Cisjordânia.
Com diálogos certeiros, algumas boas cenas de ação e um desfecho forte, o filme ajuda a entender a eterna briga israelo-palestina, fugindo de meros clichês e se atentando a situações verossímeis (o roteiro foi escrito pelo próprio diretor, Yuval Adler, com colaboração de um jornalista conhecedor a fundo das questões abordadas, Ali Wakad).
Integrou o Festival de Toronto, foi exibido no Festival do Rio e era o representante de Israel para disputar vaga no Oscar de filme estrangeiro em 2014, ficando fora da lista dos cinco finalistas.
Curiosidade: os três atores centrais nunca tinham trabalhado em cinema, ou seja, estrearam aqui - Shadi Mar'i foi selecionado numa audição com centenas de participantes, Tsahi Halevi era um finalista do “The Voice”, de Israel, e Hitham Omari descobriu por acaso o set de filmagem num passeio.

Zona de conflito (Bethlehem). Israel/Alemanha/Bélgica, 2013, 99 minutos. Ação/Drama. Colorido. Dirigido por Yuval Adler. Distribuição: Vinny Filmes


Policial em apuros 2

Recém-efetivado na Academia de Polícia Americana, Ben (Kevin Hart) trabalha diretamente com o cunhado, o veterano agente James (Ice Cube). A próxima missão da dupla será se infiltrar nas ruas de Miami contra o crime organizado.

Os cunhados policiais estão de volta, mais durões do que nunca. E desta vez em enrascadas pelas perigosas ruas de Miami, onde o crime organizado toma conta... Você que assistiu a “Policial em apuros” (2014) com certeza irá aproveitar com entusiasmo a continuação, dirigida pelo mesmo Tim Story, que trouxe de volta a infalível dupla de atores, Kevin Hart e Ice Cube. A liga entre ambos é extraordinária, com destaque para Kevin Hart, que é o humor do filme inteiro, no papel de um ex-segurança de colégio, viciado em jogos de videogame, que após se casar com a irmã do comparsa policial (Cube), entra para a Academia de Polícia. Nada continua fácil para ele, um novato na polícia... Enquanto isso temos Ice Cube num tipo mais sério, duro na queda, próprio da pancadaria, que vira escada para Hart usar-se do pastelão, das piadas atropeladas, do burlesco. Assim é o equilíbrio entre os personagens nessa movimentada fita policial de comédia, com cenas de explosões, tiros e brigas infinitas, que nos faz lembrar de “Um tira da pesada”.
Não alcançou o sucesso do primeiro filme, que havia obtido boa bilheteria nos cinemas norte-americanos – este segundo custou mais caro, tem mais cenas de ação, e está bem páreo na questão de qualidade técnica. 
E não acaba por aqui! Há poucas semanas o diretor Tim Story anunciou a terceira parte da saga dos cunhados policiais, prevista para ser lançada em 2021 (Hart e Cube já inclusive assinaram o contrato). Recomendo, é um bom passatempo para o fim de semana!

Policial em apuros 2 (Ride along 2). EUA, 2016, 101 min. Ação/Comédia. Dirigido por Tim Story. Distribuição: Universal

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Especial de Cinema


OSCAR 2020: "Coringa" lidera absoluto com 11 indicações

Saiu agora pouco a lista dos indicados ao Oscar 2020, cuja premiação será no dia 09 de fevereiro, em Los Angeles. "Coringa" lidera com 11 indicações, seguido de "Era uma vez em... Hollywood", "1917" e "O Irlandês", que dividem a segunda colocação com 10 nomeações cada. Em terceiro lugar no ranking, quatro filmes disputam seis nomeações cada um: "História de um casamento", "Adoráveis mulheres", "Jojo Rabitt" e "Parasita".
Uma chance para nós! O documentário brasileiro "Democracia em vertigem", do Netflix, concorre na categoria. Esse ano o Oscar não terá um apresentador oficial para conduzir as premiações, e a transmissão no Brasil será pela TNT.
Vamos conhecer todos os indicados? Confira abaixo.


Melhor filme

1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era uma Vez em... Hollywood
Ford vs Ferrari
História de um Casamento
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

Melhor diretor

Bong Joon-ho (Parasita)
Martin Scorsese (O Irlandês)
Quentin Tarantino (Era uma Vez em... Hollywood)
Sam Mendes (1917)
Todd Phillips (Coringa)

Melhor atriz

Charlize Theron (O Escândalo)
Cynthia Erivo (Harriet)
Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres)
Scarlett Johansson (História de um Casamento)

Melhor ator

Adam Driver (História de um Casamento)
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Jonathan Pryce (Dois Papas)
Leonardo DiCaprio (Era uma Vez em... Hollywood)

Atriz coadjuvante

Florence Pugh (Adoráveis Mulheres)
Kathy Bates (O Caso Richard Jewell)
Laura Dern (História de um Casamento)
Margot Robbie (O Escândalo)
Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)

Ator coadjuvante

Al Pacino (O Irlandês)
Anthony Hopkins (Dois Papas)
Brad Pitt (Era uma Vez em... Hollywood)
Joe Pesci (O Irlandês)
Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança)

Melhor roteiro original

1917
Entre Facas e Segredos
Era uma Vez em... Hollywood
História de um Casamento
Parasita

Melhor roteiro adaptado

Adoráveis Mulheres
Coringa
Dois Papas
O Irlandês
Jojo Rabbit

Melhor filme internacional (estrangeiro)

Corpus Christi (Polônia), de Jan Komasa
Dor e Glória (Espanha), de Pedro Almodóvar
Honeyland (Macedônia do Norte), de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov
Os Miseráveis (França), de Ladj Ly
Parasita (Coreia do Sul), de Bong Joon-ho

Melhor animação

Como treinar o seu Dragão 3
Klaus
Perdi Meu Corpo
O Link Perdido
Toy Story 4

Melhor documentário

The Cave (Tailândia/Irlanda)
Democracia em Vertigem (Brasil)
For Sama (Síria/Reino Unido)
Honeyland (Macedônia)
Indústria Americana (EUA)

Melhor montagem

Coringa 
Ford vs Ferrari
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

Melhor fotografia

1917
Coringa
Era uma Vez em... Hollywood
O Farol
O Irlandês

Melhor trilha sonora

1917 (Thomas Newman)
Adoráveis Mulheres (Alexandre Desplat)
Coringa (Hildur Guðnadóttir)
História de um Casamento (Randy Newman)
Star Wars: A Ascensão Skywalker (John Williams)

Melhor canção original

I’m Standing With You, de Superação: O Milagre da Fé
Into The Unknown, Frozen II
Stand Up, de Harriet
(I’m Gonna) Love Me Again, de Rocketman
I Can’t Let You Throw Yourself Away, de Toy Story 4

Melhores efeitos visuais

1917
O Irlandês
O Rei Leão
Star Wars: A Ascensão Skywalker
Vingadores: Ultimato

Melhor design de produção

1917
Era uma Vez em Hollywood
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

Melhor maquiagem e cabelo

1917
Coringa
O Escândalo
Judy: Muito Além do Arco-Íris
Malévola: Dona do Mal

Melhor mixagem de som

1917
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Coringa
Era uma Vez em... Hollywood
Ford vs Ferrari

Melhor edição de som

1917
Coringa
Era uma Vez em Hollywood
Ford vs Ferrari
Star Wars: A Ascensão Skywalker

Melhor figurino

Adoráveis Mulheres
Coringa
Era uma Vez em Hollywood
O Irlandês
Jojo Rabbit

Melhor Curta-metragem live action

A Sister
Brotherhood
Nefta Football Club
The Neighbor’s Window
Saria

Melhor Curta documentário

In the Absence
Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
Like Overtakes Me
St. Louis Superman
Walk Run Cha-Cha

Melhor Curta-metragem de animação

Dcera (Daughter)
Hair Love
Kitbull
Memorable
Sister

domingo, 12 de janeiro de 2020

Resenha Especial



Vá e veja

Em 1943, o garoto Florya (Aleksey Kravchenko), morador de uma aldeia na Bielorússia, vivencia os horrores da guerra quando, ao encontrar um rifle na praia, junta-se ao exército soviético contra os nazistas.

Um dos dramas de guerra mais chocantes já produzidos no cinema, “Vá e veja” (1985) ganhou em dezembro passado uma excelente cópia restaurada pela Mosfilm, disponível no mercado brasileiro em Bluray pela CPC-Umes Filmes. É a melhor que podemos encontrar, lembrando que há alguns anos o filme saiu em DVD tanto pela Lume quanto pela própria CPC numa cópia riscada, com granulações, além da metragem reduzida. Pelo minucioso trabalho de restauração, o filme ganhou um prêmio em 2017 no Festival de Veneza, onde foi exibido em sessão especial - a cópia em BD realmente está um deslumbre de nitidez e som, com a duração original de 142 minutos.
Existem muitos filmes sobre o olhar de uma criança sobre a guerra, mas nenhum com tamanho impacto visual que “Vá e veja”. Próximo dele somente o angustiante “O pássaro pintado” (2019), que vi no ano passado na Mostra Intl de Cinema de São Paulo, uma fita húngara pré-selecionada ao Oscar.
Em “Vá e veja” temos como protagonista Florya (Aleksey Kravchenko, que estreava no cinema aos 16 anos), um garotinho que, depois de encontrar um rifle enterrado num corpo na areia da praia, alia-se a um grupo de jovens para lutar na Segunda Guerra Mundial. Aqueles meninos seguem ao lado da Resistência Soviética rumo ao campo de batalha. Florya não compreende o que está ocorrendo ali, de início parece uma aventura pela floresta. Pelo caminho cruzará as linhas inimigas, será torturado e inevitavelmente verá aldeias inteiras serem consumidas pelas chamas.


Gravado com câmera em constante movimento, o drama narra um amargo capítulo da Segunda Guerra Mundial, a ocupação dos nazistas na Bielorrússia, onde milhares de vilas foram dizimadas e cerca de seiscentos mil soviéticos morreram nessa região - com o fim da URSS, em 1990, a Bielorrússia, que faz fronteira com a Rússia, Polônia, Ucrânia, Lituânia e Letônia, tornou-se independente, sob o nome de República de Belarus. Carrega uma forte mensagem antiguerra, que provoca em nós uma aturdida reflexão sobre o lado sombrio do ser humano, capaz de cometer atrocidades sem limites – o filme, quando lançado, chocou pelas cenas violentas, como a do galpão incendiado com centenas de pessoas dentro enquanto os alemães comem lagosta e se divertem vendo as pessoas carbonizarem.
O trabalho do protagonista é ótimo, e a trilha sonora é uma obra-prima à parte, assim como a fotografia enevoada.
Último trabalho do diretor de “Agonia Rasputin” (1981) e “A despedida” (1983), Elem Klimov, ex-marido da cineasta Larisa Shepitko, de “A ascensão” (1977), falecida em um acidente de carro. Foi o seu trabalho com maior dimensão psicológica e criativa, impactante desde o título, uma alusão a uma passagem do Apocalipse de São João, referente ao inferno e ao juízo final. Indicado para público com nervos de aço.

Vá e veja (Idi i smotri). URSS, 1985, 142 minutos. Drama/Guerra. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Elem Klimov. Distribuição: CPC-Umes Filmes

Resenha Especial



O natal dos amigos indiscretos

Quinze anos se passaram da última reunião dos “amigos indiscretos”. Na época, estavam na faculdade, nutriam sonhos, planejavam o futuro e, nos momentos livres, organizavam o casamento de um deles. O tempo passou... agora, no Natal, marcam um reencontro, onde serão reacendidos romances, rivalidades e muitos pontos sem nó.

Primo de Spike Lee, o diretor Malcolm D. Lee estreou no cinema com “Amigos indiscretos” (1999), uma comédia comemorativa em torno da amizade de nove colegas universitários. Passados 15 anos, dirigiu essa continuação regular, nos moldes da fita anterior, reunindo os mesmos nove atores do elenco, Monica Calhoun, Terrence Howard, Sanaa Latham, Morris Chestnut, Melissa De Sousa, Taye Diggs, Nia Long, Harold Perrineau e Regina Hall. O roteiro é bem semelhante, e as situações se repetem com humor e leveza; enquanto no primeiro o encontro dos amigos se dava nos preparativos do casamento de um deles, agora tudo acontece no Natal. Eles irão compartilhar momentos engraçados (há muitas piadas sobre sexo), tristes notícias (um personagem adoecerá gravemente, para dar um tom dramático), além de pequenos segredos que serão colocados na mesa. O elenco envelheceu bem, os atores são bons, tem timing para a comédia, e nessa quase uma década e meia entre um filme e outro ganharam destaque na TV e no cinema - uns concorreram a Oscar, outros ganharam Emmy etc.


Representante do novo cinema negro, D. Lee fez desses filmes uma trilogia, que será encerrada em 2021 com “O casamento dos amigos indiscretos”. Ele está em pré-produção, com parte do elenco confirmada.
Lançado nos cinemas americanos em 2013, saiu no Brasil diretamente em home vídeo pela Universal. Bem humorada, romântica e com números musicais, dá para se fazer com essa fita passageira uma boa canja.

O natal dos amigos indiscretos (The best man holiday). EUA, 2013, 123 minutos. Comédia. Dirigido por Malcolm D. Lee. Distribuição: Universal Pictures

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Resenhas Especiais


O altar do diabo


Wilbur (Dean Stockwell) é um feiticeiro que elabora um plano diabólico para um ritual de fertilidade. Para tanto, precisa encontrar uma cópia fiel do Necronomicon, o livro sagrado dos mortos.

Produzido pelo lendário mestre do terror Roger Corman e baseado no conto “O horror de Dunwich”, de H.P. Lovecraft, o filme acaba de ganhar uma excelente cópia em DVD pela Versátil, que o lançou no box “Lovecraft no cinema – volume 3”, junto com três filmes, “A maldição do altar escarlate” (1968), “Herança maldita” (1995) e “Dagon” (2001).
Lovecraft (1890-1937) é ainda hoje um dos autores mais celebrados do terror moderno, responsável por popularizar o gênero na literatura com textos surpreendentes, abrindo o campo para mortos-vivos, demônios, criaturas sanguinárias, experiências sádicas, figuras míticas (por exemplo, o impronunciável Cthulhu) e bruxaria. “O horror de Dunwich”, publicado em 1929, integra o ciclo de Necronomicon (ou no original, em árabe, Al Azif), um livro fictício de magia negra criado pelo próprio autor, que contem rituais para ressuscitar os mortos. No conto original, a história se passa em 1913 no vilarejo de Dunwich, uma comunidade atrasada e supersticiosa. Wilbur é um dos moradores, um jovem que nasceu com feições de bode e espantosamente se desenvolve com rapidez. Ligado à feitiçaria, tem poderes sobrenaturais, e um dia conhece partes do Necronomicon. Começa ali sua jornada em busca do restante do livro para que possa prosseguir com um ritual de bruxaria. Grande parte dos acontecimentos e personagens permanecem nesse bom filme de gênero, originalmente da MGM, e pouquíssimo conhecido do público brasileiro.


Curiosamente este foi o primeiro trabalho de Curtis Hanson (1945-2016) no cinema; ele ajudou no roteiro, tinha então 24 anos, depois se tornou um diretor e produtor, ganhador do Oscar por “Los Angeles – Cidade proibida” (1997). Quem interpreta bem o diabólico protagonista, Wilbur, é Dean Stockwell, ex-ator mirim que fez dezenas de filmes e recebeu indicação ao Oscar de coadjuvante por “De caso com a máfia”. Há participação de Sandra Dee, atriz tipicamente do mundo das comédias românticas, muito confundida com Doris Day, além de aparições rápidas do lendário Ed Begley e da então estreante Talia Shire, irmã de Francis Ford Coppola, que logo se destacaria na trilogia “O poderoso chefão”.
Boa direção de Daniel Haller, de “Morte para um monstro” (1965) e “Buck Rogers no século 25” (1979), e uma excelente fotografia sombria. A forte sequência dos devaneios na cama de Sandra Dee lembram os pesadelos de Mia Farrow em “O bebê de Rosemary”, cujo tema do filme tem vaga semelhança.
Para os leitores de Lovecraft, uma opção altamente indicada.

O altar do diabo (The Dunwich horror). EUA, 1970, 88 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Daniel Haller. Distribuição: Versatil


A maldição do altar escarlate

Um antiquário (Mark Eden) viaja até uma velha mansão no campo que pertenceu à família para buscar respostas sobre o desaparecimento do irmão. Percebe uma grande movimentação de pessoas desconhecidas até descobrir que esses convidados vieram para participar de um ritual de bruxaria.

Adaptação para o cinema do conto “Sonhos na casa da bruxa” (1933), de H.P. Lovecraft, mestre da literatura de horror americana, reunindo, nesse filme de baixo orçamento, três nomes famosos do terror britânico: Christopher Lee, Barbara Steele (no papel da bruxa de Greymarsh, com uma maquiagem irreconhecível e adornos super chamativos) e o maior de todos, Boris Karloff (em seu antepenúltimo trabalho – ele ficou doente durante as gravações, em muitas sequências o vemos na cadeira de rodas, e morreria no ano seguinte, 1969).
É uma fita instigante de medo e mistério, sobre satanismo, bruxaria e afins. Tem sacrifícios humanos, bode, magia negra, mortes macabras, resumindo, elementos que não poderiam faltar no mundo lovecraftiano. Atenção para a fotografia de cores alucinantes, com predominância dos tons vermelhos, excepcional para compor o ambiente sórdido dos rituais.


Produzida pela Tigon, que ao lado da Hammer e da Amicus, dominou a produção de filmes de terror no Reino Unido dos anos 60 e 70.
Pouca gente ouviu falar - lembro que na minha infância chegou a ser exibido numa sessão noturna em canal aberto, época que o assisti pela primeira vez. Agora pude rever numa cópia decente. Está disponível em DVD pela Versatil, dentro do box “Lovecraft no cinema – volume 3”, lançado em 2019; na caixa vem “O altar do diabo” (1970), “Herança maldita” (1995) e “Dagon” (2001). Se puder veja todos!

A maldição do altar escarlate (Curse of the Crimson Altar/ The Crimson Cult). Reino Unido, 1968, 87 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Vernon Sewell. Distribuição: Versatil


sábado, 4 de janeiro de 2020

Nota do Blogueiro


Dois boxes especiais lançados recentemente pela distribuidora Obras-Primas do Cinema. Presentão para os cinéfilos!
Na caixa "Coleção Amicus Productions - volume 2", seis fitas de horror britânicas dos anos 60 e 70, produzidas pela Amicus; tem aqui "O asilo do terror" (1972), "As profecias do Dr. Terror" (1965), "Vozes do além" (1974), "A fera deve morrer" (1974), "A picada mortal" (1966) e "O soro maldito" (1971). 
E no box "Ingrid Bergman", quatro filmes de início de carreira da famosa estrela sueca ganhadora de três Oscars: "O grande pecado" (1935), "Intermezzo" (1936), "A mulher que vendeu a alma" (1938) e "Uma noite em junho" (1940).
Há muitos extras em ambos os boxes, além de cards colecionáveis contendo os pôsteres originais dos filmes.
Valeu, pessoal da OPC, pelo envio! :)




Resenha Especial



El Camino: Um filme de Breaking Bad

O traficante Jesse Pinkman (Aaron Paul), que produzia metanfetamina com o comparsa Walter White, foge do cativeiro onde ficou preso por dias. Ele busca novos rumos para recomeçar a vida. Mas para isso terá de se reconciliar com o passado, marcado por brutalidades. Enquanto Jesse retorna aos poucos à rotina, ex-aliados e antigos criminosos querem a todo custo sua cabeça.

A provedora Netflix, em parceria com a Sony Pictures Television, arriscou produzir um filme da premiada série televisiva “Breaking Bad” (2008-2013, da AMC), para solucionar fatos que ficaram em aberto com os personagens das cinco temporadas, e, claro, dar um destino melhor para Jesse Pinkman (muita gente reclamou na época sobre a abrupta fuga dele do cativeiro). Os fãs da série pediam desde 2013 pelo menos um novo capítulo como desfecho, até que foram saciados, seis anos depois, com esse ótimo filme de ação, violento e derradeiro.
Com cara de epílogo, parece um episódio esticado (era para ter três horas de duração, mas cortaram para duas). Começa com um resumo (de quatro minutos) de todas as temporadas, chamado de “A história até agora”, e parte da fuga alucinada de Pinkman num carro sozinho. Ele assume o protagonismo do professor e mentor Walter White (Bryan Cranston), para ser agora o dono da história, com os holofotes virados para ele. Compõe, com proveitosa condição, um grande personagem solitário, em busca de redenção. Para se reconciliar com o passado de erros, dor, sofrimento e perseguições, ele terá pela frente diversos encontros com velhos rostos, todos ligados ao submundo do crime. Seu objetivo é sair vivo dessa para viver em paz...
Cheio de easter eggs inteligentes (como placas, lugares, uniformes, veículos) e rostos conhecidos da série vencedora de dois Globos de Ouro, o filme ganha uma força descomunal graças a Vince Gilligan, criador do seriado, que assumiu a direção, não deixando nada para trás - ele é também produtor executivo tanto de “Breaking Bad” quanto de “Better call Saul”, que fala das origens do advogado de Walter White, Saul Goodman, ou seja, o que ocorre antes de “Breaking”.


O filme fica melhor para entender se assistirmos antes aos dois últimos episódios da 5ª. temporada, que tem forte ligação com os eventos de “El Camino”. Fica a dica!
Novamente Aaron Paul dá um show de interpretação como Jesse Pinkman, num papel mais dramático que de costume. Vale lembrar que sua carreira alavancou com “Breaking Bad”, pelo qual foi indicado ao Globo de Ouro de ator coadjuvante na temporada final.
Retornam ao filme os personagens Mike (Jonathan Banks), Todd (Jesse Plemons), Ed (Robert Forster – falecido aos 78 anos, no dia que “El Camino” estreou no Netflix, em 11 de outubro de 2019) e Sra. Pinkman, mãe de Jesse (Tess Harper). Não vou estragar a surpresa, mas tem outro personagem especial revelado bem no finalzinho...
Várias séries ganharam, depois do término das temporadas, filmes próprios, como “24 horas” e “Veronica Mars”, surpreendendo os fãs. “El Camino” está nessa lista, e é um dos melhores exemplos de como TV e cinema podem andar juntos. 

El Camino: Um filme de Breaking Bad (El Camino: A Breaking Bad Movie). EUA, 2019, 122 minutos. Policial/Drama. Colorido. Dirigido por Vince Gilligan. Distribuição: Netflix

Resenha Especial



O mistério de God’s Pocket

Mickey Scarpato (Philip Seymour Hoffman) é padrasto de um jovem delinquente morto em um estranho acidente em uma construção. A esposa de Mickey, Jeanie (Christina Hendricks), mãe do rapaz falecido, exige que ele investigue a verdade por trás daquele ocorrido. Jeanie não desconfia que tanto Mickey quanto a pacata cidade de God’s Pocket guardam segredos obscuros.

O ator Philip Seymour Hoffman se despediu do cinema nesse bom filme independente de drama e ação, lançado em 2014. De início, interpretaria um personagem secundário, Richard Shellburn (que ficou para Richard Jenkins), porém acabou assumindo o papel principal, de Mickey, o padrasto com comportamento dúbio, que investiga a morte do enteado a pedido da esposa, que é mãe do garoto morto. Hoffman mantém o brilho de sempre num papel difícil, de um homem decadente - ganhador do Oscar por “Capote” (2005) e indicado a outros três prêmios da Academia de Hollywood, faleceu em fevereiro de 2014, aos 46 anos, vítima de overdose.
Também foi o primeiro filme escrito e dirigido pelo ator John Slattery, criador da série “Mad Men” (2007-2015). Com um orçamento reduzido, de U$ 1 milhão, fez bem com pouco! Adaptou para as telas um romance da década de 80 de Pete Dexter, autor das obras policiais “Paris Trout” e “Obsessão”, que viraram filmes, convidando um elenco ilustre, que se entregou a papeis duros, como Christina Hendricks, Eddie Marsan, Caleb Landry Jones, Jack O’Connell e John Turturro, e gravou tudo em 24 dias. Pena que o filme naufragou nas bilheterias americanas (no Brasil nem chegou a passar no cinema, saiu direto em DVD pela Universal, em 2014).


Típica fita para público restrito, suja, violenta, mostra o submundo aterrador em uma pacata cidade, que tenta encobrir um crime. A história tem pitadas de humor negro e é contada durante três dias, relacionando uma teia de personagens, como operários, apostadores, policiais, donos de bares e cidadãos comuns, em situações enganadoras, algumas que fogem do controle. A fotografia escura ajuda a conduzir a atmosfera decadente desse ambiente corrosivo.
Revi ontem depois de assisti-lo em 2014, e o filme continua um filmão de gente grande!
Indicado ao Grande Prêmio de Júri em Sundance, em 2014.

O mistério de God’s Pocket (God’s Pocket). EUA, 2014, 88 minutos. Drama/Policial. Colorido. Dirigido por John Slattery. Distribuição: Universal Pictures