domingo, 24 de maio de 2020

Cine Lançamento - Em DVD



O bar Luva Dourada

Um serial killer chamado Fritz Honka (Jonas Dassler) ataca prostitutas num bairro boêmio de Hamburgo nos anos 70.

A distribuidora com foco em fitas cult Imovision lançou uma campanha na internet no início do mês que mobilizou os colecionadores do Brasil todo: aproveitando o reaquecimento do mercado de DVDs no país, a partir de agora ela relançará filmes que estavam fora de catálogo e também trará em DVD fitas premiadas recém-exibidas nos cinemas. A primeira remessa com novos títulos contém “O paraíso deve ser aqui” (2019), “Encontros” (2019) e o polêmico “O bar Luva Dourada” (2019).
A partir de uma horrenda história real, esse filme de drama com toques de horror, já aviso, é forte, com cenas chocantes de esquartejamento de mulheres, que causou mal-estar no Festival de Berlim, onde foi indicado ao Urso de Ouro no ano passado.
No centro da cena está o sádico serial killer Fritz Honka (1935-1998), que aterrorizou Hamburgo no início dos anos 70. Ele frequentava um bar, “Luva Dourada”, próximo ao distrito da luz vermelha, que reunia a escória da cidade, como bêbados doentes e prostitutas velhas (sua obsessão). Convidava essas mulheres para seu apartamento miúdo, um lugar sujo, onde, com ou sem sexo, as matava com crueldade, cortando-as em pedacinhos com uma serra. Partes dos corpos ele armazenava em casa, num compartimento na cozinha, outros eram espalhados por terrenos baldios vizinhos. Em quatro anos Honka matou pelo menos quatro vítimas – mas a polícia acreditava em mais de 10.
É deprimente ver as cenas de assassinato, o grau de insanidade e loucura que atingia aquele homem (ele era misógino, alcoólatra, deformado, com temperamento explosivo), e a quantidade de gente decrépita que o cercava. Há uma ou duas tramas paralelas menores, mas a gente até esquece delas, pois marcante mesmo é o serial killer em ação (novamente reforço, as sequências de morte podem impressionar).


A ambientação, por meio de cenários, segundo mostra o making of que tem no DVD, ficou idêntica à Hamburgo suja dos anos 70, num trabalho meticuloso de construção de cena. Outro ponto alto é a maquiagem: o bonito ator alemão Jonas Dassler, de apenas 23 anos, passou por um processo rigoroso de makeup (que devia ter sido indicada ao Oscar) para envelhecer quase duas décadas (na época do filme o assassino teria por volta de 38 anos) – para assemelhar-se ao real Honka precisou de lentes de contato para deixá-lo estrábico, além de um nariz postiço torto e dentes podres.
Um filme violento, pra baixo, para público específico, um genuíno estudo de misoginia e perversidade sob a estética do horror.
É mais um trabalho de impacto do cineasta alemão Fatih Akin, nascido em Hamburgo, o mesmo de “Em pedaços” (que tratava de terrorismo). Produção original da Warner Bros, com distribuição da Pathé, lá fora, aqui no Brasil está sob os direitos da Imovision.

O bar Luva Dourada (Der Goldene Handschuh). Alemanha/França, 2019, 115 minutos. Drama/Terror. Colorido. Dirigido por Fatih Akin. Distribuição: Imovision

sábado, 23 de maio de 2020

Cine Clássico



O valente treme-treme

O dentista Peter Potter (Bob Hope) vai tentar a sorte no Velho Oeste. Mal chega na cidade, conhece uma brava pistoleira, Calamity Jane (Jane Russell). Ela quer descobrir quem vende armas aos índios, e para isso pede ajuda ao dentista. Os dois fingem um casamento, e Potter, que é medroso, bota panca de valente para ajudar Jane em seus objetivos. No caminho a dupla ficará diante de uma série de atrapalhadas e perigos envolvendo pistoleiros, índios e xerifes armados.

Uma das minhas comédias preferidas da Era de Ouro de Hollywood, também um dos maiores sucessos na carreira de Bob Hope, astro da TV e do cinema americano entre os anos 40 e 60, que faleceu em 2003 aos 100 anos! Lembro de tê-la assistido pela primeira vez quando pequeno, numa sessão de madrugada na TV aberta, na metade dos anos 90, e me marcou a sucessão de confusões e atrapalhadas do personagem principal fugindo de índios e homens durões no Velho Oeste.
Bob Hope tinha um timing perfeito para a comédia, aqui ele interpreta um dentista medroso, meio doido, que precisa ser valente quando se une a uma figura lendária do Oeste selvagem, a pistoleira Jane Calamidade (Calamity Jane existiu mesmo, viveu na região de Dakota do Sul, guiou grupos de pistoleiros contra os ameríndios, morrendo aos 50 anos em 1903). É uma brincadeira descompromissada com essa real personagem, e quem a interpreta, compondo um tipo desconstruído, sensual, é Jane Russell, a famosa morena “matadora” do cinema americano dos anos 40 e 50, um autêntico sex symbol e furacão em cena – Jane atuou em vinte e cinco filmes, sendo o mais lembrado “Os homens preferem as loiras” (1953, ao lado de Marilyn Monroe). Hope e Jane têm uma química estrondosa, compartilham as emoções fazendo o público cair na risada. Prepare-se para altas aventuras, peripécias malucas e muito humor!


Ganhador do Oscar de canção (“Buttons and bows”), essa clássica comédia western teve uma continuação muito bacana em 1952, “O filho do treme-treme”, com o mesmo elenco.
Saiu em DVD há muitos anos pela Colecione Clássicos, que depois virou a distribuidora Obras-Primas do Cinema.

O valente treme-treme (The paleface). EUA, 1948, 89 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por Norman Z. McLeod. Distribuição: Colecione Clássicos (hoje Obras-Primas do Cinema)

Cine Cult



Amaldiçoada

Liz (Dakota Fanning) é uma jovem que passa a ser perseguida por um reverendo diabólico (Guy Pearce). Ao lado da família, transita pelos quatro cantos do país, na tentativa de fuga, mas o mal a persegue por todos os caminhos.

Está aí uma excelente fita cult que mistura gêneros e no final das contas é curiosa, original e macabra. Tem suspense, drama, toques de terror e mistério, a protagonista Dakota Fanning num de seus melhores trabalhos, assim como Guy Pearce num papel duro, maquiavélico (dá raiva de seu personagem, um verdadeiro diabo no corpo de homem). Quem conhece o clássico “O mensageiro do diabo” (1955, com Robert Mitchum), pode encontrar semelhanças boas – em ambos os filmes, há um reverendo sinistro que persegue a todo custo um grupo de pessoas aparentemente inocentes, deixando um rastro de sangue por onde passa.
Detesto esse título genérico, “Amaldiçoada”, que remete a tantas produções B de terror... aqui o horror é subcutâneo, o drama é mais intenso, e o suspense cresce em cada passo que a personagem principal dá. Classifico como um conto de medo em tom épico, no formato de saga, que dialoga com o machismo e à violência contra mulheres.


Indicado ao Leão de Ouro em Veneza e a 22 prêmios internacionais em festivais do mundo inteiro, o longa é um achado para quem curte histórias bem escritas – destaque para a fotografia sombria, do holandês Rogier Stoffers, de “Contos proibidos do Marquês de Sade” (2000). Uma curiosidade é a participação de dois atores de “Game of thrones” (Kit Harington e Carice Van Houten), aliás, em dado momento a direção de arte lembra o famoso seriado.
Escrito e dirigido pelo holandês Martin Koolhoven, de “AmnesiA” (2001), essa coprodução foi realizada entre sete países – Estados Unidos, Reino Unido, Holanda, Alemanha, Suécia, Bélgica e França. Recomendo assistir!

Amaldiçoada (Brimstone). EUA/ Reino Unido/ Holanda/ Alemanha/ Suécia/ Bélgica e França, 2016, 148 minutos. Suspense/Ação. Colorido. Dirigido por Martin Koolhoven. Distribuição: California Filmes

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Nota do Blogueiro


Faleceu hoje aos 94 anos o ator Michel Piccoli, um dos maiores nomes do cinema da França. Ele se recuperava de um AVC.
Com uma sólida carreira de 70 anos no cinema, atuou em mais de 200 produções, com destaque para "O desprezo" (1963), "Paris está em chamas?" (1966), "A bela da tarde" (1967), "As coisas da vida" (1970), "A comilança" (1973), "O fantasma da liberdade" (1974), "A bela intrigante" (1991) e "Habemus papam" (2011). Recebeu prêmio de melhor ator em Cannes pelo filme "Salto nel vuoto" (1980) e em Berlim por "Une étrange affaire" (1981).
De origem italiana, Piccoli também foi diretor, produtor e roteirista. Deixa esposa e uma filha.


sábado, 16 de maio de 2020

Viva Nostalgia!



Queridinha do vovô

Priscilla (Shirley Temple), uma garotinha, viaja para a Índia para morar com a mãe em um forte chefiado pelo avô, integrante da alta patente do Exército Britânico. Meiga e agitada, cativa os militares para um acordo de paz com os indianos.

Diretor profícuo dos mais variados gêneros no cinema, consagrado em western, realizador de épicos, dramas biográficos, filmes “Family”, fitas de guerra, comédia mordaz (ufa!), o norte-americano John Ford (1894-1973) viveu intensamente dedicando-se à Sétima Arte. Não por acaso inspirou um monte de cineastas e ainda hoje é mencionado como um dos 10 maiores gênios da arte cinematográfica de todos os tempos. Difícil encontrar um filme ruim dele, hein (meus preferidos, “No tempo das diligências”, “As vinhas da ira”, “Como era verde o meu vale”, “Mogambo”, “Rastros de ódio” e “Queridinha do vovô”, este aqui, muito exibido na TV aberta).
Nostálgico, é uma aventura agradabilíssima para toda a família assistir reunida, que traz no elenco a estrela mirim Shirley Temple (então com nove anos), num de seus papéis mais bonitinhos e lembrados pelo público. Interpreta uma garotinha que, com seu jeito esperto, movimenta o Exército para um acordo de paz com a Índia (o enfoque do filme é histórico, se passa em 1897, quando a Índia era colônia do Reino Unido). Ao lado da pequenina atriz (Shirley morreu em 2014, aos 85 anos) atuam grandes figuras do cinema, como o ganhador do Oscar Victor McLaglen, C. Aubrey Smith e Cesar Romero.


Quatro roteiristas ajudaram a escrever a história (o que era comum antigamente), dentre eles Ernest Pascal e Julien Josephson, adaptando-a de um conto infantil do indiano Rudyard Kipling, o criador de Mogli.
Todo rodado num rancho da Califórnia, que faz lembrar aspectos da Índia, a aventura concorreu ao Oscar de direção de arte.
Não deixe de se divertir com Shirley Temple em “Queridinha do vovô”, em DVD pela antiga Colecione Clássicos (hoje Obras-primas do Cinema).

Queridinha do vovô (Wee Willie Winkie). EUA, 1937, 100 minutos. Aventura/Comédia. Preto-e-branco. Dirigido por John Ford. Distribuição: Colecione Clássicos (atual Obras-primas do Cinema)

Resenha Especial



Inverno de sangue em Veneza

Abalados com a trágica morte da filha pequena, que se afogou num lago, John (Donald Sutherland) e Laura (Julie Christie) mudam-se para Veneza. Ele vê estranhas aparições, enquanto uma série de crimes brutais amedrontam os moradores da cidade italiana. O ocasional encontro num restaurante com uma médium cega colocará John e Laura frente a frente com o provável espírito da filha morta.

Os elementos fundamentais do terror psicológico estão dentro desse cult movie britânico denso, perturbador, que sempre considerei um dos melhores trabalhos do gênero no cinema. Para alguns pode ser uma experiência dura, atordoante, causar mal-estar, já que trabalha com temas ligados ao sobrenatural, ao inexplicável, ao oculto, ao obscuro, envolvendo morte de criança (a garotinha do filme morre afogada num lago na casa da família).
Na época não foi bem recebido pelas pessoas, daí a motivação cult, evitado em premiações - chegou apenas a ganhar o Bafta de fotografia (que é um delírio visual, com imagens assumidamente oníricas e cores berrantes, que exploram uma Veneza suja, de vielas escuras, e suas dezenas de canais de água; aliás, a água torna-se elemento marcante no filme, reparem), e concorreu em outras seis categorias do mesmo prêmio, como ator, atriz, filme e direção.


Vale-se de um roteiro complexo, que vai do terror ao drama, com pistas falsas, investigação e um desfecho desconcertante e memorável – o roteiro foi baseado num conto de Daphne du Maurier, a autora de “Rebecca, a mulher inesquecível” (1940), e escrito pelo britânico Allan Scott, que trabalhou em parceria com o diretor Nicolas Roeg em outros filmes, como “A convenção das bruxas” (1990).
Sombrio e com um lado macabro, é um terror dos mais curiosos do cinema. Impossível sair indiferente da sessão!
Em DVD pela New Line (sem extras) e pela Versátil (com vários extras, como making of, depoimentos e especiais sobre o filme).

Inverno de sangue em Veneza (Don’t look now). Reino Unido/Itália, 1973, 109 minutos. Suspense/Terror. Colorido. Dirigido por Nicolas Roeg. Distribuição: New Line Home Video (DVD de 2012) e Versátil Home Video (DVD de 2013)

Cine Lançamento (No Netflix)



Secreto e proibido

Um casal de mulheres esconde o relacionamento da família por décadas. Elas são a jogadora de baseball Terry Donahue e a companheira Pat Henschel, que viveram juntas por sete décadas superando uma longa trajetória de medo e preconceito nos Estados Unidos.

Os documentários produzidos pelo Netflix contêm as melhores narrativas do streaming atual, com histórias de vida fortes, que abrem um campo enorme para reflexões, cuidadosamente escritos, dirigidos e editados. “Secreto e proibido” é um desses seletos projetos cinematográficos do Netflix, que estreou em todo o mundo na plataforma no dia 29 de abril, com ótimo elogio do público e da crítica (mas muita gente ainda desconhece). Posso dizer que é uma pérola magnífica (a ser desvendada, assim espero).
Sensível, tem uma temática LGBT super diferente, pois trata de duas personagens idosas. Narra o amor vivido sob sombras de duas mulheres americanas, iniciado no final dos anos 40 e que durou mais de setenta anos. De um lado estava a jogadora de baseball Terry Donahue, do outro, a companheira Pat Henschel, que tiveram de esconder o relacionamento da família quase que a vida inteira. Afirmando serem amigas próximas, mudaram-se de casa para morar juntas na juventude – e recorreram à mentira para se prevenir de preconceitos (estamos falando dos Estados Unidos, um país extremamente intolerante, e das décadas de 50 e 60, anterior aos movimentos de direitos humanos, civis, de defesa dos gays etc). O tempo passou, hoje cada uma com seus mais de oitenta anos enfrentam problemas diversos de saúde (Terry desenvolveu Parkinson, faleceu em 2019, poucas semanas antes do término das filmagens, enquanto Pat, agora sozinha, tem sérias debilitações de locomoção). Quanto à família de ambas, você vai descobrir a reação delas quando o casal contou a verdade (não vou dar spoiler).


O filme é incrível na forma de narrar essa jornada de descobertas, revelações, sobre “sair do armário” mesmo com a idade pesando nas costas das personagens. Emociona bastante, portanto, carregue consigo um lencinho!
Tem a assinatura do produtor Ryan Murphy (ganhador de seis Emmys), que criou séries aclamadíssimas, premiadas, que caíram no gosto do público, algumas com forte apelo gay, como “American Horror Story”, “Glee”, “Pose”, “Feud” e do recente lançamento do Netflix “Hollywood”.

Secreto e proibido (A secret love). EUA, 2020, 81 minutos. Documentário. Colorido. Dirigido por Chris Bolan. Distribuição: Netflix

terça-feira, 12 de maio de 2020

Nota do Blogueiro


Live de Cinema

Hoje tem live de cinema, dessa vez com a querida jornalista especializada em cinema Clarissa Kuschnir! Será das 18h às 19h em nosso Instagram - @felipebosobrida e @clarissakuschnir. Veja lá, acompanhe, participe!! 🎞📽😃