domingo, 13 de outubro de 2019

Lançamento - Netflix



Campo do medo

Dois irmãos entram em um vasto matagal quando escutam o grito de socorro de uma criança vindo de lá. Sem ninguém por perto e sem localizar o garoto, descobrirão um segredo horripilante envolvendo uma rocha negra, corpos em decomposição e um estranho homem sujo de sangue.

Terceira produção original do Netflix baseada em um livro de Stephen King, o mestre do horror contemporâneo – “Campo do medo” é bom, dá uns sustos danados, porém os anteriores são melhores, “Jogo perigoso” (2017, de uma mulher algemada na cama tentando fugir) e “1922” (lançado um mês depois de “Jogo perigoso”, em 2017, sobre um fazendeiro que bola um plano para matar a família inteira - e assim como “Campo do medo” se passa numa área rural, com direito a um matagal). Este exemplar regular de horror veio do romance homônimo “In the tall grass”, escrito por King com a colaboração de seu filho, Joe Hill, e publicado nos Estados Unidos em 2012.
Repare em cada detalhe pois a história é cheia de segredos. Passa-se no Kansas (o filme é canadense e foi gravado em Toronto), num extenso matagal verde que aos poucos se transforma em um macabro labirinto. Sussurros, vozes, aparições irão perturbar os cinco personagens da trama de horror e mistério: a protagonista, uma jovem grávida (interpretada por Laysla de Oliveira, atriz canadense filha de pais brasileiros, ainda pouco conhecida), o irmão dela (Avery Whitted, um jovem ator em seu segundo filme), um garotinho que grita por socorro (Will Buie Jr), um rapaz que chega e se perde no mato (Harrison Gilbertson, de “Fallen”) e por fim um homem misterioso, sujo de sangue, que tenta ajudar os outros a sair de lá (Patrick Wilson, de “Invocação do mal”). Como de praxe nas obras de King, é terrorzão de alto nível, e elementos certeiros (e inusitados) pipocam na tela; tem uma rocha negra (prima distante do monólito de “2001: Uma odisseia no espaço”), cadáveres nojentos, a vegetação que se move e parece observar os humanos, vultos do nada e mortes brutais. Inseriram, para dar clima, uma trilha sonora tensa, apropriada ao cinema de horror, de Mark Korven (o mesmo de “A bruxa”).


Stephen King é campeão de venda de livros pelo mundo afora, e quase todos os filmes adaptados de suas obras dão certo. Este aqui é um deles, que recomendo aos fãs do gênero (estreou no Netflix em 4 de outubro). Não é tão complexo como aparenta, o desfecho é enxuto e amarra os pontos que parecem ficar soltos. Uma realização do diretor Vincenzo Natali, que já mexeu com cinema scifi – escreveu e dirigiu o enigmático “Cubo” (1998), além de “Splice: A nova espécie” (2009), e ainda dirigiu episódios de séries de mistério e terror como “Hemlock Grove”, “Hannibal”, “Wayward Pines”, “The strain” e “Westworld”.

Campo do medo (In the tall grass). Canadá, 2019, 101 minutos. Horror. Colorido. Dirigido por Vincenzo Natali. Distribuição: Netflix.

Resenha Especial



Últimos dias no deserto

Jesus (Ewan McGregor) vaga pelo deserto, peregrinando rumo a Jerusalém. Encontra pelo caminho um garoto (Tye Sheridan) cuja mãe está doente, e que possui um relacionamento complicado com o pai (Ciarán Hinds). Jesus então acompanha essa família ao mesmo tempo que lida com a tentação do Diabo, que aparece a ele de diversas formas.

Livre reconstituição dos últimos dias da vida de Jesus, quando vagou em jejum pelo deserto antes de sua missão final ao retornar a Jerusalém. Filosófico, com narrativa lenta (por isso uma fita cult), é um drama sério para público adulto, com um ponto de vista de um Jesus diferente de tudo que já vimos no cinema. Em um tour-de-force incrível, o ator escocês ganhador do Globo de Ouro Ewan McGregor, de “Trainspotting: Sem limites” (1996) e “Moulin Rouge: Amor em vermelho” (2001), encarna um Jesus solitário, indeciso, no calor infernal do deserto. Naquele território hostil, aproxima-se de uma família cheia de problemas, os únicos viventes que vê por ali – o pai, um marceneiro (Ciarán Hinds, que eu adoro), o filho adolescente em crise (maltratado pelo pai e que quer ir embora da região), e a mãe do rapaz, doente, no leito de morte. Jesus opta em ajudá-los nos afazeres diários, enquanto o diabo aparece a ele inúmeras vezes – como na forma de uma velha pedinte e também como reflexo de sua própria imagem, quando dialoga com seu lado mais sombrio. Não é uma obra brilhante ou derradeira sobre Cristo, mas tem sua importância pela realização diferenciada, além de ter seus apreciadores, como eu. Uma proeza do diretor Rodrigo García, colombiano, que também escreveu o roteiro adaptando passagens bíblicas com momentos ficcionais; ele é filho do maior escritor do seu país, Gabriel García Márquez, e estreou no cinema com um drama que chamou a atenção da crítica na época, “Coisas que você pode dizer só de olhar para ela” (2000); instalado nos Estados Unidos, realizou filmes dramáticos fora das convenções hollywoodianas, como “Destinos ligados” (2009), até atingir o melhor momento da carreira com o excepcional “Albert Nobbs” (2011). “Últimos dias no deserto” (2015) se insere com notoriedade na filmografia do bom cineasta, um criador de histórias que merece ser descoberto!


Rodado no deserto de Anza-Borrego, em Borrego Springs, na Califórnia (que remete ao deserto real da Judeia), o filme tem uma fotografia deslumbrante, assinada pelo mexicano Emmanuel Lubezki, três vezes ganhador do Oscar (venceu três anos seguidos, por “Gravidade”, “Birdman” e “O regresso”).
Exibido em sessão especial no Festival de Sundance, dividiu a opinião do público, e é indicado para quem gosta de filmes com tema religioso – segue a linha do novo “Maria Madalena” (2018), a versão de Garth Davis que causou polêmica; em ambos há uma desconstrução dos personagens centrais, que podem gerar burburinho.

Últimos dias no deserto (Last days in the desert). EUA, 2015, 98 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Rodrigo García. Distribuição: Mares Filmes. Disponível em DVD e no Netflix

sábado, 12 de outubro de 2019

Nota do Blogueiro


Bom dia, amigos! Hoje, dia 12/10, a convite do jornal O Regional, de Catanduva, retorno com minha coluna "Cinema em Foco" (que mantive lá entre 2009 e 2013 - e na mesma época tive o quadro de mesmo nome na rádio Band FM e depois na Globo AM). Todo sábado no caderno de Cultura trarei resenhas de filmes variados (terá um pouco de tudo, filmes clássicos, filmes do Netflix, em DVD, cult movies etc). A mesma coluna existe também na Vox FM onde comento sobre filmes. Acompanhem lá, comentem, interajam! :) ✌📽🎞🎥



quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Viva Nostalgia!



Braço de diamante

Semyon (Yuriy Nikulin) é um cidadão soviético que retorna à URSS após um cruzeiro. Ele carrega, sem saber, moedas valiosas e diamantes no gesso que protege seu braço, após ter sofrido uma queda. Bandidos fizeram isso para contrabandear joias, passando a seguir o coitado. No entanto um capitão de polícia suspeita do caso e utiliza Semyon como isca para capturar a organização criminosa.

Comédia soviética de enorme sucesso na URSS na época, “Braço de diamante” saiu em DVD no Brasil pela CPC-Umes Filmes numa cópia excelente, que comprova a qualidade dos filmes produzidos lá nas décadas de 60 e 70 (e infelizmente pouco visto no Brasil). Dividido em duas partes, com prólogo e epílogo, o filme é um pastelão afinado com crítica social – a primeira parte dura praticamente o filme inteiro, intitulada “Diamante que não se vê”, quando se apresenta o protagonista (o ótimo ator Yuriy Nikulin), um cidadão comum viajando num cruzeiro e se encontrando com diversos tipos no navio, dentre eles um impostor, e a partir tem-se início as aventuras com seu braço de diamante; e a segunda parte, nos minutos finais, quando os malfeitores tentam subtrair as joias do personagem principal.
Produzido pelo maior estúdio da Rússia, Mosfilm (ele ainda sobrevive), tem direção e roteiro de Leonid Gayday, realizador de comédias em tom farsesco, com aventura e um ritmo acelerado, muitas delas campeã de audiência na URSS, como “As 12 cadeiras” (1971, que teve diversas versões, inclusive uma brasileira, com Oscarito). “Braço de diamante” possui estrutura, narrativa e roteiro semelhante a “As 12 cadeiras”, sobre roubo de joias, uma espécie de farsa moderna que dialoga com o inusitado e o surreal, sem contar o elenco sendo repetido (como Yuriy Nikulin e Nina Grebeshkova, esposa do diretor na vida real).


Mistura gêneros, tem até números musicais cantados pelos próprios atores em cena e sequências inventivas – destaco a da pescaria e a do sonho, com uso estridente de filtros vermelhos. A trilha sonora é marcante, com ritmo frenético, do compositor Aleksandr Zatsepin, que compôs a de todos os filmes de Gayday.
Preste atenção nos detalhes desse roteiro anárquico, cheio de ciladas, corre-corre com espiões, que funciona bem – ele foi escrito por Gayday e dois roteiristas parceiros dele, Moris Slobodskoy e Yakov Kostyukovskiy.

Braço de diamante (Brilliantovaya ruka). URSS, 1969, 94 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por Leonid Gayday. Distribuição: CPC-Umes Filmes


O cão dos Baskervilles

Sherlock Holmes (Alwin Neuß) investiga a estranha morte de um milionário inglês chamado Charles Baskerville, ocorrida próximo a um pântano pertencente ao solar de sua família. Moradores da região acreditam que a vítima foi morta por um cão fantasma que assombra a região e que o mesmo assassinara gerações da família Baskerville.

Uma das primeiras versões para o cinema do romance policial “O cão dos Baskerville”, do escritor e médico Sir Arthur Conan Doyle, publicado em 1902 e que se tornou o livro mais conhecido com o personagem do investigador britânico Sherlock Holmes. O filme é uma adaptação do livro e da peça de Richard Oswald (roteirista, produtor e diretor austro-húngaro, que realizou filmes na Alemanha e nos Estados Unidos, inclusive dirigiu uma das versões de “O cão dos Baskerville”, de 1929).
Considerado perdido, essa produção alemã de 1914 foi reconstruída em 2005 a partir de uma cópia com cenas deterioradas, que estavam em Moscou. É um típico exemplar do cinema mudo, tão distante do que vivemos hoje: preto-e-branco, com trilha no fundo, cenas rápidas, variedade de filtros (dourado, roxo, azul), entremeadas por caixas de textos que explicam passagens e situações. Ou seja, uma relíquia cinematográfica para apreciadores, somente agora disponibilizada no Brasil, numa cópia boa para os padrões da época.
É uma história policial com suspense e que incursiona pelo terror sobrenatural – Sherlock investiga um caso de assassinato possivelmente envolvendo um cachorro diabólico, que aparece pelo pântano e some sem deixar vestígios. No meio da trama haverá outros conflitos do universo de Holmes, como disputa de bens materiais do falecido, traições etc
Houveram dezenas de versões do livro, as mais famosas são a norte-americana de 1939, de Sidney Lanfield, com Basil Rathbone, e a britânica de 1959, dirigida por Terence Fisher, com Peter Cushing e Christopher Lee; teve até no gênero da comédia, além de telefilmes e minisséries. Esta aqui, de 1914, é curiosa e pouco conhecida; foi dirigida e produzida por Rudolf Meinert, um cineasta austro-húngaro dos primórdios do cinema, de origem judia, que realizou muitos filmes na Alemanha entre 1913 e 1935. Morreu os 60 anos no Holocausto, quando levado ao campo de concentração de Majdanek, na Polônia, em 1943.


Saiu no box “Sherlock Holmes no cinema mudo”, lançado mês passado pela Obras-primas do Cinema, contendo duas versões de “O cão dos Baskerville” (1914 e 1929) e duas de “Sherlock Holmes” (1916 e 1922). Nos discos, muitos extras e também acompanham cards.

O cão dos Baskervilles (Der hund von Baskerville). Alemanha, 1914, 65 minutos. Suspense. Preto-e-branco. Dirigido por Rudolf Meinert. Distribuição: Obras-primas do Cinema

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Resenha Especial



Marguerite & Julien: Um amor proibido

França, virada do século XVI para o XVII. Os irmãos Marguerite (Anaïs Demoustier) e Julien de Ravalet (Jérémie Elkaïm) cresceram juntos com uma grande afinidade. Na adolescência apaixonam-se perdidamente e iniciam um relacionamento que escandaliza a aristocracia da época. Sob pressão, os dois fogem para viverem juntos, porém são perseguidos pela família com ajuda da polícia.

Empregando uma câmera distanciada e um ritmo lento, a cineasta Valérie Donzelli, de “A guerra está declarada” (2011), recriou um fato verídico com desfecho trágico sobre um caso de incesto que abalou a França no século XVI, envolvendo dois irmãos nascidos em uma família aristocrata. Eles são Marguerite e Julien de Ravalet, uma espécie de “Romeu e Julieta”. Quando crianças, já tinham uma relação próxima, prometeram um ao outro amor eterno. Passados os anos, na juventude, isto se transformou em uma paixão proibida. Mantiveram por várias ocasiões encontros amorosos às escondidas, desafiando principalmente Marguerite, que iria se casar; quando flagrados, fugiram para viverem juntos. E daí são alvo da polícia, de um padre moralista que os acusam de um crime irremediável e por fim da família desesperada. O romance do casal de irmãos terminou de forma brutal, com violência, e o desfecho não nos poupa de nada – é cru e direto, causando um nó na garganta.
O filme tem uma história dentro de outra (abre com uma moça contando à a trajetória dos jovens Ravalet para crianças antes de dormirem), tem liberdade para misturar épocas, dialoga o velho com o novo (a ambientação é entre 1590 e 1603, mas vemos em cena telefone celular, roupas atuais etc), e a montagem é altamente veloz.
A ideia veio de um argumento de Jean Gruault, o roteirista de “Jules e Jim” (1962) e “O garoto selvagem” (1970), que François Truffaut iria filmar quarenta anos atrás, mas não aconteceu (imaginem como teria ficado essa baita história pelas mãos de um dos arquitetos da Nouvelle Vague?). Então a diretora francesa Valérie Donzelli, com ajuda do ator de seus filmes Jérémie Elkaïm (que interpreta aqui o Julien), fizeram a adaptação, que mantem aspectos fieis do original; o resultado é uma obra controversa, desafiadora, um exemplar cult para público específico.


Indicado à Palma de Ouro e ao Queer Palm em Cannes em 2015, foi vaiado no festival e dividiu a opinião dos críticos – maltratado pela imprensa estrangeira, o drama teve pouca adesão do público, aqui no Brasil passou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2016, entrando em seguida em cartaz por duas semanas nas capitais, porém em muitos países importantes sequer esteve em circuito. Uma pena, pois é um trabalho bem finalizado e original, com um tema tabu que nos permite uma série de reflexões. Disponível em DVD pela Mares Filmes e em plataformas digitais.

Marguerite & Julien: Um amor proibido (Marguerite et Julien). França, 2015, 103 minutos. Colorido. Dirigido por Valérie Donzelli. Distribuição: Mares Filmes

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Nota do Blogueiro


Filmes em DVD
Olhem só os incríveis lançamentos da Classicline dos meses de agosto e setembro, de gêneros variados! Tem a comédia musical "Graças à minha boa estrela" (1943, com Eddie Cantor, Bette Davis e grande elenco), o drama/suspense noir "O destino bate à porta" (1946, com John Garfield e Lana Turner), o suspense de Alfred Hitchcock "Agonia de amor" (1947, com Gregory Peck), a aventura "Tarzan e a escrava" (1950, com Lex Barker), o western "Trágica emboscada" (1952, com Charlton Heston), outro western, agora com ação, "O grande búfalo branco" (1977, com Charles Bronson e Will Sampson), o drama baseado em fatos verídicos "Marcas do destino" (1985, em versão estendida, com Cher) e o telefilme de guerra "Fuga de Sobibor" (1987, com Rutger Hauer e Alan Arkin). Já disponíveis nas melhores lojas! 
Obrigado, equipe da Classicline, pelo envio dos DVDs.



quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Resenha Especial



A escolha de Sofia

O aspirante a escritor Stingo (Peter MacNicol) chega a Manhattan no final da década de 40 para tentar a vida sozinho e aluga um pequeno quarto de um sobrado. No andar de cima ao seu moram Sofia (Meryl Streep), uma polonesa sobrevivente do Holocausto, e seu namorado de temperamento instável, Nathan (Kevin Kline). Stingo vira amigo do casal, aos poucos testemunha calorosas discussões entre os dois e torna-se confidente de Sofia, que contará a ele terríveis fatos vividos na Segunda Guerra Mundial, dentre eles uma escolha que precisou fazer e que a atormenta até hoje.

Trágica história de amor que marcou o público na época do lançamento, em 1982, e deu à Meryl Streep seu segundo Oscar, o primeiro de atriz principal - ganhou dois anos antes como coadjuvante em “Kramer vs. Kramer” (1979), depois veio o terceiro prêmio por “A Dama de Ferro” (2011), e até hoje é campeã de indicações na Academia de Hollywood, 21 no total, sem contar 30 indicações ao Globo de Ouro, 15 ao Bafta e por aí vai.
“A escolha de Sofia” é um drama amargo e com desfecho choroso, realista na ponta da agulha, na verdade uma saga moderna, de uma mulher sofrida pelas marcas da guerra. Foi baseado no romance de William Styron, best seller do New York Times e vencedor do National Book Award de 1980 (no Brasil lançado pela editora Geração, em 2012), com roteiro do próprio diretor, Alan J. Pakula, conhecido por thrillers políticos, como “A trama” (1974), “Todos os homens do presidente” (1976) e “O dossiê pelicano” (1993) – também fez suspenses afiados sobre “quem é o assassino?”, a destacar “Klute, o passado condena” (1971), “Acima de qualquer suspeita” (1990) e “Jogos de adultos” (1992); infelizmente morreu cedo, aos 70 anos, em um acidente de carro, meses depois de lançar seu último trabalho, “Inimigo íntimo” (1997).


Meryl Streep interpreta com maestria e muita dor uma sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, que hoje reconstrói sua vida no Brooklyn (a história se passa em 1947). Desconcertada por uma escolha que teve de fazer no Holocausto, mora com o namorado, um homem violento, festeiro e beberrão (Kevin Kline, muito bem em início de carreira). Ela sofre nas mãos desse cara dominador com desvios de humor, submissa em todos os momentos - o relacionamento deles simboliza os jovens casais do pós-guerra, conflituosos, num mundo incerto, em transformação, sob nova ordem mundial. Os altos e baixos dos namorados é visto pelos olhares inquietos de um vizinho, o aspirante a escritor Stingo (Peter MacNicol, também começando a carreira, fez poucos filmes e sumiu do cinema), que passa a frequentar a residência deles. Essa é a primeira parte do filme, contada no tempo atual; a segunda, da metade pra frente, invade as lembranças de Sofia, e é onde a história escurece, fica pesada, sobre o tempo que a personagem serviu de empregada a uma família de nazistas e em seguida levada ao campo de Auschwitz (Sofia abre o coração para Stingo, a quem confia seus segredos mais obscuros, guardados a sete-chaves. O ápice é a terrível escolha que foi forçada a fazer, um fato aterrador e insuportável de imaginarmos).


Como mencionei bem acima, o filme marcou o público na década de 80, passou muitas vezes na TV aberta e tem um trabalho memorável de Meryl. Recebeu indicação ao Oscar de melhor roteiro, fotografia (maravilhosa, do gênio Néstor Almendros), figurino e trilha sonora (inesquecível, de Marvin Hamlisch). Quem quiser rever ou assistir pela primeira vez existem duas possibilidades: o drama está disponível em DVD pela Classicline, lançado meses atrás, com nova capa (lembrando que há uns 18 anos ele saiu em DVD pelo selo Europa Multimedia, que nem existe mais), ou em Bluray pela Universal Pictures, que saiu em 2012 numa edição comemorativa de 30 anos do filme (uma pena não ter extras, só acompanham trailers e spots de TV). Ambas têm duração de 150 minutos, a única disponível em mídia no Brasil; nunca vimos a versão exibida no Festival de Toronto em 1982, que tinha sete minutos a mais.

A escolha de Sofia (Sophie’s choice). EUA/Reino Unido, 1982, 150 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Alan J. Pakula. Distribuição: Universal Pictures (Bluray) e Classicline (DVD)

sábado, 14 de setembro de 2019

Resenhas Especiais



Dois filmes de drama protagonizados por mulheres, lançados pela Sony Pictures, em DVD no Brasil.


Smashed: De volta à realidade

Professora do ensino primário, Kate (Mary Elizabeth Winstead) mora com o namorado Charlie (Aaron Paul) e é viciada em álcool. Eles formam um casal alegre, unidos pela música, diversão e pela bebida. Com frequência, Kate abusa da bebida, chegando a dormir na rua. Quando percebe que a situação anda incontrolável, busca ajuda num grupo de terapia. Pouco a pouco tenta voltar à vida normal, à sobriedade, um caminho nada fácil, que a fará visitar seu passado e sua relação com a família e o namorado.

Bonita, versátil e de rosto memorável, Mary Elizabeth Winstead (de “Rua Cloverfield, 10”) brilha em cena nesse bom filme independente que, inacreditavelmente, custou U$ 500 mil, um valor irrisório se pensarmos em produções norte-americanas de cinema. É um tour-de-fource da atriz num papel dúbio, em que ela se divide entre uma professora atenciosa quando está sóbria, e em uma mulher autodestrutiva nos momentos que não se controla com bebidas alcoólicas. Os dias da protagonista são de altos e baixos, ela é uma adicta em busca de recuperação, e quando procura ajuda num terapia em grupo surge uma luz no fim do túnel para ela, que contará com apoio do namorado/marido (Aaron Paul, um bom ator, mas pouco aproveitado no cinema – ficou conhecido pela série “Breaking bad”, pelo qual recebeu indicação ao Globo de Ouro). Nesse drama construído com seriedade, a história provoca impacto imediato, tocando num tema delicado (alcoolismo, drogas, vícios), focando na superação e no reencontrar-se da protagonista. A duração é curtíssima (tem 81 minutos apenas), e o filme conta ainda com um elenco de apoio que chama a atenção: Nick Offerman, Octavia Spencer, Mary Kay Place e Mackenzie Davis.


“Smashed” participou de uma dezena de festivais internacionais, inclusive indicado ao Grande Prêmio do Júri em Sundance, exibido também em Toronto, em 2012. É o segundo trabalho autoral do diretor James Ponsoldt, de “O maravilhoso agora” (2013), “O fim da turnê” (2015) e “O círculo” (2017), com roteiro escrito por ele junto da atriz Susan Burke.

Smashed – De volta à realidade (Smashed). EUA, 2012, 81 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por James Ponsoldt. Distribuição: Sony Pictures


Certas mulheres

Na pequena cidade de Livingston, no Noroeste americano, três mulheres (Laura Dern, Kristen Stewart e Michelle Williams) vivem um intenso processo de autodescoberta numa sociedade hostil e machista.

Drama de alma feminina que discute os problemas enfrentados pelas mulheres na sociedade americana atual, levando-as ao interior do país, onde a visão machista predomina. Escrito e dirigido por Kelly Reichardt, que realizou três outros filmes independentes que mal chegaram no Brasil, “Antiga alegria” (2006), “Wendy e Lucy” (2008) e “Movimentos noturnos” (2013). Ela adaptou para o cinema histórias cruzadas de Maile Meloy (criadora de “The Society”, série do Netflix lançada este ano), sobre a vida de três mulheres moradoras de uma mesma cidade, Livingston, Montana, nas planícies do Noroeste americano, mas que nunca se encontram. Na primeira, Laura Dern interpreta uma advogada com uma causa trabalhista nas mãos, na defesa de um ex-funcionário de uma empresa em busca de indenização. Ela é pressionada por esse homem (Jared Harris), recebe ameaças, e seus dias serão de angústia, de sufocamento.
O segundo episódio (irregular, fraquinho) traz Michelle Williams como uma esposa que não tem atenção merecida do marido, ambos vivem se desentendendo. Os dias dessa mulher estão focados na construção da casa de seus sonhos. Além do marido, terá conflitos com um idoso com quem trabalha.
O terceiro e último (o melhor de todos) mostra Kristen Stewart como uma estudante de Direito em uma relação ambígua com uma tratadora de cavalos (Lily Gladstone, revelação). Elas trocam olhares, porém não conseguem uma aproximação.


As melhores histórias de “Certas mulheres” são a primeira e a última, a construção de ambas as partes se completam nesse recorte sobre um tema atual, que deve ser revisitado com frequência. Vale uma conferida também pelo elenco de nomes femininos importantes do cinema de hoje.
O filme participou de dezenas de festivais pelo mundo afora, recebendo aplausos e prêmios.

Certas mulheres (Certain women). EUA, 2016, 107 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Kelly Reichardt. Distribuição: Sony Pictures