quinta-feira, 26 de junho de 2008

Cine Lançamento

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Onde os Fracos Não Têm Vez

Em 1980, o caçador de coiotes Llewelyn Moss (Josh Brolin) depara-se, em plena região desértica do sul do Texas, com um grupo de traficantes mortos em um provável acerto de contas. No local da chacina, encontra uma valise com mais de um milhão de dólares e resolve levá-la escondida. O plano parece simples, mas a situação se complica quando passa a ser perseguido por um psicopata frio e sem piedade, Anton Chigurh (Javier Bardem) que, disposto a recuperar o dinheiro que lhe pertence, deixa um rastro de sangue por onde passa. Ao mesmo tempo, o xerife local, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) entra na investigação do caso do desaparecimento do dinheiro e também dos assassinatos cometidos por Chigurh.

“Onde os Fracos Não Têm Vez”, junto com o drama “Sangue Negro”, recebeu oito indicações ao Oscar este ano e saiu-se o grande vitorioso da noite, premiado em quatro categorias: a modalidade principal, filme, diretor (para os irmãos Coen), roteiro adaptado (também para Ethan e Joel Coen, que escreveram o roteiro baseado no livro de Cormac McCarthy) e ator coadjuvante (Javier Bardem). Superestimado pela crítica norte-americana, o filme não chega a ser excepcional e seu resultado pode dividir opiniões, inclusive quanto ao final sorumbático construído em um rápido diálogo metafórico. Mais um caso para demonstrar que nos últimos tempos o Oscar deixou de premiar os promissores e merecidos.
Apesar das premiações exageradas, a fita tem suas qualidades. Em especial admiro a peculiar narrativa, seca e sem música, algo que não deverá agradar o grande público. É uma aridez que complementa o espírito fútil dos dois personagens do embate – de um lado o caçador ganancioso que, naquele momento, só quer abocanhar o dinheiro alheio, e do outro, o assassino sanguinário, impiedoso. Aliás, a figura “fantasmagórica” do matador, idéia citada no filme para mostrar que o sujeito ultrapassa os limites do plano real, é de arrepiar a espinha, ardorosamente interpretada pelo espanhol Javier Bardem. Um cidadão estranho, com cabelo channel, frio, calculista, calado, de olhar penetrante e rápido em suas ações. Faz um jogo com moedas antes de eliminar seus alvos e ainda usa armas nada convencionais (uma delas é um equipamento para matar bois, composto por um balão de oxigênio que, ao emitir pressão, lança um bastonete que chega a arrancar maçanetas de portas!). Bardem, ótimo em Mar Adentro, perdeu a grande chance de ganhar um Oscar merecido em 2001, quando protagonizou o drama “Antes do Anoitecer”, cujo papel era o do escritor cubano homossexual Reinaldo Arenas. Em “Onde os Fracos”, o ator está em forma, porém esquisitão e estilizado em aspectos bizarros (é característica dos irmãos Coen fundamentar no roteiro personagens extravagantes).
Como um todo, o filme trata sobre o acaso, as conseqüências de planos mal formulados e de atitudes inconseqüentes, e, acima de tudo, focaliza a forte temática, sob visão pessimista, da sociedade em desintegração devido à violência urbana. Os homicídios cometidos por Chigurh, injustificáveis, refletem a decadência do ser humano atual, que mata por prazer e, em muitos casos, dominam os ambientes, pondo amarras na própria polícia. E mesmo os sonhos, como na abordagem do encerramento, valem a pena somente enquanto dormimos, já que a realidade é uma criatura atemorizadora.
Podemos identificar, em “Onde os Fracos”, uma mistura de “Gosto de Sangue”, o primeiro filme dos irmãos Coen, lançado em 1984, quanto ao uso de violência explícita e às incansáveis perseguições, e “Um Plano Simples” (1998), de Sam Raimi, no tocante aos efeitos negativos resultantes de comportamentos imorais.
Ethan e Joel Coen assinam a edição com o pseudônimo de Roderick Jaynes (indicado ao Oscar nesta categoria também). Talvez os irmãos tenham recebido o Oscar de diretor pelo conjunto da obra, como forma de consolação, já que perderam antes por Fargo, em 1997. Ambos atuam conjuntamente nas principais etapas do processo de criação de um projeto cinematográfico: escrevem o roteiro, dirigem, produzem e editam. Há pouco tempo puderam assinar juntos a direção, pois o Sindicato dos Diretores proibia parceria nos créditos das fitas.
Uma fita forte e crua, sem delongas, cujo intuito é fazer o público questionar a fragilidade do ser humano, cada vez mais individualista e indiferente, em meio à trêmula sociedade pós-moderna. Lançado em DVD na última semana. Por Felipe Brida

Título original: No Country for Old Men
País/Ano: EUA, 2007
Elenco: Josh Brolin, Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Kelly MacDonald, Woody Harrelson, Garret Dillahunt, Tess Harper, Barry Corbin.
Direção: Ethan & Joel Coen
Gênero: Policial/Suspense
Duração: 122 min.

Um comentário:

contra-regra disse...

Um filme impressionante dos irmãos coen, que mostra - de forma definitiva - o talento dos caras que há muito tempo mereciam o reconhecimento da academia. Bardem está bárbaro na pele do matador (aliás, para mim, ele foi o artista desse ano até agora). Pretendo comprar o DVD para minha coleção particular.

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