quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Resenha especial

 
O agente secreto
 
O grande filme brasileiro de 2025, dirigido por Kleber Mendonça Filho, continua em ampla campanha rumo ao Oscar. No domingo passado, ‘O agente secreto’ venceu o prêmio de melhor filme internacional no Critics Choice (prêmio dado pela crítica americana), algo inédito com um longa-metragem brasileiro. A entrega da estatueta infelizmente foi chinfrim, sem emoção, no tapete vermelho, algo que nunca tinha visto em premiação; enquanto Kleber concedia entrevista no intervalo do evento, a entrevistadora o pegou de surpresa informando que ‘O agente secreto’ era o vencedor daquela categoria. A jovem puxou o prêmio que estava atrás dela e jogou nas mãos do diretor. Não só Kleber como a produtora e sócia que estava junto, Emilie Lesclaux, ficaram perdidos, pasmos, e esses foram os sentimentos de quem assistia à transmissão pela TV. Kleber criticou a organização do Critics Choice pela falta de sensibilidade na entrega de um prêmio tão importante – que deveria ter ocorrido no palco principal. O diretor e o ator de seu filme, Wagner Moura, acabaram subindo ao palco no bloco final da premiação para a maior entrega, a de melhor filme no Critics Choice – dado a ‘Uma batalha após a outra’, de Paul Thomas Anderson. Tirando a falha na hora da entrega, ‘O agente secreto’ tornou-se o primeiro filme brasileiro a ganhar um Critics Choice – e também foi a primeira indicação de um ator brasileiro ao prêmio, para Wagner Moura, que acabou perdendo para Timothée Chalamet, por ‘Marty Supreme’.


‘O agente secreto’ abocanha uma infinidade de estatuetas na temporada de premiações e deverá ser finalista ao Oscar 2026, acredito que nas categorias de melhor filme estrangeiro e melhor ator para Wagner. Na nova shortlist divulgada recentemente pela Academia, o filme segue como semifinalista, ao lado de outros 14 títulos na categoria de filme internacional, e avançou na shortlist de uma nova categoria que o Oscar irá iniciar nesta edição, a de ‘melhor direção/seleção de elenco’. O anúncio dos indicados ao Oscar será no dia 22/01. Até agora ‘O agente secreto’ recebeu 45 prêmios em mais de 30 festivais e mostras pelo mundo, como Cannes – quando ganhou os de ator, direção, prêmio da crítica e o ‘Art et Essai’, concedido pela AFCAE (Associação Francesa de Cinema d'Art et d'Essai). Foi nomeado como melhor filme estrangeiro no Independent Spirit Awards (dado a cineastas independentes), cuja cerimônia será dia 15/02, e entrou num seleto grupo de filmes que alcançaram o Trifecta: premiado pela National Society of Film Critics (NSFC), pelos críticos de Nova York (NYFCC) e da Los Angeles Film Critics Association (LAFCA). Sem contar as três indicações ao Globo de Ouro (melhor filme de drama, melhor filme estrangeiro e melhor ator em filme de drama), cuja cerimônia de entrega será no próximo domingo, dia 11/01.
O filme está na nona semana de exibição nas salas mundiais de cinema, em países como França, EUA, Portugal, Áustria, Canadá, Suíça, Bélgica e Alemanha. No Brasil está em 120 salas atualmente. Celebrou um fato único: pela primeira vez um filme produzido fora do eixo Sul–Sudeste atingiu um milhão de espectadores nas salas de cinema no Brasil – ao lado de ‘Chico Bento e a goiabeira maraviósa’ conquistou esse ‘milhão’ de público em 2025. E já ultrapassou mais de um milhão de dólares nas bilheterias norte-americanas, feito raro de uma obra brasileira nos EUA, ficando ao lado de ‘Dona Flor e seus dois maridos’ (1976), ‘Cidade de Deus’ (2002) e ‘Ainda estou aqui’ (2024). Tudo isto é campanha para o Oscar: premiações em festivais diversos, penetração em festivais norte-americanos, expansão em salas de cinema, prêmios da crítica especializada e comentários positivos em redes sociais de famosos e de jornais de grande circulação.



‘O agente secreto’ encabeçou listas de melhores filmes do ano de grande parte do público e da crítica especializada. Eu o assisti uma semana antes da estreia nos cinemas, em outubro de 2025, em uma sessão de imprensa da Vitrine Filmes, distribuidora do filme. Saí agraciado, em puro êxtase, já o colocando na minha lista pessoal de filmes de 2025. Sou fã do cinema de Kleber desde quando conheci o diretor no Anápolis Festival de Cinema, quando lá estava para apresentar seu primeiro longa ficcional, ‘O som ao redor’, em 2012. Um cara tímido, recluso, que falava baixo, mas que na tela fazia um cinema visceral, e que vinha na esteira do novo ciclo do cinema pernambucano. Saí da sessão em choque, pela qualidade do roteiro, simplesmente imprevisível, com aquele desfecho de arrepiar. E novos espantos vieram com os longas seguintes, ‘Aquarius’ (2016) e ‘Bacurau’ (2019), ambos indicados à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Depois fui conhecer os curtas experimentais dele, feitos entre 2002 e 2010, como ‘A menina do algodão’, ‘Vinil verde’ e ‘Recife frio’, e em seguida os documentários, ‘Crítico’ (2008) e seu trabalho anterior a ‘O agente’, ‘Retratos Fantasmas’ (2023). Kleber é um cineasta autoral influenciado pelo cinema independente de Agnès Varda, John Carpenter e Alfred Hitchcock.
‘O agente secreto’ é um apanhado de elementos dos longas anteriores de Kleber, por isso, se possível, assista aos que indiquei acima caso não tenha conferido ao novo trabalho do cineasta. Tem personagens saídos do universo de Bacurau, Aquarius, Retratos fantasmas e O som ao redor, e reutilizando temas desses longas, como plano de vingança, cultura popular, vigilância e resistência, de uma forma híbrida e completamente nova.
O pano de fundo de ‘O agente secreto’ é o Brasil de 1977, ano crucial da Ditadura Militar, sob o governo Geisel. Período do início da abertura política, mas ao mesmo tempo com muitos paradoxos e contradições, como endurecimento autoritário, fechamento do Congresso, manutenção da censura da imprensa e do fim da liberdade de expressão, das amplas manifestações nas ruas, agitação popular, luta por democracia e uma grave crise econômica com inflação altíssima, que se arrastava desde a crise do petróleo de 1973. Essa é a conjuntura histórica do filme, que aparece no subtexto, nos pequenos detalhes da cenografia, nos diálogos, nos comentários dos personagens. Há um mal-estar da época, algo estranho que ronda os personagens, que são vigiados e temem os dias que vem pela frente. O protagonista é Marcelo (um trabalho estupendo de Wagner Moura), um especialista em tecnologia, que no passado foi professor. Ele chega ao Recife, na verdade, ele volta para sua cidade natal, durante a semana do Carnaval, e se muda para um antigo casarão que abriga refugiados políticos e os tais subversivos. Ele procura o filho pequeno, com quem não teve mais contato após um período longe – que entenderemos melhor com o desenvolvimento da história. Com o passar dos dias e das semanas, ele percebe que Recife não é mais o mesmo, e todo cuidado é pouco. Gradualmente, em flashbacks, o filme revela o passado misterioso de Marcelo, um homem em completa busca por identidade.



Como nos filmes anteriores de Kleber, há um mistério que vaga pela trama, misturando a um humor colocado ali e acolá, um clímax que faz palpitar o coração, reviravoltas incontornáveis e uma trilha sonora eclética da época (aqui tem, por exemplo, Donna Summer, Waldick Soriano, Banda de Pífanos de Caruaru, Ângela Maria e até o reaproveitamento de uma música antiga de Ennio Morricone, que marcou o trailer, do filme italiano ‘Obrigado, tia’, do fim dos anos 60). O sobrenatural é uma tacada de mestre em ‘O agente secreto’, quando Kleber insere a lenda urbana da Perna Cabeluda, que percorre as bocas dos recifenses assombrando os habitantes de lá – é o momento do cinema fantástico com horror, que quebra a narrativa e se torna uma metáfora à repressão na Ditadura.
A direção de arte é um primor estético, que reconstrói o Recife da década de 70 com suas cores e belezas, assinada por Thales Junqueira. Wagner Moura interpreta com maestria dois personagens – um deles em dois momentos de sua trajetória. O elenco brilha com personagens que já se tornaram memoráveis, alguns viralizando com memes na internet, como Tania Maria (uma preciosidade de atriz, que aos 78 anos rouba as poucas cenas em que aparece destilando um humor ímpar), Gregorio Graziosi, Gabriel Leone, Buda Lira, Alice Carvalho, Maria Fernanda Cândido (numa pontinha magistral), Isabél Zuaa, Udo Kier (em rápida aparição – ele faleceu em novembro passado e já havia trabalhado com Kleber em ‘Bacurau’), Luciano Chirolli e Roney Villela (dois vilões de primeira classe) e Robério Diógenes (cujo papel equilibra humor e tensão). Todos marcantes, em estado de graça e outros sombrios. Escrito por Kleber Mendonça, o filme é uma coprodução Brasil, França, Holanda e Alemanha, que conta com produção da CinemaScópio e tem como coprodutora a francesa MK2 Films, a alemã One Two Films e a holandesa Lemming. Virei fã do filme, vi uma vez só e estou na expectativa para uma revisão. Que chegue logo o Oscar! Será que levaremos mais uma estatueta pelo segundo ano consecutivo?

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