Se eu tivesse pernas,
eu te chutaria
Assisti no Festival do Rio ao aguardadíssimo filme que deu a Rose Byrne o
prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim do ano passado - para mim um dos
melhores longas da edição passada do Festival do Rio. O drama com humor negro e
mistério é um show de interpretação de Rose Byrne, que deve ser, até que enfim,
indicada ao Oscar – ela foi recentemente nomeada ao Globo de Ouro pela intensa
e soberba interpretação, um genuíno tour de force. Um filme onde o humor está
ali, instalado, dentro de uma história altamente dramática, de uma personagem
que se depara com uma sucessão de problemas e quase enlouquece - quando rimos,
é de um riso nervoso. Rose interpreta uma terapeuta que vê sua vida
desmoronar em poucos dias. Ela cuida sozinha da filha pequena (nunca aparece o
rosto da garotinha, apenas voz e mãos) que está doente e utiliza uma sonda
gástrica para se alimentar. O marido está em viagem e também nunca aparece. A
casa onde mora inunda, então ela se muda para um motel onde inicia um conflito
com a recepcionista do lugar. Uma paciente em crise a deixa aflita, seu
psicólogo tem comportamento agressivo, um acidente de carro torna tudo estressante
e por aí segue uma lista enorme de problemas diários, que tiram o sono da
terapeuta. O filme, como muitos da A24, traz algo sobrenatural simbólico na
história – aqui é uma fenda no teto que inunda o quarto da personagem. Olhando
por um prisma mais central, é um drama pesadíssimo, sobre as complexidades de
uma mulher que tem de lidar sozinha com tudo ao mesmo tempo, como maternidade,
ausência do marido, os cuidados com a casa e o excesso de trabalho. Uma
história que nos angustia, com um trabalho impecável e certamente memorável de
Rose. Estreia hoje nos cinemas pela Synapse Distribution, nas seguintes
cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória, Belo Horizonte, Brasília,
Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Salvador, Recife, Maceió, Fortaleza e
Belém.
Jovens mães
Prepare-se para um filme
de doer na alma, que bate fundo e nos abre reflexões sobre adolescência
perdida. Coprodução Bélgica/França assinada pelos irmãos Dardenne, os belgas
Jean-Pierre e Luc, que fazem filmes nesse tom dramático, sempre com atores
amadores, parecendo documentário tamanha a naturalidade ali tratada – de ‘A criança’ (2005) e ‘O garoto da bicicleta’ (2011).
Vencedor do prêmio de roteiro e do Júri Ecumênico em Cannes, o filme traz cinco
jovens mães, que tiveram filhos prematuramente e hoje moram num abrigo que
serve de casa de assistência onde recebem apoio psicológico e ajuda no cuidado
de banho e alimentação dos recém-nascidos. Cada uma delas lida com a fase
materna e com a desestruturação familiar – quase todas são mãe solo, uma foi
expulsa de casa pela mãe alcoólatra, outra nunca conheceu a própria mãe, que a
entregou para a adoção. Meninas despedaçadas, sem perspectivas, e com a
responsabilidade precoce de cuidar de um filho. Realidade escancarada pelos
Dardenne, numa fita nua e crua. Um drama duro, com momentos incômodos.
Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne escrevem, produzem e dirigem, e sabem como
ninguém desvendar as relações familiares. Os diretores passaram a ser
conhecidos no Brasil a partir do fim dos anos 90 na Mostra de Cinema de SP,
onde apresentam com frequência seus filmes, em sessões lotadas – lembro que vi na
Mostra ‘A garota desconhecida’ (2016), ‘O jovem Ahmed’ (2019) e este ‘Jovens
mães’ (2025). O filme estreia hoje nos cinemas pela Vitrine Filmes, nas salas
das seguintes cidades: São Paulo, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Belo
Horizonte, Poços de Caldas, Niterói, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba,
Florianópolis, Brasília, Vitória, Maceió, Salvador, Natal, Teresina e Recife.
Influencer do mal: A
História de Jodi Hildebrandt
Estreou nessa semana na
Netflix um novo documentário que segue a linha de filmes investigativos que a
provedora costuma lançar. O filme acompanha um caso aterrador que explodiu nos noticiários
norte-americanos em 2023, de uma influencer digital que manipulou uma mãe a
torturar seus filhos. São duas mulheres distintas que se tornaram amigas e
sócias. Primeiramente é apresentado a influenciadora Jodi Hildebrandt, que possuía
milhares de seguidores em seu canal do Youtube que ensinava mães a “educar”
seus filhos. Jodi tinha um discurso religioso extremista e métodos nada comuns
para ensinar comportamento para as crianças. Tornou-se mentora de outra
influencer, Ruby Franke, que tinha um canal sobre conselhos de como ser uma mãe
melhor, educando os filhos com certa rigidez. Ruby aplicava os métodos em casa
e contava diariamente como dois de seus filhos pequenos reagiam. Ruby foi bastante
criticada por seguidores na época, que falavam da sua postura severa com os
filhos. Quando Jodi e Ruby foram presas em 2023, o sinistro caso tomou conta da
mídia – Ruby, induzida por Jodi, aprisionou os dois filhos em casa por anos, numa
mansão em Utah, afastada de tudo, e os torturava com cinto e queimaduras. Um
dos filhos, um menino de 12 anos, fugiu, pediu ajuda a vizinhos e à polícia, e
somente assim puderam se livrar da mãe perversa. O documentário investiga
minucias do caso, é um filme apreensivo sobre maus-tratos a crianças, com diversos
trechos dos vídeos das Youtubers, bem como do julgamento de Jodi e Ruby – elas pegaram
uma pena pesada e ficarão presas por muitos anos. A diretora Skye Borgman realiza
com constância docs investigativos envolvendo crianças, quase todos da Netflix,
e premiada em festivais independentes; são dela ‘Sequestrada à luz do dia’ (2017)
e ‘A garota da foto’ (2022).
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