quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 1


Se eu tivesse pernas, eu te chutaria
 
Assisti no Festival do Rio ao aguardadíssimo filme que deu a Rose Byrne o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim do ano passado - para mim um dos melhores longas da edição passada do Festival do Rio. O drama com humor negro e mistério é um show de interpretação de Rose Byrne, que deve ser, até que enfim, indicada ao Oscar – ela foi recentemente nomeada ao Globo de Ouro pela intensa e soberba interpretação, um genuíno tour de force. Um filme onde o humor está ali, instalado, dentro de uma história altamente dramática, de uma personagem que se depara com uma sucessão de problemas e quase enlouquece - quando rimos, é de um riso nervoso.  Rose interpreta uma terapeuta que vê sua vida desmoronar em poucos dias. Ela cuida sozinha da filha pequena (nunca aparece o rosto da garotinha, apenas voz e mãos) que está doente e utiliza uma sonda gástrica para se alimentar. O marido está em viagem e também nunca aparece. A casa onde mora inunda, então ela se muda para um motel onde inicia um conflito com a recepcionista do lugar. Uma paciente em crise a deixa aflita, seu psicólogo tem comportamento agressivo, um acidente de carro torna tudo estressante e por aí segue uma lista enorme de problemas diários, que tiram o sono da terapeuta. O filme, como muitos da A24, traz algo sobrenatural simbólico na história – aqui é uma fenda no teto que inunda o quarto da personagem. Olhando por um prisma mais central, é um drama pesadíssimo, sobre as complexidades de uma mulher que tem de lidar sozinha com tudo ao mesmo tempo, como maternidade, ausência do marido, os cuidados com a casa e o excesso de trabalho. Uma história que nos angustia, com um trabalho impecável e certamente memorável de Rose. Estreia hoje nos cinemas pela Synapse Distribution, nas seguintes cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Salvador, Recife, Maceió, Fortaleza e Belém.
 

 
Jovens mães
 
Prepare-se para um filme de doer na alma, que bate fundo e nos abre reflexões sobre adolescência perdida. Coprodução Bélgica/França assinada pelos irmãos Dardenne, os belgas Jean-Pierre e Luc, que fazem filmes nesse tom dramático, sempre com atores amadores, parecendo documentário tamanha a naturalidade ali tratada – de ‘A criança’ (2005) e ‘O garoto da bicicleta’ (2011). Vencedor do prêmio de roteiro e do Júri Ecumênico em Cannes, o filme traz cinco jovens mães, que tiveram filhos prematuramente e hoje moram num abrigo que serve de casa de assistência onde recebem apoio psicológico e ajuda no cuidado de banho e alimentação dos recém-nascidos. Cada uma delas lida com a fase materna e com a desestruturação familiar – quase todas são mãe solo, uma foi expulsa de casa pela mãe alcoólatra, outra nunca conheceu a própria mãe, que a entregou para a adoção. Meninas despedaçadas, sem perspectivas, e com a responsabilidade precoce de cuidar de um filho. Realidade escancarada pelos Dardenne, numa fita nua e crua. Um drama duro, com momentos incômodos. Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne escrevem, produzem e dirigem, e sabem como ninguém desvendar as relações familiares. Os diretores passaram a ser conhecidos no Brasil a partir do fim dos anos 90 na Mostra de Cinema de SP, onde apresentam com frequência seus filmes, em sessões lotadas – lembro que vi na Mostra ‘A garota desconhecida’ (2016), ‘O jovem Ahmed’ (2019) e este ‘Jovens mães’ (2025). O filme estreia hoje nos cinemas pela Vitrine Filmes, nas salas das seguintes cidades: São Paulo, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Poços de Caldas, Niterói, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Brasília, Vitória, Maceió, Salvador, Natal, Teresina e Recife.
 

 
Influencer do mal: A História de Jodi Hildebrandt
 
Estreou nessa semana na Netflix um novo documentário que segue a linha de filmes investigativos que a provedora costuma lançar. O filme acompanha um caso aterrador que explodiu nos noticiários norte-americanos em 2023, de uma influencer digital que manipulou uma mãe a torturar seus filhos. São duas mulheres distintas que se tornaram amigas e sócias. Primeiramente é apresentado a influenciadora Jodi Hildebrandt, que possuía milhares de seguidores em seu canal do Youtube que ensinava mães a “educar” seus filhos. Jodi tinha um discurso religioso extremista e métodos nada comuns para ensinar comportamento para as crianças. Tornou-se mentora de outra influencer, Ruby Franke, que tinha um canal sobre conselhos de como ser uma mãe melhor, educando os filhos com certa rigidez. Ruby aplicava os métodos em casa e contava diariamente como dois de seus filhos pequenos reagiam. Ruby foi bastante criticada por seguidores na época, que falavam da sua postura severa com os filhos. Quando Jodi e Ruby foram presas em 2023, o sinistro caso tomou conta da mídia – Ruby, induzida por Jodi, aprisionou os dois filhos em casa por anos, numa mansão em Utah, afastada de tudo, e os torturava com cinto e queimaduras. Um dos filhos, um menino de 12 anos, fugiu, pediu ajuda a vizinhos e à polícia, e somente assim puderam se livrar da mãe perversa. O documentário investiga minucias do caso, é um filme apreensivo sobre maus-tratos a crianças, com diversos trechos dos vídeos das Youtubers, bem como do julgamento de Jodi e Ruby – elas pegaram uma pena pesada e ficarão presas por muitos anos. A diretora Skye Borgman realiza com constância docs investigativos envolvendo crianças, quase todos da Netflix, e premiada em festivais independentes; são dela ‘Sequestrada à luz do dia’ (2017) e ‘A garota da foto’ (2022).


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