A Versátil Home Video acaba de lançar no mercado um livro temático com resenhas de filmes de ação e suspense intitulado 'Thrillers - Pérolas do suspense', com 72 páginas. Nele há 14 textos escritos por jornalistas e críticos de cinema convidados - um deles é o meu, que segue abaixo, na íntegra. O livro está disponível para compra no site da Versátil, em https://www.versatilhv.com.br/
Marte num estúdio em
miniatura: paranoia e conspiração em ‘Capricórnio Um’
Por Felipe Brida*
O homem realmente pisou
na Lua? A chegada da nave Apollo 11 ao solo lunar e a lenta caminhada de Neil
Armstrong pelo terreno cinza daquele satélite natural não foi uma armação, uma
simulação em estúdios de cinema? Tais perguntas pairavam no ar desde o fato
inédito e histórico do voo espacial que levou dois astronautas norte-americanos
à Lua em julho de 1969. Teorias da conspiração tomaram conta do imaginário das
pessoas, e também dos noticiários sensacionalistas da época. Até Stanley
Kubrick caiu na boataria: dizem ter sido ele o cara que gravou a farsa, em
estúdio de cinema a alunissagem, vejam só...
A falsa informação de que o homem nunca pisou na Lua ganharia enorme força nos anos seguintes, já que a Guerra Fria estava consolidada, o bloco ocidental se digladiava com o oriental, havia um clima de medo e paranoia no ar, de espiões infiltrados em todo canto. E fatos marcantes daquele período impulsionariam essa escalada: o caso Watergate e a era dos grampos ilegais, o assassinato dos irmãos Kennedy e o avanço da Guerra do Vietnã. O tema do thriller ‘Capricórnio Um’ (1977) envolve essa atmosfera de apreensão, desconfiança e tragédia anunciada, e apesar de ficcional, o filme carrega um contexto real e persuasivo da virada de década (dos 60 para os 70). A cerne da trama é uma farsa da Nasa com o governo americano para simular uma viagem para Marte em plena Corrida Espacial, principal acirramento dos Estados Unidos com a União Soviética daqueles idos.
A falsa informação de que o homem nunca pisou na Lua ganharia enorme força nos anos seguintes, já que a Guerra Fria estava consolidada, o bloco ocidental se digladiava com o oriental, havia um clima de medo e paranoia no ar, de espiões infiltrados em todo canto. E fatos marcantes daquele período impulsionariam essa escalada: o caso Watergate e a era dos grampos ilegais, o assassinato dos irmãos Kennedy e o avanço da Guerra do Vietnã. O tema do thriller ‘Capricórnio Um’ (1977) envolve essa atmosfera de apreensão, desconfiança e tragédia anunciada, e apesar de ficcional, o filme carrega um contexto real e persuasivo da virada de década (dos 60 para os 70). A cerne da trama é uma farsa da Nasa com o governo americano para simular uma viagem para Marte em plena Corrida Espacial, principal acirramento dos Estados Unidos com a União Soviética daqueles idos.
‘Capricórnio Um’ é o nome da cápsula que será enviada para Marte e por consequência o nome do projeto espacial. É uma missão derradeira e aguardada, conduzida pela Nasa (National Aeronautics and Space Administration) e o governo. É período eleitoral, os ânimos estão exaltados, há uma ânsia entre os políticos e a população - nas primeiras cenas do filme, na espera do lançamento do foguete ‘Capricórnio Um’, o vice-presidente americano senta-se na arquibancada com o público para assistir ao espetáculo e comenta que está ali em nome do presidente, que está fora para resolver pontos da campanha.
De repente, faltando menos de um minuto para o foguete subir, os três astronautas são retirados à força da cápsula da nave. Eles se entreolham, enquanto ‘Capricórnio’ é lançado sem ninguém dentro. A mídia divulga passo a passo o voo pelos céus, e a massiva população acompanha, sem piscar, a façanha. Furiosos, os astronautas exigem resposta sobre a retirada forçada da nave – são eles Brubaker (James Brolin), o líder do grupo, Willis (Sam Waterston) e Walker (O.J. Simpson), seus auxiliares, todos veteranos de programas espaciais. Numa sala reservada, Dr. Kelloway (Hal Holbrook), o mentor do ‘Capricórnio Um’, explica o caso – devido a uma falha no sistema, e a Nasa não ter orçamento suficiente para financiamento de pesquisa e nem ter condições para o reparo, haverá uma simulação da chegada deles a Marte, ou seja, uma farsa, uma encenação, para enganar a opinião pública e assim fazer com que acreditem no progresso tecnológico do país. Kelloway leva o trio a um lugar ultrassecreto dentro da Nasa, um estúdio já preparado com a réplica do foguete e um terreno vermelho que simula o solo marciano. Ali será o local em que os três passarão a viver nas próximas semanas – e tudo será gravado e transmitido para os telespectadores. Sozinhos para pensar, e se recuperar do baque, os astronautas não engolem o inusitado pedido e recusam participar. Até que são informados que suas famílias correm risco de segurança. Enquanto tramam uma fuga do estúdio, um jornalista chamado Robert Caulfield (Elliott Gould) suspeita de algo estranho no ar e investiga por conta. Outro fato aterrador ocorre: na viagem pelo espaço, a nave com destino a Marte se desintegra. Como os astronautas ‘voltarão vivos’ de lá, já que a explosão da nave virou fato noticiado? Com medo de serem assassinados, e o plano diabólico do governo é justamente esse, Brubaker, Willis e Walker escapam do estúdio, pegam um avião de pequeno porte e aterrissam num deserto, onde enfrentarão fome e insolação.
‘Capricórnio Um’ é um thriller coprodução Estados Unidos e Reino Unido, na linha de conspiração e paranoia, feito num período frutífero para o tema, cujas peças são montadas uma a uma, envolvendo o público em uma trama misteriosa. Integra um ciclo de longas-metragens notáveis de paranoia e conspiração feitos em Hollywood nos anos 70, como ‘O assassinato de um presidente’ (1973), ‘A conversação’ (1974), ‘A trama’ (1974), ‘Três dias do Condor’ (1975), ‘Todos os homens do presidente’ (1976), ‘Domingo negro’ (1977), ‘O telefone’ (1977) e ‘Morte no inverno’ (1979).
A eficiência da história se dá pelo diretor, aliás, também roteirista aqui, um gênio esquecido do cinema, Peter Hyams, especialista em thrillers conspiratórios e fitas scifi, muitas delas espaciais, como ‘Outland: Comando Titânio’ (1981), ‘2010: O ano em que faremos contato’ (1984 – uma continuação intrigante de ‘2001, uma odisseia no espaço’) e ‘Timecop: O guardião do tempo’ (1994), e que rodou fitas explosivas de máfia e de poderosos inescrupulosos, como ‘O esquadrão da justiça’ (1983), ‘Mais forte que o ódio’ (1988) e ‘De frente para o perigo’ (1990).
Em época de fake News, e do crescente aumento da milícia digital, o filme permanece com grau de atualidade; recentemente posts nas redes sociais resgataram a farsa do homem na Lua, que tudo foi inventado em Hollywood, a terra do cinema. Segundo as notícias falsas, equipes de produção simularam com riqueza de detalhes e bons efeitos especiais a alunissagem do programa Apollo 11, recorrendo a uma direção de arte grandiosa, com sondas fabricadas em menor escala, e a telemetria, que manipulava áudios da cápsula espacial com a central na Terra. Desde os anos 2010 há evidências comprovadas de que o homem esteve na Lua, com imagens fotografadas pelo Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), uma nave robótica da Nasa que orbita a Lua e que fotografou rastros deixados pelos astronautas no solo lunar. Por outro lado, há livros publicados que refutam o pouso, dizendo que ele nunca ocorreu, bem como reportagens e documentários sensacionalistas, o que ajuda a dividir a opinião do público. Em um deles, diz-se que Neil Armstrong e Buzz Aldrin, os dois astronautas do programa na Lua, foram manipulados e cerceados pelo governo até os últimos dias de suas vidas, alimentando o imaginário de farsa e críticas ao governo.
‘Capricórnio Um’ funciona como um filme crítico e reflexivo, sobre o poder do governo em controlar a informação e de como a mídia manipula e também é manipulada. A trilha sonora de Jerry Goldsmith, premiado com o Oscar em ‘A profecia’ (1976) e indicado a outros 17 Oscars, ajuda como um elemento desconcertante da trama, bem como a exímia a fotografia do premiado Bill Butler, de ‘Grease – Nos tempos da brilhantina’ (1978).
A Nasa, agência do governo norte-americano de pesquisa de exploração espacial, fundada em 1958 e sediada em Washington, D.C., supervisionou e auxiliou na produção, desde fornecimento de roupas, acessórios e veículos aos estudos das cenas, outro ponto de credibilidade e equilíbrio para o bom resultado do filme – que, vale mencionar, fez sucesso nos cinemas da época, apesar de ser uma produção independente, que custou U$ 5 milhões de dólares.
O diretor Peter Hyams conta que escreveu o roteiro de ‘Capricórnio Um’ logo após o homem pousar na Lua, em 1969. Tentou financiamento, mas ninguém quis bancar o projeto – seria seu primeiro longa-metragem, se tivesse rodado. A história ficou engavetada por oito anos, até que vendeu o script, e o filme foi produzido por Paul N. Lazarus III, que tinha uma produtora própria e havia produzido fitas scifi inovadoras, como ‘Westworld: Onde ninguém tem alma’ (1973) e ‘Ano 2003: Operação Terra’ (1976), ambos lançados pela Versátil em DVD.
‘Capricórnio Um’ é uma pérola desse cinema precioso feito durante o período da paranoia da Guerra Fria, que melhora a cada revisão.
PS – Outro filme com temática semelhante, de forjar e encobrir a verdade, é o thriller scifi, mas sobre OVNIs, feito três anos depois, ‘Hangar 18’ (1980), de James L. Conway, estrelado pelo veterano Darren McGavin.







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