sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming


A única saída
 
Visionário, com seu típico humor macabro e recorrendo ao clima de paranoia como fez em ‘Old boy’ (2003), o multipremiado cineasta sul-coreano Park Chan-wook entrega aqui sua versão do livro ‘The ax’, de Donald E. Westlake, que já havia inspirado a ótima comédia de suspense ‘O corte’ (2005), de Costa-Gavras. Park transporta a história de ambição e disputa a todo custo para seu país natal, no tempo atual. Os 25 anos de experiência como executivo no ramo de fabricação de papel não seguraram no emprego Man-soo (Lee Byung-hun); ele acaba de ser demitido da empresa com uma leva de outros funcionários. Seu mundo desaba, já que leva uma boa vida, numa casa luxuosa com seus dois filhos e a esposa dedicada. Com o passar das semanas, a crise financeira vem, mas ele não pretende vender a casa nem cortar gastos. Até que resolve jogar todas as fichas numa vaga em outra empresa do ramo papeleiro, mesmo que tenha de eliminar a concorrência (no sentido literal mesmo). Comédia perturbadora, violência e sangue, suspense e sequências absurdas tomam conta do novo trabalho de Park. É crítico e divertido, um longa inteligente, para se prestar atenção nos detalhes e nos diálogos, pois é um vai-e-vem de personagens e subtramas. O ator Lee Byung-hun segura o filme, e é um primor o domínio do diretor, considerado um dos nomes mais importantes do cinema contemporâneo, que revolucionou o cinema de ação contemporâneo com ‘Old boy’ e tantas obras notórias que são uma pancada. Exibido no Festival de Veneza e no Festival de Toronto, onde recebeu o prêmio do público de melhor filme internacional, o assisti na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ainda com o título em inglês, ‘No other choice’. Estranhamente foi esquecido no Oscar deste ano, não recebendo nenhuma indicação – no Globo de Ouro teve indicações de melhor filme – comédia ou musical, filme de língua não-inglesa e ator para Lee Byung-hun. Estreou ontem em cinemas brasileiros de 21 cidades, com distribuição da Mares Filmes e a Mubi.
 

O ônibus perdido
 
Exibido no Festival de Toronto, o drama de ação inspirado em caso verídico acaba de receber indicação ao Oscar de melhor efeitos visuais. O filme adapta para as telas o livro ‘Paradise: One town's struggle to survive an american wildfire’, da jornalista Lizzie Johnson, então repórter em Los Angeles e hoje correspondente do Washington Post na Ucrânia. Livro e filme narram a trajetória de um homem que virou herói nacional durante o devastador caso ‘Camp Fire’, considerado o incêndio mais letal da história da Califórnia, ocorrido em 2018. Kevin McKay, um motorista escolar com apenas um mês de experiência na função, conduziu um ônibus perdido em meio às chamas, levando dentro 22 crianças e uma professora. Sem saber para onde ir, isolado em uma região sem comunicação, com fumaça para todo lado, McKay passou horas no volante driblando as chamas para salvar os passageiros. A narrativa tensa do filme reflete o caos e a coragem que marcaram aquele dia – a jornalista Lizzie acompanhou a tragédia trazendo para o livro a história desse homem. O caso Camp Fire envolveu um incêndio que teve início em 8 de novembro de 2018 em Butte County, causado por falhas em linhas de transmissão de uma empresa de eletricidade e gás natural. O fogo espalhou-se rapidamente, e a cidade de Paradise, onde o filme acontece, foi totalmente destruída. O saldo foi de 85 mortos, 52 mil moradores evacuados e 18 mil casas e comércio destruídos, e uma área queimada de mais de 62 mil hectares. Os prejuízos giraram em torno de US$ 16 bilhões. A direção do filme é competente, de um cineasta que admiro e sigo há muito tempo, o inglês Paul Greengrass, que costuma fazer obras angustiantes com seu peculiar olhar cinematográfico. Ele segue um estilo documental e utiliza câmeras de mão para criar realismo. Ex-jornalista, Greengrass dirigiu longas reais sobre desastres e ataques terroristas, como ‘Domingo sangrento’ (2002), sobre o massacre de manifestantes em uma passeata na Irlanda do Norte que explodiu em uma terrível guerra civil no país em 1972, ‘Voo United 93’ (2006), que recria os ataques de 11 de setembro, e ‘22 de julho’ (2018), sobre os atentados na Noruega de 2011 que mataram 77 pessoas, além de sucessos comerciais como os dois últimos filmes da trilogia de Jason Bourne. Para o elenco de ‘O ônibus perdido’, escalou Matthew McConaughey, que entrega um tour de force como o heroico motorista Kevin McKay, e America Ferrera, no papel da professora que está com as crianças no ônibus. Os dois estão sublimes, em papeis muito humanos, num filme movimentado, que não deixa de lembrar toda uma mobilização comunitária que ajudou a socorrer vítimas e a controlar o caótico episódio. Produção da Apple TV, está disponível no streaming.


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