terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

 
Transamazônia
 
Em exibição nos cinemas desde o dia 08/01, o bom longa ‘Transamazônia’ traz uma narrativa repleta de contrastes, sobre dois mundos que se encontram e entram em choque. Rodado no Pará, a história costura pelo menos cinco temas: o poder da fé, a manipulação religiosa, a luta pela preservação da floresta, as tradições indígenas e a relação frágil e ao mesmo tempo profunda entre um pai e sua filha. Na trama, uma jovem sobrevive a um acidente aéreo na Amazônia e se torna um ‘milagre vivo’ – ela é Rebecca Byrne, papel da atriz alemã Helena Zengel, que se destacou no impactante drama ‘Transtorno explosivo’ (2019) e no ano seguinte foi indicada ao Globo de Ouro de atriz coadjuvante em ‘Relatos do mundo’ (2020). Para a comunidade pentecostal liderada por seu pai, o missionário estrangeiro Lawrence Byrne (Jeremy Xido, ator e diretor canadense), a menina está viva por uma manifestação divina, portanto a incentiva a seguir seus passos no mundo religioso. Ela se torna uma pregadora protestante que se utiliza também do curandeirismo, no meio da selva, levando os indígenas para mundo da espiritualização ocidental. A chegada de madeireiros ilegais na região ameaça os povos indígenas e também a integridade da família Byrne. Misturando diálogos em português e inglês, o filme revela duas situações que avançam no país e ameaçam a cultura dos povos originários – a questão dos madeireiros ilegais, que matam para explorar indiscriminadamente a região, e a evangelização pentecostal dos indígenas, que mais parece aquilo que estudávamos na colonização e exploração do Brasil no século XVI. Produzido em parceria internacional (uma coprodução França, Alemanha, Suíça, Taiwan e Brasil), o longa mistura drama e suspense com ingredientes fortes dos dois gêneros, refletindo diferentes olhares sobre a Amazônia, além dos dilemas que surgem quando crença, natureza e relações pessoais se entrelaçam. A diretora é Pia Marais, uma sul-africana radicada na Alemanha, em seu quarto longa-metragem; ela escreveu o roteiro com ajuda de dois roteiristas a partir de uma história real ocorrida na floresta amazônica na década de 70. Pia conta que ficou no Brasil por uma temporada para estudar o caso, viajando pela Amazônia em busca de histórias e elementos para compor o fiel retrato dos personagens. Integrou a Seleção Oficial do Festival de Locarno e da Mostra Panorama Mundial no Festival do Rio 2024, tendo distribuição no Brasil pela Filmes do Estação.



Eu, que te amei
 
Apresentado no Festival de Cannes do ano passado, o drama francês é inspirado no tumultuado caso de amor de Simone Signoret (1921-1985) e Yves Montand (1921-1991), dois ícones do cinema francês. Eles foram casados por quase 35 anos, até o falecimento de Simone. O casal tinha um amor efusivo, uma liga forte, mas haviam impasses, brigas violentas e traições. O casal tinha nítidos contrastes: Simone era ciumenta, atormentada pelos casos extraconjugais do marido, como o que teve com Marilyn Monroe, enquanto Montand, um mulherengo de bom coração, tentava relevar tudo para evitar confrontos. Atuaram juntos em quatro filmes franceses entre as décadas de 50 e 70. Existia ali um casal além de seu tempo, que se entendia apesar das diferenças, dois artistas politizados que encabeçaram filmes revolucionários e entregavam grandes interpretações. Nascida na Alemanha, porém radicada na França, Simone Signoret, de ‘As diabólicas’, venceu Oscar, Bafta, Berlim e Cannes, enquanto o galã ítalo-francês Montand protagonizou produções cultuadas como ‘O salário do medo’ (1953) e ‘Z’ (1969). O trabalho da diretora e roteirista Diane Kurys, de ‘Refrigerante de menta’ (1977) e ‘Por uma mulher’ (2013), é maduro e sólido, cuja pesquisa sobre o famoso casal durou cinco anos. Ela é uma cineasta de 77 anos que conheceu os verdadeiros biografados, e no drama optou pela captura de cenas íntimas, de muitos diálogos do casal em casa e entre amigos, com longas conversas sobre casamento, trabalho e futuro – numa das tantas cenas românticas, Montand canta ‘Les feuilles mortes’ para Simone no aniversário dela (Montand gravou este clássico da música francesa, escrita por Jacques Prévert nos anos 70, e num dos trechos há o verso que remete ao título do filme, ‘Moi qui t'aimais’, que significa ‘Eu, que te amei’). A dupla de atores está em um momento de pura consagração, ‘encarnando’ as reais figuras, com um impressionante trabalho de cabelo, maquiagem e figurino – são eles Marina Foïs, de ‘As bestas’ (2022) e o ator de origem marroquina que vem fazendo muitos filmes e também é diretor, Roschdy Zem, de ‘Os filhos dos outros (2022). Gostei do resultado, de um filme sensato que não cai no melodrama. Está nos principais cinemas do Brasil, com distribuição da Autoral Filmes.

Nenhum comentário:

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 3

Nouvelle Vague   O cineasta norte-americano Richard Linklater completou 65 anos de idade e 40 de carreira, um contador de histórias originai...