terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Resenha especial


Ao cair da noite
 
Ursula (Brigitte Bardot) é uma jovem que abandona o convento para morar com os tios em uma distante fazenda. A chegada dela faz com que incertezas ocupem a rotina da casa, já que a menina parece guardar um segredo. Um assassinato cometido na calada da noite abalará toda a comunidade daquela remota região rural.
 
A atriz francesa Brigitte Bardot faleceu há duas semanas, exatamente em 28 de dezembro de 2025, aos 91 anos. Vista como uma das mulheres mais belas de seu tempo, era uma atriz sexy sem ser vulgar e ousada em cena – em muitos dos filmes que participou, inclusive alguns dirigidos pelo marido, Roger Vadim (1928-2000), chegou a ficar seminua, em uma época de extremos pudores, isto nas décadas de 50 e 60. O auge da carreira veio em três filmes sequenciais de Vadim: ‘E Deus criou a mulher’ (1956 – que marcou a estreia dele na direção), ‘Ao cair da noite’ (1958) e ‘Torneio do amor’ (1961). Por cinco anos estiveram casados, depois Vadim a trocou pela atriz Annette Stroyberg e em seguida por Jane Fonda, com quem fez o cultuado ‘Barbarella’ (1968), o casamento mais duradouro dele, de quase uma década.
Brigitte virou símbolo sexual em um período de grande revolução cultural, em que as mulheres ganhavam a tela esbanjando beleza e rompendo padrões. Ela nasceu em uma família burguesa e católica, viveu recolhida em casa durante a ocupação nazista em Paris, e aos 11 anos tentou ser bailarina. Fez balé, mas abandonou a carreira para ser modelo, ganhando a capa da revista Elle aos 15 anos. Sua beleza chamou a atenção da mídia, e teve oportunidade de fazer um primeiro filme aos 17 anos, em 1952, com ajuda do futuro marido, Roger Vadim – ele era seis anos mais velho, na época com 23 anos. Começaram a namorar em 1952 e casaram-se em seguida, até que no auge da Nouvelle Vague, movimento revolucionário no cinema que abria espaço para o cinema autoral na França, ele a escalou para seu primeiro longa, que escandalizou a Europa: ‘E Deus criou a mulher’. Nele, Brigite interpretava uma garota de 18 anos, Juliete, com desejos sexuais à flor da pele, marcando assim um tipo de papel e sensualidade que repetiria em outros trabalhos (neste filme, em uma cena marcante, ela dança em cima de uma mesa, com o vestido entreaberto mostrando as pernas, rodeada por vários homens, provocando um de seus pretendentes, um senhor bem idoso – papel de Curd Jurgens). Em seguida viria ‘Ao cair da noite’, conhecido no Brasil por ‘Vingança de mulher’ - a tradução ‘Ao cair da noite’ vem do título em inglês, ‘The night heaven fell’, um filme com ares de melodrama, de baixo orçamento, rodado na Espanha. O personagem de Brigitte também é ousado, mas com contenção – já que o personagem era de uma noviça no convento. A produção franco-italiana, gravada na região seca, de deserto e de calor intenso de Almería, no sul da Espanha, locação de muitos filmes de faroeste nos anos 60 e 70, traz com nitidez a beleza de Bardot no quadro, no auge da carreira, numa composição destemida, sexy, a frente de seu tempo. No filme ela é uma jovem saída de um convento, que vai morar com os tios. Ursula é cobiçada por todos, até pelo tio – numa cena polêmica, este homem, um senhor de idade, tenta abusar dela, que bate nele e o ameaça. Logo o personagem é assassinado, e ela se torna suspeita. O filme ousou por mostrar também um jovem estudante, papel de Stephen Boyd, que mantém relações sexuais com uma mulher de mais idade, Alida Valli, a tia de Bardot no filme. Após o assassinato do tio, Ursula foge com este rapaz para as montanhas. Há passagens marcantes que demonstram o lado destemido dessa mulher, por exemplo, quando ela invade uma tourada e assume o lugar do toureiro atiçando o animal com a bandeira; em outra cena, ela fica de calcinha e sutiã brancos, de renda. O filme ganhou projeção internacional por ter Brigitte no ápice da carreira, mais bela do que nunca.


Brigitte foi peça fundamental nos movimentos feministas que viriam nos anos 60. Atuou até o início dos anos 70, até abraçar a causa animal, virando uma ferrenha ativista. Ela cairia no ostracismo e isolamento, vivendo reclusa em sua mansão, apelidada de La Madrague, em Saint Tropez – e que depois virou abrigo dos cachorros que ela cuidava. Sua carreira foi marcada por contradições: foi denunciada por falas racistas e xenofóbicas, criticou o movimento #MeToo – campanha mundial contra o assédio e estupro de mulheres, depois apoiou a família Le Pen e o partido de extrema-direita na França, recebendo críticas pelo posicionamento contra as minorias. Logo após sua morte, uma história voltou a circular, de que ela estava no Brasil quando houve o Golpe Militar de 64, e aqui comemorou o fato, ao lado de amigos brasileiros, apoiando posteriormente a Ditadura. De musa revolucionária infelizmente Brigitte tornou-se uma pessoa reacionária...
‘Ao cair da noite’ é uma obra menor de Brigitte, que fica atrás de obras-primas como ‘A verdade’ (1960), ‘O desprezo’ (1963) e ‘Viva Maria’ (1965), mas vale para conhecer quem foi essa atriz belíssima que marcou um tempo. O filme foi relançado recentemente em DVD pela Classicline, juntamente com outros cinco filmes de Brigitte – a Classicline foi a distribuidora que mais trouxe filmes dela em DVD ao Brasil, e nesses relançamentos estão, por exemplo, ‘Garota levada’ (1956 – também conhecido por ‘Mademoiselle Pigalle’), ‘Quer dançar comigo?’ (1959) e ‘As mulheres’ (1969).


 
Ao cair da noite (Les bijoutiers du clair de lune). França/Itália, 1958, 91 min. Drama/Suspense. Colorido. Dirigido por Roger Vadim. Distribuição: Classicline

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