Ao cair da noite
Brigitte virou símbolo sexual em um período de grande revolução cultural, em que as mulheres ganhavam a tela esbanjando beleza e rompendo padrões. Ela nasceu em uma família burguesa e católica, viveu recolhida em casa durante a ocupação nazista em Paris, e aos 11 anos tentou ser bailarina. Fez balé, mas abandonou a carreira para ser modelo, ganhando a capa da revista Elle aos 15 anos. Sua beleza chamou a atenção da mídia, e teve oportunidade de fazer um primeiro filme aos 17 anos, em 1952, com ajuda do futuro marido, Roger Vadim – ele era seis anos mais velho, na época com 23 anos. Começaram a namorar em 1952 e casaram-se em seguida, até que no auge da Nouvelle Vague, movimento revolucionário no cinema que abria espaço para o cinema autoral na França, ele a escalou para seu primeiro longa, que escandalizou a Europa: ‘E Deus criou a mulher’. Nele, Brigite interpretava uma garota de 18 anos, Juliete, com desejos sexuais à flor da pele, marcando assim um tipo de papel e sensualidade que repetiria em outros trabalhos (neste filme, em uma cena marcante, ela dança em cima de uma mesa, com o vestido entreaberto mostrando as pernas, rodeada por vários homens, provocando um de seus pretendentes, um senhor bem idoso – papel de Curd Jurgens). Em seguida viria ‘Ao cair da noite’, conhecido no Brasil por ‘Vingança de mulher’ - a tradução ‘Ao cair da noite’ vem do título em inglês, ‘The night heaven fell’, um filme com ares de melodrama, de baixo orçamento, rodado na Espanha. O personagem de Brigitte também é ousado, mas com contenção – já que o personagem era de uma noviça no convento. A produção franco-italiana, gravada na região seca, de deserto e de calor intenso de Almería, no sul da Espanha, locação de muitos filmes de faroeste nos anos 60 e 70, traz com nitidez a beleza de Bardot no quadro, no auge da carreira, numa composição destemida, sexy, a frente de seu tempo. No filme ela é uma jovem saída de um convento, que vai morar com os tios. Ursula é cobiçada por todos, até pelo tio – numa cena polêmica, este homem, um senhor de idade, tenta abusar dela, que bate nele e o ameaça. Logo o personagem é assassinado, e ela se torna suspeita. O filme ousou por mostrar também um jovem estudante, papel de Stephen Boyd, que mantém relações sexuais com uma mulher de mais idade, Alida Valli, a tia de Bardot no filme. Após o assassinato do tio, Ursula foge com este rapaz para as montanhas. Há passagens marcantes que demonstram o lado destemido dessa mulher, por exemplo, quando ela invade uma tourada e assume o lugar do toureiro atiçando o animal com a bandeira; em outra cena, ela fica de calcinha e sutiã brancos, de renda. O filme ganhou projeção internacional por ter Brigitte no ápice da carreira, mais bela do que nunca.
Brigitte foi peça
fundamental nos movimentos feministas que viriam nos anos 60. Atuou até o
início dos anos 70, até abraçar a causa animal, virando uma ferrenha ativista. Ela
cairia no ostracismo e isolamento, vivendo reclusa em sua mansão, apelidada de
La Madrague, em Saint Tropez – e que depois virou abrigo dos cachorros que ela cuidava.
Sua carreira foi marcada por contradições: foi denunciada por falas racistas e
xenofóbicas, criticou o movimento #MeToo – campanha mundial contra o assédio e
estupro de mulheres, depois apoiou a família Le Pen e o partido de
extrema-direita na França, recebendo críticas pelo posicionamento contra as
minorias. Logo após sua morte, uma história voltou a circular, de que ela
estava no Brasil quando houve o Golpe Militar de 64, e aqui comemorou o fato,
ao lado de amigos brasileiros, apoiando posteriormente a Ditadura. De musa
revolucionária infelizmente Brigitte tornou-se uma pessoa reacionária...
‘Ao cair da noite’ é uma obra menor de Brigitte, que fica atrás de obras-primas como ‘A verdade’ (1960), ‘O desprezo’ (1963) e ‘Viva Maria’ (1965), mas vale para conhecer quem foi essa atriz belíssima que marcou um tempo. O filme foi relançado recentemente em DVD pela Classicline, juntamente com outros cinco filmes de Brigitte – a Classicline foi a distribuidora que mais trouxe filmes dela em DVD ao Brasil, e nesses relançamentos estão, por exemplo, ‘Garota levada’ (1956 – também conhecido por ‘Mademoiselle Pigalle’), ‘Quer dançar comigo?’ (1959) e ‘As mulheres’ (1969).
‘Ao cair da noite’ é uma obra menor de Brigitte, que fica atrás de obras-primas como ‘A verdade’ (1960), ‘O desprezo’ (1963) e ‘Viva Maria’ (1965), mas vale para conhecer quem foi essa atriz belíssima que marcou um tempo. O filme foi relançado recentemente em DVD pela Classicline, juntamente com outros cinco filmes de Brigitte – a Classicline foi a distribuidora que mais trouxe filmes dela em DVD ao Brasil, e nesses relançamentos estão, por exemplo, ‘Garota levada’ (1956 – também conhecido por ‘Mademoiselle Pigalle’), ‘Quer dançar comigo?’ (1959) e ‘As mulheres’ (1969).




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