quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 3


Nouvelle Vague
 
O cineasta norte-americano Richard Linklater completou 65 anos de idade e 40 de carreira, um contador de histórias originais cujos filmes dividem muito a opinião dos críticos. Em 2025 ele lançou dois longas com ambientação real e histórica – ‘Blue Moon’, que se passa nos anos 40 e trata do fim parceria musical de Lorenz Hart e Richard Rodgers, e ‘Nouvelle Vague’, que presta uma singela homenagem ao movimento cinematográfico francês das décadas de 50 e 60 que revolucionou a linguagem da Sétima Arte. Eu curti ambos quando os assisti na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro passado. ‘Nouvelle Vague’, uma coprodução Estados Unidos e França, reimagina os bastidores da gravação de ‘Acossado’ (1960), filme icônico do movimento francês, idealizado por um dos cineastas mais célebres daquele período, Jean-Luc Godard. Linklater mergulhou no processo de criação daquela obra, desde a escrita do roteiro (feita a seis mãos, por Godard, François Truffaut e Claude Chabrol, também idealizadores da Nouvelle Vague), até a escolha do elenco e as gravações pelas ruas de Paris. Metalinguístico, o longa foca nos altos e baixos dos bastidores de produção de um filme, como conflitos na escrita do roteiro, exigências estressantes dos diretores, a busca pelo elenco ideal e problemas relacionais na equipe. O filme foi rodado em preto-e-branco e conduzido por uma linguagem singular – repare nos enquadramentos e cortes, com interferências de quebra da quarta parede, como ‘Acossado’ fez de verdade. Outro destaque da linguagem do filme é um certo estilo documental, uma homenagem direta ao espírito inovador da Nouvelle Vague. Momentos de humor crítico e sagaz com passagens dramáticas delineiam a construção desse filme caprichado, de pura qualidade estética, que traz um pouco da Paris da revolução cultural daquele período, bem como do movimento Nouvelle Vague, marcado pela Política do Autor e pelas experimentações artísticas da juventude do pós-guerra. O elenco é liderado por Guillaume Marbeck na pele de Godard, Zoey Deutch interpretando Jean Seberg e Aubry Dullin como Jean-Paul Belmondo – os três estão formidáveis, com caracterização que lembram os reais artistas. O longa foi selecionado para o Festival de Cannes de 2025, disputando a Palma de Ouro, além de ter recebido indicação ao Gotham Awards na categoria de filme internacional e ao Globo de Ouro de melhor filme – comédia ou musical. Continua em cartaz nos cinemas, com distribuição pela Mares Filmes e Alpha Filmes.
 

 
A useful ghost - Uma ajuda do além
 
Vencedor do Grand Prix da Semana da Crítica em Cannes de 2025, o inusitado longa-metragem tailandês marca a estreia de Ratchapoom Boonbunchachoke e figura entre as obras mais excêntricas do cinema recente. Coproduzido com França, Singapura e Alemanha, foi escolhido como representante oficial da Tailândia para disputar o Oscar 2026 de melhor filme internacional. A narrativa se apresenta como uma fábula com forte comentário social, que aborda desigualdade e exploração no trabalho, mas revestida de elementos fantásticos. Difícil classificá-lo em um único gênero: é uma fita surrealista que transita entre drama, comédia, romance e horror sobrenatural. Gosto de filmes esquisitos, e este me pegou – mas adiante que é para público extremamente específico. A trama acompanha uma série de personagens relacionados à morte de duas pessoas que tinham algum vínculo com uma fábrica de aspiradores de pó. Um funcionário desta empresa morre no trabalho, vítima de doença respiratória, e retorna como espírito habitando um daqueles aparelhos de limpeza. Paralelamente, o fantasma da jovem esposa do herdeiro da fábrica também ‘encarna’ em outro dispositivo doméstico. Os dois aspiradores de pó animados percorrem dias e noites em busca de seus entes familiares. O enredo é narrado pela perspectiva de um enigmático rapaz, chamado para reparar um aspirador que, segundo o dono, emite urros de dor e tosse. O encontro dos dois será marcado por uma longa conversa – o primeiro contará com detalhes casos de espíritos que se instalam em eletrônicos domésticos, interpretado pelo ouvinte como uma lenda urbana. Por meio de flashbacks, o filme reconstrói aquelas duas histórias de equipamentos assombrados, revelando porque esses fantasmas acabam sendo “úteis” - como sugere o título. Apesar do tom absurdo e nonsense, o longa funciona como metáfora crítica sobre exclusão, hierarquias sociais e preconceito. E dialoga ainda com crenças tailandesas sobre espíritos protetores e rituais de oferenda, muito comuns no país. O filme exige atenção, já que múltiplas subtramas se entrelaçam. Ousado e provocativo, inclui cenas de sexo bizarras — em uma delas, um homem se envolve intimamente na cama com o aparelho possuído, chegando a beijar de língua o tubo do aspirador. Visualmente, a produção aposta em enquadramentos estáticos e uma estética de cores que reforça sua estranheza. Atualmente em cartaz, chega ao público brasileiro pela Pandora Filmes.
 

 
Belén: Uma história de injustiça
 
Produção argentina de 2025 baseada em acontecimento real, o drama está na shortlist do Oscar para disputar uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro, ao lado de grandes filmes como ‘O agente secreto’, ‘Sirāt’ e ‘Valor sentimental’. O longa se baseia em dois livros: ‘Somos Belén’, de Ana Correa, e ‘Libertad para Belén’, da jurista Soledad Deza, que é a personagem central dessa comovente trama. Em 2014, Soledad assumiu um caso que se tornou símbolo da luta pelos direitos da mulher ao aborto, culminando na aprovação, em 2020, da Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez (IVE) - até a 14ª semana de gestação. Soledad se sensibilizou com uma jovem apelidada de Belén, de 27 anos, que foi presa injustamente após sofrer um aborto espontâneo em um hospital público de Tucumán. Os médicos suspeitaram que Belén tivesse provocado a interrupção da gravidez e acionaram a polícia. Belén (cujo nome real foi preservado para proteger a identidade da verdadeira mulher) foi a julgamento e condenada a oito anos de cadeia por homicídio, mas ela cumpriu quase três, com a entrada de Soledad no caso. A prisão de Belén ganhou as ruas com protestos massivos exigindo sua liberdade. O lema #LibertadParaBelen invadiu as redes sociais, abriu-se um amplo debate sobre a autonomia do corpo feminino e o aborto, gerando um movimento na Argentina e em outros países da América do Sul que ficou conhecido como ‘Maré Verde’ (‘Ola Verde’) - as mobilizações nas ruas argentinas chegaram a reunir cerca de 1,5 milhão de mulheres. O longa acompanha especialmente a relação da advogada Soledad e a jovem Belén, antes e depois do julgamento. Ao encerrar o ‘Caso Belén’, Soledad viu abrir um novo horizonte para seus estudos e a própria existência, engajando-se na luta feminista em prol das mulheres vulneráveis vítimas de estupro. Com o filme é possível refletir o que está por trás do aborto, tema extremamente polêmico na sociedade, que divide opiniões. A direção e interpretação de Soledad Deza ficam a cargo de Dolores Fonzi, em seu segundo trabalho como diretora, demonstrando seriedade em frente à câmera e atrás dela. Indicado ao Critics Choice de melhor filme internacional e premiado no Festival de San Sebastián, o drama transforma uma dor real em um manifesto em defesa dos direitos das mulheres. Produção da Amazon/MGM, está disponível no Prime Video.


 
Adeus, June
 
A oscarizada atriz Kate Winslet faz sua estreia como diretora neste comovente filme sobre os vínculos emocionais entre uma mãe e os filhos diante de uma doença terminal. É uma obra autoral feita em família, que Kate insistiu em produzir com recursos próprios; em 2017 ela perdeu a mãe, vítima de câncer de ovário, e anos depois, o filho dela, Joe Anders, que tem com o cineasta Sam Mendes, escreveu um roteiro inspirado na morte da avó e nas experiências do luto intitulado ‘Goodbye, June’. Anders o apresentou na faculdade de cinema na Inglaterra, e agora pode vê-lo ganhar forma, em sua estreia como roteirista – Anders é ator, tem 22 anos, e já atuou em filmes como ‘1917’ (2019) e Lee (2023 – quando contracenou com a mãe, Kate). Trata-se de uma coprodução Reino Unido e EUA, filmada em Londres, com um elenco de peso: Helen Mirren, Timothy Spall, Toni Collette, Johnny Flynn e Andrea Riseborough. A narrativa se desenrola nas semanas que antecedem o Natal, quando quatro irmãos adultos se reúnem para visitar a mãe debilitada por um câncer em estágio terminal. Eles precisam ainda dar suporte ao pai idoso, que enfrenta uma série de problemas de saúde, além do comportamento instável. Deu para notar que não é um filme fácil de digerir, trabalhando com seriedade e emoção o tema da perda familiar. Os atores seguram a trama com coração e alma, numa obra que nasce da relação real de mãe e filho, refletindo a despedida de forma tocante. Produzido pela Netflix, estreou na véspera do Natal e permaneceu por duas semanas entre os 10 filmes mais assistidos da plataforma nesta temporada.



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