Nouvelle Vague
O cineasta
norte-americano Richard Linklater completou 65 anos de idade e 40 de carreira,
um contador de histórias originais cujos filmes dividem muito a opinião dos
críticos. Em 2025 ele lançou dois longas com ambientação real e histórica –
‘Blue Moon’, que se passa nos anos 40 e trata do fim parceria musical de Lorenz
Hart e Richard Rodgers, e ‘Nouvelle Vague’, que presta uma singela homenagem ao
movimento cinematográfico francês das décadas de 50 e 60 que revolucionou a
linguagem da Sétima Arte. Eu curti ambos quando os assisti na Mostra
Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro passado. ‘Nouvelle Vague’, uma
coprodução Estados Unidos e França, reimagina os bastidores da gravação de ‘Acossado’
(1960), filme icônico do movimento francês, idealizado por um dos cineastas
mais célebres daquele período, Jean-Luc Godard. Linklater mergulhou no processo
de criação daquela obra, desde a escrita do roteiro (feita a seis mãos, por Godard,
François Truffaut e Claude Chabrol, também idealizadores da Nouvelle Vague), até
a escolha do elenco e as gravações pelas ruas de Paris. Metalinguístico, o
longa foca nos altos e baixos dos bastidores de produção de um filme, como
conflitos na escrita do roteiro, exigências estressantes dos diretores, a busca
pelo elenco ideal e problemas relacionais na equipe. O filme foi rodado em
preto-e-branco e conduzido por uma linguagem singular – repare nos
enquadramentos e cortes, com interferências de quebra da quarta parede, como
‘Acossado’ fez de verdade. Outro destaque da linguagem do filme é um certo
estilo documental, uma homenagem direta ao espírito inovador da Nouvelle Vague.
Momentos de humor crítico e sagaz com passagens dramáticas delineiam a
construção desse filme caprichado, de pura qualidade estética, que traz um
pouco da Paris da revolução cultural daquele período, bem como do movimento
Nouvelle Vague, marcado pela Política do Autor e pelas experimentações artísticas
da juventude do pós-guerra. O elenco é liderado por Guillaume Marbeck na pele
de Godard, Zoey Deutch interpretando Jean Seberg e Aubry Dullin como Jean-Paul
Belmondo – os três estão formidáveis, com caracterização que lembram os reais
artistas. O longa foi selecionado para o Festival de Cannes de 2025, disputando
a Palma de Ouro, além de ter recebido indicação ao Gotham Awards na categoria
de filme internacional e ao Globo de Ouro de melhor filme – comédia ou musical.
Continua em cartaz nos cinemas, com distribuição pela Mares Filmes e Alpha
Filmes.
A useful ghost - Uma
ajuda do além
Vencedor do Grand Prix
da Semana da Crítica em Cannes de 2025, o inusitado longa-metragem tailandês
marca a estreia de Ratchapoom Boonbunchachoke e figura entre as obras mais
excêntricas do cinema recente. Coproduzido com França, Singapura e Alemanha,
foi escolhido como representante oficial da Tailândia para disputar o Oscar
2026 de melhor filme internacional. A narrativa se apresenta como uma fábula com
forte comentário social, que aborda desigualdade e exploração no trabalho, mas
revestida de elementos fantásticos. Difícil classificá-lo em um único gênero: é
uma fita surrealista que transita entre drama, comédia, romance e horror
sobrenatural. Gosto de filmes esquisitos, e este me pegou – mas adiante que é
para público extremamente específico. A trama acompanha uma série de personagens
relacionados à morte de duas pessoas que tinham algum vínculo com uma fábrica
de aspiradores de pó. Um funcionário desta empresa morre no trabalho, vítima de
doença respiratória, e retorna como espírito habitando um daqueles aparelhos de
limpeza. Paralelamente, o fantasma da jovem esposa do herdeiro da fábrica
também ‘encarna’ em outro dispositivo doméstico. Os dois aspiradores de pó
animados percorrem dias e noites em busca de seus entes familiares. O enredo é
narrado pela perspectiva de um enigmático rapaz, chamado para reparar um
aspirador que, segundo o dono, emite urros de dor e tosse. O encontro dos dois
será marcado por uma longa conversa – o primeiro contará com detalhes casos de
espíritos que se instalam em eletrônicos domésticos, interpretado pelo ouvinte
como uma lenda urbana. Por meio de flashbacks, o filme reconstrói aquelas duas
histórias de equipamentos assombrados, revelando porque esses fantasmas acabam
sendo “úteis” - como sugere o título. Apesar do tom absurdo e nonsense, o longa
funciona como metáfora crítica sobre exclusão, hierarquias sociais e
preconceito. E dialoga ainda com crenças tailandesas sobre espíritos protetores
e rituais de oferenda, muito comuns no país. O filme exige atenção, já que
múltiplas subtramas se entrelaçam. Ousado e provocativo, inclui cenas de sexo
bizarras — em uma delas, um homem se envolve intimamente na cama com o aparelho
possuído, chegando a beijar de língua o tubo do aspirador. Visualmente, a
produção aposta em enquadramentos estáticos e uma estética de cores que reforça
sua estranheza. Atualmente em cartaz, chega ao público brasileiro pela Pandora
Filmes.
Belén: Uma história
de injustiça
Produção argentina de
2025 baseada em acontecimento real, o drama está na shortlist do Oscar para
disputar uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro, ao lado de grandes
filmes como ‘O agente secreto’, ‘Sirāt’ e ‘Valor sentimental’. O longa se baseia
em dois livros: ‘Somos Belén’, de Ana Correa, e ‘Libertad para Belén’, da jurista
Soledad Deza, que é a personagem central dessa comovente trama. Em 2014,
Soledad assumiu um caso que se tornou símbolo da luta pelos direitos da mulher
ao aborto, culminando na aprovação, em 2020, da Lei de Interrupção Voluntária
da Gravidez (IVE) - até a 14ª semana de gestação. Soledad se sensibilizou com
uma jovem apelidada de Belén, de 27 anos, que foi presa injustamente após sofrer
um aborto espontâneo em um hospital público de Tucumán. Os médicos suspeitaram
que Belén tivesse provocado a interrupção da gravidez e acionaram a polícia. Belén
(cujo nome real foi preservado para proteger a identidade da verdadeira mulher)
foi a julgamento e condenada a oito anos de cadeia por homicídio, mas ela
cumpriu quase três, com a entrada de Soledad no caso. A prisão de Belén ganhou
as ruas com protestos massivos exigindo sua liberdade. O lema
#LibertadParaBelen invadiu as redes sociais, abriu-se um amplo debate sobre a
autonomia do corpo feminino e o aborto, gerando um movimento na Argentina e em
outros países da América do Sul que ficou conhecido como ‘Maré Verde’ (‘Ola
Verde’) - as mobilizações nas ruas argentinas chegaram a reunir cerca de 1,5
milhão de mulheres. O longa acompanha especialmente a relação da advogada
Soledad e a jovem Belén, antes e depois do julgamento. Ao encerrar o ‘Caso
Belén’, Soledad viu abrir um novo horizonte para seus estudos e a própria
existência, engajando-se na luta feminista em prol das mulheres vulneráveis
vítimas de estupro. Com o filme é possível refletir o que está por trás do
aborto, tema extremamente polêmico na sociedade, que divide opiniões. A direção
e interpretação de Soledad Deza ficam a cargo de Dolores Fonzi, em seu segundo
trabalho como diretora, demonstrando seriedade em frente à câmera e atrás dela.
Indicado ao Critics Choice de melhor filme internacional e premiado no Festival
de San Sebastián, o drama transforma uma dor real em um manifesto em defesa dos
direitos das mulheres. Produção da Amazon/MGM, está disponível no Prime Video.

Adeus, June
A oscarizada atriz Kate
Winslet faz sua estreia como diretora neste comovente filme sobre os vínculos
emocionais entre uma mãe e os filhos diante de uma doença terminal. É uma obra
autoral feita em família, que Kate insistiu em produzir com recursos próprios;
em 2017 ela perdeu a mãe, vítima de câncer de ovário, e anos depois, o filho
dela, Joe Anders, que tem com o cineasta Sam Mendes, escreveu um roteiro inspirado
na morte da avó e nas experiências do luto intitulado ‘Goodbye, June’. Anders o
apresentou na faculdade de cinema na Inglaterra, e agora pode vê-lo ganhar forma,
em sua estreia como roteirista – Anders é ator, tem 22 anos, e já atuou em
filmes como ‘1917’ (2019) e Lee (2023 – quando contracenou com a mãe, Kate). Trata-se
de uma coprodução Reino Unido e EUA, filmada em Londres, com um elenco de peso:
Helen Mirren, Timothy Spall, Toni Collette, Johnny Flynn e Andrea Riseborough.
A narrativa se desenrola nas semanas que antecedem o Natal, quando quatro
irmãos adultos se reúnem para visitar a mãe debilitada por um câncer em estágio
terminal. Eles precisam ainda dar suporte ao pai idoso, que enfrenta uma série
de problemas de saúde, além do comportamento instável. Deu para notar que não é
um filme fácil de digerir, trabalhando com seriedade e emoção o tema da perda
familiar. Os atores seguram a trama com coração e alma, numa obra que nasce da
relação real de mãe e filho, refletindo a despedida de forma tocante. Produzido
pela Netflix, estreou na véspera do Natal e permaneceu por duas semanas entre
os 10 filmes mais assistidos da plataforma nesta temporada.
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