Águias da República
Um dos grandes destaques
da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado acaba de estrear
nas salas brasileiras, com distribuição da Imovision. Também esteve na minha
lista dos melhores filmes de 2025 esse novo trabalho do diretor sueco de origem
egípcia Tarik Saleh. É o fechamento da trilogia ‘Cairo’, estrelada por Fares
Fares – antes foram ‘O incidente no Nile Hilton’ (2017) e ‘Garoto dos céus’
(2022). É um thriller político surpreendente, que exige atenção e conhecimento
da História recente do Egito. Saleh é ousado ao retratar figuras notoriamente
autoritárias com o nome e os traços como são, como o presidente Abdul Fatah Al-Sisi,
um militar que ocupa o cargo máximo da política egípcia desde 2014. Fares Fares
interpreta um ator egípcio, George Fahmy, idolatrado pelo público e apelidado
de ‘O faraó das telas’. É convidado para interpretar o atual presidente do
Egito, Al-Sisi, numa superprodução que biografa o tal político. Ele recusa, por
não compactuar com as ideias do cara, um verdadeiro candidato a déspota. Porém,
George é colocado na parede e vê a família sofrer ameaças; contra sua vontade,
resolve atuar no filme, sem direito a voz própria e sendo constantemente
moldado pelos produtores. Um filme que trata da censura numa ditadura e de como
o indivíduo é tragado para dentro do sistema, sem perceber,
desnaturalizando-se. Fares Fares é soberbo em cena, e seu personagem aos poucos
se vê preso participando de trocas de favores entre políticos violentos,
aliando-se aos militares e ao próprio presidente, por quem não tinha simpatia.
Filmão de Saleh e Fares, na melhor parceria da trilogia, com trilha sonora do
duas vezes ganhador do Oscar Alexander Desplat. Indicado à Palma de Ouro em
Cannes, foi exibido também no festival de Toronto e tornou-se o representante
da Suécia ao Oscar de filme estrangeiro – é uma coprodução com outros quatro
países, França, Dinamarca, Finlândia e Alemanha.
The New Yorker: 100 anos
de História
Ótimo documentário da
Netflix sobre o centenário da The New Yorker, importante revista norte-americana
que atravessou o século XX publicando críticas, reportagens e ensaios, hoje uma
das poucas em papel, resistindo ao formato digital. Também inovou como uma das
primeiras a adotar o New Journalism, na década de 60 – foi na New Yorker que Truman
Capote publicou a série de reportagens investigativas ‘In cold blood’, um marco
para o jornalismo literário. Com uma edição dinâmica, misturando páginas das
revistas antigas com entrevistas e ilustrações, o filme mostra bastidores da
redação, bem como apurações que levaram a grandes histórias e entrevistas da
revista. Acompanha pontos de vista de jornalistas atuantes do veículo, e ex-integrantes
da equipe, e dá um grande espaço de fala para o editor David Remnick, premiado
com o Pulitzer, que está há mais de 30 anos à frente da The New Yorker.
Leitores assíduos contam como formou seu senso crítico a partir da leitura das
edições, como as atrizes Molly Ringwald e Sarah Jessica Parker e os atores
Jesse Eisenberg e John Hamm. Exibido nos festivais de Telluride e Denver, tem
direção do documentarista Marshall Curry, premiado com o Oscar pelo
curta-metragem ‘A janela dos vizinhos’ (2019).
Misty: A História de
Erroll Garner
Documentário musical sobre
o pianista norte-americano Erroll Garner (1921-1977), um autodidata que começou
a tocar piano aos três anos de idade e se tornou uma lenda do jazz. Garner recriou
o gênero swing e ficou conhecido pela balada ‘Misty’, que trouxe uma nova tendência
ao jazz na década de 50. O filme examina sua complexa vida pessoal, desde os
relacionamentos controversos na família aos abusos cometidos pelo seu
empresário, passando pelo longo processo judicial, por quebra de contrato, contra
a gravadora Columbia Records, sua parceira de longa data. O filme traz cenas
raras de apresentações de Garner, muitas dos anos 50 e 60, e tem como destaque
a participação da única filha do pianista, Kim Garner, que lembra a trajetória
do pai. Amigos que tocaram com Garner lembram o habilidoso lado artístico dele,
que amava a música em primeiro lugar. Um bom filme do diretor Georges Gachot, documentarista
de filmes musicais que tem forte vínculo com o Brasil – ele já dirigiu docs
sobre Maria Bethânia, Nana Caymmi e João Gilberto. Exibido no DOK.fest München,
entrou recentemente no catálogo do streaming Reserva Imovision.
Meu pai, o assassino
BTK
Para aqueles que gostam
de documentários investigativos intrigantes, dou a dica de assistir a esse bom
filme da Netflix. Já contei em outros textos que a Netflix se destaca por
filmes e séries em formato de documentário sobre assassinos reais, e aqui vai
mais um bom exemplar do gênero. O doc acompanha um pai de família acusado de
matar 10 pessoas num período de 17 anos. Dennis Lynn Rader ficou conhecido como
BTK, apelido que ele mesmo se deu, uma sigla de ‘Bind, torture, kill’, ou seja,
‘Amarrar, torturar, matar’. Esta era a sua forma de cometer os crimes, ocorridos
entre 1974 e 1991, no Estado de Kansas. Pacato, considerado um cara legal pelos
vizinhos, camuflava o lado sanguinário, de um assassino frio e impulsivo. O
método de BTK envolvia envios de cartas provocativas para jornais e para a polícia,
contando como foram cometidos os crimes. O caso BTK mobilizou a polícia e a
mídia, até culminar na prisão dele em 2005 - hoje ele continua preso em prisão
perpétua, com sentença de 175 anos por assassinatos em primeiro grau. A filha
dele, Kerri Rawson, é a roteirista do filme e a principal acusadora dos crimes –
ela é quem também narra e conduz as entrevistas. A diretora Skye Borgman é
especializada em séries e docs de crimes reais, muitos lançados pela Netflix,
como ‘Sequestrada à luz do dia’ (2017), ‘A garota da foto’ (2022) e dois outros
docs lançados juntos de ‘Meu pai, o assassino BTK’, em 2025, que são ‘Número
desconhecido: Catfishing na escola’ e ‘Influencer do mal: A História de Jodi
Hildebrandt’. PS - Stephen King inspirou-se na história de BTK para escrever um
conto que deu origem ao filme ‘Um bom casamento’ (2014).
Aos pedaços: A música
de Meredith Monk
Documentário musical que
a plataforma Sesc Digital traz com exclusividade ao Brasil, um filme pouco
conhecido, exibido na seção Panorama do Festival de Berlim do ano passado, sobre a compositora e
intérprete norte-americana Meredith Monk, uma musicista de impressionante
habilidade com sons rítmicos feitos somente com a voz, que esteve à frente da cena cultural novaiorquina
da contracultura. Aos 82 anos, ela abre o livro de sua vida para lembrar a
singularidade de sua arte, que mistura performance com ópera, teatro,
coreografia de dança e videoarte. Na época enfrentou críticas hostis sobre seu
trabalho, que até hoje é inovador e deu espaço para novos artistas
experimentais. Com forte engajamento político, feminista de carteirinha e
entusiasta da arte multidisciplinar, Meredith é uma lenda de seu tempo. No
filme, com imagens de arquivo e da atualidade, ela relembra o início da carreira,
no auge da contracultura, entre as décadas de 60 e 70, bem como as influências
de Dalcroze, John Cage, grupo Fluxus, do budismo, das melodias medievais e do
movimento minimalista, as parcerias e a finitude da vida. Gratuito no streaming
Sesc Digital até o dia 25/01.
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