domingo, 11 de janeiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming


Águias da República
 
Um dos grandes destaques da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado acaba de estrear nas salas brasileiras, com distribuição da Imovision. Também esteve na minha lista dos melhores filmes de 2025 esse novo trabalho do diretor sueco de origem egípcia Tarik Saleh. É o fechamento da trilogia ‘Cairo’, estrelada por Fares Fares – antes foram ‘O incidente no Nile Hilton’ (2017) e ‘Garoto dos céus’ (2022). É um thriller político surpreendente, que exige atenção e conhecimento da História recente do Egito. Saleh é ousado ao retratar figuras notoriamente autoritárias com o nome e os traços como são, como o presidente Abdul Fatah Al-Sisi, um militar que ocupa o cargo máximo da política egípcia desde 2014. Fares Fares interpreta um ator egípcio, George Fahmy, idolatrado pelo público e apelidado de ‘O faraó das telas’. É convidado para interpretar o atual presidente do Egito, Al-Sisi, numa superprodução que biografa o tal político. Ele recusa, por não compactuar com as ideias do cara, um verdadeiro candidato a déspota. Porém, George é colocado na parede e vê a família sofrer ameaças; contra sua vontade, resolve atuar no filme, sem direito a voz própria e sendo constantemente moldado pelos produtores. Um filme que trata da censura numa ditadura e de como o indivíduo é tragado para dentro do sistema, sem perceber, desnaturalizando-se. Fares Fares é soberbo em cena, e seu personagem aos poucos se vê preso participando de trocas de favores entre políticos violentos, aliando-se aos militares e ao próprio presidente, por quem não tinha simpatia. Filmão de Saleh e Fares, na melhor parceria da trilogia, com trilha sonora do duas vezes ganhador do Oscar Alexander Desplat. Indicado à Palma de Ouro em Cannes, foi exibido também no festival de Toronto e tornou-se o representante da Suécia ao Oscar de filme estrangeiro – é uma coprodução com outros quatro países, França, Dinamarca, Finlândia e Alemanha.
 

 
The New Yorker: 100 anos de História
 
Ótimo documentário da Netflix sobre o centenário da The New Yorker, importante revista norte-americana que atravessou o século XX publicando críticas, reportagens e ensaios, hoje uma das poucas em papel, resistindo ao formato digital. Também inovou como uma das primeiras a adotar o New Journalism, na década de 60 – foi na New Yorker que Truman Capote publicou a série de reportagens investigativas ‘In cold blood’, um marco para o jornalismo literário. Com uma edição dinâmica, misturando páginas das revistas antigas com entrevistas e ilustrações, o filme mostra bastidores da redação, bem como apurações que levaram a grandes histórias e entrevistas da revista. Acompanha pontos de vista de jornalistas atuantes do veículo, e ex-integrantes da equipe, e dá um grande espaço de fala para o editor David Remnick, premiado com o Pulitzer, que está há mais de 30 anos à frente da The New Yorker. Leitores assíduos contam como formou seu senso crítico a partir da leitura das edições, como as atrizes Molly Ringwald e Sarah Jessica Parker e os atores Jesse Eisenberg e John Hamm. Exibido nos festivais de Telluride e Denver, tem direção do documentarista Marshall Curry, premiado com o Oscar pelo curta-metragem ‘A janela dos vizinhos’ (2019).
 

 
Misty: A História de Erroll Garner
 
Documentário musical sobre o pianista norte-americano Erroll Garner (1921-1977), um autodidata que começou a tocar piano aos três anos de idade e se tornou uma lenda do jazz. Garner recriou o gênero swing e ficou conhecido pela balada ‘Misty’, que trouxe uma nova tendência ao jazz na década de 50. O filme examina sua complexa vida pessoal, desde os relacionamentos controversos na família aos abusos cometidos pelo seu empresário, passando pelo longo processo judicial, por quebra de contrato, contra a gravadora Columbia Records, sua parceira de longa data. O filme traz cenas raras de apresentações de Garner, muitas dos anos 50 e 60, e tem como destaque a participação da única filha do pianista, Kim Garner, que lembra a trajetória do pai. Amigos que tocaram com Garner lembram o habilidoso lado artístico dele, que amava a música em primeiro lugar. Um bom filme do diretor Georges Gachot, documentarista de filmes musicais que tem forte vínculo com o Brasil – ele já dirigiu docs sobre Maria Bethânia, Nana Caymmi e João Gilberto. Exibido no DOK.fest München, entrou recentemente no catálogo do streaming Reserva Imovision.
 

 
Meu pai, o assassino BTK
 
Para aqueles que gostam de documentários investigativos intrigantes, dou a dica de assistir a esse bom filme da Netflix. Já contei em outros textos que a Netflix se destaca por filmes e séries em formato de documentário sobre assassinos reais, e aqui vai mais um bom exemplar do gênero. O doc acompanha um pai de família acusado de matar 10 pessoas num período de 17 anos. Dennis Lynn Rader ficou conhecido como BTK, apelido que ele mesmo se deu, uma sigla de ‘Bind, torture, kill’, ou seja, ‘Amarrar, torturar, matar’. Esta era a sua forma de cometer os crimes, ocorridos entre 1974 e 1991, no Estado de Kansas. Pacato, considerado um cara legal pelos vizinhos, camuflava o lado sanguinário, de um assassino frio e impulsivo. O método de BTK envolvia envios de cartas provocativas para jornais e para a polícia, contando como foram cometidos os crimes. O caso BTK mobilizou a polícia e a mídia, até culminar na prisão dele em 2005 - hoje ele continua preso em prisão perpétua, com sentença de 175 anos por assassinatos em primeiro grau. A filha dele, Kerri Rawson, é a roteirista do filme e a principal acusadora dos crimes – ela é quem também narra e conduz as entrevistas. A diretora Skye Borgman é especializada em séries e docs de crimes reais, muitos lançados pela Netflix, como ‘Sequestrada à luz do dia’ (2017), ‘A garota da foto’ (2022) e dois outros docs lançados juntos de ‘Meu pai, o assassino BTK’, em 2025, que são ‘Número desconhecido: Catfishing na escola’ e ‘Influencer do mal: A História de Jodi Hildebrandt’. PS - Stephen King inspirou-se na história de BTK para escrever um conto que deu origem ao filme ‘Um bom casamento’ (2014).
 

 
Aos pedaços: A música de Meredith Monk
 
Documentário musical que a plataforma Sesc Digital traz com exclusividade ao Brasil, um filme pouco conhecido, exibido na seção Panorama do Festival de Berlim do ano passado, sobre a compositora e intérprete norte-americana Meredith Monk, uma musicista de impressionante habilidade com sons rítmicos feitos somente com a voz, que esteve à frente da cena cultural novaiorquina da contracultura. Aos 82 anos, ela abre o livro de sua vida para lembrar a singularidade de sua arte, que mistura performance com ópera, teatro, coreografia de dança e videoarte. Na época enfrentou críticas hostis sobre seu trabalho, que até hoje é inovador e deu espaço para novos artistas experimentais. Com forte engajamento político, feminista de carteirinha e entusiasta da arte multidisciplinar, Meredith é uma lenda de seu tempo. No filme, com imagens de arquivo e da atualidade, ela relembra o início da carreira, no auge da contracultura, entre as décadas de 60 e 70, bem como as influências de Dalcroze, John Cage, grupo Fluxus, do budismo, das melodias medievais e do movimento minimalista, as parcerias e a finitude da vida. Gratuito no streaming Sesc Digital até o dia 25/01.
 

Nenhum comentário:

Resenha especial

Ao cair da noite   Ursula (Brigitte Bardot) é uma jovem que abandona o convento para morar com os tios em uma distante fazenda. A chegada de...