Jay
Kelly
Coprodução
EUA, Reino Unido e Itália, o novo filme de Noah Baumbach encerrou a Mostra
Internacional de Cinema de SP desse ano, onde assisti com antecedência em uma
sessão para a imprensa, organizada pela Netflix. Saí com olhar entusiasmado do mais
recente trabalho autoral de Baumbach, que vive numa gangorra entre um filme
bom, outro fraco, outro bom, outro regular. É um filme de homenagem ao mundo do
cinema, que caiu como uma luva para George Clooney, que interpreta o
protagonista, e aos poucos virou um filme dele/pra ele - numa sequência final isto
ficará mais claro. Clooney interpreta um astro das telas chamado Jay Kelly, que
curte uma boa vida apesar de alguns desajustes familiares. Quase sessentão, ele
recebe um convite irrecusável: viajar para a Itália para uma retrospectiva de
seus trabalhos e lá ganhar um prêmio honorário. Ao lado do dedicado empresário Ron
Sukenick (Adam Sandler), embarca em uma viagem transformadora, cheia de propósitos,
que será uma mistura de sentimentos. Kelly será tomado pela melancolia, revisitará
seu passado e terá de resolver pequenos empecilhos pela frente. Uma fita de
viagem e redescobertas pelo caminho, que também é uma homenagem ao próprio
fazer artístico do cinema, cheio de metalinguagens e bastidores. Um dos
trabalhos mais maduros e pessoais da nova fase de Baumbach. É o primeiro filme
de Emily Mortimer como corroteirista – ela escreve o roteiro com Baumbach e tem
uma pontinha como atriz na abertura. E a sexta colaboração de Noah com a
esposa, Greta Gerwig (aqui ela faz a mulher de Sandler, e a filha do casal no
filme é a filha verdadeira de Adam, Sadie Sandler, de 19 anos). Originalmente
seria Brad Pitt no papel principal, que chegou até a gravar algumas cenas – Pitt
saiu do projeto e Clooney entrou de cabeça, dando o melhor de si, num papel bem
à vontade e a sua altura – tanto ele quanto Sandler acabaram de receber
indicação ao Globo de Ouro pelas atuações.
Há
uma combinação de atores coadjuvantes em momentos hilários, como Billy Crudup,
Laura Dern, Jim Broadbent e Stacy Keach. Para mim o melhor Noah da última
década, desde ‘Mistress America’ (2015). Exibido nos festivais de Veneza, onde
concorreu ao Leão de Ouro, San Sebastián e Nova York. Entrou no radar das
principais premiações para a temporada de 2026, como Critics Choice e Gotham,
devendo pegar nomeação ao Oscar.
A queda do céu
Virou cinema o livro ‘A queda
do céu: Palavra de um xamã yanomami’, obra fundamental do antropólogo francês
Bruce Albert que o escreveu a partir das falas do xamã yanomami Davi Kopenawa –
lançado em 2010, a obra literária reúne histórias em torno daquele povo
indígena da Amazônia, incluindo rituais e formas de lidar com o mundo e a
natureza. Quem ficou responsável em traduzir as palavras do livro para imagens
foi o filho de Glauber Rocha, o documentarista Eryk Rocha, que já realizou docs
importantes, e aqui o fez ao lado da cineasta Gabriela Carneiro da Cunha – eles
escreveram o roteiro baseado no livro e dirigiram. O filme entrou nos cinemas após
exibição na COP30 e ter passado em festivais de 2024, como na Quinzena dos
Realizadores em Cannes, impulsionando a pauta indígena, com foco nos yanomamis
que por pouco não foram exterminados nas duas últimas décadas – a terra deles,
compreendida na Amazônia entre Brasil e Venezuela, é alvo contínuo de disputas territoriais,
invasão por garimpeiros e madeireiros, epidemias, e há poucos anos, com vista
grossa de autoridades políticas, começou ali um genocídio. O filme já impacta
pela abertura, de 15 minutos, com uma câmera estática esperando a passagem de
um grupo de yanomamis pela tela – eles falam baixinho em um ritual, cruzando um
enorme trecho a céu aberto, os vemos lá no fundo, pequeninos, até se
aproximarem da tela. Com poucos diálogos, quase que todo na língua yanomami, o
filme é conduzido pelo xamã e líder daquele grupo, Davi Kopenawa, um dos nomes
mais importantes da causa indígena do Brasil. Ele e a comunidade da aldeia Watorikɨ
celebram rituais como o Reahu – a passagem de um ente falecido, pintam o corpo
de preto e vermelho e grudam penas de aves na cabeça. As longas cenas mostrando
detalhes da prática são didáticas e apreciativas, com uma coloração da imagem incrivelmente
bela e uma série de enquadramentos caprichados. Pouco se viu sobre os yanomamis
por dentro da comunidade, e o filme se presta a acompanhar vários dias pelo
ponto de vista dos integrantes daquele povo, que hoje somam 28 mil espalhados
pela Terra Indígena Yanomami (TIY), segundo dados do IBGE de 2022. O filme é um
convite para refletirmos a questão indígena e vermos com detalhes uma cultura
tão rica e que vem sendo exterminada. O longa teve recepção calorosa em mais de
80 festivais nacionais e internacionais, recebendo prêmios no DOC NYC e no
Festival do Rio. Montagem, direção de arte, fotografia e som são pontos
impecáveis desse filme etnográfico de temática urgente. Coprodução
Brasil-Itália da Aruac Filmes, Hutukara Associação Yanomami e Stemal
Entertainment com Rai Cinema, com produção associada francesa de Les Films
d'ici. Distribuição nos cinemas do Brasil pela Gullane+.
Apolo
Documentário brasileiro
exibido nos festivais do Rio e Mix Brasil, o filme de estreia das atrizes Tainá
Müller e Ísis Broken trata de uma temática delicada, sobre a espera do
nascimento de um bebê gestado por um casal transgênero. O casal é formado pela
atriz e artista musical Isis Broken (a diretora) e o parceiro Lourenzo Gabriel,
e o bebê na barriga é Apolo. Entre o casal vemos os dilemas e os dramas, como
preconceito na sociedade e a luta por igualdade nos direitos básicos de saúde,
moradia e reconhecimento. É um homem trans que está grávido, e a esposa, mulher
trans, em plena pandemia da Covid-19, um período marcado pela insegurança. A rotina
de ambos é uma batalha intensa por igualdade e respeito, em um país que mata
120 transexuais e travestis por ano, um dos mais violentos para esta
comunidade. O filme começou a ser gravado na pandemia e terminou recentemente, em
que as diretoras escutam duas vozes centrais, de Isis e Lorenzo, permeadas pela
ansiedade da espera de Apolo (que na mitologia grega é um dos deuses mais
importantes, com atributos relacionados ao sol, às artes, à luz e à profecia).
Acompanhamos as conversas do casal, o amor, as rejeições e as barreiras na
sociedade – há momentos constrangedores e tensos gravados via celular por Isis
e Lourenzo, muitos nos atendimentos no hospital, quando foram humilhados por
funcionários e por quem aguardava na recepção. Os ataques sofridos e a negação
da identidade abrem uma forte reflexão sobre gênero e sexualidade. Também falam
no filme amigos e familiares de ambos. Um filme autoral sensível e aberto ao
diálogo, sobre famílias trans e novos conceitos de família, maternidade e
paternidade. Ganhou os prêmios de melhor documentário e melhor trilha sonora original
no Festival do Rio e o Coelho de Prata - Prêmio do Público no Mix Brasil. Produzido
pela Capuri, Puro Corazón e Biônica Filmes, esta última também distribuidora do
filme.
A natureza das coisas
invisíveis
Coprodução Brasil e Chile,
o filme conquistou público e crítica nos principais festivais paulistas dos
últimos meses, como a Mostra de Cinema de SP e o Mix Brasil, recebendo em ambos
prêmios de destaque – respectivamente o prêmio da crítica e o Coelho de Ouro de
melhor longa nacional. Exibido nos Festivais de Gramado e Brasília e indicado
ao Teddy Bear no Festival de Berlim – dedicado a temas LGBTQIAPN + no festival, o longa ficcional, que marca a
estreia da cineasta Rafaela Camelo, acompanha o verão de Glória, uma menina de
apenas 10 anos, que está de férias. Ela passa o tempo no hospital onde a mãe
trabalha como enfermeira. Conhece nos corredores uma outra garota de mesma
idade, Sofia, que acompanha de perto os altos e baixos da saúde da bisavó,
internada ali. Brincam juntas, confidenciam coisas, tornam-se amigas naquele
período, até o final das férias de verão.
A forma como se conduz a
amizade das meninas é o diferencial desse filme independente humano, bonito e
sensível, com informações reveladoras que se prendem aos detalhes – e que formam
a identidade das personagens. É um coming-of-age agridoce com toques autorais
da cineasta sobre encontros e despedidas, e que olha para a infância, entrando no
mundo sutil das crianças e de sua imaginação ao brincar entre elas e se
relacionar no universo dos adultos. A curiosidade das crianças, o medo da morte
e as separações – e depois a questão de identidade de gênero, que mudará a
maneira de olharmos para a trama, embasam a proposta do agradável filme. As atrizes
Laura Brandão e Serena brilham nos diálogos e na interpretação de Gloria e
Sofia, que pendem entre o humor e o drama, e as atrizes Larissa Mauro, Camila
Márdila e Aline Marta Maia completam o trabalho das meninas. Tem produção da
Moveo Filmes, Pinda Producciones e Apoteótica Cinematográfica, com distribuição
da Vitrine Filmes no Brasil.
Make a girl
Animação scifi japonesa
interessante para quem gosta de animes futuristas, atualmente um eixo de cinema
muito explorado nos países orientais. O dado curioso é que ele foi totalmente
feito com financiamento coletivo, pelas mãos do diretor de cinema independente Gensho
Yasuda. A trama romântica é num futuro dominado por robôs domésticos, onde vive
um gênio da robótica chamado Akira. Ele é forçado a encontrar uma namorada, e
então desenvolve no laboratório uma parceira ideal, uma androide perfeita. Ela
é a ‘N°0’, que passará a ter emoções não programadas. Akira a leva para todos
os lugares, mas nunca sabe se os sentimentos dela por ele são reais. Uma
animação que discute o poder da IA nos tempos da alta tecnologia e das máquinas
assumindo emoções. Hoje o convívio com robôs é uma realidade em muitos países,
e no Japão é ainda mais avançado com a genialidade das mentes por trás dessas
criações. Inspirado no curta ‘Make love’, do mesmo diretor, tem humor, pegada romântica,
fala de amizade e de um mundo nem tão futurista assim tomado pelos robôs
inteligentes. Depois de prorrogado duas vezes, estreia agora nos cinemas, pela
Sato Company.
Aileen:
A História de uma Serial Killer
Documentário
investigativo da Netflix sobre a ‘Rainha das assassinas em série’, Aileen
Wuornos (1956-2002), que matou sete homens no período de um ano quando
trabalhava como prostituta na Flórida. O filme é somente com imagens de
arquivo, de cenas de gravações policiais, da prisão dela em flagrante, do interrogatório,
entrevistas de TV e do julgamento de Aileen. O caso que chocou o mundo entre 1989
e 1990 traz a perspectiva dessa mulher, que dizia ter matado em legítima
defesa, pois sofreu estupro. O filme não deifica a assassina, como muitas
séries e filmes hoje insistem em fazer, pelo contrário, mostra a escalada no
crime, o tormento que sofreu e como a justiça fez de tudo para calar Aileen, que
não teve chance de um julgamento correto – na época a mídia sensacionalista
ficou em cima estampando as notícias das mortes, enquanto a acusada era
silenciada por todos, dentro e fora do tribunal, até que o juiz deixou de levar
em consideração o depoimento dela sobre o estupro. Todo montando com imagens
antigas, algumas com borrões e má qualidade, sem gravações ou depoimentos
atuais, é um filme de registro de uma época para mostrar o silenciamento da
mulher, independente se ela foi criminosa, vítima ou justiceira. A vida de
Aileen serviu de base para o premiado filme ‘Monster – Desejo assassino’, que rendeu
a Charlize Theron o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz em 2004. Produção
original da Netflix, disponível lá desde o fim de outubro.
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