domingo, 14 de dezembro de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

 
Jay Kelly
 
Coprodução EUA, Reino Unido e Itália, o novo filme de Noah Baumbach encerrou a Mostra Internacional de Cinema de SP desse ano, onde assisti com antecedência em uma sessão para a imprensa, organizada pela Netflix. Saí com olhar entusiasmado do mais recente trabalho autoral de Baumbach, que vive numa gangorra entre um filme bom, outro fraco, outro bom, outro regular. É um filme de homenagem ao mundo do cinema, que caiu como uma luva para George Clooney, que interpreta o protagonista, e aos poucos virou um filme dele/pra ele - numa sequência final isto ficará mais claro. Clooney interpreta um astro das telas chamado Jay Kelly, que curte uma boa vida apesar de alguns desajustes familiares. Quase sessentão, ele recebe um convite irrecusável: viajar para a Itália para uma retrospectiva de seus trabalhos e lá ganhar um prêmio honorário. Ao lado do dedicado empresário Ron Sukenick (Adam Sandler), embarca em uma viagem transformadora, cheia de propósitos, que será uma mistura de sentimentos. Kelly será tomado pela melancolia, revisitará seu passado e terá de resolver pequenos empecilhos pela frente. Uma fita de viagem e redescobertas pelo caminho, que também é uma homenagem ao próprio fazer artístico do cinema, cheio de metalinguagens e bastidores. Um dos trabalhos mais maduros e pessoais da nova fase de Baumbach. É o primeiro filme de Emily Mortimer como corroteirista – ela escreve o roteiro com Baumbach e tem uma pontinha como atriz na abertura. E a sexta colaboração de Noah com a esposa, Greta Gerwig (aqui ela faz a mulher de Sandler, e a filha do casal no filme é a filha verdadeira de Adam, Sadie Sandler, de 19 anos). Originalmente seria Brad Pitt no papel principal, que chegou até a gravar algumas cenas – Pitt saiu do projeto e Clooney entrou de cabeça, dando o melhor de si, num papel bem à vontade e a sua altura – tanto ele quanto Sandler acabaram de receber indicação ao Globo de Ouro pelas atuações.
Há uma combinação de atores coadjuvantes em momentos hilários, como Billy Crudup, Laura Dern, Jim Broadbent e Stacy Keach. Para mim o melhor Noah da última década, desde ‘Mistress America’ (2015). Exibido nos festivais de Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro, San Sebastián e Nova York. Entrou no radar das principais premiações para a temporada de 2026, como Critics Choice e Gotham, devendo pegar nomeação ao Oscar.
 

 
A queda do céu
 
Virou cinema o livro ‘A queda do céu: Palavra de um xamã yanomami’, obra fundamental do antropólogo francês Bruce Albert que o escreveu a partir das falas do xamã yanomami Davi Kopenawa – lançado em 2010, a obra literária reúne histórias em torno daquele povo indígena da Amazônia, incluindo rituais e formas de lidar com o mundo e a natureza. Quem ficou responsável em traduzir as palavras do livro para imagens foi o filho de Glauber Rocha, o documentarista Eryk Rocha, que já realizou docs importantes, e aqui o fez ao lado da cineasta Gabriela Carneiro da Cunha – eles escreveram o roteiro baseado no livro e dirigiram. O filme entrou nos cinemas após exibição na COP30 e ter passado em festivais de 2024, como na Quinzena dos Realizadores em Cannes, impulsionando a pauta indígena, com foco nos yanomamis que por pouco não foram exterminados nas duas últimas décadas – a terra deles, compreendida na Amazônia entre Brasil e Venezuela, é alvo contínuo de disputas territoriais, invasão por garimpeiros e madeireiros, epidemias, e há poucos anos, com vista grossa de autoridades políticas, começou ali um genocídio. O filme já impacta pela abertura, de 15 minutos, com uma câmera estática esperando a passagem de um grupo de yanomamis pela tela – eles falam baixinho em um ritual, cruzando um enorme trecho a céu aberto, os vemos lá no fundo, pequeninos, até se aproximarem da tela. Com poucos diálogos, quase que todo na língua yanomami, o filme é conduzido pelo xamã e líder daquele grupo, Davi Kopenawa, um dos nomes mais importantes da causa indígena do Brasil. Ele e a comunidade da aldeia Watorikɨ celebram rituais como o Reahu – a passagem de um ente falecido, pintam o corpo de preto e vermelho e grudam penas de aves na cabeça. As longas cenas mostrando detalhes da prática são didáticas e apreciativas, com uma coloração da imagem incrivelmente bela e uma série de enquadramentos caprichados. Pouco se viu sobre os yanomamis por dentro da comunidade, e o filme se presta a acompanhar vários dias pelo ponto de vista dos integrantes daquele povo, que hoje somam 28 mil espalhados pela Terra Indígena Yanomami (TIY), segundo dados do IBGE de 2022. O filme é um convite para refletirmos a questão indígena e vermos com detalhes uma cultura tão rica e que vem sendo exterminada. O longa teve recepção calorosa em mais de 80 festivais nacionais e internacionais, recebendo prêmios no DOC NYC e no Festival do Rio. Montagem, direção de arte, fotografia e som são pontos impecáveis desse filme etnográfico de temática urgente. Coprodução Brasil-Itália da Aruac Filmes, Hutukara Associação Yanomami e Stemal Entertainment com Rai Cinema, com produção associada francesa de Les Films d'ici. Distribuição nos cinemas do Brasil pela Gullane+.
 

 
Apolo
 
Documentário brasileiro exibido nos festivais do Rio e Mix Brasil, o filme de estreia das atrizes Tainá Müller e Ísis Broken trata de uma temática delicada, sobre a espera do nascimento de um bebê gestado por um casal transgênero. O casal é formado pela atriz e artista musical Isis Broken (a diretora) e o parceiro Lourenzo Gabriel, e o bebê na barriga é Apolo. Entre o casal vemos os dilemas e os dramas, como preconceito na sociedade e a luta por igualdade nos direitos básicos de saúde, moradia e reconhecimento. É um homem trans que está grávido, e a esposa, mulher trans, em plena pandemia da Covid-19, um período marcado pela insegurança. A rotina de ambos é uma batalha intensa por igualdade e respeito, em um país que mata 120 transexuais e travestis por ano, um dos mais violentos para esta comunidade. O filme começou a ser gravado na pandemia e terminou recentemente, em que as diretoras escutam duas vozes centrais, de Isis e Lorenzo, permeadas pela ansiedade da espera de Apolo (que na mitologia grega é um dos deuses mais importantes, com atributos relacionados ao sol, às artes, à luz e à profecia). Acompanhamos as conversas do casal, o amor, as rejeições e as barreiras na sociedade – há momentos constrangedores e tensos gravados via celular por Isis e Lourenzo, muitos nos atendimentos no hospital, quando foram humilhados por funcionários e por quem aguardava na recepção. Os ataques sofridos e a negação da identidade abrem uma forte reflexão sobre gênero e sexualidade. Também falam no filme amigos e familiares de ambos. Um filme autoral sensível e aberto ao diálogo, sobre famílias trans e novos conceitos de família, maternidade e paternidade. Ganhou os prêmios de melhor documentário e melhor trilha sonora original no Festival do Rio e o Coelho de Prata - Prêmio do Público no Mix Brasil. Produzido pela Capuri, Puro Corazón e Biônica Filmes, esta última também distribuidora do filme.
 

 
A natureza das coisas invisíveis
 
Coprodução Brasil e Chile, o filme conquistou público e crítica nos principais festivais paulistas dos últimos meses, como a Mostra de Cinema de SP e o Mix Brasil, recebendo em ambos prêmios de destaque – respectivamente o prêmio da crítica e o Coelho de Ouro de melhor longa nacional. Exibido nos Festivais de Gramado e Brasília e indicado ao Teddy Bear no Festival de Berlim – dedicado a temas LGBTQIAPN   + no festival, o longa ficcional, que marca a estreia da cineasta Rafaela Camelo, acompanha o verão de Glória, uma menina de apenas 10 anos, que está de férias. Ela passa o tempo no hospital onde a mãe trabalha como enfermeira. Conhece nos corredores uma outra garota de mesma idade, Sofia, que acompanha de perto os altos e baixos da saúde da bisavó, internada ali. Brincam juntas, confidenciam coisas, tornam-se amigas naquele período, até o final das férias de verão.
A forma como se conduz a amizade das meninas é o diferencial desse filme independente humano, bonito e sensível, com informações reveladoras que se prendem aos detalhes – e que formam a identidade das personagens. É um coming-of-age agridoce com toques autorais da cineasta sobre encontros e despedidas, e que olha para a infância, entrando no mundo sutil das crianças e de sua imaginação ao brincar entre elas e se relacionar no universo dos adultos. A curiosidade das crianças, o medo da morte e as separações – e depois a questão de identidade de gênero, que mudará a maneira de olharmos para a trama, embasam a proposta do agradável filme. As atrizes Laura Brandão e Serena brilham nos diálogos e na interpretação de Gloria e Sofia, que pendem entre o humor e o drama, e as atrizes Larissa Mauro, Camila Márdila e Aline Marta Maia completam o trabalho das meninas. Tem produção da Moveo Filmes, Pinda Producciones e Apoteótica Cinematográfica, com distribuição da Vitrine Filmes no Brasil.
 

 
Make a girl
 
Animação scifi japonesa interessante para quem gosta de animes futuristas, atualmente um eixo de cinema muito explorado nos países orientais. O dado curioso é que ele foi totalmente feito com financiamento coletivo, pelas mãos do diretor de cinema independente Gensho Yasuda. A trama romântica é num futuro dominado por robôs domésticos, onde vive um gênio da robótica chamado Akira. Ele é forçado a encontrar uma namorada, e então desenvolve no laboratório uma parceira ideal, uma androide perfeita. Ela é a ‘N°0’, que passará a ter emoções não programadas. Akira a leva para todos os lugares, mas nunca sabe se os sentimentos dela por ele são reais. Uma animação que discute o poder da IA nos tempos da alta tecnologia e das máquinas assumindo emoções. Hoje o convívio com robôs é uma realidade em muitos países, e no Japão é ainda mais avançado com a genialidade das mentes por trás dessas criações. Inspirado no curta ‘Make love’, do mesmo diretor, tem humor, pegada romântica, fala de amizade e de um mundo nem tão futurista assim tomado pelos robôs inteligentes. Depois de prorrogado duas vezes, estreia agora nos cinemas, pela Sato Company.
 

 
Aileen: A História de uma Serial Killer
 
Documentário investigativo da Netflix sobre a ‘Rainha das assassinas em série’, Aileen Wuornos (1956-2002), que matou sete homens no período de um ano quando trabalhava como prostituta na Flórida. O filme é somente com imagens de arquivo, de cenas de gravações policiais, da prisão dela em flagrante, do interrogatório, entrevistas de TV e do julgamento de Aileen. O caso que chocou o mundo entre 1989 e 1990 traz a perspectiva dessa mulher, que dizia ter matado em legítima defesa, pois sofreu estupro. O filme não deifica a assassina, como muitas séries e filmes hoje insistem em fazer, pelo contrário, mostra a escalada no crime, o tormento que sofreu e como a justiça fez de tudo para calar Aileen, que não teve chance de um julgamento correto – na época a mídia sensacionalista ficou em cima estampando as notícias das mortes, enquanto a acusada era silenciada por todos, dentro e fora do tribunal, até que o juiz deixou de levar em consideração o depoimento dela sobre o estupro. Todo montando com imagens antigas, algumas com borrões e má qualidade, sem gravações ou depoimentos atuais, é um filme de registro de uma época para mostrar o silenciamento da mulher, independente se ela foi criminosa, vítima ou justiceira. A vida de Aileen serviu de base para o premiado filme ‘Monster – Desejo assassino’, que rendeu a Charlize Theron o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz em 2004. Produção original da Netflix, disponível lá desde o fim de outubro.



Nenhum comentário:

Especia de cinema

76º Festival de Berlim reúne obras autorais de impacto temático e visual   O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) cont...