76º
Festival de Berlim reúne obras autorais de impacto temático e visual
O 76º
Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) continua a todo vapor na
capital alemã até o dia 22 de fevereiro. Vitrine do cinema mundial e um dos
festivais de cinema mais importantes da Europa, a Berlinale apresenta esse ano
mais de 400 filmes de diversos países, que exploram temas urgentes, como
imigração, identidades de gênero, o papel da mulher na sociedade, intolerância religiosa,
extremismo político etc. Obras autorais despertam a atenção pela qualidade
técnica, provocando impacto visual imediato. Confira abaixo títulos que assisti
no festival e que recomendo:

The
moment
(Reino
Unido e EUA - 2026, 103 minutos, de Aidan Zamiri)
Após
estreia mundial no Festival de Sundance em janeiro e duas exibições em cinemas reservados
nos Estados Unidos e Canadá, chega à Berlinale o mockumentary produzido e estrelado
pela cantora britânica Charli xcx que mergulha nos altos e baixos de um artista
pop contemporâneo. É um filme barulhento, de enorme furor, apresentado na seção
Panorama e que tem a assinatura da produtora A24. Charli faz uma
autointerpretação, em um filme que explora à exaustão os bastidores de um show
musical. Sua personagem (ela mesma) enfrenta expectativas esmagadoras impostas tanto
pela indústria quanto as que alimenta. A estrela pop, já consolidada, equilibra
a pressão, a autocrítica e o desejo de autenticidade no período que antecede a
primeira grande turnê da carreira. É de Charli o argumento original, confiado a
Aidan Zamiri, cineasta e fotógrafo escocês radicado em Londres, que se tornou
uma das figuras centrais da estética pop atual. Seu trabalho, reconhecido em
videoclipes de Charli e Billie Eilish, combina um quê dos anos 2000, humor
irônico, autocrítica feroz e um estilo lo-fi estilizado. Em “The moment”, ele
leva essa assinatura visual para um território mais íntimo, expondo a
vulnerabilidade por trás da persona pública de Charli – todo gravado com câmera
em movimento, das andanças, erros e acertos da artista e sua equipe na preparação
de um show. O filme, uma comédia dramática, caminha entre a fronteira da ficção
e da realidade, ironizando o mundo dos músicos pop para revelar uma artista que
tenta manter o controle enquanto tudo ao redor parece desmoronar. Charli caçoa
da era Brat, estilo que virou fenômeno em 2024, popularizado por ela no álbum
de mesmo nome, em que trata da nova juventude, de espírito livre, rebelde e
hedonista (a cor verde-limão do disco volta como estética em “The moment”). O
resultado é um olhar afiado sobre o significado de performar sucesso num mundo
que exige presença constante. Detalhe que até as músicas de Charli tocam na
trilha sonora, como “Boom clap” e “360”. No elenco há coadjuvantes curiosíssimos,
com destaque para Rosana Arquette, como a empresária prestes a infartar, e o sueco
Alexander Skarsgård, num papel que extra risadas sem fim, como o diretor
contratado para conduzir o show da cantora. Estreia nos cinemas do Brasil e de
outros países nesta semana.
Nightborn
(Finlândia/França/Reino
Unido/Lituânia - 2026, 92 minutos, de Hanna Bergholm)
E eis
que na Berlinale aparece um body horror com bebê monstro para discutir o papel
de mãe em uma sociedade patriarcal, recorrendo a um humor (bem estranho) para
amenizar o gore que respinga na tela. É um filme finlandês que se passa inteiramente
em uma casa localizada nas adjacências de um bosque, onde mora o casal Saga (Seidi
Haarla) e Jon (Rupert Grint). No lar cercado por árvores, onde Saga passou a infância,
nasce o bebê deles. Mas desde o parto percebem que ali não existe uma criança
igual às outras: o recém-nascido tem pelos por todo o corpo e unhas afiadas. Na
amamentação, Saga fica machucada, de seu peito escorre sangue, e na hora de
dormir, o bebê a deixa com hematomas no braço de tanto que a aperta. Inquieta, a
mãe não consegue dialogar com o marido (sobre nenhum assunto), ambos brigam, e
Jon fica mais distante. Resta a Saga cuidar sozinha daquele estranho filho, que
passa a ter comportamentos fora do comum. Enquanto o pai não vê nada de errado
ali, Saga trava uma batalha contra uma verdade que a assombra, iniciando conflitos
com outros familiares, como a mãe controladora. O longa trata da pressão da maternidade
e da depressão pós-parto, focando em uma mulher que vai enlouquecendo por não
conseguir cuidar do filho recém-nascido. A sociedade exige dela a figura de mãe
exemplar, forçada a exercer um papel que a sobrecarrega a ponto de viver apenas
para a criança (o trabalho da atriz finlandesa Seidi Haarla, de “Compartimento
número 6”, é afiadíssimo, com momentos de tensão, humor e dor). O terror
corporal na figura da criança com traços animalescos (em determinado momento o
nenezinho só se alimenta de carne crua desenvolvendo um instinto primitivo que
o faz se comunicar com a natureza) dá ao filme a dimensão de fantasia e horror
como uma fábula. A criança nunca aparece, só a vemos de lado e de costas no
colo da mãe, instigando a curiosidade de quem assiste. No passado, filmes com recém-nascidos
malditos já levantava questões sobre o desalento da maternidade, como “O bebê
de Rosemary”, sendo este “Nightborn” um esperto derivado que serve para uma reflexão
sobre o tema. O filme está na competição da Berlinale concorrendo ao Urso de Ouro.
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