terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Especia de cinema


76º Festival de Berlim reúne obras autorais de impacto temático e visual
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) continua a todo vapor na capital alemã até o dia 22 de fevereiro. Vitrine do cinema mundial e um dos festivais de cinema mais importantes da Europa, a Berlinale apresenta esse ano mais de 400 filmes de diversos países, que exploram temas urgentes, como imigração, identidades de gênero, o papel da mulher na sociedade, intolerância religiosa, extremismo político etc. Obras autorais despertam a atenção pela qualidade técnica, provocando impacto visual imediato. Confira abaixo títulos que assisti no festival e que recomendo:



The moment
(Reino Unido e EUA - 2026, 103 minutos, de Aidan Zamiri)
 
Após estreia mundial no Festival de Sundance em janeiro e duas exibições em cinemas reservados nos Estados Unidos e Canadá, chega à Berlinale o mockumentary produzido e estrelado pela cantora britânica Charli xcx que mergulha nos altos e baixos de um artista pop contemporâneo. É um filme barulhento, de enorme furor, apresentado na seção Panorama e que tem a assinatura da produtora A24. Charli faz uma autointerpretação, em um filme que explora à exaustão os bastidores de um show musical. Sua personagem (ela mesma) enfrenta expectativas esmagadoras impostas tanto pela indústria quanto as que alimenta. A estrela pop, já consolidada, equilibra a pressão, a autocrítica e o desejo de autenticidade no período que antecede a primeira grande turnê da carreira. É de Charli o argumento original, confiado a Aidan Zamiri, cineasta e fotógrafo escocês radicado em Londres, que se tornou uma das figuras centrais da estética pop atual. Seu trabalho, reconhecido em videoclipes de Charli e Billie Eilish, combina um quê dos anos 2000, humor irônico, autocrítica feroz e um estilo lo-fi estilizado. Em “The moment”, ele leva essa assinatura visual para um território mais íntimo, expondo a vulnerabilidade por trás da persona pública de Charli – todo gravado com câmera em movimento, das andanças, erros e acertos da artista e sua equipe na preparação de um show. O filme, uma comédia dramática, caminha entre a fronteira da ficção e da realidade, ironizando o mundo dos músicos pop para revelar uma artista que tenta manter o controle enquanto tudo ao redor parece desmoronar. Charli caçoa da era Brat, estilo que virou fenômeno em 2024, popularizado por ela no álbum de mesmo nome, em que trata da nova juventude, de espírito livre, rebelde e hedonista (a cor verde-limão do disco volta como estética em “The moment”). O resultado é um olhar afiado sobre o significado de performar sucesso num mundo que exige presença constante. Detalhe que até as músicas de Charli tocam na trilha sonora, como “Boom clap” e “360”. No elenco há coadjuvantes curiosíssimos, com destaque para Rosana Arquette, como a empresária prestes a infartar, e o sueco Alexander Skarsgård, num papel que extra risadas sem fim, como o diretor contratado para conduzir o show da cantora. Estreia nos cinemas do Brasil e de outros países nesta semana.
 
 
Nightborn
(Finlândia/França/Reino Unido/Lituânia - 2026, 92 minutos, de Hanna Bergholm)
 
E eis que na Berlinale aparece um body horror com bebê monstro para discutir o papel de mãe em uma sociedade patriarcal, recorrendo a um humor (bem estranho) para amenizar o gore que respinga na tela. É um filme finlandês que se passa inteiramente em uma casa localizada nas adjacências de um bosque, onde mora o casal Saga (Seidi Haarla) e Jon (Rupert Grint). No lar cercado por árvores, onde Saga passou a infância, nasce o bebê deles. Mas desde o parto percebem que ali não existe uma criança igual às outras: o recém-nascido tem pelos por todo o corpo e unhas afiadas. Na amamentação, Saga fica machucada, de seu peito escorre sangue, e na hora de dormir, o bebê a deixa com hematomas no braço de tanto que a aperta. Inquieta, a mãe não consegue dialogar com o marido (sobre nenhum assunto), ambos brigam, e Jon fica mais distante. Resta a Saga cuidar sozinha daquele estranho filho, que passa a ter comportamentos fora do comum. Enquanto o pai não vê nada de errado ali, Saga trava uma batalha contra uma verdade que a assombra, iniciando conflitos com outros familiares, como a mãe controladora. O longa trata da pressão da maternidade e da depressão pós-parto, focando em uma mulher que vai enlouquecendo por não conseguir cuidar do filho recém-nascido. A sociedade exige dela a figura de mãe exemplar, forçada a exercer um papel que a sobrecarrega a ponto de viver apenas para a criança (o trabalho da atriz finlandesa Seidi Haarla, de “Compartimento número 6”, é afiadíssimo, com momentos de tensão, humor e dor). O terror corporal na figura da criança com traços animalescos (em determinado momento o nenezinho só se alimenta de carne crua desenvolvendo um instinto primitivo que o faz se comunicar com a natureza) dá ao filme a dimensão de fantasia e horror como uma fábula. A criança nunca aparece, só a vemos de lado e de costas no colo da mãe, instigando a curiosidade de quem assiste. No passado, filmes com recém-nascidos malditos já levantava questões sobre o desalento da maternidade, como “O bebê de Rosemary”, sendo este “Nightborn” um esperto derivado que serve para uma reflexão sobre o tema. O filme está na competição da Berlinale concorrendo ao Urso de Ouro.


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