Arco
Indicado
ao Oscar de melhor animação neste ano, “Arco”, primeiro longa dirigido por Ugo
Bienvenu, com codireção de Gilles Cazaux, que foi do departamento de arte de “Planeta
fantástico” (1973) e da série “As aventuras de Tintim” (1991-1992), acaba de
chegar aos cinemas pela Mares Filmes, em parceria com a Mubi. Coprodução
França, Reino Unido e EUA, é um dos filmes mais bonitos, coloridos e sensíveis
da safra atual. Desde sua estreia mundial no Festival de Cannes, ele tem
chamado atenção pela combinação do visual, com elementos gráficos marcantes, e o
roteiro delicado, que em muitos aspectos lembra “ET – O extraterrestre” (1982).
A animação acompanha a jornada de Arco, um menino de 10 anos que mora com os
pais em outro planeta, num futuro distante (perto do ano 3000). As casas do
futuro ficam em comunidades suspensas por plataformas de metal, acima das
nuvens. Arco tem o sonho de fazer seu primeiro voo; ele bota sua capa de arco-íris,
mas uma tentativa inesperada o lança em uma viagem no tempo, transportando-o
para o ano de 2075. Ele cai em um mundo desconhecido, não entende para onde foi.
Ele está na casa de uma menina de sua idade, chamada Iris, que mora com um robô
faz-tudo, Mikki, em uma cidade protegida por uma redoma de vidro. Os três se
tornam próximos, embarcando em uma missão para devolver Arco ao seu lar – no
entanto serão caçados por um trio de exploradores e cientistas que detêm um
objeto importante do menino do futuro, que sem ele não poderá viajar no tempo
para voltar para casa. A estética de “Arco” é um espetáculo de encher os olhos:
criado inteiramente em animação 2D, reúne cores vibrantes, que evocam a leveza
da infância e, ao mesmo tempo, a estranheza de um futuro tecnológico. A paleta
cromática funciona como recurso narrativo: tons quentes remetem à esperança e
ao vínculo humano, enquanto os frios reforçam a atmosfera futurista e a solidão
das cidades protegidas por redomas. A fluidez dos traços e a composição das
cenas criam uma sensação de movimento constante, como se o próprio tempo fosse
uma personagem. Essa escolha estética confere ao filme identidade visual particular,
que faz uma transição entre a tradição da animação artesanal com uma fita
contemporânea e imersiva. É uma aventura fantástica, também uma reflexão para jovens
e crianças sobre o tempo, a memória e os laços da infância, que celebra a
imaginação. Segundo o diretor Ugo Bienvenu, roteirista do filme, ele o escreveu
na pandemia da covid, trazendo dois personagens solitários em suas casas (uma
referência ao isolamento social provocado pelo vírus) e buscando levar ao público
jovem uma mensagem de otimismo em tempos de crise. Além da indicação ao Oscar e
ao Globo de Ouro de animação, foi nomeado ao Bafta de melhor filme para crianças,
cinco indicações ao César, incluindo melhor animação, cinco indicações no Annie
Awards, e o prêmio de melhor filme no maior festival de filmes infanto-juvenis
do mundo, o Annecy. A produção é assinada pela atriz Natalie Portman, que
comprou e investiu na ideia. Para ver, encartar-se e se emocionar.

A
sapatona galáctica
Outra
animação que segue nos cinemas, desde o dia 12 de fevereiro, esta para adultos,
é a fita australiana “A sapatona galáctica”, premiada em diversos festivais pelo
mundo afora, inclusive no Brasil. Dirigido pela dupla Emma Hough Hobbs e Leela
Varghese, combina comédia, aventura e elementos do mundo da ficção científica em
uma história doidinha de um romance queer intergaláctico, não deixando de
levantar a bandeira da representatividade como manifesto público. A protagonista
é Saira, uma princesa espacial lésbica, bastante tímida, recém-abandonada pela
ex-namorada, Kiki, uma caçadora de recompensas. Quando Kiki é raptada por
criaturas perigosas (os “homeliens”, um grupo de homens héteros valentões),
Saira decide resgatá-la, seguindo uma longa viagem entre dois mundos com uma
nova amiga, uma cantora pop não-binária. As duas, numa nave capenga, cheia de
problemas técnicos, cruzará a “gayláxia”, obrigando Saira a enfrentar medos e
limitações. O filme é um barato, um caos danado, com diálogos engraçados,
alguns apimentados, e forte comentário social do universo queer. Integra a
safra das animações contemporâneas ousadas, escapando das convenções e banalidades
para levar uma discussão sobre amor gay, respeito, identidade, pertencimento e
autoconfiança – a protagonista, em vez de armas, usa o discurso para lutar
(algo muito representativo e demolidor). As personagens são divertidas, a aventura
é perspicaz, a estética é um desbunde de cores chocantes e formas inusitadas. A
irreverente animação percorreu um circuito prestigiado de festivais
internacionais, como Berlim, Sydney e Rio, onde conquistou o Prêmio Félix no
ano passado, dedicado a produções nacionais e internacionais de temática
LGBTQIAPN+. Outro prêmio que recebeu no Brasil foi o de melhor Filme
Internacional pelo público, no MixBrasil, festival que existe há mais de 30
anos voltado à diversidade. Ainda nos cinemas pela Synapse Distribution.
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