sábado, 7 de março de 2026

Cine clássico



Levada da breca
 
Um paleontólogo todo correto (Cary Grant) viaja para uma cidade para encontrar vestígios de um esqueleto de brontossauro. Conhece, por acaso, uma herdeira doidinha e super agitada (Katherine Hepburn), que se apaixona perdidamente por ele. Os dois se envolvem em trapalhadas gigantescas.
 
Comédia maluca da RKO Pictures, um dos ‘Big five’ estúdios da Era de Ouro de Hollywood (que produziu, por exemplo, sucessos como “King Kong” e “Cidadão Kane”), e uma de minhas preferidas, que nunca canso de rever. É um barato ver Cary Grant e Katherine Hepburn se entregando de corpo e alma a uma história cheia de peripécias, e juntos mantêm química perfeita, em situações burlescas e descontroladas. Eles vivem um casal improvável que se enroscam em trapalhadas de tirar o folego. Há cenas memoráveis, como o acidente com um caminhão de aves, em que eles transportam uma onça mascote (de nome Baby, que dá nome ao filme), e quando Grant veste um roupão feminino cheio de plumas para receber visita em casa. É uma das grandes “screwball comedies” norte-americanas, as chamadas “comédias malucas” de Hollywood, um gênero popular da década de 30 que reunia personagens em inúmeras confusões, quase um pastelão, e que fazia as salas de cinema encherem de gente. Cary Grant virou símbolo deste tipo de filme, como pode ser visto em outros exemplares, como “Cupido é moleque travesso” (1937) e “Jejum de amor” (1940).


Ganhadora de quatro Oscars, Katherine está maravilhosa, trazendo a atenção toda nela como uma protagonista carismática e envolvente. Antes de virar um dos mestres do faroeste, dirigindo dezenas de westerns com John Wayne, Howard Hawks fez muitos filmes policiais, romances, dramas sociais e comédias, como esta. O filme foi lançado em DVD pela Versátil há muitos anos e recentemente saiu pela Classicline, na mesma versão, com ótima imagem e som.
 
Levada da breca (Bringing up baby). EUA, 1938, 102 minutos. Comédia. Preto-e-branco. Dirigido por Howard Hawks. Distribuição: Classicline
 
 

Estamos todos bem
 
Matteo Scuro (Marcello Mastroianni) é um idoso que bota um sorriso no rosto e viaja atrás dos filhos no dia de seu aniversário. Todo ano eles vinham visitá-lo em casa, saindo de diferentes regiões da Itália. Esse ano nenhum se prontificou a vir, então Matteo parte de trem para reencontrá-los, nesta que pode ser a última viagem de sua vida.
 
Drama melancólico com momentos de graça e humor com um personagem memorável, o velho Matteo, brilhantemente interpretado por Mastroianni, que integra a galeria de figuras inesquecíveis que ele fez na telona. No filme o idoso viajante de trem olha para a câmera e conversa com os espectadores, sempre risonho, enquanto segue um longo caminho para reencontrar os filhos – esta “quebra da quarta parede” ficou perfeita para o tipo de filme que se propõe, pensando em envolver o público na história, num estilo confessional. Ele é um idoso solitário, quase no fim da vida; puxa conversa com passageiros desconhecidos no trem, mostra a eles fotos antigas dos filhos quando crianças, mas as pessoas não dão bola. Ele está radiante, suas memórias o levam para 40 atrás quando os filhos passeavam com ele na praia. Fã de música clássica, colocou o nome deles de peças e personagem de óperas, como Tosca e Canio. Só que a realidade é outra – as crianças estão crescidas, são pessoas formadas, casadas, todos atarefados no trabalho. Matteo, tomado pelo amor e ao mesmo tempo solidão, parte nessa jornada atravessando o país em busca de um abraço. É um filme envolvente e que emociona, feito com maestria por um dos maiores cineastas vivos da Itália, Giuseppe Tornatore (hoje com 69 anos), que o rodou logo após o maior sucesso dele, “Cinema Paradiso” (1988). Prepare os lenços e embarque nesta viagem emotiva ao lado de Mastroianni, numa obra que discute a velhice e a relação de pais e filhos.


Indicado à Palma de Ouro, ganhou o prêmio do Juri Ecumênico em Cannes. A trilha sonora de Ennio Morricone, parceiro de Tornatore, é um deleite musical. Teve um bom remake americano, com Robert De Niro no papel central, “Estão todos bem” (2009), que também recomendo.
 
Estamos todos bem (Stanno tutti bene). Itália/França, 1990, 121 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Giuseppe Tornatore. Distribuição: Versátil Home Video

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