A graça
Seis filmes da Mubi
integraram a programação 2025 do Festival do Rio: ‘La grazia’, ‘Órfão’, ‘Valor
sentimental’, ‘Alpha’, ‘The mastermind’ e ‘Morra, amor’. Assisti a todos lá, e
gostei muito de ‘La grazia’, agora em cartaz nos cinemas como “A graça”. A Mubi
é uma das queridinhas dos cinéfilos que percorrem festivais de cinema,
provedora que traz em seu catálogo filmes independentes e outros premiados. “A graça”
é o novo Paolo Sorrentino, diretor italiano celebrado, cultuado pelo mundo, de
‘A grande beleza’ e ‘Parthenope – Os amores de Nápoles’, que vi no Festival do
Rio do ano retrasado. Seu novo longa é mais uma sátira social inteligente
repleta de metáforas e referências diretas ao mundo da política. O grande ator
Toni Servillo, parceiro frequente de Sorrentino, interpreta o presidente da
Itália, Mariano de Santis, um homem indagador e que observa tudo ao seu redor.
Viúvo, sente diariamente a falta da esposa; católico ferrenho, abre uma crise
consigo e com o partido quando é forçado a assinar a lei de eutanásia e mais
dois pedidos de perdão relacionados a homicídios do passado – por isso, ele tem
de dar a “graça” aos envolvidos. Dilemas morais e éticos tiram seu sono nos
últimos dias de seu governo, enquanto tem de escolher nomes para sua sucessão.
Filme de abertura do Festival de Veneza de 2025, onde ganhou sete prêmios,
dentre eles melhor ator para Servillo, é uma obra complexa, assim como todo
filme de Sorrentino – aqui ele está mais contido com as exuberâncias dos
personagens, pisando mais no chão, mas nunca deixando seu estilo inusitado de
contar grandes histórias. Estreou nos cinemas brasileiros neste fim de semana,
com distribuição da Pandora Filmes em parceria com a Mubi.

Pele de Vidro
Filha do arquiteto francês
radicado no Brasil Roger Zmekhol (1928-1976), a cineasta Denise Zmekhol realiza
aqui um documentário-homenagem ao seu pai, em que revisita o legado dele, analisando
o projeto de maior destaque de sua carreira na arquitetura, o icônico edifício
Wilton Paes de Almeida, localizado no Largo do Paissandu, no Centro velho de
São Paulo e apelidado de “Pele de Vidro”. O arranha-céu modernista virou
símbolo de uma São Paulo em transformação, erguido ao longo dos anos 60 e inaugurado
em 1968, com 24 andares. Era um prédio vistoso, reluzente, inteiramente de
vidro, depois tombado pelo Patrimônio Histórico da capital paulista. Ficou
abandonado por décadas, até virar moradia de pessoas sem-teto. O filme nasce
desse reencontro inesperado: entre memória pessoal (da cineasta que volta ao
Brasil depois de 20 anos morando nos Estados Unidos, para investigar os desejos
e o trabalho do pai falecido) e realidade social, abrindo uma reflexão sobre o
problema da moradia no Brasil. O longa estava em construção quando ocorreu o incêndio
que fez o prédio desabar, em maio de 2018, deixando sete mortos e dois
desaparecidos nos escombros - na época, 140 famílias ocupavam o local. Em meio
a imagens dos arquivos pessoais de Roger, Denise (que é uma premiada
documentarista) faz toda a narração, dando um discurso poético e ao mesmo tempo
nostálgico para a obra. Coprodução Brasil e EUA, o doc percorreu mais de 60
festivais nacionais e internacionais, como Festival de Shangai e a Mostra
Internacional de Cinema de SP, e agora está exibição nos principais cinemas do
país, com distribuição da Autoral Filmes.
A mensageira
Vencedor do Urso de
Prata – Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2025, o longa confirma sem
temor a força do cinema argentino contemporâneo, em um filme de pura beleza
cinematográfica. A grandeza da obra reside no roteiro e no impacto das imagens,
rodado em um preto-e-branco incrível. Tem a estrutura de um road movie
intimista, em que acompanha Anika (Anika Bootz), uma menina prodígio que se
comunica com animais vivos e mortos. Os avós, Myriam (Mara Bestelli) e Roger
(Marcelo Subiotto), veem nela a oportunidade de ganhar dinheiro e começam a
percorrer lugarejos oferecendo consultas mediúnicas para pessoas que são tutoras
de pets. Eles viajam de van pela Argentina, cruzando diversas cidades do
interior, movidos pela fé e também na busca do sustento diário. Os personagens
do filme transicionam entre o mundo místico (a menina com o “dom” de ouvir
animais) e o charlatanismo (a visão da sociedade sobre aquele trabalho,
apontado como farsa), cujo enredo e até o PB me lembraram “Lua de papel” (1973),
aquele da garotinha que vende bíblias com o pai adotivo por cidades do interior
americano, até que se juntam com uma dançarina para fazer os negócios lucrarem.
O trio central aqui não é retratado como mau-caráter ou exploradores da fé,
tudo fica num limiar; o diretor expõe a fragilidade humana diante da perda e da
despedida, e o oportunismo surge não como vilania, mas como estratégia de
resistência, onde verdade, encenação e necessidade se confundem. Os atores de “A
mensageira” atuam com intensidade: a garota Anika alterna leveza infantil e
melancolia, enquanto Mara e Marcelo dão voz às ambiguidades desse núcleo familiar.
Há muitas passagens contemplativas, sem diálogos, só com a captura de paisagens
incríveis do interior da Argentina numa fotografia primorosa- o filme é uma
coprodução Argentina, Espanha e Uruguai. Acumula prêmios em festivais
internacionais, como Pequim (Melhor atriz coadjuvante e fotografia), San
Sebastián (Horizontes Latinos) e Viña del Mar (Melhor filme), além da Berlinale
já citada. Fund também é o roteirista, o produtor e o montador do filme,
fazendo, portanto, uma obra autoral pensada e formatada completamente por ele. Em
exibição nos cinemas brasileiros, distribuído pelo Filmes do Estação.
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