domingo, 22 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 2


A graça
 
Seis filmes da Mubi integraram a programação 2025 do Festival do Rio: ‘La grazia’, ‘Órfão’, ‘Valor sentimental’, ‘Alpha’, ‘The mastermind’ e ‘Morra, amor’. Assisti a todos lá, e gostei muito de ‘La grazia’, agora em cartaz nos cinemas como “A graça”. A Mubi é uma das queridinhas dos cinéfilos que percorrem festivais de cinema, provedora que traz em seu catálogo filmes independentes e outros premiados. “A graça” é o novo Paolo Sorrentino, diretor italiano celebrado, cultuado pelo mundo, de ‘A grande beleza’ e ‘Parthenope – Os amores de Nápoles’, que vi no Festival do Rio do ano retrasado. Seu novo longa é mais uma sátira social inteligente repleta de metáforas e referências diretas ao mundo da política. O grande ator Toni Servillo, parceiro frequente de Sorrentino, interpreta o presidente da Itália, Mariano de Santis, um homem indagador e que observa tudo ao seu redor. Viúvo, sente diariamente a falta da esposa; católico ferrenho, abre uma crise consigo e com o partido quando é forçado a assinar a lei de eutanásia e mais dois pedidos de perdão relacionados a homicídios do passado – por isso, ele tem de dar a “graça” aos envolvidos. Dilemas morais e éticos tiram seu sono nos últimos dias de seu governo, enquanto tem de escolher nomes para sua sucessão. Filme de abertura do Festival de Veneza de 2025, onde ganhou sete prêmios, dentre eles melhor ator para Servillo, é uma obra complexa, assim como todo filme de Sorrentino – aqui ele está mais contido com as exuberâncias dos personagens, pisando mais no chão, mas nunca deixando seu estilo inusitado de contar grandes histórias. Estreou nos cinemas brasileiros neste fim de semana, com distribuição da Pandora Filmes em parceria com a Mubi.


 
Pele de Vidro
 
Filha do arquiteto francês radicado no Brasil Roger Zmekhol (1928-1976), a cineasta Denise Zmekhol realiza aqui um documentário-homenagem ao seu pai, em que revisita o legado dele, analisando o projeto de maior destaque de sua carreira na arquitetura, o icônico edifício Wilton Paes de Almeida, localizado no Largo do Paissandu, no Centro velho de São Paulo e apelidado de “Pele de Vidro”. O arranha-céu modernista virou símbolo de uma São Paulo em transformação, erguido ao longo dos anos 60 e inaugurado em 1968, com 24 andares. Era um prédio vistoso, reluzente, inteiramente de vidro, depois tombado pelo Patrimônio Histórico da capital paulista. Ficou abandonado por décadas, até virar moradia de pessoas sem-teto. O filme nasce desse reencontro inesperado: entre memória pessoal (da cineasta que volta ao Brasil depois de 20 anos morando nos Estados Unidos, para investigar os desejos e o trabalho do pai falecido) e realidade social, abrindo uma reflexão sobre o problema da moradia no Brasil. O longa estava em construção quando ocorreu o incêndio que fez o prédio desabar, em maio de 2018, deixando sete mortos e dois desaparecidos nos escombros - na época, 140 famílias ocupavam o local. Em meio a imagens dos arquivos pessoais de Roger, Denise (que é uma premiada documentarista) faz toda a narração, dando um discurso poético e ao mesmo tempo nostálgico para a obra. Coprodução Brasil e EUA, o doc percorreu mais de 60 festivais nacionais e internacionais, como Festival de Shangai e a Mostra Internacional de Cinema de SP, e agora está exibição nos principais cinemas do país, com distribuição da Autoral Filmes.
 
 
A mensageira
 
Vencedor do Urso de Prata – Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2025, o longa confirma sem temor a força do cinema argentino contemporâneo, em um filme de pura beleza cinematográfica. A grandeza da obra reside no roteiro e no impacto das imagens, rodado em um preto-e-branco incrível. Tem a estrutura de um road movie intimista, em que acompanha Anika (Anika Bootz), uma menina prodígio que se comunica com animais vivos e mortos. Os avós, Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto), veem nela a oportunidade de ganhar dinheiro e começam a percorrer lugarejos oferecendo consultas mediúnicas para pessoas que são tutoras de pets. Eles viajam de van pela Argentina, cruzando diversas cidades do interior, movidos pela fé e também na busca do sustento diário. Os personagens do filme transicionam entre o mundo místico (a menina com o “dom” de ouvir animais) e o charlatanismo (a visão da sociedade sobre aquele trabalho, apontado como farsa), cujo enredo e até o PB me lembraram “Lua de papel” (1973), aquele da garotinha que vende bíblias com o pai adotivo por cidades do interior americano, até que se juntam com uma dançarina para fazer os negócios lucrarem. O trio central aqui não é retratado como mau-caráter ou exploradores da fé, tudo fica num limiar; o diretor expõe a fragilidade humana diante da perda e da despedida, e o oportunismo surge não como vilania, mas como estratégia de resistência, onde verdade, encenação e necessidade se confundem. Os atores de “A mensageira” atuam com intensidade: a garota Anika alterna leveza infantil e melancolia, enquanto Mara e Marcelo dão voz às ambiguidades desse núcleo familiar. Há muitas passagens contemplativas, sem diálogos, só com a captura de paisagens incríveis do interior da Argentina numa fotografia primorosa- o filme é uma coprodução Argentina, Espanha e Uruguai. Acumula prêmios em festivais internacionais, como Pequim (Melhor atriz coadjuvante e fotografia), San Sebastián (Horizontes Latinos) e Viña del Mar (Melhor filme), além da Berlinale já citada. Fund também é o roteirista, o produtor e o montador do filme, fazendo, portanto, uma obra autoral pensada e formatada completamente por ele. Em exibição nos cinemas brasileiros, distribuído pelo Filmes do Estação.

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