sábado, 7 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas


Kokuho – O preço da perfeição
 
O longa japonês exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes concorre ao Oscar de melhor maquiagem e cabelo, e é a estreia da semana nos cinemas brasileiros, com distribuição da Sato Company em parceria inédita com a Imovision. Foi fenômeno de público no Japão, talvez por retratar o ‘kabuki’, antiga e icônica manifestação teatral do país, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, cuja origem vem do século XVII, combinando música, dança e intepretação dramática em performances estilizadas e figurinos e cenários exuberantes. Baseado no romance de sucesso de Shuichi Yoshida (no livro de mesmo nome, “Kokuho” lançado em 2018), é um drama sensível, quase uma poesia humanista, cuja trama se passa em Nagasaki 20 anos depois da bomba, em 1964. Um jovem, Kikuo Tachibana (Soya Kurokawa), vê o pai, líder da máfia Yakuza, morrer. Desamparado, ele é adotado por um veterano ator de kabuki, Hanai Hanjiro (Ken Watanabe), que se apresenta em salões e clubes reservados para homens, dentre eles a famosa casa Tanba-ya. Kikuo vira um irmão de alma do filho do mestre, Shunsuke Ogaki (Ryûsei Yokohama). Os dois então entregam-se ao fazer artístico do kabuki – Kikuo muda de nome (para Toichiro), realizando performances notórias, em que apenas os homens podiam atuar (inclusive interpretando papeis femininos). Dividido em duas fases, com tempo presente e o desenrolar para os próximos anos (ou seja, a juventude e depois a idade madura do protagonista), tem um trabalho sério dos atores; Soya Kurokawa, que brilhou em “Monster” (2023), é Kikuo jovem, enquanto Ryô Yoshizawa, astro da franquia de quatro filmes de ação épica “Kingdom” (2019-2024), faz o personagem na idade adulta, quando vira Toichiro. Atores coadjuvantes também se destacam, como Ryûsei Yokohama (conhecido como dublador de animes no Japão) e Ken Watanabe, um monstro sagrado, indicado ao Oscar de coadjuvante por “O último samurai” (2003). Figurino e maquiagem saltam aos olhos, são elementos apurados e essenciais para a história, que trazem todo o conceito do kabuki, numa história marcada por irmandade e dedicação à arte. Além de Cannes, passou pelos festivais de Toronto, Shanghai, Bangkok, Busan e Rio. A direção é impecável, cheio de sutilezas, assinada por Lee Sang-il, cineasta japonês de origem coreana, que adaptou para o Japão o premiado filme de Clint Eastwood “Os imperdoáveis” (2013) e dirigiu a série “Pachinko” (2024). Quando assisti me remeteu a chinês “Adeus, minha concubina” (1993), cuja história traz semelhanças imediatas (a amizade duradoura, de mais de 70 anos, de duas crianças em meio ao fazer artístico, aqui a Ópera de Pequim). Como é uma obra autoral repleta de detalhes, no formato de uma saga, tem duração acima do normal, com 175 minutos (que, confesso, nem vi passar). “Kokuho” é imperdível, um dos melhores lançamentos do ano. Foi o representante oficial do Japão na shortlist do Oscar de filme estrangeiro de 2026, ficando de fora da lista dos indicados.
 

 
Por um destino insólito
 
Mais um clássico em edição comemorativa que a Pandora Filmes traz para o Brasil. Esta é a cópia restaurada em 4K, feita em 2024 para celebrar os 50 anos do filme italiano, exibida na seção ‘Veneza Clássicos’ do Festival de Veneza de 2024. O restauro dos negativos originais foi feito pela Cinemateca de Bolonha em parceria com a Minerva Pictures e a Mediaset, entregando um produto belíssimo quanto a imagem e som, com toda a cor vívida que a obra merecia. É uma das fitas mais cultuadas da cineasta italiana Lina Wertmüller (escrito e dirigido por ela), rodada na costa de Tortolí, na Sardenha, um lugar paradisíaco, com formações rochosas e um mar brilhante. A comédia dramática de sobrevivência envolve dois personagens que brigam todo o tempo, uma mulher e um homem, que enlouquecem quando o bote em que navegam quebra no Mar Mediterrâneo. Ela é Raffaella Pavone Lanzetti (Mariangela Melato), de nome pomposo, uma herdeira rica e prepotente, que não para um minuto de falar; ele é Gennarino (Giancarlo Giannini), marinheiro simplório anticapitalista, todo irritado e bruto. Os dois terão de conviver debaixo do sol escaldante quando o bote fica à deriva no meio do mar; quando conseguem chegar a uma ilha deserta, intensifica-se entre os dois um jogo de poder. Com muitas cenas em alto-mar, gravadas naquela região do sul da Itália, é um filme muito engraçado, com diálogos afiados e modernos sobre política e papeis de gênero, uma espécie de “A guerra dos Roses” na praia. Lina Wertmüller (1928-2021) era uma diretora politizada, por isso o filme não passa pano na discussão sobre estruturas sociais - feito exatamente num período onde o cinema italiano era carregado de engajamento, na era pós-Neorrealismo, no auge do cinema político de Elio Petri e Giuliano Montaldo. São apenas dois personagens que dominam a cena o filme inteiro, e a dupla Mariangela-Giannini está muito afinada. Raffaella e Gennarino vão escalando discussões de dentro do barco até a ilha, culminando na inversão de papeis (o que é uma mistura de humor ácido com crítica social). Lina e Giannini fizeram nove filmes juntos, e “Por um destino insólito” pode ser compreendido dentro de uma trilogia com “Mimi, o metalúrgico” (1972) e “Pasqualino Sete Belezas” (1975). Ela o dirigiu com Mariangela Melato no ano anterior em outra comédia, “Amor e anarquia” (1973), sendo a primeira mulher a receber indicação ao Oscar de melhor direção (por “Pasqualino”). Um ano antes de falecer, com 91 de idade, subiu aos palcos para ganhar um Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra, em 2020. Em 2025 “Por um destino insólito” saiu em um box em DVD pela Versátil, na caixa “O cinema de Lina Wertmüller”, com seis filmes em 3 DVDs. Como boa parte dos filmes italianos da época, o título original era longo, praticamente um manuscrito poético (“Travolti da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto). PS: O diretor Guy Ritchie o adaptou em 2002 como um presente para sua então esposa, Madonna, fazendo um dos piores filmes do cinema, “Destino insólito”. Madonna interpretou a personagem de Mariangela, e Adriano Giannini, o papel de seu pai, Giancarlo. O resultado: uma bomba catastrófica, vencedora do Razzie e que encabeça a lista de filmes que nunca deveriam ter existido...


Nenhum comentário:

Estreias da semana – Nos cinemas

Kokuho – O preço da perfeição   O longa japonês exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes concorre ao Oscar de melhor maquiage...