Kokuho
– O preço da perfeição
O
longa japonês exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes concorre ao
Oscar de melhor maquiagem e cabelo, e é a estreia da semana nos cinemas brasileiros,
com distribuição da Sato Company em parceria inédita com a Imovision. Foi fenômeno
de público no Japão, talvez por retratar o ‘kabuki’, antiga e icônica
manifestação teatral do país, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural
Imaterial da Humanidade, cuja origem vem do século XVII, combinando música,
dança e intepretação dramática em performances estilizadas e figurinos e
cenários exuberantes. Baseado no romance de sucesso de Shuichi Yoshida (no livro
de mesmo nome, “Kokuho” lançado em 2018), é um drama sensível, quase uma poesia
humanista, cuja trama se passa em Nagasaki 20 anos depois da bomba, em 1964. Um
jovem, Kikuo Tachibana (Soya Kurokawa), vê o pai, líder da máfia Yakuza, morrer.
Desamparado, ele é adotado por um veterano ator de kabuki, Hanai Hanjiro (Ken Watanabe),
que se apresenta em salões e clubes reservados para homens, dentre eles a famosa
casa Tanba-ya. Kikuo vira um irmão de alma do filho do mestre, Shunsuke Ogaki (Ryûsei
Yokohama). Os dois então entregam-se ao fazer artístico do kabuki – Kikuo muda
de nome (para Toichiro), realizando performances notórias, em que apenas os
homens podiam atuar (inclusive interpretando papeis femininos). Dividido em duas
fases, com tempo presente e o desenrolar para os próximos anos (ou seja, a juventude
e depois a idade madura do protagonista), tem um trabalho sério dos atores; Soya
Kurokawa, que brilhou em “Monster” (2023), é Kikuo jovem, enquanto Ryô
Yoshizawa, astro da franquia de quatro filmes de ação épica “Kingdom”
(2019-2024), faz o personagem na idade adulta, quando vira Toichiro. Atores coadjuvantes
também se destacam, como Ryûsei Yokohama (conhecido como dublador de animes no
Japão) e Ken Watanabe, um monstro sagrado, indicado ao Oscar de coadjuvante por
“O último samurai” (2003). Figurino e maquiagem saltam aos olhos, são elementos
apurados e essenciais para a história, que trazem todo o conceito do kabuki,
numa história marcada por irmandade e dedicação à arte. Além de Cannes, passou pelos
festivais de Toronto, Shanghai, Bangkok, Busan e Rio. A direção é impecável,
cheio de sutilezas, assinada por Lee Sang-il, cineasta japonês de origem
coreana, que adaptou para o Japão o premiado filme de Clint Eastwood “Os imperdoáveis”
(2013) e dirigiu a série “Pachinko” (2024). Quando assisti me remeteu a chinês “Adeus,
minha concubina” (1993), cuja história traz semelhanças imediatas (a amizade
duradoura, de mais de 70 anos, de duas crianças em meio ao fazer artístico, aqui
a Ópera de Pequim). Como é uma obra autoral repleta de detalhes, no formato de
uma saga, tem duração acima do normal, com 175 minutos (que, confesso, nem vi
passar). “Kokuho” é imperdível, um dos melhores lançamentos do ano. Foi o representante
oficial do Japão na shortlist do Oscar de filme estrangeiro de 2026, ficando de
fora da lista dos indicados.
Por
um destino insólito
Mais
um clássico em edição comemorativa que a Pandora Filmes traz para o Brasil.
Esta é a cópia restaurada em 4K, feita em 2024 para celebrar os 50 anos do
filme italiano, exibida na seção ‘Veneza Clássicos’ do Festival de Veneza de
2024. O restauro dos negativos originais foi feito pela Cinemateca de Bolonha
em parceria com a Minerva Pictures e a Mediaset, entregando um produto
belíssimo quanto a imagem e som, com toda a cor vívida que a obra merecia. É uma
das fitas mais cultuadas da cineasta italiana Lina Wertmüller (escrito e
dirigido por ela), rodada na costa de Tortolí, na Sardenha, um lugar
paradisíaco, com formações rochosas e um mar brilhante. A comédia dramática de
sobrevivência envolve dois personagens que brigam todo o tempo, uma mulher e um
homem, que enlouquecem quando o bote em que navegam quebra no Mar Mediterrâneo.
Ela é Raffaella Pavone Lanzetti (Mariangela Melato), de nome pomposo, uma
herdeira rica e prepotente, que não para um minuto de falar; ele é Gennarino (Giancarlo
Giannini), marinheiro simplório anticapitalista, todo irritado e bruto. Os dois
terão de conviver debaixo do sol escaldante quando o bote fica à deriva no meio
do mar; quando conseguem chegar a uma ilha deserta, intensifica-se entre os
dois um jogo de poder. Com muitas cenas em alto-mar, gravadas naquela região do
sul da Itália, é um filme muito engraçado, com diálogos afiados e modernos
sobre política e papeis de gênero, uma espécie de “A guerra dos Roses” na praia.
Lina Wertmüller (1928-2021) era uma diretora politizada, por isso o filme não
passa pano na discussão sobre estruturas sociais - feito exatamente num período
onde o cinema italiano era carregado de engajamento, na era pós-Neorrealismo,
no auge do cinema político de Elio Petri e Giuliano Montaldo. São apenas dois
personagens que dominam a cena o filme inteiro, e a dupla Mariangela-Giannini está
muito afinada. Raffaella e Gennarino vão escalando discussões de dentro do
barco até a ilha, culminando na inversão de papeis (o que é uma mistura de
humor ácido com crítica social). Lina e Giannini fizeram nove filmes juntos, e “Por
um destino insólito” pode ser compreendido dentro de uma trilogia com “Mimi, o
metalúrgico” (1972) e “Pasqualino Sete Belezas” (1975). Ela o dirigiu com Mariangela
Melato no ano anterior em outra comédia, “Amor e anarquia” (1973), sendo a
primeira mulher a receber indicação ao Oscar de melhor direção (por
“Pasqualino”). Um ano antes de falecer, com 91 de idade, subiu aos palcos para ganhar
um Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra, em 2020. Em 2025 “Por um destino
insólito” saiu em um box em DVD pela Versátil, na caixa “O cinema de Lina
Wertmüller”, com seis filmes em 3 DVDs. Como boa parte dos filmes italianos da
época, o título original era longo, praticamente um manuscrito poético (“Travolti
da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto). PS: O diretor Guy Ritchie o
adaptou em 2002 como um presente para sua então esposa, Madonna, fazendo um dos
piores filmes do cinema, “Destino insólito”. Madonna interpretou a personagem
de Mariangela, e Adriano Giannini, o papel de seu pai, Giancarlo. O resultado:
uma bomba catastrófica, vencedora do Razzie e que encabeça a lista de filmes
que nunca deveriam ter existido...
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