quinta-feira, 19 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas

 
 
A pequena Amélie
 
Indicado ao Oscar de melhor animação deste ano, a produção franco-belga é uma pequena joia do desenho contemporâneo, extremamente delicado e introspectivo, que vem conquistando público e crítica por todo o mundo. Mais do que um filme infantil, trata-se de uma obra que reflete a infância como experiência filosófica e emocional, elevando o gênero a um patamar de arte poética. Dirigido pela dupla estreante Maïlys Vallade e Liane-Cho Han Jin Kuang, que trabalharam juntos no departamento de arte da animação “O pequeno príncipe” (2015), o filme é baseado em um livro autobiográfico da escritora belga Amélie Nothomb, intitulado “The character of rain” (em francês, “Métaphysique des tubes”, que dá nome ao filme). É sobre a infância dessa escritora, narrado por ela de forma íntima e sensível, de quando era uma criança que descobriu o mundo aos três anos de idade. Na verdade, Amélie nasceu como uma criança disfuncional: não se mexia, vivia em estado de letargia, só piscando. Vinha de uma família rica da Bélgica que morava em Kobe, no Japão, super bem cuidada pelos pais, diplomatas, e o irmão. Pelas crenças japonesas, era chamada de “Criança divina” (uma “Okosama”), passando os três primeiros anos só na cadeira observando as coisas com seus grandes olhos esverdeados. Quando desperta, aos três, saindo daquela paralisia, descobre o mundo e sua profusão de cores, formas e sons, criando um forte vínculo com a governanta japonesa, Nishio-san, que a apresenta à natureza e a ensina sobre emoções escondidas. Visualmente, a obra tem uma fusão estética de paletas suaves, quase minimalistas, que induzem ao teor contemplativo proposto pelo filme. Tornou-se um fenômeno nos festivais internacionais, vencedor do Prêmio do Público em Annecy e que acumulou sete indicações ao Annie Awards, incluindo melhor filme, direção e roteiro. Também foi indicado ao Bafta, Critics Choice, Satellite e Globo de Ouro de melhor animação, além de indicação ao Golden Camera no Festival de Cannes. Serve para crianças, jovens e adultos com sua história filosófica e de enorme graça. Curtinho, tem 74 minutos, que passam voando. Gostei bastante e foi um dos meus filmes de animação preferidos do ano, ao lado de “Arco”. Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Mares Filmes e Alpha Filmes.
 

 
Cara de um, focinho de outro
 
Nova animação da Disney/Pixar, a produção norte-americana que está nos principais cinemas brasileiros é um frescor criativo do estúdio. Mesmo não tendo tanto marketing de divulgação, até que vai bem de bilheteria (confesso que nem sabia do filme). Foi escrito e dirigido por Daniel Chong, em sua estreia com longa-metragem, ele que criou a série da Cartoon Network “Ursos sem curso” (2014-2019) e foi do departamento de arte da Disney e depois da Illumination (de “Minions”, por exemplo). A animação cheia de humor e vida apresenta Mabel, uma garota de 19 anos apaixonada por animais, que decide usar em si própria uma tecnologia secreta ultramoderna capaz de transferir a consciência humana para bichos robóticos. Por que Mabel deseja isso? Porque o prefeito da cidade pretende destruir uma área de proteção dos castores para levantar um novo bairro; então, a menina se lança naquele experimento, conseguindo transferir sua consciência em um castor robótico, que irá se infiltrar no reino animal para proteger o habitat natural deles. No filme, a personagem adentra nos mistérios do mundo animal que vão além do que se poderia imaginar, vivenciando aventuras que misturam humor, emoção e reflexões profundas sobre a relação entre humanos e natureza. Os personagens são carismáticos, principalmente os animais, que dão o ar da graça, em uma animação com forte mensagem ecológica em tempos que a palavra de ordem é a degradação do planeta. O filme também trata com sabedoria sobre ética na ciência, sem perder o tom divertido característico das obras da Disney/Pixar.

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