“É
Tudo Verdade” continua a todo vapor com 75 filmes gratuitos na programação, em
SP e RJ
O “É
Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” continua até o próximo
domingo, dia 19/04, com 75 filmes gratuitos para o público, em salas de cinema
de São Paulo e Rio de Janeiro, além do streaming do Itaú Cultural Play. O “É
Tudo Verdade” está em sua 31ª edição, este ano apresentando longas, médias e
curtas-metragens de 25 países. Confira abaixo mais cinco títulos que conferi no
Festival e que recomendo (alguns terão mais sessões no festival, enquanto outros
estreiam em breve nos cinemas e em streamings):

Bardot
(França/Reino
Unido, 2025, de Alain Berliner e Elora Thevenet)
O
documentário “Bardot” passa a limpo a trajetória da atriz francesa Brigitte
Bardot (1934-2025), ícone do cinema europeu e símbolo de uma era marcada pelo
glamour e exposição midiática. Exibido no Festival de Cannes de 2025 (quatro
meses antes da morte da atriz), o filme parte de um ano decisivo da artista: 1973,
quando abandonou os holofotes, desgastada por inúmeros relacionamentos amorosos
fracassados e pela perseguição dos paparazzi, que chegavam a invadir a casa de
praia onde morava. 1973 foi o início de seu fim no cinema, quando se isolou na
Madrague, a rústica propriedade à beira-mar que adquiriu na década de 50, para
se reinventar como ativista em defesa dos animais e do meio ambiente – algo que
durou até a morte. Nesse período virou cantora, lançando discos, e fez da casa particular
um lar adotivo de animais de rua. O filme acompanha essa transição de atriz
para ativista fervorosa, revelando como a estrela transformou sua imagem
pública em instrumento de militância. O documentário é narrado por ela mesma, aos
90 anos, aparecendo muito pouco, em sua residência reclusa em Saint-Tropez, na
Riviera Francesa – as imagens atuais são lances de costas e de lado, e nunca falando
diretamente para a câmera. Enquanto sua biografia é contada, uma infinidade de
imagens antigas, trechos de filmes e reportagens com Bardot montam o mosaico
fílmico. Com a voz rouca (demonstrando certo cansaço), Bardot relembra fatos marcantes
a enorme carreira sem se poupar em falar dos amores perdidos, de escândalos e da
velhice solitária. Em exibição no festival “É Tudo Verdade” ainda no dia 19/04,
no Rio de Janeiro.

Shooting
(Israel,
2025, de Netalie Braun)
Documentário
que integra uma trilogia de filmes políticos da cineasta israelense Netalie
Braun, iniciada com “Hatalyan” (2010), sobre a relação de um guarda prisional com
o nazista Adolf Eichmann, e seguida por “Hope I'm in the frame” (2017), sobre a
precursora do cinema de Israel Michal Bat-Adam. Em “Shooting” (um trocadilho de
“Shot”, que é tomada de cinema ou gravar um filme, com “Shoot”, atirar, em inglês),
ela reúne três histórias, como se fossem curtas-metragens alinhados ao mesmo
discurso: o envolvimento de Israel em guerras desde 1967 (Guerra dos Seis
Dias), passando pela de Yom Kippur, as do Líbano e a recém-instaurada na Faixa
de Gaza. As histórias são independentes, com um mesmo fundo político e moral;
na primeira, o diretor de fotografia judeu indicado ao Oscar Adam Greenberg (de
“Exterminador do futuro”) relembra como ajudou a recriar imagens falsas de
guerra nas Colinas de Golã vendidas pela mídia como verdadeiras; na segunda, uma
família palestina em Jerusalém Oriental sofre um atentado que até hoje
tornou-se uma questão de saúde para um dos filhos da casa, que vive sob
cuidados médicos; e por fim, a de um ex-combatente israelense, colecionador de
armas, que entra num delicado processo pós-traumático que o faz repensar suas
escolhas atuais. Com vasto material de arquivo da época, além de imagens
inéditas de guerra recuperadas, o filme entrelaça temas como indústria cultural
e o armamento, e de como Israel forçou pessoas a aderir ao belicismo. Documentário
sério, sem concessões, com imagens fortes que pulsam em nossa mente. Em
exibição no festival “É Tudo Verdade” nos dias 15/04 (em SP) e 18/04 (no Rio).

O
Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
(Brasil,
1986, de Rosemberg Cariry)
O
programa “Clássicos É Tudo Verdade” exibirá nos dias 17/04, em São Paulo, e 18/04,
no Rio de Janeiro, a cópia restaurada em 4K de “O Caldeirão da Santa Cruz do
Deserto” (1986), primeiro longa do cineasta cearense Rosemberg Cariry. Entrou
para a História do cinema brasileiro como o primeiro documentário produzido no
Ceará, em uma época marcada por falta de incentivo ao cinema (o cinema nacional
atravessava uma crise que culminaria no fechamento da Embrafilme e paralisação
do setor por quase 10 anos). A obra retorna às telas celebrando três
efemérides: os 40 anos do lançamento do filme, os 50 anos de carreira do diretor,
roteirista e produtor, e o centenário da Comunidade do Caldeirão da Santa Cruz
do Deserto (ou simplesmente Caldeirão), movimento messiânico de origem jesuíta fundada
na zona rural de Crato, no Cariri (Ceará), pelo beato paraibano José Lourenço. O
Caldeirão foi invadido e destruído em 1937, resultando num massacre de centenas
de camponeses - comparado ao de Canudos, simbolizou a repressão da elite contra
movimentos sociorreligiosos autônomos no sertão, que tinham fundamentos
socialistas. O tema é explorado com seriedade no documentário escrito por
Cariry e Firmino Holanda, com fotografia de Ronaldo Nunes, que reúne
depoimentos inéditos de sobreviventes e até de algozes, rompendo o silêncio que
por décadas cercou o episódio. Produzido em plena redemocratização do país,
tornou-se referência para movimentos sociais como o MST ao resgatar a memória
de uma experiência comunitária igualitária que sofreu perseguição política. Indicado
no Festival de Havana como melhor documentário latino, o filme, reconhecido por
sua ousadia estética e pela fusão entre narrativa histórica e cultura popular,
permanece como documento vivo da história de resistência do Nordeste. A
restauração do filme em 4K, supervisionada pelo filho do cineasta, o também
diretor Petrus Cariry, e apoiada por instituições como o MIS/CE e o Instituto
Mirante, integra um projeto de preservação da obra de Rosemberg, já realizado
com “Corisco & Dadá” (1996) e “Lua Cambará: Nas escadarias do palácio”
(2002). A nova cópia está um primor, que vale ser visto na tela grande.

Vivo
76
(Brasil,
2026, de Lírio Ferreira)
Novo
trabalho do diretor pernambucano Lírio Ferreira, cuja carreira é alternada
entre filmes de ficção, como “Baile perfumado” (1996) e “Árido movie” (2005), e
documentário (ele já realizou docs sobre Cacá Diegues, Cartola e Cachorro
Grande, por exemplo). Ferreira volta-se, novamente, ao universo da música,
agora para trazer um pouco sobre Alceu Valença, focando no emblemático álbum “Vivo”
(1976), primeiro disco ao vivo do cantor e segundo álbum solo dele, que entrou
em listas do mundo todo como um dos discos mais influentes daquela década. O doc
celebra tanto os 50 anos de “Vivo” quanto os 80 anos de Alceu (que comemora em
julho próximo), reunindo entrevistas atuais dele e muito material de arquivo. “Vivo”
trazia músicas importantes do repertório, como “Sol e chuva” e “Papagaio do
futuro”, marcado por influências da psicodelia, misturando ritmos como rock,
pop, forró e experimentações de vanguarda (algo típico nos processos criativos de
Valença, a mistura efusiva de sons e ritmos). Nesse percurso audiovisual, o
cantor e compositor surge como figura central do underground nordestino,
articulando música, poesia e rebeldia estética em um momento de efervescência
política – 1976 era Ditadura, e Alceu e amigos compositores, como Geraldo
Azevedo, que aparece no doc, foram perseguidos e presos em tal período. Trata-se
de um tributo à vitalidade de
Alceu Valença e à potência transformadora da música nordestina. “Vivo” foi o
filme de abertura do Festival “É Tudo Verdade” no Rio, e conta com próximas
sessões, nos dias 17 e 18/04, em São Paulo.
A
fabulosa máquina do tempo
(Brasil,
2026, de Eliza Capai)
Sensação
no Festival de Berlim desse ano, onde concorreu aos prêmios Crystal Bear (na
seção Generation Kplus, voltado a filmes infanto-juvenis) e o de melhor
documentário, o filme da diretora de “Incompatível com a vida” (2023), Eliza
Capai, é uma joia a ser descoberta – e espero que o público o encontre logo.
Com uma mistura de fantasia e aventura em uma narrativa marcada pela busca de
reconexão com o passado e pela descoberta de futuros possíveis, o doc (que em
muitas vezes lembra ficção) acompanha um grupo de meninas na cidadezinha de
Guaribas, no sul de Piauí, lugar que ficou conhecido por receber o projeto
piloto “Fome Zero”, em 2003, por ser um município com baixo IDH, sem saneamento
básico e de extrema pobreza. Elas têm imaginação fértil, falam o que vem na
mente e, numa das brincadeiras diárias, planejam inventar uma máquina do tempo
que as transporte para épocas distintas. O filme é uma viagem na mente das
meninas, todo composto pela cultura oral, de histórias da carochinha, lendas e
folclore, intercaladas pelas crenças religiosas e de perspectivas para um
futuro próximo. Nessa jornada de descobertas, as crianças, em meio a um local marcado
pela seca, relembram histórias da avó, sobre a fome que assolou a região, bem
como do machismo estrutural que ainda permeia a sociedade onde vivem. As
imagens são carregadas de forte teor visual/psicológico, principalmente as
locações em Guaribas, localizado nas entranhas do sertão. As sessões no “É Tudo
Verdade” acabaram, e o filme deve estrear em breve nos cinemas brasileiros.
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