sexta-feira, 13 de março de 2026

Resenhas especiais


A ilha do milharal
 
Um camponês e sua neta cuidam de um milharal em uma pequena ilha no rio Inguri, na divisa da Georgia com a Abecásia, região independente fronteiriça com a Rússia. Há uma guerra civil ocorrendo que envolve conflitos étnicos. As ilhas da região são intermitentes, surgem e desaparecem devido às enchentes. O velho e a neta constroem em meio ao milharal uma cabana, onde moram e guardam o milho, até que são surpreendidos com a chegada de um refugiado de guerra.
 
Rodado na Geórgia, pequeno país euroasiático marcado por sua história de guerra civil, conflitos étnicos e disputas com a Rússia desde que se tornou independente, com o fim da URSS nos anos 1990, o drama se passa inteiramente em uma ilhota cortada pelo Rio Inguri. Nesse cenário de tensão, acompanhamos o passar de meses na vida de um idoso e sua neta, que vivem do cultivo de milho. O homem dedica seus dias à construção de um simples casebre de madeira para armazenar a colheita, até que a chegada inesperada de um fugitivo de guerra altera a dinâmica da família. Há um outro risco na região, que são as enchentes, que alagam a ilha e destroem as plantações. Com pouquíssimos diálogos, o filme de arte é um exercício de contemplação, com uma narrativa que aposta na força da imagem: a fotografia da ilha é belíssima, contrastando com o som constante de tiros ao longe e a presença silenciosa de soldados em barcos – que recriam o medo da guerra. Não há mortes nem violência física, e o que se impõe é uma simbólica violência psicológica, marcada pelo isolamento dos personagens e pelo ruído de balas que permeia cada cena. O resultado é uma obra sobre relações familiares no campo e o peso da guerra sem recorrer ao espetáculo da destruição. Exibido nos festivais de Karlovy, San Sebastian, Tóquio e BFI London.


A ilha do milharal (Simindis kundzuli). Geórgia/Alemanha/França/República Tcheca/Cazaquistão, 2014, 100 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por George Ovashvili. Distribuição: Zeta Filmes
 
 
 
Homo Argentum
 
Em Buenos Aires, 16 personagens diferentes, típicos da cidade grande, são retratados, em que se expõe suas hipocrisias e ambições.
 
Formidável comédia argentina que na verdade é uma crítica ácida aos costumes e modo de viver dos argentinos. O filme incomodou muita gente por lá e cinicamente foi aplaudida pelo presidente extremista Javier Milei – o político ou não entendeu as ridicularizações ali apresentadas, inclusive há uma sobre ele, ou fingiu ar de sábio. É um retrato de personagens que convivem na capital, do bancário ao relojoeiro, passando pelo presidente da República e pelo diretor de cinema (que lembra Pedro Almodóvar), alguns estereotipados, e todos mostrados em pequenas esquetes que duram de três a sete minutos. E todas protagonizadas pelo mesmo ator, o versátil Guillermo Francella, num tremendo tour de force – o veterano artista tem 70 anos, é um dos ídolos do cinema argentino, atuou em filmes premiados como “O segredo dos seus olhos” (2009), e suas 16 interpretações aqui são muito legais, colocando atores novos no chinelo. As historietas são independentes, mostrando a cara do ‘homem argentino médio’, uma nova escala na espécie humana, segundo o argumento original da obra. Desfilam no satírico filme o falso moralista, o alcaguete, o oportunista, o mentiroso, expondo as ambições e hipocrisia da sociedade.


É uma comédia que levanta polêmicas ao caçoar dos argentinos sem trégua, expondo as fragilidades humanas. A dupla de roteiristas e diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat, que fizeram crítica bem semelhante em “O cidadão ilustre” (2016), optou por uma narrativa não-linear, compilando fragmentos dessas figuras possivelmente reais para compor um mosaico cultural provocador. Distribuição no Brasil pela Disney (via Star Distribution), disponível no streaming Disney+.
 
Homo Argentum (Idem). Argentina, 2025, 98 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat. Distribuição: Disney+

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