A ilha do milharal
Um camponês e sua neta cuidam de um milharal em uma pequena ilha no rio
Inguri, na divisa da Georgia com a Abecásia, região independente fronteiriça
com a Rússia. Há uma guerra civil ocorrendo que envolve conflitos étnicos. As
ilhas da região são intermitentes, surgem e desaparecem devido às enchentes. O
velho e a neta constroem em meio ao milharal uma cabana, onde moram e guardam o
milho, até que são surpreendidos com a chegada de um refugiado de guerra.
Rodado na Geórgia, pequeno país euroasiático marcado por sua história de
guerra civil, conflitos étnicos e disputas com a Rússia desde que se tornou
independente, com o fim da URSS nos anos 1990, o drama se passa inteiramente em
uma ilhota cortada pelo Rio Inguri. Nesse cenário de tensão, acompanhamos o
passar de meses na vida de um idoso e sua neta, que vivem do cultivo de milho.
O homem dedica seus dias à construção de um simples casebre de madeira para
armazenar a colheita, até que a chegada inesperada de um fugitivo de guerra
altera a dinâmica da família. Há um outro risco na região, que são as
enchentes, que alagam a ilha e destroem as plantações. Com pouquíssimos diálogos,
o filme de arte é um exercício de contemplação, com uma narrativa que aposta na
força da imagem: a fotografia da ilha é belíssima, contrastando com o som
constante de tiros ao longe e a presença silenciosa de soldados em barcos – que
recriam o medo da guerra. Não há mortes nem violência física, e o que se impõe
é uma simbólica violência psicológica, marcada pelo isolamento dos personagens
e pelo ruído de balas que permeia cada cena. O resultado é uma obra sobre
relações familiares no campo e o peso da guerra sem recorrer ao espetáculo da
destruição. Exibido nos festivais de Karlovy, San Sebastian, Tóquio e BFI
London.
A ilha do milharal (Simindis kundzuli). Geórgia/Alemanha/França/República
Tcheca/Cazaquistão, 2014, 100 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por George
Ovashvili. Distribuição: Zeta Filmes
Homo Argentum
Em Buenos Aires, 16
personagens diferentes, típicos da cidade grande, são retratados, em que se
expõe suas hipocrisias e ambições.
Formidável comédia
argentina que na verdade é uma crítica ácida aos costumes e modo de viver dos
argentinos. O filme incomodou muita gente por lá e cinicamente foi aplaudida
pelo presidente extremista Javier Milei – o político ou não entendeu as
ridicularizações ali apresentadas, inclusive há uma sobre ele, ou fingiu ar de
sábio. É um retrato de personagens que convivem na capital, do bancário ao
relojoeiro, passando pelo presidente da República e pelo diretor de cinema (que
lembra Pedro Almodóvar), alguns estereotipados, e todos mostrados em pequenas
esquetes que duram de três a sete minutos. E todas protagonizadas pelo mesmo
ator, o versátil Guillermo Francella, num tremendo tour de force – o veterano artista
tem 70 anos, é um dos ídolos do cinema argentino, atuou em filmes premiados
como “O segredo dos seus olhos” (2009), e suas 16 interpretações aqui são muito
legais, colocando atores novos no chinelo. As historietas são independentes,
mostrando a cara do ‘homem argentino médio’, uma nova escala na espécie humana,
segundo o argumento original da obra. Desfilam no satírico filme o falso
moralista, o alcaguete, o oportunista, o mentiroso, expondo as ambições e
hipocrisia da sociedade.
É uma comédia que levanta polêmicas ao caçoar dos
argentinos sem trégua, expondo as fragilidades humanas. A dupla de roteiristas
e diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat, que fizeram crítica bem semelhante em
“O cidadão ilustre” (2016), optou por uma narrativa não-linear, compilando fragmentos
dessas figuras possivelmente reais para compor um mosaico cultural provocador. Distribuição
no Brasil pela Disney (via Star Distribution), disponível no streaming Disney+.
Homo Argentum (Idem). Argentina, 2025, 98 minutos. Comédia.
Colorido. Dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat. Distribuição: Disney+
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