quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Especial de cinema

 
Balanço: Os melhores e os piores filmes de 2025
 
Mais um ano chega ao fim...
Segue a minha tradicional lista dos melhores (50 ao todo) e dos piores (25) filmes de 2025, assistidos em festivais de cinema (presenciais e online), em salas de cinema e no streaming. São longas exibidos no Brasil, e outros que, por estarem em festivais, ainda não entraram no circuito nacional. Em 2025 assisti a 986 longas-metragens, sendo 542 estreias.
 
OBS 1 – Quanto aos filmes produzidos e lançados em 2025, muitos deles, por terem sido exibidos em festivais, só devem entrar no circuito nacional em 2026.
OBS 2 – Os filmes não estão na ordem de preferência, e sim em ordem alfabética.
 
Aproveito para desejar a todos e todas um feliz Ano Novo, com paz, serenidade, saúde e muito, muito cinema.


Melhores filmes de 2025
 
3 obás de Xangô (Brasil, 2024, de Sergio Machado)
A hora do mal (EUA, 2025, de Zach Cregger)
A meia-irmã feia (Noruega/Dinamarca/Romênia/Polônia/Suécia, 2025, de Emilie Blichfeldt)
A vizinha perfeita (EUA, 2025, de Geeta Gandbhir)
Águias da República (Suécia/França/Dinamarca/Finlândia/Alemanha, 2025, de Tarik Saleh)
Alma do deserto (Colômbia/Brasil, 2024, de Monica Taboada Tapia)
Babygirl (EUA/Holanda, 2024, de Halina Reijn)
Bugonia (EUA/Irlanda/Reino Unido/Canadá/Coreia do Sul, 2025, de Yorgos Lanthimos)
Casa de dinamite (EUA, 2025, de Kathryn Bigelow)
Coração de lutador - The smashing machine (EUA/Japão/Canadá, 2025, de Benny Safdie)
Depois da caçada (EUA/Itália, 2025, de Luca Guadagnino)
Diários da caixa preta/Quatro paredes (EUA/Japão/Reino Unido, 2024, de Shiori Itô)
Dreams (Noruega, 2024, de Dag Johan Haugerud)
Eddington (EUA/Finlândia, 2025, de Ari Aster)
F1: O filme (EUA, 2025, de Joseph Kosinski)
Faça ela voltar (Austrália, 2025, de Danny Philippou e Michael Philippou)
Família (Itália, 2024, de Francesco Costabile)
Filhos (Dinamarca/Suécia/França, 2024, de Gustav Möller)
Flow (Letônia/Bélgica/França, 2024, de Gints Zilbalodis)
Frankenstein (EUA/México, 2025, de Guillermo del Toro)
Guarde o coração na palma da mão e caminhe (França, Território Palestino Ocupado e Irã, 2024, de Sepideh Farsi)
Homem com H (Brasil, 2025, de Esmir Filho)
Hot milk (Reino Unido/Grécia/Austrália, 2025, de Rebecca Lenkiewicz)
Jayne Mansfield, minha mãe (EUA, 2025, de Mariska Hargitay)
Manas (Brasil/Portugal, 2024, de Marianna Brennand)
Missão: Impossível - O acerto final (EUA/Reino Unido, 2025, de Christopher McQuarrie)
Morra, amor (EUA/Canadá/Reino Unido, 2025, de Lynne Ramsay)
O agente secreto (Brasil/França/Holanda/Alemanha, 2025, de Kleber Mendonça Filho)
O bom bandido (EUA, 2025, de Derek Cianfrance)
O roteiro da minha vida – François Truffaut (França, 2024, de David Teboul)
O telefone preto 2 (EUA/Canadá, 2025, de Scott Derrickson)
One to One: John & Yoko (Reino Unido, 2024, de Kevin Macdonald e Sam Rice-Edwards)
Pecadores (EUA/Austrália/Canadá, 2025, de Ryan Coogler)
Predador: Assassino de assassinos (EUA, 2025, de Dan Trachtenberg e Joshua Wassung)
Ritas (Brasil, 2025, de Oswaldo Santana e Karen Harley)
Roberto Rossellini – Mais que uma vida (Itália, 2025, de Ilaria de Laurentiis, Raffaele Brunetti e Andrea Paolo Massara)
Rua do Pescador, nº 6 (Brasil, 2025, de Bárbara Paz)
Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (EUA, 2025, de Mary Bronstein)
Sem chão (Território Palestino Ocupado/ Noruega/ Dinamarca/ França/ Alemanha/ Bélgica, 2024, de Yuval Abraham, Basel Adra e Hamdan Ballal)
Setembro 5 (EUA/Alemanha, 2024, de Tim Fehlbaum)
Seymour Hersh – Em busca da verdade (EUA, 2025, de Laura Poitras e Mark Obenhaus)
Sirât (Espanha/França, 2025, de Oliver Laxe)
Superman (EUA/Canadá/Austrália/Nova Zelândia, 2025, de James Gunn)
Tempo de guerra (EUA/Reino Unido, 2025, de Ray Mendoza e Alex Garland)
Trilha sonora para um golpe de Estado (Bélgica/França/Holanda, 2024, de Johan Grimonprez)
Uma batalha após a outra (EUA, 2025, de Paul Thomas Anderson)
Valor sentimental (Noruega/Alemanha/Dinamarca/França/Suécia/Reino Unido/Turquia, 2025, de Joachim Trier)
Vermiglio - A noiva da montanha (Itália/França/Bélgica, 2024, de Maura Delpero)
Você é o universo (Ucrânia, 2024, de Pavlo Ostrikov)
Wallace & Gromit: Avengança (Reino Unido, 2024, de Merlin Crossingham e Nick Park)




Piores filmes de 2025
 
A seita (EUA/Reino Unido/Alemanha/França, 2024, de Jordan Scott)
Atena (Brasil, 2023, de Caco Souza)
Blindado (EUA, 2024, de Justin Routt)
Branca de Neve (EUA, 2025, de Marc Webb)
Código Alarum (EUA, 2025, de Michael Polish)
Duplicidade (EUA, 2025, de Tyler Perry)
Duro de casar (EUA/Chipre, 2025, de Simon West)
G20 (EUA, 2025, de Patricia Riggen)
Guerra dos mundos (EUA/Alemanha, 2025, de Rich Lee)
Hurry up tomorrow: Além dos holofotes (EUA, 2025, de Trey Edward Shults)
Meio grávida (EUA, 2025, de Tyler Spindel)
Minha família muito louca! (Alemanha/Irlanda/Austrália, 2024, de Mark Gravas)
Na sua pele – A série ‘Marked Men’ (EUA, 2025, de Nick Cassavetes)
Nas terras perdidas (EUA/Alemanha, 2025, de Paul W.S. Anderson)
O homem do saco (EUA, 2024, de Colm McCarthy)
O jogo do assassino (EUA/Reino Unido/Espanha/Hungria, 2024, de J.J. Perry)
O rei da feira (Brasil, 2025, de Felipe Joffily)
O ritual (EUA/Índia, 2025, de David Midell)
Os estranhos – Capítulo 2 (EUA/Espanha/Reino Unido, 2025, de Renny Harlin)
Presa/Kalahari (EUA, 2024, de Mukunda Michael Dewil)
Rosario (EUA/Colômbia, 2025, de Felipe Vargas)
Screamboat – Terror a bordo (EUA, 2025, de Steven LaMorte)
Um dia fora de controle (EUA, 2025, de Luke Greenfield)
Uma advogada brilhante (Brasil, 2025, de Ale McHaddo)
Viva! A babá morreu (EUA, 2024, de Wade Allain-Marcus)


Resenha especial

 
A cruz de ferro
 
* Resenha reeditada
 
Em 1943, no auge da Segunda Guerra, Rolf Steiner (James Coburn) é promovido a sargento e recebe a dura missão do capitão Stransky (Maximilian Schell) de localizar a cruz de ferro de um tenente morto em combate. Para satisfazer a vontade do chefe, Steiner desloca um grupo de homens destemidos, sem saber o que encontrará pelo caminho.
 
Sam Peckinpah (1925-1984), apelidado em Hollywood de ‘poeta da violência’, dirigiu com muita dificuldade esse filme de guerra violento, considerado por Orson Welles um dos melhores do tema já produzidos no cinema. O diretor de obras-primas como “Meu ódio será sua herança” (1969) e “Sob do domínio do medo” (1971) demorou para levantar recursos financeiros para o projeto, e estava consumido pelo álcool (Peckinpah era viciado em bebida). Mas nada disso atrapalhou a conclusão desse filme visceral, produzido no Reino Unido e na Alemanha Ocidental e rodado na antiga Iugoslávia. A complexa trama, baseada no livro do alemão Willi Heinrich, traz um sargento recém-nomeado que recebe a missão quase suicida de satisfazer o ego de um melancólico capitão nazista, de obter a cruz de ferro de um tenente morto. Vale destacar que a tal cruz de ferro era uma condecoração militar única e preciosa, originalmente do Reino da Prússia e depois utilizada no Império Alemão e objeto de desejo no Terceiro Reich, exclusiva dos tempos de guerra. Receoso quanto à missão, o sargento reúne homens para se jogar no front para encontrar a almejada cruz.
Com cenas típicas do diretor, de tiros e mortes em câmera lenta (característica fecunda do cineasta), e um vasto material de arquivo (vídeos e fotos da Segunda Guerra Mundial, no caso), tem um humor cínico e reviravoltas marcantes. Quebra o estereótipo dos nazistas vilões para mostrá-los como soldados quaisquer em meio à dureza de uma guerra. Fala da truculência dos inimigos (no caso os soviéticos e os americanos) e das artimanhas de sobrevivência no meio do caos. Um dos mais complexos personagens da história é o capitão Stransky (interpretado pelo ótimo Maximilian Schell), um homem já cansado da guerra que envia a tropa atrás da cruz somente para satisfazer seu ego e honrar o nome da família (e também de ganhar mais um item para sua coleção particular).



Complementam o time de astros e estrelas James Coburn, James Mason, David Warner e Senta Berger. Teve uma continuação bem inferior dois anos depois, “Ruptura das linhas inimigas” (1979), com novo diretor, produtor e elenco (incluindo Richard Burton e Rod Steiger).
O filme pode ser encontrado em mídia física no Brasil em diversas cópias. Em agosto deste ano ele saiu em bluray pela Versátil Home Video, com excelente cópia restaurada pela StudioCanal, companhia francesa que integra a Canal+ Group, na metragem sem cortes, de 132 minutos, a melhor até agora do mercado. A restauração em 4K deu-se a partir do negativo original em 35mm, e o filme saiu dentro do box ‘Peckinpah Essencial’ - foto abaixo – é uma caixa com dois discos em bluray que trazem também, em inéditas cópias restauradas em 4K, ‘Meu ódio será sua herança’ (1969 – na versão do diretor, de 145 minutos), ‘Sob o domínio do medo’ (1971 – versão sem cortes, de 118 minutos) e ‘Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia’ (1974). Nos discos há cinco horas de material extra, além de acompanhar um livreto de 44 páginas e cards colecionáveis. Em DVD o filme pode ser encontrado pela Classicline, também na metragem sem cortes, de 132 minutos – a versão de cinema é de 119 minutos; em 2022 a Classicline relançou o filme numa caixa em disco triplo (3 DVDs) chamada “Coleção Cruz de ferro”, contendo tanto o filme de 1977 quanto a continuação, “Ruptura das linhas inimigas”, esse em duas versões (a versão americana, chamada de ‘estendida’, de 111 minutos, e a compacta, com 83 minutos, exibida na TV brasileira, com dublagem da época).



 
A cruz de ferro (Cross of iron). Reino Unido/Alemanha, 1977, 132 minutos. Guerra. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Sam Peckinpah. Distribuição: Versátil Home Video (Bluray de 2025) e Classicline (DVD de 2022)
 
* Resenha reeditada do texto original publicado em 24/12/2022

domingo, 28 de dezembro de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 3


Seymour Hersh – Em busca da verdade
 
Exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP deste ano com o título original, ‘Cover-up’, o documentário que está na shortlist do Oscar de 2026 é um thriller político sobre o trabalho do jornalista investigativo americano Seymour Hersh, prêmio Pulitzer. Apelidado de Sy, hoje aos 88 anos, especializou-se em geopolítica e assuntos militares. Judeu, descendente de lituanos, investigou o Pentágono, as atividades ilegais da CIA, a Guerra do Vietnã – denunciando as bombas químicas mortais usadas pelos americanos lá, além de Nixon e da Guerra do Iraque. Atuou como assessor de imprensa do Partido Democrata e escreveu artigos sobre as torturas na prisão iraquiana de Abu Ghraib, cometida por militares americanos, chegando ainda a denunciar a caçada forjada a Osama Bin Laden. Parte dessa trajetória de Hersh são analisadas por ele mesmo, num documentário sério e vívido. Ele relutou em participar, mas acabou cedendo, abrindo sua casa para contar momentos ruidosos da carreira jornalística. Em momentos mais ousados, denuncia certa perseguição à imprensa e a autocensura dos jornais americanos. Conta com amplo material da época, como fotos e reportagens televisivas, e arquivos pessoais de Hersh, como anotações em cadernos e arquivos sigilosos guardados a sete-chaves. É também um filme de denúncia sobre as atrocidades do imperialismo dos Estados Unidos. Exibido nos festivais de Veneza, Toronto e Nova York, é uma produção da Netflix que acaba de estrear na plataforma. Quem dirige é Laura Poitras, jornalista e cineasta especializada em cinema político, que ganhou o Oscar de melhor documentário por ‘Cidadãoquatro’ (2015) e que tem outros dois docs indicados ao Oscar, ao lado do diretor cinco vezes ganhador do Emmy Mark Obenhaus.
 

 
Vizinhos bárbaros
 
Muitos conhecem a francesa Julie Delpy como atriz, de filmes europeus como ‘A igualdade é branca’ (1994) e da trilogia americana ‘Antes do amanhecer’ (Before Trilogy). Mas ela é também uma exímia diretora e roteirista, realizadora de oito longas-metragens, cujo último trabalho acaba de estrear nos cinemas brasileiros, ‘Vizinhos bárbaros’ (2024). É uma comédia dramática humanista, sobre imigração e xenofobia. Na história, os moradores de uma comuna francesa aceitam acolher imigrantes refugiados da Ucrânia, em troca de subsídios do governo. A Ucrânia tinha acabado de entrar em guerra com a Rússia em 2022, e o grupo se prepara para recebê-los após um plebiscito na cidade. No entanto, descobrem algo inusitado: os refugiados são na verdade sírios, que fugiram de outra guerra – a da guerra civil, o que desencadeia uma série de conflitos étnico-culturais. O filme tem belas paisagens da região onde se passa a história, Paimpont, uma vila medieval cercada por castelos e lagos, tem crítica social – sobre o preconceito aos árabes e palestinos, onde passam a ser atacados pelos franceses, e no final fica a pergunta: “quem são os bárbaros neste caso”? Julie Delpy lidera o elenco, que conta com Sandrine Kiberlain, Laurent Lafitte e do pai de Julie, o ator Albert Delpy. Exibido no Festival de Toronto, o filme estreia nos cinemas brasileiros com selo de distribuição da Synapse Distribution. Um bom filme alternativo para o público fugir dos lançamentos comerciais.
 

 
Volveréis
 
Outro longa alternativo entra em cartaz nos cinemas brasileiros, desta vez uma produção espanhola coproduzida na França, assinada por Jonás Trueba, filho de um dos maiores diretores vivos da Espanha, Fernando Trueba, do ganhador do Oscar de filme estrangeiro ‘Sedução’ (1992). É o 12º longa que Jonás dirige, que costuma fazer comédias dramáticas sobre intensas relações de amor e amizade – lembro que em Buenos Aires, ao participar do Festival Internacional de Cine Independente de Buenos Aires (Bafici) de 2015, assisti a um dos primeiros trabalhos dele, que me marcou muito, ‘Los exilados románticos’ (2015), nunca exibido no Brasil. ‘Volveréis’ segue a temática abordada por ele anteriormente, uma comédia dramática que circula um relacionamento em crise, de uma diretora de cinema e um ator, respectivamente Ale (Itsaso Arana) e Álex (Vito Sanz). Eles viveram 15 anos juntos, mas agora decidem se separar. O pai de Álex (papel rápido do próprio Fernando Trueba) diz que tudo é motivo para festa, seja casamento, separação ou funeral. Então Ale e Álex organizam uma festa de separação para reunir amigos e familiares – uma forma de comunicar o divórcio e de reforçar que não estarão mais juntos, por mais impossível que aquilo possa parecer. Daquelas comédias cujas ações se repetem e soam absurdas – quem em plena consciência faz uma festa para se separar?, que se desdobra em situações inusitadas. No fim das contas o casal nunca se separa, até porque trabalham no cinema e poderão se trombar em outras produções. A estética do cinema de Jonás foge do padrão, recorrendo a ambientes internos, com uma fotografia que reluz, ele divide a tela em dois para mostrar o que andam fazendo cada personagem, com transições e metalinguagens. É dele também o roteiro, que o escreveu ao lado dos dois atores centrais, o casal, que vale destacar está muito bem em cena. Um filme particular para público interessado em cinema com novas linguagens. Nos cinemas pela Zeta Filmes.
 

sábado, 27 de dezembro de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

  
Milonga
 
Com dois prêmios no Cine Ceará de 2024, a coprodução Uruguai/Argentina da estreante cineasta uruguaia Laura González chegou ao circuito de cinema brasileiro com pouca repercussão do público, infelizmente. É um bom filme, um delicado drama bem construído e bem interpretado, que passou despercebido aos olhos das pessoas – e incluo aqui a crítica. Os dois países sul-americanos produtores sabem contar histórias de traumas, superação e memória, e ‘Milonga’ segue nesse escopo. O drama acompanha Rosa (Paulina García, chilena premiada como melhor atriz no Festival de Berlim por ‘Glória’, a versão original de 2013), uma senhora que ficou viúva há poucos meses, após longa dedicação ao marido. Ela sofreu nas mãos dele, um cidadão violento. Sozinha, afasta-se da única pessoa da família, o filho. Um dia descobre na milonga, um ritmo derivado do tango, uma forma de superação dos traumas passados. Ela passa a frequentar um salão de dança para pessoas idosas. Lá conhece Juan (o uruguaio Cesar Troncoso, que fez diversos filmes no Brasil), e os dois iniciam uma amizade que extravasará para fora do salão de dança. Um filme feminino em que a protagonista é encorajada a resolver seus problemas por meio da arte e assim seguir a vida com outros olhares. Também toca em feridas das mulheres agredidas e abusadas por seus companheiros, mostrando as marcas psicológicas duradoras da violência doméstica. Um bom exemplar da nova safra do cinema latino-americano contemporâneo. Nos cinemas pela Kajá Filmes.
 

 
Nosso natal em família
 
Exibido na Quinzena dos Diretores do Festival de Cannes e depois no Brasil pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2024 com o título de ‘Véspera de Natal em Miller’s Point’, a comédia superpessoal do jovem cineasta Tyler Taormina é uma homenagem aos natais de sua família, na época da infância do diretor. Ali observamos uma família cheia de vícios e situações burlescas. É um ‘Parente é serpente’ menos dark, mas tão afetivo quanto. A história se passa na véspera de natal, e uma típica família americana se reúne para o evento de fim de ano. Na casa da matriarca vem filhos e filhas, primos distantes, numa noite regada a comida, conversas aleatórias e trocas de presente. Mas como em toda família haverá conflitos e desencontros. Participam ali três gerações, e aquela noite poderá ser o último encontro natalino no antigo lar dos avós, que estão bem idosos. O filme tem drama e um fino humor, sem nada escrachado, com momentos humanos e piadas sutis. Há muitos diálogos, e nós, o público, somos convidados a acompanhar os acontecimentos pelos cômodos da casa. Há um tom envelhecido na imagem, tudo se passa dentro da residência numa noite inteira, e, apesar de não citar, parece que o filme é na década de 90 – ninguém tem celular e há uma TV de tubo onde as crianças jogam videogame, particularidades daquela época. Gostei do longa porque nele recordei dos finais de ano na casa da minha avó, e assim me transportei no tempo. O elenco é interessante, com gente desconhecida e estreantes, mas alguns nomes curiosos, como Sawyer Spielberg, Francesca Scorsese e Laura Robards, respectivamente filhos de Steven Spielberg e Martin Scorsese, e neta de Jason Robards, além de participações de Maria Dizzia, Ben Shenkman, Michael Cera e Elsie Fisher. Estreou anteontem, no dia do Natal, com exclusividade na plataforma de streaming do Filmelier+.
 

 
Selena y Los Dinos: Legado de família
 
Documentário norte-americano da Netflix sobre a cantora nascido no Texas, mas de origem mexicana, Selena Quintanilla (1971-1993), que virou um ícone pop nos anos 90, mas que infelizmente teve a trajetória encerrada de forma prematura. Selena foi assassinada com um tiro por uma ex-funcionária e presidente do fã-clube, aos 23 anos, no auge da carreira, enquanto se preparava para um show em Houston, no Texas. Ela deixou marcas profundas na música tejana, um estilo que ela inovou, e uma legião de adoradores ao redor do mundo, a maioria na América. O filme, premiado no Festival de Sundance deste ano, reúne os membros da família Quintanilla, que compunham a banda dela, Los Dinos: o irmão, a irmã, o namorado e o pai, que era o empresário. A mãe de Selena, que acompanhava as turnês e auxiliava no camarim, também fala no filme, bem como donos de gravadoras e músicos que passaram pelo grupo. Los Dinos era uma banda dos anos 50 fundada pelo pai de Selena, Abraham, que reunia amigos dele. A banda perambulou tanto no México quanto nos Estados Unidos. Uma década e meia mais tarde, Abraham abriu no Texas um restaurante com a família e lá, nos anos 70, reinventou Los Dinos trocando os amigos pelos familiares – a filha mais velha na bateria, o filho da guitarra e Selena, com seis anos, no vocal. A banda cresceu, ganhou destaque nas rádios mexicanas e americanas, e Selena foi aos poucos vendo o sucesso se tornar realidade. Ao longo da carreira, Selena manteve a família na banda, ganhou um Grammy, participou do filme ‘Don Juan de Marco’ e fez centenas de shows pelo mundo levando o dançante ritmo tejano para os quatro cantos. Quando gravou o primeiro disco com letras em inglês, foi assassinada. No documentário, além das entrevistas atuais com os familiares, há clipes, shows, entrevistas antigas e bastidores dos shows de Selena. Eu gostei muito e pude conhecer mais sobre a cantora – há sobre ela um filme biográfico com Jennifer Lopez indicada ao Globo de Ouro pelo papel, ‘Selena’ (1997), e também as duas temporadas de ‘Selena: A série’ (2020-2021), um trabalho ficcional da Netflix. Agora vem esse bom doc em formato de filme, ‘Selena y Los Dinos: Legado de família’, já disponível na Netflix.
 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 1

 
 
Memórias de um verão
 
Adaptação de um livro dos anos 70 da escritora finlandesa Tove Jansson, o drama sobre amadurecimento e relações afetivas de uma avó com sua neta traz uma interpretação formidável de Glenn Close, veterana atriz que admiro muito pela sua versatilidade. Sophia (Emily Matthews), uma garota de nove anos, viaja para passar uma temporada com a avó (Glenn Close, oito vezes indicada ao Oscar) em uma ilha na Finlândia. É verão, e a região é pouco habitada, o que fortalece os vínculos das duas. Diariamente elas exploram os cantos da ilha e a natureza ali presente. A mãe de Sophia faleceu há pouco tempo, assunto que a garota evita falar, até que aquela ferida ‘aparece’ na conversa da avó com a neta. As belas paisagens do litoral finlandês ajudam a compor a essência deste filme sensorial, cheio de cenas em close-up – que favorecem as emoções e a relação de alma daquela neta com sua carinhosa avó, numa família atravessada por um luto recente. O filme foi todo rodado com luz natural, em pleno verão, em cidades banhadas pelo Golfo da Finlândia, no Mar Báltico. O diretor norte-americano Charlie McDowell, de ‘Complicações do amor’ (2014) e ‘A descoberta’ (2017), conduz com sensibilidade o elenco e um tema tão profundo. A estreante atriz mirim Emily Matthews é perfeita para o papel, e o filme conta com participação do ator norueguês Anders Danielsen Lie, de ‘A pior pessoa do mundo’ (2021). Exibido nos festivais de Miami, Munique e BFI London, teve estreia em cinemas brasileiros na semana passada, com distribuição da Synapse Distribution.
 


 
Guarde o coração na palma da mão e caminhe
 
Diretora iraniana radicada na Europa, também roteirista de documentários premiados, Sepideh Farsi realizou um dos filmes mais impactantes da temporada, um doc profundo cujo pano de fundo é a Guerra de Gaza – iniciada em 2023 e que se arrasta até hoje. O filme acompanha uma série de conversas entre Sepideh e a fotojornalista palestina Fatma Hassona, que também era poetisa - a primeira em sua residência na Europa, e a outra em sua casa, em Gaza, sob ataques a bomba. As duas se comunicam via celular, em chamadas de vídeo – uuma estética inovadora, ao mesmo tempo corajosa e delicada pelos registros ao vivo, com longas sequências sem cortes em que as interrupções se naturalizam, sejam por causa de uma bomba que explode nas proximidades onde Fatma está ou pela queda de conexão da internet que distorcem a imagem. As duas ficaram próximas, mesmo com a distância, e conversam sobre temas que envolvem tanto o massacre dos palestinos pelas forças israelenses quanto questões acerca do trabalho da fotojornalista, da mulher na sociedade palestina, da relação dela com a família, da vida em Gaza, do medo do amanhã etc. Gaza estava cercada e sob ataque, com bombardeios diários, que põe a vida de Fatma e da família dela em risco constante. O filme é a compilação de conversas que duraram 200 dias entre as duas, de 2024 e 2025, só terminando por causa de uma tragédia que se tornou fato notório – como alguns podem não saber, vou deixar em aberto espaço, sem revelar o ocorrido. Sepideh disse uma frase marcante sobre a relação dela com Fatma: “Ela se tornou meus olhos em Gaza, e eu, sua janela para o mundo”. Coprodução da França, Palestina e Irã, o filme foi para Cannes, onde concorreu ao Golden Eye, depois exibido em festivais como Edimburgo, Chicago, Montreal e Rio, e agora está nos cinemas com distribuição da Filmes do Estação (distribuidora do Grupo Estação, fundada em 1990). Um dos bons documentários do ano.
 
 
Sorry, baby
 
A Mares Filmes em parceria com a Alpha Filmes lançou nos cinemas na última semana este bom longa independente premiado em dezenas de festivais como Sundance, exibido nos festivais de Cannes e Toronto e recém-indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz de drama para Eva Victor, que também é a diretora e roteirista. Eva fez uma pequena façanha cinematográfica: um filme cult curto, com elenco enxuto e de tema provocador, sobre abuso sexual e masculinidade tóxica, sem ser explícito, contando-o de maneira ao mesmo tempo simbólica e sensível. Ela interpreta Agnes, uma estudante madura e dedicada, que um dia é convidada pelo professor e orientador da faculdade para uma conversa particular em casa. No dia seguinte, relata para a melhor amiga que foi abusada por ele – o que a deixa despedaçada. Agnes só tem a amiga com quem contar, Lydie (Naomi Ackie), e aos poucos se vê sozinha, enfrentando crises de pânico. O filme é inspirado no verdadeiro abuso sofrido por Eva, e com destreza expôs as dolorosas feridas na tela. Sem cair em clichê ou ser melodramática, Eva dosa o lado pesado da trama com um certo humor, típico de seus trabalhos anteriores – ela era comediante em programas de internet - mas com cautela, já que o tema do abuso é delicado e não pode cair no deboche. A diretora/atriz/roteirista demonstra técnica e seriedade com seu trabalho de estreia, que se tornou um fenômeno no circuito independente de cinema e disputa vaga no Oscar de 2026, nas categorias de atriz e roteiro. Fiquei maravilhado com o trabalho dela de atriz e de diretora, um filme que merece ser descoberto.
 

 
Assassinato em Mônaco
 
Documentário da Netflix sobre a investigação em torno do assassinato de um dos homens mais ricos do mundo, Edmond Safra (1932-1999), um banqueiro bilionário morto de forma misteriosa em Mônaco. Produção britânica, o filme entrevista pessoas ligadas a Safra, como amigos, enfermeiros que cuidaram dele e familiares, além de investigadores, recorrendo a pouco material pessoal arquivo, já que Safra era um homem reservado – o que mais se destaca são reportagens de TV da época. Nascido em Beirute, Safra tornou-se um magnata, e logo naturalizou-se no Brasil, onde casou com a brasileira Lily Safra, uma filantropa. Safra morreu aos 67 anos em um incêndio em seu apartamento de luxo em Monte Carlo, Mônaco. O principal suspeito foi o enfermeiro particular, Ted Maher, ex-Boina Verde, que foi preso e confessou ter colocado fogo no apartamento de Safra – segundo ele, era uma forma de resgatar o paciente e receber dele uma recompensa. Mas Ted sempre negou ter matado Safra, apenas ter incendiado o apartamento. Diante dessa dúvida, o filme procura responder perguntas que ainda pairam no ar – Safra já estava morto quando o incêndio ocorreu? Se não, quem o matou, já que os guarda-costas dele estavam de folga no dia do crime? No filme relata-se que a esposa havia herdado boa parte da herança em vida, o que colocou Lily como suspeita. É um documentário que destrincha o fato, acompanhando bastidores da investigação e tentando colocar um ponto final nesta trama de crime e cobiça.
 

 
O mistério da Família Carman
 
Documentário investigativo da Netflix que se debruça em um caso complexo envolvendo assassinato em família e uma herança milionária. Os fatos na Família Carman se sucederam entre 2013 e 2016, com ampla repercussão nos Estados Unidos. Um jovem chamado Nathan tornou-se o principal suspeito da morte do avô, John Chakalos, um senhor com muito dinheiro em conta e aplicado em propriedades. John foi assassinado a tiros enquanto dormia, em 2013. Três anos depois, em 2016, Linda, a filha dele e mãe de Nathan, desapareceu em um acidente de barco durante uma pescaria; ela estava com Nathan, que foi resgatado das águas pela Guarda Costeira. Uma apuração interligando os dois casos deu-se pela polícia, e os crimes foram empurrados para o colo do rapaz, que sempre negou ter cometido qualquer assassinato. O filme recupera imagens do interrogatório de Nathan e dos depoimentos de Linda antes de morrer, juntando-os com relatos atuais de pessoas ligadas à família, bem como policiais e investigadores do caso. É uma teia complexa, de um caso que demorou para ser concluído. A herança deixada por Chakalos girava em torno de U$ 45 milhões. As reviravoltas são surpreendentes em mais um bom filme de caso policial em formato de documentário da Netflix – que investe pesado no tema, seja em filmes ou séries. Está no catálogo do streaming desde 20 de novembro.


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cine Especial de Natal - Parte 2


Papai Noel & cia
 
Quando seus 90 mil elfos adoecem no mês de dezembro, Papai Noel (Alain Chabat) procura uma saída para que as crianças não fiquem sem seus presentes de Natal. Com as renas no trenó, ele viaja até a Terra para encontrar a cura para a doença dos elfos.
 
Encanto, magia e muito humor neste filme francês lançado há alguns anos, mas que pouca gente assistiu. Eu fui conhecê-lo em DVD recentemente, numa edição da California Filmes - confesso que não tinha notícias desta obra, e achei um barato. Funciona redondinho graças ao trabalho do ator francês Alain Chabat, veterano nas telas, de ‘Asterix e Obelix: Missão Cleópatra’ (2002), que interpreta um Papai Noel prestes a explodir quando tudo dá errado no fim do ano. Chabat também escreveu e dirigiu, criando um filme adorável, para crianças e adultos, e que faz sentido assisti-lo em dezembro, para entrarmos no clima de natal. O colorido do filme com seus bons efeitos visuais e a fotografia no Polo Norte tornam a ambientação mágica e alegre. Participam também as atrizes Audrey Tautou, de ‘O fabuloso destino de Amelie Poulain’ (2001), como a Mamãe Noel, e a iraniana Golshifteh Farahani, de ‘Procurando Elly’ (2009).
 
Papai Noel & cia (Santa & Cie). França/Bélgica, 2017, 100 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por Alain Chabat. Distribuição: California Filmes
 
 
Aquele natal
 
Papai Noel (voz de Brian Cox) se depara com um problemão: uma tenebrosa nevasca poderá cancelar o Natal na cidadezinha inglesa de Wellington-on-Sea. O Bom Velhinho terá três dias para elaborar um mirabolante plano, que envolve desde barrar a neve até entregar rapidamente todos os presentes das crianças de lá.
 
Bonitinha animação da Netflix rodada no Reino Unido, com vozes originais de astros e estrelas britânicos, como Bill Nighy, Fiona Shaw, Brian Cox e Jodie Whittaker. Na história, um grupo de crianças se prepara para o fim de ano na escola, treinando uma apresentação natalina. O clima é de Natal, o ano foi embora... A cidade, que fica à beira-mar e tem um farol como ponto turístico, é tomada pela neve. O gelo cobre tudo, as aulas são canceladas, a pequena Wellington fica branca, e os moradores se esquentam em casa. Mas chega um alerta sobre uma rigorosa nevasca nos próximos dias que culminará no dia de Natal. Entra em cena então um corajoso Papai Noel, que correrá contra o tempo para resolver a questão. Um filme divertido, dinâmico, mágico, cheio de peripécias e aventuras entre crianças e o Papai Noel e suas renas. Baseado na série de livros ‘That Christmas’, de Richard Curtis, lançada em 2020, o filme serve para entrarmos no clima de fim de ano.
 
Aquele natal (That Christmas). Reino Unido, 2024, 96 minutos. Animação. Colorido. Dirigido por Simon Otto. Distribuição: Netflix

Cine Cult e Clássico - Especial de Natal - Parte 1


Natal sangrento
 
Jovem atormentado por um trauma de infância inicia uma matança no final de ano, vestido de Papai Noel.
 
Slasher memorável, com cenas brutais de assassinato, que virou um velho conhecido dos frequentadores de locadoras de VHS. Lançado em 1984, já era violento para a época, por isso foi censurado em vários países, alguns exibindo-o com cortes. Assistindo hoje, ele continua forte e ousado, já que subverte e polemiza símbolos sagrados de uma festa tradicional católica. Papai Noel aqui é um homem real, atormentado por um trauma de infância; na abertura do filme, uma família viaja de carro, no ano de 1971, na véspera do natal; lá estão mãe, pai e o filho pequeno. Eles param na rodovia para dar carona a um homem vestido de Papai Noel, à noite – na verdade é um assassino, que mata o casal. A criança, de nome Billy, consegue fugir, e é adotada por freiras em um orfanato. Anos depois, ao sair de lá, Billy relembra o chocante assassinato dos pais e faz igual, iniciando uma matança vestido de Papai Noel. Ele invade casas, mata com machadadas e vai deixando a trilha de sangue.
Boatos contam que o filme foi inspirado em uma situação real de um homem que enlouqueceu no natal e cometeu a atrocidade há 50 anos. Oficialmente isto não aparece nos anais da História.
Na época houve uma fita semelhante, feita quatro anos antes, ‘Natal diabólico’, que deve ter influenciado este aqui – em ambos o homem enlouquece no natal devido a um trauma de infância e parte para as mortes vestido de Santa Claus. ‘Natal sangrento’ passou diversas ocasiões na TV, tirou o sono de muita gente e ganhou quatro continuações – estreou neste mês nos EUA e no Brasil o remake, de mesmo título. Repare que o nome é um trocadilho com o refrão da música ‘Silent night, holy night’.


Por causa da violência extrema, o longa saiu com cortes no cinema e em home vídeo, na época com 79 minutos – a Versátil lançou-o, em DVD, na versão americana sem cortes, de 85 minutos, disponível no box ‘Slashers vol3’.
 
Natal sangrento (Silent night, deadly night). EUA, 1984, 84 minutos. Terror/Suspense. Colorido. Dirigido por Charles E. Sellier Jr. Distribuição: Versátil Home Video
 
 
Agora seremos felizes
 
A família Smith é unida, composta por muitas mulheres de diferentes idades. Os Smiths moram num casarão no estado do Missouri, são ricos, mas em breve precisarão mudar de cidade. No ciclo de um ano, da primavera ao inverno, a paixão, os sonhos e as desilusões serão decisivos para o amadurecimento das meninas daquela casa.
 
Baseado no clássico livro da autora Sally Benson (1897-1972), ‘Agora seremos felizes’ tornou-se um musical absoluto, querido pelos americanos, um filme também simbólico para esta época de final de ano. Com forte similaridade ao livro e ao filme ‘Adoráveis mulheres’ – a família composta essencialmente por mulheres, divididas por sonhos, desilusões e amadurecimento, o filme se passa em um ano, cruzando as quatro estações, que são os capítulos da história; cada uma delas reflete um estado de espírito da família Smith, a relação dos pais com as filhas, o amor e a fidelidade daquela alegre família, até as mudanças de rumo, novos sentimentos e temores. Judy Garland é a menina Esther, Margaret O'Brien é a irmãzinha mais nova, Tootie, Mary Astor, a matriarca; as atrizes, belas e graciosas, entregam tudo para um filme funcional, leve e amoroso. A história se passa nos primeiros anos do século XX, em 1904, no Missouri, com boa parte ocorrendo na Grande Feira Mundial de Saint Louis, até que da metade para o fim vira um filme natalino, com enfoque no inverno. Fãs de musical vão se deliciar. Judy, na época com 21 anos, conheceria seu segundo marido aqui, o diretor Vincente Minnelli, com quem teriam a filha Liza Minnelli.


Indicado a quatro Oscars (melhor roteiro, fotografia, trilha sonora e música), ganhou um prêmio especial da Academia para a atriz mirim Margaret O'Brien, na época com sete anos – a premiação de ator/atriz mirim e juvenis existiu por muito tempo no Oscar. Em DVD pela Warner.
 
Agora seremos felizes
(Meet me in St. Louis). EUA, 1944, 113 minutos. Comédia/Romance. Colorido. Dirigido por Vincente Minnelli. Distribuição: Warner Bros.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2

 
Primeiro encontro
 
Dois filmes cult estão nos principais cinemas brasileiros com o selo de distribuição da Pandora Filmes: a comédia romântica italiana ‘Primeiro encontro’ (2025) e o drama coprodução Holanda e Bélgica ‘Reedland: Um crime obscuro’ (2025).
O primeiro é um filme alto astral, para todos os públicos, especialmente aquele que gosta de histórias de amor. Foi sucesso de bilheteria na Itália, percorreu mais de 20 países e chegou ao Brasil semana passada, nas principais salas de cinema – temos uma tradição desde os anos 60 de exibir filmes italianos com bom resultado de público. É uma obra afetuosa com direção e roteiro de Paolo Genovese, cujo maior destaque na carreira é um filme que teve versões em diversos países e acaba de ganhar uma no Brasil, que também está nas salas hoje, ‘Perfeitos desconhecidos’ (2016). Acompanha o primeiro encontro de Piero e Lara, ele um cinquentão desiludido (papel de Edoardo Leo), e ela, 20 anos mais nova, uma jovem no auge da maturidade (Pilar Fogliati). Entre um buquê de flores e rápidos desentendimentos, o novo casal procura se estabelecer fugindo das regras sociais. O diferencial do filme está nas consequências daquela relação – grande parte da história se passa na mente deles dois, em que as vozes da razão, da emoção e de outros sentimentos são personificados em figuras engraçadas, sentados numa sala de estar de uma espécie de ateliê/loft. Genovese se inspirou na animação ‘Divertida mente’, da Pixar, para escrever o roteiro, que se torna interessantíssimo se você embarcar na proposta. Pilar e Edoardo têm química e timing perfeito para o humor, e o elenco secundário, que ocupa as mentes dos dois, está afinado com um humor sutil e com certa criticidade.
 

 
Reedland – Um crime obscuro
 
Outro título de destaque nos cinemas brasileiros é o drama de mistério ‘Reedland – Um crime obscuro’, uma coprodução Holanda e Bélgica, que esteve na seleção oficial do Festival de Cannes 2025 e é o representante da Holanda ao Oscar 2026. É um filme de um homem só, isolado entre os juncos secos de um vilarejo rural na Holanda. Johan cultiva uma extensa área de juncos e se prepara para a colheita. No meio do processo, encontro o corpo de uma garota. Imóvel diante da menina morta, continua suas tarefas diárias até que horas depois comunica a polícia. Ele é tomado por um sentimento de culpa, ao mesmo tempo com estranhas lembranças envolvendo a garota morta, e passa a cuidar com mais zelo da neta, única pessoa que mora com ele naquela fazenda. Johan auxilia na investigação do crime procurando pistas que levem para a solução do caso. Com poucos diálogos, o filme assume um tom de suspense sufocante, sem trilha sonora ou reviravoltas hollywoodianas. Tudo acontece nas expressões faciais do protagonista, um ator pouco conhecido, Gerrit Knobbe, que faz um trabalho digno. Há longas cenas de contemplação em que se ouve o vento nos juncos e planos-sequências demorados na rotina do personagem, solitário naquela região erma - são escolhas do estreante diretor e roteirista Sven Bresser que contribuem para a essência e os dilemas do personagem, tomado por um inevitável sentimento de culpa. Um autêntico filme cult de festivais europeus, para apreciadores do estilo. Em Cannes participou da Semana da Crítica e ao prêmio Golden Camera. Nos cinemas pela Pandora Filmes.



sábado, 20 de dezembro de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 1

 
 
Sexa
 
A atriz global Gloria Pires marca sua estreia na direção em um filme de comédia dramática que é um livro aberto para as mulheres de 60 anos, faixa de idade dela. Gloria protagoniza o filme, no papel de Barbara, uma sexagenária descontente com o envelhecimento. O tempo passou, e ela sente que não curtiu a vida como gostaria. Trabalha com revisão de textos, tem forte vínculo com a vizinha e amiga Cristina (Isabel Fillardis) e há tempos que não se apaixona. Seus últimos casos foram um fiasco. Um encontro inesperado com Davi (Thiago Martins), um rapaz viúvo 25 anos mais jovem, acende uma ponta de esperança para Barbara. Ela passa a ser notada por ele, e juntos investem em um relacionamento, mesmo que a idade possa ser um empecilho na sociedade. Gloria está divina esbanjando charme no papel dessa mulher pra frente, que incorpora a posição da mulher na sociedade atual, que vem conquistando seus espaços com independência, mas que ainda é alvo de certos preconceitos – ainda mais quando se envolve com homens bem mais novos. Ela realizou como diretora um filme que desperta interesse entre as mulheres, que tem boa conexão do roteiro com o elenco, e por cima é alegre e divertido, indo direto para a alma feminina. O longa teve a première no Festival do Rio desse ano e conta com participações especiais de Eri Johnson, Déa Lúcia e Rosamaria Murtinho. Produção da Giros Filmes e Audaz, com coprodução da Paramount Pictures Brasil e distribuição nos cinemas pela Elo Studios. 
 
 


Munch: Amor, Fantasmas e Vampiras
 
Uma extensa análise sobre a vida e a obra do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) é o tema deste novo documentário das produtoras italianas 3D Produzioni e Nexo Digital, que tem boa parte de seus trabalhos lançados no Brasil pela Autoral Filmes. O longa integra um ciclo de docs dessas produtoras sobre artistas plásticos, todos lançados aqui pela Autoral – só neste ano foram três, ‘Maldito Modigliani’ (2020), ‘Picasso – Um rebelde em Paris’ (2023) e ‘Andy Warhol – Um sonho americano’ (2023), e ‘Munch’ acaba de estrear nas principais salas do país. Com um título rebuscado e uma narrativa didática, porém para inseridos no mundo das artes, o filme é composto por uma série de entrevistas de historiadores escandinavos, artistas e curadores de arte europeus que tratam das raízes do pintor Munch, as características predominantes do seu trabalho e como se deu sua influência nos anos após a morte. Munch era um homem solitário, autor de duas obras emblemáticas – ‘O grito’ e ‘Angústia’, e que deixou um vastíssimo acervo de quase 30 mil obras, como pintura, gravura, desenhos, manuscritos, fotografias e experimentações de cinema. Ele era profundamente pensativo em torno de questões temporais e de um certo mal estar social, focando na condição humana; temas como melancolia, angústia, morte e desespero apareciam com frequência em seus retratos e paisagens, muitos com a figura do ‘duplo’. Oslo, capital da Noruega, inaugurou, no auge da pandemia, em 2021, um museu em formato de edifício para lembrar a carreira do artista, o Museu Munch, buscando desvendar seu trabalho reunindo 28 mil obras dele, de diversos estilos e técnicas. Ao mesmo tempo que é documentário, é ficção, com atores encenando breves passagens de Munch. Narração da atriz Ingrid Bolsø Berdal, de ‘A espiã’ (2019).
 

 
Abre alas
 
Documentário brasileiro da Sanar Produções, distribuído pela Embaúba Filmes, sobre sete mulheres entre 50 e 85 anos que contam histórias relacionadas a suas trajetórias. Walkiria, Dora, Silvana, Sheila, Regina, Lorena e Heloísa falam abertamente do passado, das escolhas que a tornaram quem são, das dificuldades, violências e preconceitos sofridos dentro e fora da família. São mulheres cis e trans de condições sociais diferentes, muitas deles invisibilizadas, e agora dispostas a enfrentar com coragem esses fantasmas que a atormentaram – contando para a câmera sobre essas passagens de suas vidas. A cineasta Ursula Rösele estreia num filme feminino, experimental e super autoral, com forte inspiração no cinema documental de Eduardo Coutinho – utilizando cenários comuns e minimalistas, e narrações longas sem cortes ou montagem, em que a voz do personagem é o filme em si, sem interferências do diretor ou entrevistador. O enquadramento do filme se transforma num espaço fechado, como uma sala de terapia, num lugar de escuta e reflexões, e o público é convidado a confidenciar aquelas histórias dramáticas sem críticas ou julgamentos. Uma a uma, as sete mulheres falam e ressignificam suas dores como uma espécie de cura de um passado marcado por silenciamento e traumas, passando pela solidão, o abandono do marido, a homofobia/transfobia, abusos na infância, luto e doença terminal. Gostei muito do filme e recomendo – está nos cinemas.



domingo, 14 de dezembro de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2

 
Jay Kelly
 
Coprodução EUA, Reino Unido e Itália, o novo filme de Noah Baumbach encerrou a Mostra Internacional de Cinema de SP desse ano, onde assisti com antecedência em uma sessão para a imprensa, organizada pela Netflix. Saí com olhar entusiasmado do mais recente trabalho autoral de Baumbach, que vive numa gangorra entre um filme bom, outro fraco, outro bom, outro regular. É um filme de homenagem ao mundo do cinema, que caiu como uma luva para George Clooney, que interpreta o protagonista, e aos poucos virou um filme dele/pra ele - numa sequência final isto ficará mais claro. Clooney interpreta um astro das telas chamado Jay Kelly, que curte uma boa vida apesar de alguns desajustes familiares. Quase sessentão, ele recebe um convite irrecusável: viajar para a Itália para uma retrospectiva de seus trabalhos e lá ganhar um prêmio honorário. Ao lado do dedicado empresário Ron Sukenick (Adam Sandler), embarca em uma viagem transformadora, cheia de propósitos, que será uma mistura de sentimentos. Kelly será tomado pela melancolia, revisitará seu passado e terá de resolver pequenos empecilhos pela frente. Uma fita de viagem e redescobertas pelo caminho, que também é uma homenagem ao próprio fazer artístico do cinema, cheio de metalinguagens e bastidores. Um dos trabalhos mais maduros e pessoais da nova fase de Baumbach. É o primeiro filme de Emily Mortimer como corroteirista – ela escreve o roteiro com Baumbach e tem uma pontinha como atriz na abertura. E a sexta colaboração de Noah com a esposa, Greta Gerwig (aqui ela faz a mulher de Sandler, e a filha do casal no filme é a filha verdadeira de Adam, Sadie Sandler, de 19 anos). Originalmente seria Brad Pitt no papel principal, que chegou até a gravar algumas cenas – Pitt saiu do projeto e Clooney entrou de cabeça, dando o melhor de si, num papel bem à vontade e a sua altura – tanto ele quanto Sandler acabaram de receber indicação ao Globo de Ouro pelas atuações.
Há uma combinação de atores coadjuvantes em momentos hilários, como Billy Crudup, Laura Dern, Jim Broadbent e Stacy Keach. Para mim o melhor Noah da última década, desde ‘Mistress America’ (2015). Exibido nos festivais de Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro, San Sebastián e Nova York. Entrou no radar das principais premiações para a temporada de 2026, como Critics Choice e Gotham, devendo pegar nomeação ao Oscar.
 

 
A queda do céu
 
Virou cinema o livro ‘A queda do céu: Palavra de um xamã yanomami’, obra fundamental do antropólogo francês Bruce Albert que o escreveu a partir das falas do xamã yanomami Davi Kopenawa – lançado em 2010, a obra literária reúne histórias em torno daquele povo indígena da Amazônia, incluindo rituais e formas de lidar com o mundo e a natureza. Quem ficou responsável em traduzir as palavras do livro para imagens foi o filho de Glauber Rocha, o documentarista Eryk Rocha, que já realizou docs importantes, e aqui o fez ao lado da cineasta Gabriela Carneiro da Cunha – eles escreveram o roteiro baseado no livro e dirigiram. O filme entrou nos cinemas após exibição na COP30 e ter passado em festivais de 2024, como na Quinzena dos Realizadores em Cannes, impulsionando a pauta indígena, com foco nos yanomamis que por pouco não foram exterminados nas duas últimas décadas – a terra deles, compreendida na Amazônia entre Brasil e Venezuela, é alvo contínuo de disputas territoriais, invasão por garimpeiros e madeireiros, epidemias, e há poucos anos, com vista grossa de autoridades políticas, começou ali um genocídio. O filme já impacta pela abertura, de 15 minutos, com uma câmera estática esperando a passagem de um grupo de yanomamis pela tela – eles falam baixinho em um ritual, cruzando um enorme trecho a céu aberto, os vemos lá no fundo, pequeninos, até se aproximarem da tela. Com poucos diálogos, quase que todo na língua yanomami, o filme é conduzido pelo xamã e líder daquele grupo, Davi Kopenawa, um dos nomes mais importantes da causa indígena do Brasil. Ele e a comunidade da aldeia Watorikɨ celebram rituais como o Reahu – a passagem de um ente falecido, pintam o corpo de preto e vermelho e grudam penas de aves na cabeça. As longas cenas mostrando detalhes da prática são didáticas e apreciativas, com uma coloração da imagem incrivelmente bela e uma série de enquadramentos caprichados. Pouco se viu sobre os yanomamis por dentro da comunidade, e o filme se presta a acompanhar vários dias pelo ponto de vista dos integrantes daquele povo, que hoje somam 28 mil espalhados pela Terra Indígena Yanomami (TIY), segundo dados do IBGE de 2022. O filme é um convite para refletirmos a questão indígena e vermos com detalhes uma cultura tão rica e que vem sendo exterminada. O longa teve recepção calorosa em mais de 80 festivais nacionais e internacionais, recebendo prêmios no DOC NYC e no Festival do Rio. Montagem, direção de arte, fotografia e som são pontos impecáveis desse filme etnográfico de temática urgente. Coprodução Brasil-Itália da Aruac Filmes, Hutukara Associação Yanomami e Stemal Entertainment com Rai Cinema, com produção associada francesa de Les Films d'ici. Distribuição nos cinemas do Brasil pela Gullane+.
 

 
Apolo
 
Documentário brasileiro exibido nos festivais do Rio e Mix Brasil, o filme de estreia das atrizes Tainá Müller e Ísis Broken trata de uma temática delicada, sobre a espera do nascimento de um bebê gestado por um casal transgênero. O casal é formado pela atriz e artista musical Isis Broken (a diretora) e o parceiro Lourenzo Gabriel, e o bebê na barriga é Apolo. Entre o casal vemos os dilemas e os dramas, como preconceito na sociedade e a luta por igualdade nos direitos básicos de saúde, moradia e reconhecimento. É um homem trans que está grávido, e a esposa, mulher trans, em plena pandemia da Covid-19, um período marcado pela insegurança. A rotina de ambos é uma batalha intensa por igualdade e respeito, em um país que mata 120 transexuais e travestis por ano, um dos mais violentos para esta comunidade. O filme começou a ser gravado na pandemia e terminou recentemente, em que as diretoras escutam duas vozes centrais, de Isis e Lorenzo, permeadas pela ansiedade da espera de Apolo (que na mitologia grega é um dos deuses mais importantes, com atributos relacionados ao sol, às artes, à luz e à profecia). Acompanhamos as conversas do casal, o amor, as rejeições e as barreiras na sociedade – há momentos constrangedores e tensos gravados via celular por Isis e Lourenzo, muitos nos atendimentos no hospital, quando foram humilhados por funcionários e por quem aguardava na recepção. Os ataques sofridos e a negação da identidade abrem uma forte reflexão sobre gênero e sexualidade. Também falam no filme amigos e familiares de ambos. Um filme autoral sensível e aberto ao diálogo, sobre famílias trans e novos conceitos de família, maternidade e paternidade. Ganhou os prêmios de melhor documentário e melhor trilha sonora original no Festival do Rio e o Coelho de Prata - Prêmio do Público no Mix Brasil. Produzido pela Capuri, Puro Corazón e Biônica Filmes, esta última também distribuidora do filme.
 

 
A natureza das coisas invisíveis
 
Coprodução Brasil e Chile, o filme conquistou público e crítica nos principais festivais paulistas dos últimos meses, como a Mostra de Cinema de SP e o Mix Brasil, recebendo em ambos prêmios de destaque – respectivamente o prêmio da crítica e o Coelho de Ouro de melhor longa nacional. Exibido nos Festivais de Gramado e Brasília e indicado ao Teddy Bear no Festival de Berlim – dedicado a temas LGBTQIAPN   + no festival, o longa ficcional, que marca a estreia da cineasta Rafaela Camelo, acompanha o verão de Glória, uma menina de apenas 10 anos, que está de férias. Ela passa o tempo no hospital onde a mãe trabalha como enfermeira. Conhece nos corredores uma outra garota de mesma idade, Sofia, que acompanha de perto os altos e baixos da saúde da bisavó, internada ali. Brincam juntas, confidenciam coisas, tornam-se amigas naquele período, até o final das férias de verão.
A forma como se conduz a amizade das meninas é o diferencial desse filme independente humano, bonito e sensível, com informações reveladoras que se prendem aos detalhes – e que formam a identidade das personagens. É um coming-of-age agridoce com toques autorais da cineasta sobre encontros e despedidas, e que olha para a infância, entrando no mundo sutil das crianças e de sua imaginação ao brincar entre elas e se relacionar no universo dos adultos. A curiosidade das crianças, o medo da morte e as separações – e depois a questão de identidade de gênero, que mudará a maneira de olharmos para a trama, embasam a proposta do agradável filme. As atrizes Laura Brandão e Serena brilham nos diálogos e na interpretação de Gloria e Sofia, que pendem entre o humor e o drama, e as atrizes Larissa Mauro, Camila Márdila e Aline Marta Maia completam o trabalho das meninas. Tem produção da Moveo Filmes, Pinda Producciones e Apoteótica Cinematográfica, com distribuição da Vitrine Filmes no Brasil.
 

 
Make a girl
 
Animação scifi japonesa interessante para quem gosta de animes futuristas, atualmente um eixo de cinema muito explorado nos países orientais. O dado curioso é que ele foi totalmente feito com financiamento coletivo, pelas mãos do diretor de cinema independente Gensho Yasuda. A trama romântica é num futuro dominado por robôs domésticos, onde vive um gênio da robótica chamado Akira. Ele é forçado a encontrar uma namorada, e então desenvolve no laboratório uma parceira ideal, uma androide perfeita. Ela é a ‘N°0’, que passará a ter emoções não programadas. Akira a leva para todos os lugares, mas nunca sabe se os sentimentos dela por ele são reais. Uma animação que discute o poder da IA nos tempos da alta tecnologia e das máquinas assumindo emoções. Hoje o convívio com robôs é uma realidade em muitos países, e no Japão é ainda mais avançado com a genialidade das mentes por trás dessas criações. Inspirado no curta ‘Make love’, do mesmo diretor, tem humor, pegada romântica, fala de amizade e de um mundo nem tão futurista assim tomado pelos robôs inteligentes. Depois de prorrogado duas vezes, estreia agora nos cinemas, pela Sato Company.
 

 
Aileen: A História de uma Serial Killer
 
Documentário investigativo da Netflix sobre a ‘Rainha das assassinas em série’, Aileen Wuornos (1956-2002), que matou sete homens no período de um ano quando trabalhava como prostituta na Flórida. O filme é somente com imagens de arquivo, de cenas de gravações policiais, da prisão dela em flagrante, do interrogatório, entrevistas de TV e do julgamento de Aileen. O caso que chocou o mundo entre 1989 e 1990 traz a perspectiva dessa mulher, que dizia ter matado em legítima defesa, pois sofreu estupro. O filme não deifica a assassina, como muitas séries e filmes hoje insistem em fazer, pelo contrário, mostra a escalada no crime, o tormento que sofreu e como a justiça fez de tudo para calar Aileen, que não teve chance de um julgamento correto – na época a mídia sensacionalista ficou em cima estampando as notícias das mortes, enquanto a acusada era silenciada por todos, dentro e fora do tribunal, até que o juiz deixou de levar em consideração o depoimento dela sobre o estupro. Todo montando com imagens antigas, algumas com borrões e má qualidade, sem gravações ou depoimentos atuais, é um filme de registro de uma época para mostrar o silenciamento da mulher, independente se ela foi criminosa, vítima ou justiceira. A vida de Aileen serviu de base para o premiado filme ‘Monster – Desejo assassino’, que rendeu a Charlize Theron o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz em 2004. Produção original da Netflix, disponível lá desde o fim de outubro.



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