Quando chega o outono
François Ozon já provou
ser um cineasta autoral dos mais sensíveis com seus filmes intensos que mesclam
gêneros. Para mim um diretor formidável, exímio representante do atual cinema
francês. Festivais renomados como Cannes, Berlim e Veneza, e até o Bafta, já
exibiram seus longas-metragens nos últimos 25 anos. Tenho boa memória de obras
como ‘8 mulheres’ (2002), ‘Swimming pool – À beira da piscina’ (2003), ‘O tempo
que resta’ (2005), ‘Potiche – Esposa troféu’ (2010), ‘Dentro de casa’ (2012),
‘Jovem e bela’ (2013), ‘Uma nova amiga’ (2014), ‘O amante duplo’ (2017),
‘Graças a Deus’ (2018), ‘Verão de 85’ (2020) e ‘Está tudo bem’ (2021) – veja
que ele faz de um a dois filmes por ano, de comédia dramática a suspense, e
seus trabalhos continuam atuais, sempre com algo a nos contar. ‘Quando chega o
outono’ (2024) é seu novíssimo trabalho, exibido no festival de San Sebastian e
lançado nesse fim de semana nos cinemas brasileiros pela Pandora Filmes.
Bucólico, dramático, com vieses de um humor que arranca estranhos risos, o
filme transcorre num vilarejo distante em Borgonha, na França, onde vive uma
solitária senhora, que se dedica à casa e ao extenso jardim com horta, Michelle
(papel da veterana atriz Hélène Vincent, aos 81 anos, de ‘A liberdade é azul’).
Ela espera ansiosa a chegada da filha e do neto, que vem de Paris passar alguns
dias no campo. Sua melhor amiga é Marie-Claude, uma idosa cujo filho, que
cumpre pena na prisão, está para ser solto (papel de outra veterana, que gosto
muito, a septuagenária Josiane Balasko, de ‘Uma cama para três’). Aposentadas,
as duas moram perto e passam tempo juntas na tranquilidade daquela cidadezinha
campestre. Michelle acaba em atritos com a filha, Valérie (Ludivine Sagnier, do
seriado ‘Lupin’), que repudia o passado da mãe – que será revelado depois. No
jantar, a mãe idosa serve para a filha e para o neto cogumelos, sem saber que
são venenosos - somente Valérie consome, passa mal e vai para o hospital, e a
partir daí uma sucessão de acontecimentos desgastará a relação daquela família
e da amizade de Michelle com Marie-Claude, inclusive haverá um crime brutal.
Nesse filme cheio de
idas, vindas e reviravoltas, com momentos brilhantes, outros charmosos e com um
elenco maravilhoso com personagens repletos de camadas, Ozon constrói uma trama
que parece uma fábula moderna sobre relação de pais e filhos, que carregam sentimento
de culpa/remorso e com o passado que arromba a porta. É uma obra fascinante que
começa como um filme leve, nas lindas paisagens de campo, e aos poucos a tensão
aumenta o tom para um retumbante drama familiar. Mais um Ozon a se conhecer e
admirar.

Mário de Andrade: O
turista aprendiz
Documentário e drama com
leve humor se fundem nesse interessantíssimo filme sobre uma parte da vida do
escritor, poeta, crítico e musicólogo paulistano Mário de Andrade (1893-1945),
fundador do movimento modernista de 22. Mente brilhante, homem multifacetado e
romancista de uma das obras mais festejadas daquele período, ‘Macunaíma’,
Andrade escreveu um romance menos lembrado, ‘O turista aprendiz’, publicada um
ano depois de ‘Macunaíma’, em 1929. Nele, faz uma viagem pelo Brasil, para
regiões remotas do Norte, mostrando a variedade cultural do extenso país. O
filme se apoia nos manuscritos, espécie de diários, de um Andrade inquieto, quando
de uma expedição que participou em 1927 pelo Amazonas e culminaria nos textos
do livro ‘O turista aprendiz’. Na longa viagem, conheceu e registrou as
comunidades indígenas e ribeirinhas, além da arte, da fauna e da flora do
lugar. Essas anotações só seriam públicas dois anos antes da morte dele, em 1943.
Aqui, há uma adaptação dessa aventura por lugares exóticos, que recontam a
História do Brasil. É o ponto de vista de Mário de Andrade, como se o filme
estivesse onisciente, dentro da cabeça do escritor, numa mistura poética de
realidade e ficção. Enquanto os minutos correm, vemos fotos de Andrade no rio
Amazonas, pinturas sobre ele, o escritor em frente ao microfone contando
causos, cantando estirado numa espreguiçadeira, datilografando e recebendo
indígenas. É um Andrade de malas prontas para viajar a fim de redescobrir os
grotões de um Brasil imenso, profundo e pouco falado. Vi o filme com fascínio e
curiosidade, um trabalho de mestre de Murilo Salles, cineasta veterano, de
‘Nunca fomos tão felizes’ (1984), ‘Como nascem os anjos’ (1996) e ‘Nome
próprio’ (2007). A grande intepretação do ator Rodrigo Mercadante como o
protagonista vai além dos limites do filme – o ator é muito parecido com o
escritor e há 25 anos o interpreta em peças, performances, shows musicais e
projetos audiovisuais. A estética do longa também é um ponto alto, alternando
cor, preto-e-branco, telas divididas, montagens inusitadas, com Andrade falando
para a câmera e até ele num fundo rosa com faixa de miss num desfile de moda!
Conheçam. Nos cinemas brasileiros com distribuição da Cinema Brasil Digital.

O bom professor
A Mares Filmes
surpreende com seu catálogo, maior parte dele com fitas europeias de festivais.
Nesse ano a Mares lançou nos cinemas brasileiros dois longas-metragens do Oscar
2025, ‘Flow’ (2024), animação da Letônia ganhadora na categoria, e ‘A semente
do fruto sagrado’ (2024, vencedor de cinco prêmios em Cannes), indicado como
melhor filme estrangeiro; e para os próximos meses já anunciou a distribuição de
‘Memórias de um caracol’ (2024 – também indicado ao Oscar de animação) e
‘Bolero – A melodia eterna’ (2024 – exibido no Festival de Rotterdã). O novo
filme em cartaz da Mares Filmes é ‘O bom professor’ (2024), contundente drama franco-belga
que teve première no Brasil na última edição do Festival Varilux, em novembro
passado. Estrelado pelo ator François Civil, de ‘Amor à segunda vista’ (2019),
conta a história de um dedicado professor de Ensino Médio indevidamente acusado
de assediar uma estudante. A acusação é em decorrência de uma má interpretação
dos alunos, após Julien tentar criar vínculos com a turma e dar atenção especial
à sala. Julien, que esconde ser gay, vira alvo dos estudantes, inclusive dos pais
dos alunos e de parte dos colegas de trabalho. A escola fica dividida com uma
questão: o professor cometeu ou não assédio contra a jovem?
Civil, um ator
convincente e fotogênico, traz nas expressões faciais todo o dilema dramático
vivido com os boatos de ser assediador – desde o início do filme sabemos que ele
é inocente, mas pelo olhar dos alunos e da sociedade, ele já foi ‘julgado e
condenado’, sendo, portanto, um criminoso que não pode mais pisar na escola. É
um filme sobre uma realidade dura, a do ensino público na França, com alunos de
contextos familiares adversos, e como os professores estão sujeitos a
julgamentos e abandono – aos poucos o protagonista é rejeitado até pelo próprio
namorado diante da crise que se instala. Escrito e dirigido por Teddy
Lussi-Modeste, de ‘O preço do sucesso’ (2017, com Tahar Rahim), o filme é um
soco no estomago, que nos faz refletir muito. O título original, ‘Pas de vagues’,
alude à expressão escolar ‘Sem tumulto’, uma forma de controlar os alunos no
instante de gritarias e brigas.
