sábado, 25 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1


A voz de Deus
 
Exibido em première no Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, onde ganhou o prêmio de edição, e depois no Festival de Brasília e na Mostra Internacional de Cinema de SP de 2025, o documentário do diretor de “A flecha e a farda” (2020), Miguel Antunes Ramos, escrito por ele e pela premiada cineasta Alice Riff (diretora de “Meu corpo é político”), estreou na semana passada em cinemas selecionados do Brasil. O filme é um estudo sobre religião e mídia em um país dividido pela política. Ramos faz um olhar íntimo sobre o universo dos pregadores mirins evangélicos, trazendo para a pauta duas personalidades midiáticas: Daniel Pentecoste, que nos anos 2000 se tornou o pregador infantil mais famoso do país, numa época em que as redes sociais engatinhavam, e João Vitor Ota, fenômeno das redes sociais que reúne atualmente milhares de seguidores no TikTok e Instagram. Daniel, duas décadas depois, sente hoje o peso do passado, principalmente a cobrança do pai, que se envolveu com política (defensor ferrenho de Bolsonaro) e queria o filho ativo nas pregações. Daniel se afastou dos holofotes e segue outras formas da espiritualidade, desafiado a se reinventar após o fim da fama precoce – segundo ele, vive agora uma nova forma de relação com a igreja, afirmando que sua fé permanece viva, mas sustentada menos pela rigidez dogmática e mais pela mensagem de amor do evangelho. Já João está no auge da visibilidade digital, ostentando nas redes. A reflexão envolve a relação de religião, mídia e política no Brasil, ainda mais quando essas figuras são crianças e adolescentes, expostas à espetacularização das plataformas, no caldo da cultura do “show do eu” (como expôs a antropóloga argentina Paula Sibilia). Filmado ao longo de cinco anos, o longa cruza a trajetória de Daniel e João por meio de vídeos antigos e depoimentos atuais num paralelismo entre as duas faces das pregações religiosas no mundo evangélico. Continua nos cinemas pela Embaúba Filmes.


 
Thelma
 
Comédia de ação sensível com mais um trabalho memorável da carismática atriz June Squibb, que transforma uma história pessoal em reflexão sobre envelhecimento, autonomia e afeto. June tinha 94 anos quando fez o filme (que é de 2024), demonstrando vitalidade em um papel que diverte e emociona. Ela é um caso à parte: trabalhou a vida inteiro no teatro e só foi aparecer no cinema na década de 90, com mais de 60 anos de idade. Em “Thelma”, June interpreta a protagonista, uma senhorinha que está aprendendo a manejar a tecnologia. Ela começa a usar o celular e o computador para os afazeres do dia a dia: pagar contas, enviar email, conversar com parentes. Um dia, cai em um golpe telefônico, acreditando que mandou dinheiro para o neto, e perde U$ 10 mil. Desesperada com o ocorrido, ela vai por conta própria atrás dos falsários para recuperar a grana, embarcando em uma jornada improvável pela cidade de Los Angeles. O roteiro equilibra humor e melancolia ao explorar duas situações da personagem central: como ela é infantilizada pela família e a vulnerabilidade dos idosos frente à tecnologia - mas a protagonista se impõe e demonstra capacidade de agir por conta. Josh Margolin, o diretor e roteirista que aqui estreou em longa-metragem, inspirou-se em sua avó para conceber Thelma Post, uma idosa espirituosa, ao mesmo tempo irônica. Outros personagens se destacam na história, como o neto dela (papel de Fred Hechinger, de “O pálido olho azul”), a filha (Parker Posey, de “Pânico 3”) e um velho amigo, que empresta uma scooter motorizada para Thelma percorrer a cidade - interpretado por Richard Roundtree, o Shaft do cinema, em seu último filme (ele faleceu logo após as gravações, em outubro de 2023). Exibido nos festivais de Sundance, Miami e Cleveland, foi indicado ao Critics Choice de melhor comédia e ao Film Independent Spirit Awards de melhor atriz para June. Acaba de entrar no catálogo da Netflix.

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