A
voz de Deus
Exibido
em première no Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, onde
ganhou o prêmio de edição, e depois no Festival de Brasília e na Mostra
Internacional de Cinema de SP de 2025, o documentário do diretor de “A flecha e
a farda” (2020), Miguel Antunes Ramos, escrito por ele e pela premiada cineasta
Alice Riff (diretora de “Meu corpo é político”), estreou na semana passada em
cinemas selecionados do Brasil. O filme é um estudo sobre religião e mídia em
um país dividido pela política. Ramos faz um olhar íntimo sobre o universo dos
pregadores mirins evangélicos, trazendo para a pauta duas personalidades midiáticas:
Daniel Pentecoste, que nos anos 2000 se tornou o pregador infantil mais famoso
do país, numa época em que as redes sociais engatinhavam, e João Vitor Ota,
fenômeno das redes sociais que reúne atualmente milhares de seguidores no TikTok
e Instagram. Daniel, duas décadas depois, sente hoje o peso do passado, principalmente
a cobrança do pai, que se envolveu com política (defensor ferrenho de
Bolsonaro) e queria o filho ativo nas pregações. Daniel se afastou dos
holofotes e segue outras formas da espiritualidade, desafiado a se reinventar após
o fim da fama precoce – segundo ele, vive agora uma nova forma de relação com a
igreja, afirmando que sua fé permanece viva, mas sustentada menos pela rigidez
dogmática e mais pela mensagem de amor do evangelho. Já João está no auge da
visibilidade digital, ostentando nas redes. A reflexão envolve a relação de
religião, mídia e política no Brasil, ainda mais quando essas figuras são
crianças e adolescentes, expostas à espetacularização das plataformas, no caldo
da cultura do “show do eu” (como expôs a antropóloga argentina Paula Sibilia). Filmado
ao longo de cinco anos, o longa cruza a trajetória de Daniel e João por meio de
vídeos antigos e depoimentos atuais num paralelismo entre as duas faces das
pregações religiosas no mundo evangélico. Continua nos cinemas pela Embaúba
Filmes.

Thelma
Comédia
de ação sensível com mais um trabalho memorável da carismática atriz June
Squibb, que transforma uma história pessoal em reflexão sobre envelhecimento,
autonomia e afeto. June tinha 94 anos quando fez o filme (que é de 2024), demonstrando
vitalidade em um papel que diverte e emociona. Ela é um caso à parte: trabalhou
a vida inteiro no teatro e só foi aparecer no cinema na década de 90, com mais
de 60 anos de idade. Em “Thelma”, June interpreta a protagonista, uma
senhorinha que está aprendendo a manejar a tecnologia. Ela começa a usar o
celular e o computador para os afazeres do dia a dia: pagar contas, enviar
email, conversar com parentes. Um dia, cai em um golpe telefônico, acreditando que
mandou dinheiro para o neto, e perde U$ 10 mil. Desesperada com o ocorrido, ela
vai por conta própria atrás dos falsários para recuperar a grana, embarcando em
uma jornada improvável pela cidade de Los Angeles. O roteiro equilibra humor e
melancolia ao explorar duas situações da personagem central: como ela é infantilizada
pela família e a vulnerabilidade dos idosos frente à tecnologia - mas a
protagonista se impõe e demonstra capacidade de agir por conta. Josh Margolin, o
diretor e roteirista que aqui estreou em longa-metragem, inspirou-se em sua avó
para conceber Thelma Post, uma idosa espirituosa, ao mesmo tempo irônica. Outros
personagens se destacam na história, como o neto dela (papel de Fred Hechinger,
de “O pálido olho azul”), a filha (Parker Posey, de “Pânico 3”) e um velho
amigo, que empresta uma scooter motorizada para Thelma percorrer a cidade - interpretado
por Richard Roundtree, o Shaft do cinema, em seu último filme (ele faleceu logo
após as gravações, em outubro de 2023). Exibido nos festivais de Sundance,
Miami e Cleveland, foi indicado ao Critics Choice de melhor comédia e ao Film
Independent Spirit Awards de melhor atriz para June. Acaba de entrar no
catálogo da Netflix.
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