domingo, 5 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1


Um Zé Ninguém contra Putin
 
Vencedor do Oscar e do Bafta de melhor documentário nesse ano, e ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance, onde teve a premiére mundial em 2025, o poderoso filme político de David Borenstein e Pavel Talankin acaba de ser lançado no Brasil exclusivamente no streaming Filmelier+. E ele sai em um momento crítico: há uma semana o Ministério da Rússia anunciou que o diretor Pavel Talankin foi incluído na lista de “agentes estrangeiros”, o que significa ser um dissidente do regime russo de Putin (lembrando que atualmente na Rússia de Putin os dissidentes costumam ser presos, assassinados ou exilados). É um filme crítico aos desmandos da Rússia atual, mostrando como o patriotismo exacerbado manipula os cidadãos condicionando seu pensamento para a guerra desde a infância. O longa acompanha Pasha, professor do ensino primário em uma cidade rural do interior da Rússia, que decide gravar clandestinamente a transformação de sua escola após a invasão da Ucrânia, em 2022. A escola, lugar de aprendizado, respeito e acolhimento, passa a ser dominado pela propaganda estatal, forçada pelo regime: grupos infantis militarizados surgem, o nacionalismo é exaltado pelos hinos patrióticos em rituais permanentes, e adolescentes são incentivados a se engajar na guerra (segundo eles, contra um país vizinho que os quer derrotados). Pasha entra em crise ao se dividir entre seguir com a educação que sempre sonhou ou ceder às pressões do regime russo. Com sua câmera escondida, Pasha documenta o cotidiano naquela instituição de ensino; as imagens revelam como a repressão se infiltra nas salas de aula, corroendo direitos e liberdades. O resultado é um retrato pungente da Rússia contemporânea, comandada por um déspota, em que coloca a educação como instrumento de doutrinação. Um filmaço para ser visto, discutido e indicado. Está no Filmelier+, com distribuição da Synapse Distribution, que integra o grupo Sofa DGTL – curiosamente, é o terceiro lançamento da distribuidora no Brasil de filmes ganhadores do Oscar de melhor documentário – antes vieram “20 dias em Mariupol” (2023) e “Sem chão” (2024), todos eles retratando guerras.
 

 
13 dias, 13 noites
 
Thriller político franco-belga que faz uma varredura no caos que virou o Afeganistão com queda de Cabul em agosto de 2021, quando integrantes do movimento fundamentalista islâmico Talibã retornaram ao poder, logo após a saída das tropas americanas do território. Milhares de afegãos buscaram sair do país, tendo a Embaixada da França como um ponto de apoio. A história do tenso filme recorta esse período, acompanhando a exaustiva missão do comandante Mohamed Bida, responsável pela segurança da Embaixada da França e sua equipe: eles ficaram encarregados de proteger 500 refugiados e conduzi-los até o aeroporto durante o avanço das tropas talibãs, que atiravam para matar, gerando caos e medo no país. Escrito e dirigido por Martin Bourboulon, da duologia “Os três mosqueteiros: D'Artagnan” (2023) e “Os três mosqueteiros: Milady” (2023), o longa transforma em cinema de ação e guerra o relato do comandante Mohamed Bida – é baseado no livro homônomo de, chamado “13 days, 13 nights in the hell of Kabul”. O filme constrói uma atmosfera sufocante, com uma fotografia de calor e cansaço pelos tons fortes de amarelo e laranja. O ator Roschdy Zem, de “Eu, que te amei” (2025), encarna o protagonista à beira do colapso, sustentando o peso dramático da trama. As atrizes Lyna Khoudri, de “A crônica francesa” (2021), e Sidse Babett Knudsen, de “Filhos” (2024), reforçam o elenco internacional, proporcionando camadas de humanidade às personagens. Um ótimo filme de corrida contra o tempo e sobrevivência, que se passa na cidade devastada de Cabul após duas décadas de invasão dos Estados Unidos (2001-2021), em que se faz um registro preciso da grave crise humanitária que eclodia naquele país do Oriente Médio. Exibido no Festival de Cannes e indicado ao César de melhor montagem, o longa não é apenas um relato de guerra, mas um testemunho sobre resistência e solidariedade em meio ao desespero de uma população abandonada à própria sorte. Segue desde semana passada nos cinemas, com distribuição da California Filmes.
 

 
Eles vão te matar
 
Conhecido por um cinema de ação explosivo com violência gráfica estilizada e humor macabro, o diretor russo Kirill Sokolov se lança no primeiro trabalho feito nos Estados Unidos. Na verdade, é um remake de seu primeiro longa, “Morra!” (2018), com novos personagens – ele o fez na Rússia, na flor da idade, aos 26 anos. Em ambos os filmes uma personagem chega em um apartamento e lá e confrontada com um bando de criminosos que querem sua cabeça. “Eles vão te matar” se passa em um arranha-céu de Nova York, onde Asia Reaves (Zazie Beetz) aceita o emprego de faxineira/zeladora. No primeiro dia de trabalho, descobre que o prédio abriga um grupo satanista, de pessoas vestidas com capuzes pretos e carregando insígnias macabras. Ela terá de usar todas as forças para sobreviver de armadilhas mortais – o que ninguém desconfia é que Asia tem habilidades de artes marciais. Um filme de ação ininterrupta, com pancadaria, giros no ar, sangue para todo lado, em uma história de luta pela sobrevivência que mais parece um pesadelo urbano. Na metade do filme o pior acontece: a personagem descobre que as dezenas de pessoas que a perseguem não morrem nunca; mesmo sem membros ou com tiros, elas retornam, amaldiçoadas pelos preceitos da seita satânica. A câmera é inquieta, os cortes são rápidos, as lutas, absurdas, e as cenas são grotescas, em um trabalho peculiar, cuja atmosfera angustiante pulsa na tela. Um filme em que você deve deixar-se levar. Atriz da série “Atlanta”, Zazie Beetz manda bem como a protagonista, e a ganhadora do Oscar Patricia Arquette dá vida à vilã, a dona do hotel que lidera o clã maligno. Segue nos cinemas pela Warner Bros - a classificação indicativa é de 18 anos.
 

 
It’s never over, Jeff Buckley
 
Exibido no Festival de Sundance e no CPH:DOX, o documentário, após ser exibido na edição passada da Mostra de Cinema de São Paulo, estreia agora no catálogo do Prime Video. A documentarista Amy Berg, cujo primeiro longa foi indicado ao Oscar, o doc “Livrai-nos do mal” (2007), e que anos atrás fez o ótimo documentário sobre Janis Joplin, “Janis: Little girl blue” (2015), retorna ao mundo da música para narrar a trajetória curta, mas de amplo destaque na época, do cantor e compositor Jeff Buckley (1966-1997). Considerado um novo Bob Dylan, o jovem era filho do cantor folk Tim Buckley (falecido quando Jeff tinha 10 anos) e cresceu cercado pela música. Só que ele traçou um caminho alternativo do pai, com uma identidade própria. O talento vocal, que alternava do sussurro delicado a afinações arrebatadoras, tornou-se a marca registrada de Jeff. Ele não se encaixava nos padrões da época, aliás, os contestava ao misturar rock, soul, folk e elementos da música clássica. O íntimo documentário reconstrói, com imagens de shows, e fotos inéditas de arquivo da família de Jeff, a breve e intensa carreira dele, que culminaram no álbum “Grace”, lançado em 1994. Ele só lançou este disco de estúdio, além de dois ao vivo e um póstumo (que seria lançado em 1998, “Sketches for my sweetheart the drunk”). No doc falam sobre Jeff a mãe, Mary Guibert, as ex-companheiras Rebecca Moore e Joan Wasser, músicos da banda como Michael Tighe e Parker Kindred, além de artistas consagrados como Ben Harper e Aimee Mann. A morte precoce do cantor, afogado no rio Wolf, no Mississipi, aos 30 anos, interrompeu uma carreira promissora, que eixou um vazio profundo entre os fãs e a crítica especializada, que viam nele uma das vozes mais promissoras da geração anos 90. O documentário tem um apelo íntimo, com cenas emocionantes; é bem amarrado e traz muitas músicas de Jeff, como “Grace”, “Vancouver” e a regravação de “Hallelujah” (de Leonard Cohen). Gostei muito e recomendo.


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