Um
Zé Ninguém contra Putin
Vencedor
do Oscar e do Bafta de melhor documentário nesse ano, e ganhador do Prêmio
Especial do Júri no Festival de Sundance, onde teve a premiére mundial em 2025,
o poderoso filme político de David Borenstein e Pavel Talankin acaba de ser
lançado no Brasil exclusivamente no streaming Filmelier+. E ele sai em um
momento crítico: há uma semana o Ministério da Rússia anunciou que o diretor
Pavel Talankin foi incluído na lista de “agentes estrangeiros”, o que significa
ser um dissidente do regime russo de Putin (lembrando que atualmente na Rússia
de Putin os dissidentes costumam ser presos, assassinados ou exilados). É um
filme crítico aos desmandos da Rússia atual, mostrando como o patriotismo
exacerbado manipula os cidadãos condicionando seu pensamento para a guerra
desde a infância. O longa acompanha Pasha, professor do ensino primário em uma
cidade rural do interior da Rússia, que decide gravar clandestinamente a
transformação de sua escola após a invasão da Ucrânia, em 2022. A escola, lugar
de aprendizado, respeito e acolhimento, passa a ser dominado pela propaganda
estatal, forçada pelo regime: grupos infantis militarizados surgem, o
nacionalismo é exaltado pelos hinos patrióticos em rituais permanentes, e
adolescentes são incentivados a se engajar na guerra (segundo eles, contra um
país vizinho que os quer derrotados). Pasha entra em crise ao se dividir entre
seguir com a educação que sempre sonhou ou ceder às pressões do regime russo. Com
sua câmera escondida, Pasha documenta o cotidiano naquela instituição de
ensino; as imagens revelam como a repressão se infiltra nas salas de aula,
corroendo direitos e liberdades. O resultado é um retrato pungente da Rússia
contemporânea, comandada por um déspota, em que coloca a educação como
instrumento de doutrinação. Um filmaço para ser visto, discutido e indicado.
Está no Filmelier+, com distribuição da Synapse Distribution, que integra o grupo Sofa
DGTL – curiosamente, é o terceiro lançamento da distribuidora no Brasil de
filmes ganhadores do Oscar de melhor documentário – antes vieram “20 dias em
Mariupol” (2023) e “Sem chão” (2024), todos eles retratando guerras.
13
dias, 13 noites
Thriller
político franco-belga que faz uma varredura no caos que virou o Afeganistão com
queda de Cabul em agosto de 2021, quando integrantes do movimento fundamentalista
islâmico Talibã retornaram ao poder, logo após a saída das tropas americanas do
território. Milhares de afegãos buscaram sair do país, tendo a Embaixada da
França como um ponto de apoio. A história do tenso filme recorta esse período,
acompanhando a exaustiva missão do comandante Mohamed Bida, responsável pela
segurança da Embaixada da França e sua equipe: eles ficaram encarregados de proteger
500 refugiados e conduzi-los até o aeroporto durante o avanço das tropas talibãs,
que atiravam para matar, gerando caos e medo no país. Escrito e dirigido por
Martin Bourboulon, da duologia “Os três mosqueteiros: D'Artagnan” (2023) e “Os três
mosqueteiros: Milady” (2023), o longa transforma em cinema de ação e guerra o
relato do comandante Mohamed Bida – é baseado no livro homônomo de, chamado “13
days, 13 nights in the hell of Kabul”. O filme constrói uma atmosfera sufocante,
com uma fotografia de calor e cansaço pelos tons fortes de amarelo e laranja. O
ator Roschdy Zem, de “Eu, que te amei” (2025), encarna o protagonista à beira
do colapso, sustentando o peso dramático da trama. As atrizes Lyna Khoudri, de
“A crônica francesa” (2021), e Sidse Babett Knudsen, de “Filhos” (2024),
reforçam o elenco internacional, proporcionando camadas de humanidade às
personagens. Um ótimo filme de corrida contra o tempo e sobrevivência, que se
passa na cidade devastada de Cabul após duas décadas de invasão dos Estados
Unidos (2001-2021), em que se faz um registro preciso da grave crise
humanitária que eclodia naquele país do Oriente Médio. Exibido no Festival de
Cannes e indicado ao César de melhor montagem, o longa não é apenas um relato
de guerra, mas um testemunho sobre resistência e solidariedade em meio ao
desespero de uma população abandonada à própria sorte. Segue desde semana
passada nos cinemas, com distribuição da California Filmes.
Eles
vão te matar
Conhecido
por um cinema de ação explosivo com violência gráfica estilizada e humor
macabro, o diretor russo Kirill Sokolov se lança no primeiro trabalho feito nos
Estados Unidos. Na verdade, é um remake de seu primeiro longa, “Morra!” (2018),
com novos personagens – ele o fez na Rússia, na flor da idade, aos 26 anos. Em
ambos os filmes uma personagem chega em um apartamento e lá e confrontada com
um bando de criminosos que querem sua cabeça. “Eles vão te matar” se passa em
um arranha-céu de Nova York, onde Asia Reaves (Zazie Beetz) aceita o emprego de
faxineira/zeladora. No primeiro dia de trabalho, descobre que o prédio abriga
um grupo satanista, de pessoas vestidas com capuzes pretos e carregando
insígnias macabras. Ela terá de usar todas as forças para sobreviver de
armadilhas mortais – o que ninguém desconfia é que Asia tem habilidades de
artes marciais. Um filme de ação ininterrupta, com pancadaria, giros no ar, sangue
para todo lado, em uma história de luta pela sobrevivência que mais parece um
pesadelo urbano. Na metade do filme o pior acontece: a personagem descobre que
as dezenas de pessoas que a perseguem não morrem nunca; mesmo sem membros ou
com tiros, elas retornam, amaldiçoadas pelos preceitos da seita satânica. A câmera
é inquieta, os cortes são rápidos, as lutas, absurdas, e as cenas são grotescas,
em um trabalho peculiar, cuja atmosfera angustiante pulsa na tela. Um filme em
que você deve deixar-se levar. Atriz da série “Atlanta”, Zazie Beetz manda bem
como a protagonista, e a ganhadora do Oscar Patricia Arquette dá vida à vilã, a
dona do hotel que lidera o clã maligno. Segue nos cinemas pela Warner Bros - a
classificação indicativa é de 18 anos.
It’s
never over, Jeff Buckley
Exibido
no Festival de Sundance e no CPH:DOX, o documentário, após ser exibido na
edição passada da Mostra de Cinema de São Paulo, estreia agora no catálogo do Prime
Video. A documentarista Amy Berg, cujo primeiro longa foi indicado ao Oscar, o
doc “Livrai-nos do mal” (2007), e que anos atrás fez o ótimo documentário sobre
Janis Joplin, “Janis: Little girl blue” (2015), retorna ao mundo da música para
narrar a trajetória curta, mas de amplo destaque na época, do cantor e
compositor Jeff Buckley (1966-1997). Considerado um novo Bob Dylan, o jovem era
filho do cantor folk Tim Buckley (falecido quando Jeff tinha 10 anos) e cresceu
cercado pela música. Só que ele traçou um caminho alternativo do pai, com uma
identidade própria. O talento vocal, que alternava do sussurro delicado a afinações
arrebatadoras, tornou-se a marca registrada de Jeff. Ele não se encaixava nos
padrões da época, aliás, os contestava ao misturar rock, soul, folk e elementos
da música clássica. O íntimo documentário reconstrói, com imagens de shows, e
fotos inéditas de arquivo da família de Jeff, a breve e intensa carreira dele, que
culminaram no álbum “Grace”, lançado em 1994. Ele só lançou este disco de
estúdio, além de dois ao vivo e um póstumo (que seria lançado em 1998, “Sketches
for my sweetheart the drunk”). No doc falam sobre Jeff a mãe, Mary Guibert, as
ex-companheiras Rebecca Moore e Joan Wasser, músicos da banda como Michael
Tighe e Parker Kindred, além de artistas consagrados como Ben Harper e Aimee
Mann. A morte precoce do cantor, afogado no rio Wolf, no Mississipi, aos 30
anos, interrompeu uma carreira promissora, que eixou um vazio profundo entre os
fãs e a crítica especializada, que viam nele uma das vozes mais promissoras da
geração anos 90. O documentário tem um apelo íntimo, com cenas emocionantes; é
bem amarrado e traz muitas músicas de Jeff, como “Grace”, “Vancouver” e a
regravação de “Hallelujah” (de Leonard Cohen). Gostei muito e recomendo.
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