Com
causa
Documentário
do cineasta carioca Belisario Franca em mais uma parceria com o diretor Pedro
Nóbrega, desta vez sobre ativismo ambiental, e não mais tratando de figuras ou
cenas políticas como costumam fazer. Aqui eles fazem uma colcha de retalhos com
depoimentos de ativistas do mundo todo em torno de seus projetos, visando a
construção de um mundo menos violento, que cuide do meio ambiente para as
futuras gerações. Com imagens belas e nítidas das águas, das florestas e do
solo, seguindo da Amazônia à África e passando pela Europa e Ásia, o filme é um
apelo para o despertar da conscientização humana, trazendo depoimentos de
figuras notórias do ativismo mundial, como Ailton Krenak, Paul Watson, Carmen
Silva e Muzoon Almellehan. Um filme para ver, sentir e refletir, tanto
contemplativo quanto de crítica social. Produzido pela Giros Filmes, teve exibição
no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de SP, e está em exibição nos principais
cinemas brasileiros desde semana passada. Distribuição da Bretz Filmes.

Vidas
entrelaçadas
Angelina
Jolie é a estrela do novo filme da cineasta francesa Alice Winocour, de
‘Transtorno’ (2015) e ‘A jornada’ (2019), que estreou no Festival do Rio – eu o
assisti lá, ainda com o título original, “Couture” (termo que significa ‘Alta
costura’). Angelina está lindíssima e bem fotografada, interpretando o papel de
uma diretora de cinema que viaja a Paris para filmar a temporada do Fashion
Week. Enquanto prepara o estúdio e as modelos, aguarda ansiosamente os
resultados de um exame médico que fez nos Estados Unidos (de câncer). Os
fragmentos da trajetória dessa mulher se entrelaçam com os de outras duas
personagens femininas: uma modelo sul-sudanesa de 18 anos (Anyier Anei), que
está no mesmo evento, em seu primeiro trabalho na passarela, e uma maquiadora
(Ella Rumpf) que trabalha sem descanso. Cada uma a seu modo enfrenta os
incansáveis dias da Semana de Moda ao mesmo tempo em que lidam com questões
íntimas. Um bonito e correto filme sobre o universo feminino no mundo da moda,
energicamente interpretado pelo trio central de atrizes. No elenco vemos ainda Vincent
Lindon como um médico e Louis Garrel como o par romântico de Angelina.
Selecionado para a competição do Festival Internacional de Cinema de San
Sebastián 2025, foi exibido nos festivais de Toronto e Roma. Estreia hoje em
oito cidades brasileiras, como SP, RJ, Brasília, Belo Horizonte e Curitiba, com
distribuição da Synapse.
Família
de aluguel
Dirigido
pela cineasta japonesa Mitsuyo Miyazaki, que assina apenas como Hikari, o
emocionante “family film” é ambientado na Tóquio atual e traz um papel luminoso
de Brendan Fraser como Phillip Vanderploeg, um ator americano em solo japonês
que enfrenta uma crise profissional e tenta reencontrar-se após anos de
carreira estagnada. A idade também pesa sobre ele. Descobre, por acaso, uma
agência japonesa especializada em “famílias de aluguel”, que contrata
intérpretes para desempenhar papéis de parentes, parceiros amorosos ou amigos
em situações cotidianas. É uma agência inovadora, e ele, ator, por ter encarnado
muitos papéis em sua vida, decide arrumar um emprego lá. Após assinar o
contrato, o solitário Phillip passa diariamente a assumir diversas identidades
na vida de desconhecidos, como marido, irmão e pai, tornando-se companheiro
conforme a necessidade do cliente. O que ele não imaginaria era ser pego numa
armadilha do coração: em um dos papéis sociais que assume, como o pai de uma
garota rebelde chamada Mia (Shannon Mahina Gorman) que retorna ao seio familiar,
ele se verá preso numa relação impossível de ser distanciada ou desvinculada.
Phillip encontrará em Mia vínculos genuínos que o ajudarão a redescobrir o
valor do afeto e da conexão humana. O roteiro foge do melodrama fácil, mas usa
e abusa de cenas que nos aflora a emoção, em uma narrativa intimista que
discute a solidão e a necessidade de afeto em um mundo fragmentado por relações
vazias (ou líquidas, segundo o filósofo Zygmunt Bauman). Fraser, hoje com 57
anos, voltou a carreira com tudo após uma década e meia entregue ao relento – foi
astro nos anos 90 (mas apenas um rosto bonito em fitas abobalhadas de comédia),
teve depressão, sofreu assédio sexual na indústria de Hollywood e se afastou
das telas; até entrar de cabeça num dos papeis mais incríveis do cinema e
ganhar o Oscar por ele, em “A baleia” (2022). Esteve em seguida em “Assassino
da Lua das Flores” (2023), de Martin Scorsese, e agora nesse filme adorável e
sentimental de Hikari, demonstrando vitalidade e recuperação do tempo perdido. A
estreante Shannon Mahina Gorman, de 10 anos, é outro destaque, e pelo papel recebeu
indicação ao Critics Choice de 2026. O elenco japonês conta com mais de 25 nomes,
como Mari Yamamoto, das séries “Pachinko” (2022-2024) e “Monarch: Legado de
monstros” (2023-), e Takehiro Hira, indicado ao Emmy e ao Critics Choice de
ator coadjuvante pela série “Xógum: A gloriosa saga do Japão” (2024-2026), o
que reforça a autenticidade cultural da trama. Exibido nos festivais de
Toronto, Zurique, Tóquio e Rio de Janeiro, é escrito, produzido e dirigido por Hikari
(ela dirigiu o lindo drama “37 segundos”, de 2019, e é uma das criadoras e
produtoras da série da Netflix “Treta”). O filme passou nos cinemas brasileiros
em janeiro de 2026, e estreia agora no streaming Disney+.
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