A tragédia
de Moriah Wilson
Documentário
da Netflix em formato de true crime sobre o assassinato da ciclista profissional
norte-americana Anna Moriah Wilson, de 25 anos, ocorrido em maio de 2022, em
Austin, Texas. Seguindo a linha de docs investigativos que a Netflix se
especializou, o filme explora o caso policial que mobilizou toda uma comunidade,
desde o desaparecimento da jovem até ela ser encontrada morta na casa de uma
amiga. O assassinato rapidamente ganhou repercussão internacional, não apenas
pela violência, mas também pela narrativa midiática que cercou o crime. Além da
investigação, o documentário traz os diários íntimos de Moriah, cedidos pela
família, dando oportunidade ao público de uma visão sobre sua personalidade, ambições
e sonhos, transformando o filme num tributo àquela vítima. O resultado é um
filme que combina investigação jornalística com sensibilidade, principalmente
nos depoimentos de familiares, como a mãe de Moriah, e de amigos próximos, até
hoje abalados com a tragédia. Um filme que também serve como denúncia e alerta
para a sociedade, já que tantas mulheres acabam mortas de maneira torpe.
Tatame
Raramente
vemos um filme de arte persa sobre mulheres no esporte, e esse drama é uma
oportunidade única, uma fita de grande beleza artística em um roteiro formidável,
conduzido por uma dupla de cineastas de origens diferentes, o israelense Guy
Nattiv (vencedor do Oscar de curta-metragem por “Skin”, em 2019) e a iraniana Zar
Amir Ebrahimi (também atriz do filme, vencedora do prêmio de melhor atriz no
Festival de Cannes por “Holy spider”, em 2022). Eles transformam o esporte em
palco para discussões políticas. A história acompanha Leila Hosseini (Arienne
Mandi), judoca iraniana que em pleno campeonato mundial é obrigada a escolher
entre obedecer ao regime dos aiatolás e abandonar a competição ou fingir uma
lesão para não enfrentar uma rival israelense. A decisão carrega peso pessoal e
coletivo, já que sua treinadora Maryam (Zar Amir Ebrahimi) também traz consigo
duras marcas de experiências semelhantes. Filmado em um bonito preto-e-branco,
com câmera próxima e inquieta, em que capta grandes lances de treinos e luta, o
longa é uma metáfora da luta por liberdade e dignidade. A protagonista tem de
treinar de véu (hijab), já que o Irã restringe mulheres no esporte, e as poucas
que vão precisam seguir as leis do país. E o tatame deixa de ser palco esportivo
para se converter em arena emocional, onde cada hesitação revela a opressão que
sufoca as personagens. Além do drama pessoal, o filme tem toques de suspense,
numa das primeiras coproduções Irã e Israel, dois países hoje em guerra.
Exibido nos festivais de Tóquio e Munique e na mostra Horizons do Festival de Veneza,
onde recebeu um prêmio humanitário, “Tatame” é um filme simbólico sobre luta,
respeito e empoderamento feminino, que abre fortes discussões políticas sobre o
regime autoritário do Irã quanto a restrição às mulheres. Estreou semana
passada nos cinemas brasileiros, pela Kajá Filmes.
À
paisana
Primeiro
longa dirigido e roteirizado por Carmen Emmi, jovem cineasta americano, mas de
origem italiana, cuja trama lembra um filme polêmico do comecinho dos anos 80,
que até foi censurado em alguns países, “Parceiros da noite”, de William
Friedkin, com Al Pacino. Em ambos há um diálogo aberto da perseguição e
vigilância contra homossexuais – enquanto o primeiro trazia a cena underground
da Nova York suja, “À paisana” tem o ar moderno e jovial dos shoppings centers,
onde boa parte da história se centraliza. Nela vemos o jovem policial Lucas
(Tom Blyth, da série “Billy the Kid”) relembrando um passado recente que
gostaria de esquecer, quando trabalhava disfarçado em um shopping, seduzindo
homens dentro de banheiros, para prendê-los por “exposição indecente”. Ele estava
sempre à paisana, de boné para esconder o rosto, flertando com os indivíduos para
laçá-los numa armadilha. O problema é que num desses casos, aparentemente
comuns, ele se apaixona pelo alvo, o bem intencionado, afetuoso e mais maduro Andrew
(Russell Tovey, de “A grande mentira”). Entre os dois haverá uma relação
sigilosa, que fará com que Lucas se divida entre o dever e o desejo. O filme
começa com uma subtrama sem muito a ver, que depois se explica, de Lucas, no
Ano Novo, buscando uma carta na casa da mãe (Maria Dizzia, muito bem no filme,
atriz de “Martha Marcy May Marlene”). A incessante busca o levará para memórias
sufocantes (ou seja, o filme é contado por flashbacks, mostrando o peso do
passado de um personagem no limite). Com um misto de drama e thriller de forte
tensão psicológica, o longa foi super comentado no circuito independente de
cinema em 2025, quando ganhou o prêmio especial do Júri no Festival de Sundance.
Agora entra com exclusividade no streaming do canal Filmelier+.
Ruas
da Glória
O cineasta
carioca Felipe Sholl escreve e dirige esse seu segundo filme, sete anos depois
de se lançar com o bom drama “Fala comigo” (2017), que tratava dos obstáculos do
relacionamento entre um garoto de 17 anos com uma mulher de mais de 40. Sholl
agora se volta ao submundo da noite das ruas do bairro da Glória, no Rio de
Janeiro, onde a prostituição é palco e trânsito de pessoas de diferentes idades.
Ali, o jovem professor de literatura Gabriel (Caio Macedo) conhece Adriano (Alejandro
Claveaux), garoto de programa uruguaio que auxilia na chefia dos pontos. A
paixão entre os dois é avassaladora, que se transforma em obsessão. Eles passam
a viver juntos, até o dia em que Adriano desparece, sem deixar vestígios.
Gabriel sai pelo Rio na tentativa de obter um paradeiro que o leve ao seu amor.
A interpretação dos dois atores centrais é o ponto alto desse filme de
classificação 18 anos, que traz cenas fortes de sexo e revela um Rio pouco registrado
no cinema, da prostituição noturna. O longa é uma espiral de emoções na vida de
um garoto que acaba de se mudar para aquela cidade e em poucos dias se vê preso
num relacionamento cansativo e abusivo, até ser acolhido pela nova família, o
dos meninos de programa. Temas como solidão, necessidade de conexão, identidade,
rejeição e amadurecimento estão entrelaçados em uma história que passa longe de
romance tradicional e final feliz; é um drama duro, realista, em um contexto de
insegurança e violência, com imagens marcantes (a estética noturna é outro tom maior
do filme). Além dos atores mencionados, completam o excelente elenco a cantora trans
Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini e participações
especiais de Daniel Rangel, Ernesto Piccolo, Edmilson Barros e Wilson Rabelo. Depois
da carreira em festivais mundiais, como Tallinn, Rio e Mostra de SP, o filme, assinado
pela Syndrome Films, com produção de Daniel van Hoogstraten, em coprodução com
RioFilme e Telecine, estreia nos cinemas com distribuição da Retrato Filmes.
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