terça-feira, 7 de abril de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 3


A tragédia de Moriah Wilson
 
Documentário da Netflix em formato de true crime sobre o assassinato da ciclista profissional norte-americana Anna Moriah Wilson, de 25 anos, ocorrido em maio de 2022, em Austin, Texas. Seguindo a linha de docs investigativos que a Netflix se especializou, o filme explora o caso policial que mobilizou toda uma comunidade, desde o desaparecimento da jovem até ela ser encontrada morta na casa de uma amiga. O assassinato rapidamente ganhou repercussão internacional, não apenas pela violência, mas também pela narrativa midiática que cercou o crime. Além da investigação, o documentário traz os diários íntimos de Moriah, cedidos pela família, dando oportunidade ao público de uma visão sobre sua personalidade, ambições e sonhos, transformando o filme num tributo àquela vítima. O resultado é um filme que combina investigação jornalística com sensibilidade, principalmente nos depoimentos de familiares, como a mãe de Moriah, e de amigos próximos, até hoje abalados com a tragédia. Um filme que também serve como denúncia e alerta para a sociedade, já que tantas mulheres acabam mortas de maneira torpe.
 
 
Tatame
 
Raramente vemos um filme de arte persa sobre mulheres no esporte, e esse drama é uma oportunidade única, uma fita de grande beleza artística em um roteiro formidável, conduzido por uma dupla de cineastas de origens diferentes, o israelense Guy Nattiv (vencedor do Oscar de curta-metragem por “Skin”, em 2019) e a iraniana Zar Amir Ebrahimi (também atriz do filme, vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes por “Holy spider”, em 2022). Eles transformam o esporte em palco para discussões políticas. A história acompanha Leila Hosseini (Arienne Mandi), judoca iraniana que em pleno campeonato mundial é obrigada a escolher entre obedecer ao regime dos aiatolás e abandonar a competição ou fingir uma lesão para não enfrentar uma rival israelense. A decisão carrega peso pessoal e coletivo, já que sua treinadora Maryam (Zar Amir Ebrahimi) também traz consigo duras marcas de experiências semelhantes. Filmado em um bonito preto-e-branco, com câmera próxima e inquieta, em que capta grandes lances de treinos e luta, o longa é uma metáfora da luta por liberdade e dignidade. A protagonista tem de treinar de véu (hijab), já que o Irã restringe mulheres no esporte, e as poucas que vão precisam seguir as leis do país. E o tatame deixa de ser palco esportivo para se converter em arena emocional, onde cada hesitação revela a opressão que sufoca as personagens. Além do drama pessoal, o filme tem toques de suspense, numa das primeiras coproduções Irã e Israel, dois países hoje em guerra. Exibido nos festivais de Tóquio e Munique e na mostra Horizons do Festival de Veneza, onde recebeu um prêmio humanitário, “Tatame” é um filme simbólico sobre luta, respeito e empoderamento feminino, que abre fortes discussões políticas sobre o regime autoritário do Irã quanto a restrição às mulheres. Estreou semana passada nos cinemas brasileiros, pela Kajá Filmes.
 

À paisana
 
Primeiro longa dirigido e roteirizado por Carmen Emmi, jovem cineasta americano, mas de origem italiana, cuja trama lembra um filme polêmico do comecinho dos anos 80, que até foi censurado em alguns países, “Parceiros da noite”, de William Friedkin, com Al Pacino. Em ambos há um diálogo aberto da perseguição e vigilância contra homossexuais – enquanto o primeiro trazia a cena underground da Nova York suja, “À paisana” tem o ar moderno e jovial dos shoppings centers, onde boa parte da história se centraliza. Nela vemos o jovem policial Lucas (Tom Blyth, da série “Billy the Kid”) relembrando um passado recente que gostaria de esquecer, quando trabalhava disfarçado em um shopping, seduzindo homens dentro de banheiros, para prendê-los por “exposição indecente”. Ele estava sempre à paisana, de boné para esconder o rosto, flertando com os indivíduos para laçá-los numa armadilha. O problema é que num desses casos, aparentemente comuns, ele se apaixona pelo alvo, o bem intencionado, afetuoso e mais maduro Andrew (Russell Tovey, de “A grande mentira”). Entre os dois haverá uma relação sigilosa, que fará com que Lucas se divida entre o dever e o desejo. O filme começa com uma subtrama sem muito a ver, que depois se explica, de Lucas, no Ano Novo, buscando uma carta na casa da mãe (Maria Dizzia, muito bem no filme, atriz de “Martha Marcy May Marlene”). A incessante busca o levará para memórias sufocantes (ou seja, o filme é contado por flashbacks, mostrando o peso do passado de um personagem no limite). Com um misto de drama e thriller de forte tensão psicológica, o longa foi super comentado no circuito independente de cinema em 2025, quando ganhou o prêmio especial do Júri no Festival de Sundance. Agora entra com exclusividade no streaming do canal Filmelier+.
 

Ruas da Glória
 
O cineasta carioca Felipe Sholl escreve e dirige esse seu segundo filme, sete anos depois de se lançar com o bom drama “Fala comigo” (2017), que tratava dos obstáculos do relacionamento entre um garoto de 17 anos com uma mulher de mais de 40. Sholl agora se volta ao submundo da noite das ruas do bairro da Glória, no Rio de Janeiro, onde a prostituição é palco e trânsito de pessoas de diferentes idades. Ali, o jovem professor de literatura Gabriel (Caio Macedo) conhece Adriano (Alejandro Claveaux), garoto de programa uruguaio que auxilia na chefia dos pontos. A paixão entre os dois é avassaladora, que se transforma em obsessão. Eles passam a viver juntos, até o dia em que Adriano desparece, sem deixar vestígios. Gabriel sai pelo Rio na tentativa de obter um paradeiro que o leve ao seu amor. A interpretação dos dois atores centrais é o ponto alto desse filme de classificação 18 anos, que traz cenas fortes de sexo e revela um Rio pouco registrado no cinema, da prostituição noturna. O longa é uma espiral de emoções na vida de um garoto que acaba de se mudar para aquela cidade e em poucos dias se vê preso num relacionamento cansativo e abusivo, até ser acolhido pela nova família, o dos meninos de programa. Temas como solidão, necessidade de conexão, identidade, rejeição e amadurecimento estão entrelaçados em uma história que passa longe de romance tradicional e final feliz; é um drama duro, realista, em um contexto de insegurança e violência, com imagens marcantes (a estética noturna é outro tom maior do filme). Além dos atores mencionados, completam o excelente elenco a cantora trans Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini e participações especiais de Daniel Rangel, Ernesto Piccolo, Edmilson Barros e Wilson Rabelo. Depois da carreira em festivais mundiais, como Tallinn, Rio e Mostra de SP, o filme, assinado pela Syndrome Films, com produção de Daniel van Hoogstraten, em coprodução com RioFilme e Telecine, estreia nos cinemas com distribuição da Retrato Filmes.


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