Cheiro
de diesel
Dirigido
pela dupla de cineastas Natasha Neri e Gizele Martins, o documentário expõe os
efeitos da militarização das favelas do Rio de Janeiro durante os decretos de
Garantia da Lei e da Ordem (GLO) nos governos Dilma e Temer, entre os anos de
2014 e 2018. Foram dezenas de operações militares com o pretexto de controlar a
segurança pública, que levou quase três mil homens das Forças Armadas para 15 regiões
do Complexo da Maré e de outras comunidades. O que se viu naquele período foram
um incontável número de mortos, invasões de domicílio de madrugada, invasão em escolas
e postos de saúde, balas perdidas atingindo pessoas – algumas ficaram
paraplégicas, abuso de poder, tortura (como a apelidada “sala vermelha” em um
quartel na Penha) e significativa violação dos direitos humanos. Com uma câmera
flagrante nas mãos, as cineastas registraram muitos desses momentos, e hoje
juntam no filme depoimentos atuais de quem sobreviveu e quem perdeu entes próximos.
Vencedor de dois prêmios no Festival do Rio no ano passado, o filme dá voz aos
moradores da Maré, da Penha e do Morro do Salgueiro, que relembram a rotina de
medo, as revistas constantes e a presença diária de tanques, barricadas e
soldados armados em suas ruas. Além de registro histórico dos fatos (feitos com
dificuldade pela jornalista moradora da Maré Gizele Martins, ou seja, por
alguém que correu risco naquele “front de batalha”), o longa revela os traumas
coletivos e a sensação de que a vida cotidiana foi sequestrada pela lógica de
uma guerra indissolúvel. Um retrato urgente sobre como o Estado brasileiro, em
nome da ordem, perpetua a exclusão e a violência contra cidadãos vulnerabilizados.
Produção da Amana Cine e Baracoa Filmes, com coprodução do Canal Brasil, continua
em exibição em alguns cinemas com distribuição da Descoloniza Filmes em
parceria com a RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da
Prefeitura do Rio.

Arquitetura
da Destruição
Exibido
no Festival de Berlim, o documentário é o maior filme do cineasta Peter Cohen e
um dos mais contundentes sobre o nazismo. Realizado em 1989, é dividido em partes:
da fundação do partido nazista nos anos 30, passando pela ascensão ao poder de
Hitler e a dimensão estética e cultural que sustentou sua ideologia. Hitler,
que sonhava em ser arquiteto e desenhava nas horas vagas esboços de prédios
modernos, conseguiu colocar parte de seus planos em prática, no tocante ao que diz
o título do filme, a arquitetura. Demoliu prédios antigos para fundar uma nova ordem
nas artes, que pretendia ser universal, revivendo o Belo Clássico e eliminando
tudo aquilo que para ele não prestava, o que chamava de “arte degenerada”
(especialmente aquelas de crítica social e as relacionadas à estética moderna e
a do Feio). A megalomania de Hitler extravasava o campo da arquitetura: consolidou
a eugenia (limpeza étnica ao eliminar os judeus), criou laboratórios com
experimentos humanos (para alcançar a raça perfeita, a ariana), buscando moldar
o mundo inteiro segundo um ideal absoluto. Na ocupação nazista de países
vizinhos, tentou levar para lá essa nova inspiração. Cada detalhe das marchas e
dos discursos em público era cuidadosamente coreografado, com uma rica direção
de arte, conduzindo a massa à histeria coletiva. O nazismo, em sua essência,
pretendia “embelezar” o mundo, ainda que, para isso, fosse necessário
destruí-lo primeiro. Tudo passava pelas mãos de Hitler, inclusive as insígnias
nazistas, como a suástica e a águia, foram desenhadas por ele. O documentário,
em muitos momentos forte e indigesto, revela como a estética nazista se
entrelaçou com o projeto de poder que atingiu o ápice com o genocídio judeu – há
cenas delirantes de como a arquitetura chegou aos campos de concentração, nas câmaras
de gás em que centenas de pessoas eram eliminadas por hora com o gás Zyklon-B,
tido como uma forma mais “limpa” de morte, já que no início do Holocausto os
primeiros judeus morriam fuzilados. A epifania de Hitler ao assistir à ópera
Rienzi, de Richard Wagner, é apresentada como ponto de partida para sua visão
grandiosa - ele tornou-se fã inveterado de Wagner, homenageando-o em todos os
cantos na Alemanha Nazista. Cohen constrói uma narrativa dolorosa e também
reflexiva, mostrando como a estética se converteu em arma política e cultural,
legitimando a violência em escala inédita no mundo. É um estudo perturbador
sobre a beleza usada como máscara para a barbárie, e de como a arte pôde ser
instrumentalizada para sustentar um projeto de morte. Narrado por Bruno Ganz, o
filme foi premiado na Mostra Internacional de Cinema de SP na época do
lançamento, e agora está disponível de forma gratuita na plataforma Sesc
Digital, até o dia 05/04/2026, em https://sesc.digital/home,
na versão restaurada recentemente em 4K, pela Cinemateca Sueca (país onde o documentário
foi produzido).
Lupicínio
Rodrigues – Confissões de um sofredor
Documentário
de 2024 que analisa vida e obra do compositor gaúcho de Porto Alegre Lupicínio
Rodrigues (1914–1974), nome de grande importância para a Música Popular Brasileira.
Nascido em uma favela na Ilhota, foi o criador do chamado “samba-canção de
dor-de-cotovelo”, gênero marcado pela melancolia, boemia, lirismo e pela
confissão íntima de amores frustrados. Composições como “Vingança”, “Loucura”, “Felicidade”,
“Volta”, “Quando eu for vem velhinho”, “Esses moços” e “Nervos de aço”
tornaram-se clássicos imediatos, que revelavam um artista que transformou
sofrimento pessoal em arte – quase todas essas canções são analisadas o documentário
por especialistas em músicas, além de entrevistas antigas em que Lupicínio as
comenta. O filme apresenta Lupicínio tanto como compositor de marchinhas de carnaval
no início da carreira e sambas inesquecíveis quanto cronista das emoções
humanas. Também foi ele quem compôs o hino oficial do Grêmio Porto-alegrense,
ou seja, ia de um lado a outro, cruzando as diversas vertentes da música. A
trajetória dele é narrada por meio de depoimentos de pessoas que o conheceram,
como Elza Soares, Gilberto Gil, Jamelão, Jards Macal é e Zuza Homem de Mello, além
de entrevistas dos anos 60 do próprio compositor, imagens de shows de cantores
e cantoras que o interpretaram no palco, como Chico Buarque, Linda Batista e
Gal Costa, e familiares (gravadas no tempo atual, entre 2023 e 2024). O
documentário destaca a autenticidade de sua obra: Lupicínio escrevia sobre o
que vivia, sem máscaras, expondo suas fragilidades e paixões. A honestidade é
justamente o que lhe conferiu grandeza e o tornou um ícone da música
brasileira. Com narração de Paulo César Pereio, o filme foi exibido no Festival
In-Edit e na Mostra Internacional de Cinema de SP. Curiosidade retratada no
filme: a canção “Se acaso você chegasse” integrou a trilha sonora do musical
hollywoodiano “Dançarina loura” (1944) e recebeu indicação ao Oscar, no entanto
ele nem sequer ficou sabendo, pois não botaram os créditos para ele. Está disponível
gratuitamente na plataforma Sesc Digital, até o dia 10/04/2026, em https://sesc.digital/home
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