terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas - Parte 1


A voz de Hind Rajab
 
Kaouther Ben Hania, cineasta tunisiana conhecida por dois filmes indicados ao Oscar recentemente, “O homem que vendeu sua pele” (2020) e “As 4 filhas de Olfa” (2023), retorna com uma obra visceral, que há tempos não me angustiava tanto. Produzido em 2025, o longa se constrói como um híbrido entre documentário e ficção, utilizando a guerra de Gaza como pano de fundo. Por 1h30 acompanhamos, aflitos, um grupo de voluntários da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho tentando salvar uma garotinha chamada Hind Rajab presa em um carro sob fogo cruzado na Faixa de Gaza, cercado pelas tropas israelenses. O caso ocorreu em janeiro de 2024, e o filme inteiro é dentro de uma sala que serve de comitê dos membros que ficam no telefone em contato com a menina – nunca a vemos, somente a ouvimos (e aí está o impacto do filme: os áudios todos são reais). Eles fazem uma força-tarefa para emplacar um resgate de poucas horas, o que parece inalcançável. De um lado uma criança no carro, encurralada, com a família morta no banco, e do outro, a quilômetros de distância, os voluntários com ela pelo telefone celular. O drama transforma uma ligação de emergência em Gaza em uma corrida contra o tempo, expondo a fragilidade da vida diante da brutalidade da guerra. Dentro da sala instala-se outra crise, envolvendo um dos voluntários que quer salvá-lo a todo custo, e a do chefe de operações, que não sente segurança em liberar o carro de salvamento devido ao perigo que há nas estradas até chegar ao local bombardeado onde está Hind. A diretora obteve autorização para usar os áudios originais da menina Hind Rajab, de apenas seis anos, capturados durante uma noite de terror no bairro nobre de Tel al-Hawa, no sudoeste de Gaza, totalmente bombardeado – ela chora, aflita, pedindo socorro, ajudando na orientação de seu resgate. Esses registros sonoros, acompanhados por legendas do arquivo, em tela preta com a frequência de som oscilando, criam uma experiência cinematográfica que transcende o cinema ficcional (e nos arrebata). É uma obra que testemunha uma crise global, numa das guerras mais devastadoras da História recente, que se arrasta desde 2023 e parece não ter fim. E um chamado à reflexão sobre o poder do cinema em dar voz ao que não pode ser silenciado. Um dos maiores lançamentos do ano, indicado ao Oscar de filme estrangeiro (ele disputará diretamente com o nosso “O agente secreto”). Venceu o Leão de Prata – Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza 2025 e também teve indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Nos cinemas desde o início do mês, distribuído pela Synapse Distribution.
 
 
Zafari
 
Sexto filme da cineasta venezuelana Mariana Rondón, de “Pelo malo” (2013), que costuma tratar em seus trabalhos a crise econômica de seu país pelos olhos do povo – e agora, pela primeira vez, faz um filme ampliando o tema, mas num futuro distópico. Quando falamos em distopia, lembramos de fitas scifi de mundo destruído, ocupado por robôs; não, não é isto aqui no cinema dela. Rondón coloca a ambientação numa realidade nítida, mais próxima da atualidade do que de um futuro não-palpável, mantendo-se fiel à sua filmografia marcada pelas tensões sociais e econômicas da Venezuela. Ela constrói em “Zafari” uma distopia que amplifica a desordem cotidiana de um país colapsado, com ausência de regras, escassez de trabalho e, sobretudo, a fome, que moldam um ambiente insólito, onde a civilidade se desfez e a sobrevivência assume contornos brutais. Nesse cenário, um hipopótamo (de nome Zafari) recém-chegado ao zoológico de Caracas torna-se figura central. Ele é o único ser plenamente alimentado, o que contrasta com a privação que atinge duas famílias: uma privilegiada, agora confinada em um condomínio decadente, que planeja fugir do país, e outra empobrecida, que abandona qualquer resquício de ordem social, vivendo a seu modo. A presença do animal desperta desejos, frustrações e impulsos que revelam o limite ético de cada personagem. Pela definição da diretora (que é a roteirista, junto à parceira de trabalho Marité Ugas), o filme é uma fábula social, recorrendo à ironia e metáforas dentro de um típico cinema de gênero. É um filme simbólico, estranho à primeira vista, que vai se encaixando com o desenrolar do tempo. É político, é crítico, nada fácil de entender, sendo uma obra autoral para público específico – e que faz mais sentido agora, após o sequestro e deposição do presidente Nicolás Maduro. Apresentado na seção “Horizontes Latinos” do Festival de San Sebastián, o longa percorreu festivais na Europa, Ásia e América Latina, incluindo a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Com elenco formado por atores profissionais e não profissionais, é uma coprodução Brasil, Venezuela, Peru, México, França, Chile e República Dominicana. Em exibição nos cinemas pela Vitrine Filmes.
 

 
Dois procuradores
 
Marcou presença no Festival do Rio do ano passado este recente longa de Sergei Loznitsa, diretor russo-ucraniano engajado no cinema político desde quando se lançou na metade da década de 90, e de lá para cá fez filmes notáveis, tanto documentários quanto ficção, como “Donbass” (2018) e “A invasão” (2024). Apresentado no Festival de Cannes, onde disputou a Palma de Ouro e conquistou o Prix François Chalais — honraria dedicada a obras que reafirmam o compromisso do jornalismo com a verdade, “Dois procuradores” é uma obra ficcional inspirada em um duro contexto real, o regime autoritário de Stalin. Em 1937, um jovem procurador, recém-nomeado ao cargo, Alexander Kornyev (Aleksandr Kuznetsov), entra com tudo na investigação do centro de detenção soviético após descobrir práticas de tortura contra um ex-promotor do Partido Comunista. O caso cai em suas mãos após receber uma carta, que deveria ter sido queimada junto a outras, de indivíduos presos injustamente pelo regime stalinista. Movido pelo senso de justiça, Kornyev se empenha em denunciar os métodos arbitrários da polícia secreta de Stalin, intitulada de Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKDV), que praticava violenta repressão aos considerados subversivos (muitos enviados ao temido campo de Gulag, no extremo frio da Sibéria). No meio de um campo de batalha em busca de verdade, o personagem coloca em jogo não só a carreira, mas a própria vida ao investigar o mundo do NKDV – estima-se que entre 1930 e 1950, o NKDV matou milhões de pessoas, em massacres, deportações e no Grande Expurgo. Com muitos diálogos, um bom trabalho dos atores e uma direção de arte com apelo à URSS do período stalinista, é um bom cinema de arte com discussão política, que obviamente faz um diálogo aos desmandos atuais de Vladimir Putin (cujo governo comete atos massivos de repressão aos opositores, bem como perseguição e tortura, crimes de guerra, sem contar políticos e jornalistas críticos ao regime que morreram de forma misteriosa nos últimos 10 anos). O filme se inspira no romance homônimo de Georgy Demidov (1908-1987), físico russo que foi preso pela NKDV, passou 14 anos encarcerado em campos de trabalho forçado e virou escritor – parte dos relatos do livro e do filme são situações reais vividas e outras observadas por ele. Nos cinemas pela Retrato Filmes.



Nenhum comentário:

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1

  Com causa   Documentário do cineasta carioca Belisario Franca em mais uma parceria com o diretor Pedro Nóbrega, desta vez sobre ativismo a...