76º
Festival de Berlim se destaca por filmes com protagonismo feminino
O 76º
Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) segue até o dia 22 de
fevereiro na capital alemã e apresenta ao público uma programação repleta de
filmes históricos e sociais, muitos deles com forte protagonismo feminino. Histórias
de mulheres em busca de liberdade, enfrentando o patriarcado e o preconceito e lutando
para decidir sobre o próprio corpo. Atrizes premiadas como Sandra Hüller, Amy Adams
e Juliette Binoche se destacam nas produções que estão em première mundial na Berlinale.
Confira abaixo títulos que assisti:

Rose
(Áustria
e Alemanha - 2026, 94 minutos, de Markus Schleinzer)
“Rose” integra
a competição oficial da Berlinale 2026 e é forte candidata ao Urso de Ouro. A fita
de arte de altíssimo impacto visual marca o retorno de Markus Schleinzer,
diretor de “Angelo” (2018), num trabalho difícil de ser realizado e que tem tudo
para render a Sandra Hüller o prêmio de melhor atriz no festival: ela está
extraordinária, em uma performance de precisão emocional. A fotografia em preto-e-branco
de Gerald Kerkletz é arrebatadora com seus contrastes duros e texturas quase
táteis, que dá ao longa uma aura de fábula sombria. Trata-se de um folk tale
inspirado em um provável caso real, de uma mulher do início do século XVII que
utiliza a identidade de um homem morto para ser aceita em uma sociedade regida
pela religião. A história se passa em algum lugar longínquo da Alemanha. Rose é
uma desconhecida que chega a um vilarejo protestante e se identifica como um soldado
recém-saído da guerra. Com uma queimadura no rosto e uma cicatriz profunda na
bochecha (marcas daquela guerra), ela apresenta aos moradores de lá documentos que
indicam a herança de um lote de terra abandonado. Rose se instala numa casa na
floresta, e naquele pedaço de chão tido como seu, passa a plantar e colher,
sendo aceita pelos aldeões. Até que é forçada a se casar; para tanto, apresentam
para ela uma mulher vinda de uma cidade vizinha. Sandra Hüller tem uma força de
expressão indescritível, traz carga dramática, sentimento no olhar e na
delicadeza dos gestos para levar nas costas uma história sobre construção de identidade
e combate à intolerância, de uma mulher solitária que tem de se esconder para
ser aceita, desde mudar o nome até usar roupas apertadas para apagar os traços
de mulher. Schleinzer transforma essa premissa histórica em um estudo sobre
moralidade, patriarcado e violência estrutural, sem abrir mão de uma
mise-en-scène rigorosa e de um olhar profundamente humano. Sublime na forma, a
plasticidade da paisagem salta da tela, verdadeiros quadros fotogênicos. As locações
são do Vale de Glasebach (Glasebachtal), localizado no estado alemão da
Saxônia-Anhalt. Deve ser finalista do Oscar do próximo ano na categoria de
filme estrangeiro, atriz e fotografia.
Un
hijo própio
(México
- 2026, 96 minutos, de Maite Alberdi)
Com
apenas 42 anos de idade, a cineasta chilena Maite Alberdi já se destaca como um
dos principais nomes do documentário contemporâneo. Reconhecida por transformar
questões sociais e situações cotidianas em narrativas intimistas com linguagem que
mistura documentário e ficção, tornou-se a primeira mulher chilena indicada ao
Oscar – ela tem duas nomeações, de melhor documentário por “Agente duplo”
(2020), uma criativa fusão entre o universo da espionagem e a rotina de um lar
de idosos, e “A memória infinita” (2023), um delicado retrato de um casal de
jornalistas diante do Alzheimer. Depois de arriscar uma fita ficcional para a
Netflix em 2024, “No lugar da outra”, recorrendo a uma história verídica de
assassinato e julgamento, retorna ao gênero que a consagrou, sua base de
cinema, no documentário “Un hijo próprio”, que teve a première mundial no
Festival de Berlim. Filmado no México, ela reconta com suas palavras a história
verídica de Alejandra, uma mulher mexicana que simula uma gravidez, após
pressão do marido e das expectativas sociais. Ela sofreu três abortos
espontâneos, o que a fez desistir de ser mãe. Mas acaba por fingir a espera de
um bebê por nove meses, sustentando uma mentira que a lançará em uma armadilha.
Família e amigos se afastam, e a mídia transforma o caso num escândalo sem
precedentes. Alberdi insere humor agridoce numa trama que seria de muita angústia
e adota uma abordagem de docuficção, com depoimentos reais combinados com
encenações de atores, como Ana Celeste no papel de Alejandra. Esses elementos fazem
seu cinema autoral acontecer, criando um filme de linguagem própria e que, como
tema central, explora as imposições culturais relacionadas à maternidade. Produção
original da Netflix, ele deve integrar o catálogo da plataforma após sua
circulação em festivais.
Fiz
um foguete imaginando que você vinha
(Brasil
- 2026, 92 minutos, de Janaina Marques)
Apresentado
na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma
história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de
memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete
o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai
em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um
carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas
de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias
descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento
sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada
de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega
até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem
que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue
uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a
realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa
ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por
meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da
protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece
existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como
se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma
viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência
doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A
fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro –
elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que
cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos
que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta
das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos
– enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional,
Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música
“Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens,
adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o
filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros.
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