segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
76º Festival de Berlim se destaca por filmes com protagonismo feminino
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) segue até o dia 22 de fevereiro na capital alemã e apresenta ao público uma programação repleta de filmes históricos e sociais, muitos deles com forte protagonismo feminino. Histórias de mulheres em busca de liberdade, enfrentando o patriarcado e o preconceito e lutando para decidir sobre o próprio corpo. Atrizes premiadas como Sandra Hüller, Amy Adams e Juliette Binoche se destacam nas produções que estão em première mundial na Berlinale. Confira abaixo títulos que assisti:

 
Rose
(Áustria e Alemanha - 2026, 94 minutos, de Markus Schleinzer)
 
“Rose” integra a competição oficial da Berlinale 2026 e é forte candidata ao Urso de Ouro. A fita de arte de altíssimo impacto visual marca o retorno de Markus Schleinzer, diretor de “Angelo” (2018), num trabalho difícil de ser realizado e que tem tudo para render a Sandra Hüller o prêmio de melhor atriz no festival: ela está extraordinária, em uma performance de precisão emocional. A fotografia em preto-e-branco de Gerald Kerkletz é arrebatadora com seus contrastes duros e texturas quase táteis, que dá ao longa uma aura de fábula sombria. Trata-se de um folk tale inspirado em um provável caso real, de uma mulher do início do século XVII que utiliza a identidade de um homem morto para ser aceita em uma sociedade regida pela religião. A história se passa em algum lugar longínquo da Alemanha. Rose é uma desconhecida que chega a um vilarejo protestante e se identifica como um soldado recém-saído da guerra. Com uma queimadura no rosto e uma cicatriz profunda na bochecha (marcas daquela guerra), ela apresenta aos moradores de lá documentos que indicam a herança de um lote de terra abandonado. Rose se instala numa casa na floresta, e naquele pedaço de chão tido como seu, passa a plantar e colher, sendo aceita pelos aldeões. Até que é forçada a se casar; para tanto, apresentam para ela uma mulher vinda de uma cidade vizinha. Sandra Hüller tem uma força de expressão indescritível, traz carga dramática, sentimento no olhar e na delicadeza dos gestos para levar nas costas uma história sobre construção de identidade e combate à intolerância, de uma mulher solitária que tem de se esconder para ser aceita, desde mudar o nome até usar roupas apertadas para apagar os traços de mulher. Schleinzer transforma essa premissa histórica em um estudo sobre moralidade, patriarcado e violência estrutural, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa e de um olhar profundamente humano. Sublime na forma, a plasticidade da paisagem salta da tela, verdadeiros quadros fotogênicos. As locações são do Vale de Glasebach (Glasebachtal), localizado no estado alemão da Saxônia-Anhalt. Deve ser finalista do Oscar do próximo ano na categoria de filme estrangeiro, atriz e fotografia.
 
 
Un hijo própio
(México - 2026, 96 minutos, de Maite Alberdi)
 
Com apenas 42 anos de idade, a cineasta chilena Maite Alberdi já se destaca como um dos principais nomes do documentário contemporâneo. Reconhecida por transformar questões sociais e situações cotidianas em narrativas intimistas com linguagem que mistura documentário e ficção, tornou-se a primeira mulher chilena indicada ao Oscar – ela tem duas nomeações, de melhor documentário por “Agente duplo” (2020), uma criativa fusão entre o universo da espionagem e a rotina de um lar de idosos, e “A memória infinita” (2023), um delicado retrato de um casal de jornalistas diante do Alzheimer. Depois de arriscar uma fita ficcional para a Netflix em 2024, “No lugar da outra”, recorrendo a uma história verídica de assassinato e julgamento, retorna ao gênero que a consagrou, sua base de cinema, no documentário “Un hijo próprio”, que teve a première mundial no Festival de Berlim. Filmado no México, ela reconta com suas palavras a história verídica de Alejandra, uma mulher mexicana que simula uma gravidez, após pressão do marido e das expectativas sociais. Ela sofreu três abortos espontâneos, o que a fez desistir de ser mãe. Mas acaba por fingir a espera de um bebê por nove meses, sustentando uma mentira que a lançará em uma armadilha. Família e amigos se afastam, e a mídia transforma o caso num escândalo sem precedentes. Alberdi insere humor agridoce numa trama que seria de muita angústia e adota uma abordagem de docuficção, com depoimentos reais combinados com encenações de atores, como Ana Celeste no papel de Alejandra. Esses elementos fazem seu cinema autoral acontecer, criando um filme de linguagem própria e que, como tema central, explora as imposições culturais relacionadas à maternidade. Produção original da Netflix, ele deve integrar o catálogo da plataforma após sua circulação em festivais.
 
 
Fiz um foguete imaginando que você vinha
(Brasil - 2026, 92 minutos, de Janaina Marques)
 
Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros.

Nenhum comentário:

Especia de cinema

76º Festival de Berlim reúne obras autorais de impacto temático e visual   O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) cont...