terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 2


O acidente do piano
 
Músico (apelidado de Mr. Oizo), produtor, roteirista e um dos diretores mais excêntricos do cinema contemporâneo, Quentin Dupieux retorna com toda autoralidade em “O acidente do piano” (2025), novo lançamento da Mubi que chegou ao streaming na semana passada. O filme, uma comédia dramática nonsense, conta com sua marca registrada: narrativa absurda que chega próximo do surrealismo, com personagens estranhos em um mundo em desalinho. Não há linearidade nem clímax ou situações previsíveis em seu cinema. A trama parte de um evento banal: um piano cai de uma janela e quase mata uma jovem influenciadora digital (Adèle Exarchopoulos, atriz de “Azul é a cor mais quente”). Ela tem escoriações pela cabeça e corpo. Passa o tempo todo com um gesso no braço. Irritadiça e temperamental, a mulher observa tudo ao redor, enquanto é envolvida em situações insólitas, muitas delas bizarras, como chantagens de desconhecidos. O acaso e o surreal se entrelaçam para questionar a lógica do cotidiano, num filme de arte que satiriza a cultura dos influencers e das subcelebridades em busca do sucesso a qualquer preço. Quem conhece os filmes de Dupieux, principalmente os últimos, “Yannick” (2023) e “O segundo ato” (2024), sabe que não são obras fáceis de compreender; elas desafiam as convenções do cinema, contando com diálogos complexos que duram cenas inteiras, e dividem opinião do público. Não é melhor do cineasta, mas tem ali boas provocações. Adèle Exarchopoulos está muito bem como a jovem protagonista no centro do caos. Um filme para inseridos no cinema autoral francês de Dupieux.



 
Toque familiar
 
Premiado em três categorias da seção Horizons do Festival de Veneza de 2024 (dentre eles melhor atriz e melhor diretora), o drama intimista de Sarah Friedland fala, de maneira sentimental, sobre a senilidade, explorando como a memória e o afeto se tornam territórios instáveis diante da deterioração física e mental. O roteiro acompanha um filho que entrega sua mãe para uma casa de repouso. A idosa, Ruth (uma interpretação solar de Kathleen Chalfant, na época com 79 anos), tem demência, diagnosticada há pouco tempo. De início, não entende o motivo de estar naquela moradia assistida, reluta em ficar lá e receber atenção de enfermeiros. Com os dias ela vai compreendendo e lidando com as dificuldades da memória e da locomoção, à medida que estabelece novas relações afetivas. O filme se destaca pelo trabalho sensível de Kathleen, cujas lentes ficam nela o tempo todo, captando toques, olhares e gestos. A fotografia é espetacular, que inspira leveza em cada detalhe. Os momentos de silêncio da personagem traduzem a impotência diante da inevitabilidade da condição humana – veja que mesmo contida, a atriz tem forte presença em um papel que diz tudo, mesmo sem usar palavras. Curtinho (em seus 89 minutos), o delicado filme tem um tom naturalista, que parece um documentário de tão verdadeiro. Disponível no streaming da Reserva Imovision.
 

 
Infinite icon: Uma memória visual
 
Depois do documentário “This is Paris” (2020), a modelo, cantora e atriz Paris Hilton volta aos holofotes para contar mais de sua biografia em “Infinite icon” (2026), doc lançado nos cinemas brasileiros no último fim de semana pela Sato Company. O filme se aproveita da nova turnê musical de Paris, que dá nome ao último álbum dela, “Infinite icon”, que entrelaça partes do show em Los Angeles e entrevistas recentes dela. Tem uma construção em formato de lembranças, por isso o subtítulo “Memória visual”: Paris conta sobre a infância e juventude, de sua família rica e poderosa (ela é neta do fundador da rede de hotéis Hilton), os abusos físicos e mentais quando ficou em um internato para jovens até os primeiros passos na música na cultura clubber (o que lhe rendeu críticas ofensivas). Ela relembra o estrelato no mundo da mídia (passando pela moda, música, o cinema e os reality shows), fala com emoção o tempo do internato e as críticas pesadas quando era motivo de chacota em manchetes de tabloides. Ela traz para o filme o parceiro, Carter Reum, pai de seus dois filhos, nascidos de barriga de aluguel, e os reais motivos para voltar ao cenário da música - ela lançou apenas um álbum, em 2006, até chegar “Infinite icon” 20 anos depois. A montagem inclui entrevistas novas e antigas, vídeos caseiros, reportagens e cenas do show atual, bem como momentos de bastidores (como um making of). Um presente para os fãs dela, um filme bem realizado com estética própria do mundo multicolorido de Paris. Dirigido por J.J. Duncan e Bruce Robertson, conta com participação de Sia, que fez parceria em seu novo disco.


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