Especial
“Psicose”
Psicose
Marion Crane
(Janet Leigh), uma jovem secretária, rouba dinheiro da empresa onde trabalha e
foge de carro para reencontrar o namorado. No caminho, durante uma tempestade,
para em um motel à beira da estrada, hospedando-se no sinistro Bates Motel, de propriedade
de um homem atormentado chamado Norman (Anthony Perkins).
Obra-prima
da Sétima Arte, um clássico absoluto e divisor de águas no cinema de suspense,
o filme “Psicose”, de Alfred Hitchcock (1899-1980), mudou a forma de se fazer
filmes em uma época de grande transformação na indústria de Hollywood. Gêneros
populares como comédia, musical e faroeste já tinham esgotado seu repertório. O
colapso da Era de Ouro era anunciado com a lei antitruste para venda de cinemas
e com o sistema de estúdios entrando em derrocada. E a TV começava a se
popularizar. O cinema necessitava de uma reformulação imediata – o que surgiria
nos anos 60 com a Nova Hollywood, trazendo diretores-autores entregando obras
extremamente originais e disruptivas na forma e no conteúdo. “Psicose” veio
nesse período de transição, do velho para o novo cinema, um filme pioneiro em
muitos aspectos. A começar do roteiro ousado: Marion Crane (Janet Leigh), uma
jovem secretária, rouba dinheiro de seu trabalho e foge de carro em busca de
uma nova vida. Sozinha, na estrada sob chuva, faz uma parada no isolado Bates
Motel, um motel antigo administrado pelo tímido e enigmático Norman Bates
(Anthony Perkins). O que parecia uma noite de descanso se transforma em um terrível
assassinato: Marion é morta a facadas no chuveiro enquanto toma banho. Tudo
indica que quem a matou foi a mãe de Norman, Sra. Norma Bates, uma idosa que
mora no casarão da família, aos fundos do motel, e controla o filho todo
minuto, não dando paz para ele. A trama de roer as unhas se desenrola em torno
do mistério daquele assassinato e de outros que virão, bem como a identidade da
mãe de Norman e da investigação do desaparecimento de Marion. “Psicose” é
considerado um Hitchcock subversivo, um filme classe A de um diretor inglês que
já era consolidado no cinema americano com clássicos de suspense, como “Festim
diabólico” (1948), “Pacto sinistro” (1951), “O homem que sabia demais” (1956),
“Um corpo que cai” (1958) e “Intriga internacional” (1959), parte destes com um
fino humor que poucos conseguiram associar ao conteúdo.
“Psicose” não, é um
suspense de horror, um filme macabro e ousado para a época, com planos e
enquadramentos que atingem o ápice da estética virtuosa do maior cineasta de
todos os tempos. A cena do chuveiro é arrepiante, tudo embaçado, com a trilha
memorável de Bernard Herrmann – e quem diria que um diretor, naquela época,
deixasse sua protagonista morrer (e outra, ela aqui é uma anti-heroína, uma
ladra que dá um golpe no trabalho e rouba a firma para viver bem ao lado de um
namorado). A cena do chuveiro levou sete dias para ser filmada e utilizou mais
de 70 ângulos diferentes - curiosamente, o sangue visto na cena era, na
verdade, calda de chocolate (há um documentário super legal sobre os bastidores
da gravação da cena, chamado “78/52: A cena do chuveiro de Hitchcock”, de 2017,
dirigido por Alexandre O. Philippe). A direção meticulosa e o uso inovador da
montagem criaram uma atmosfera de tensão que permanece insuperável ainda hoje.
O filme não apenas redefiniu o gênero, mas também influenciou gerações de
cineastas. A construção psicológica de Norman Bates é outro ponto firme,
trazendo profundidade rara para vilões, tornando-o um dos personagens mais perturbadores
já criados (cheio de camadas e complexidades que passaríamos horas aqui descrevendo).
A crítica da época se dividiu, mas rapidamente o longa foi reconhecido como
obra-prima, estudado em cursos de cinema e psicologia. Hitchcock comprou os
direitos do livro de Robert Bloch, lançado um ano antes (que li e recomendo),
de forma anônima e adquiriu todas as cópias disponíveis para manter o mistério
da trama. Hitchcock era exigente não só dirigindo seus atores e aterrorizando
as atrizes; fora do set também, por exemplo, fez questão de proibir a entrada
de espectadores após o início da sessão, para preservar o impacto da narrativa.
Recebeu, na época, quatro indicações ao Oscar: de melhor atriz coadjuvante para
Janet Leigh (única indicação da atriz, que pelo papel ganhou o Globo de Ouro –
ela foi casada com Tony Curtis e é mãe de Jamie Lee Curtis), diretor (a quinta
e última indicação dele como diretor, que nunca ganhou nada), fotografia (um
trabalho impressionante de John L. Russell) e direção de arte. O clássico de
suspense fez tanto a cabeça do público que rendeu três continuações diretas com
Anthony Perkins na pele de Norman Bates, sendo duas para cinema (1983 e 1986) e
uma para a TV (1990), além de um remake (de Gus Van Sant, de 1998), a série
“Bates Matel” (2013-2017) e até um telefilme pouco conhecido que traz um novo
personagem para essa ousada franquia, “Bates Motel” (1987, com Bud Cort). Disponível
em DVD e Bluray pela Universal Pictures, e para aluguel em streamings como Prime
Video, Claro TV e Apple TV.
Psicose (Psycho). EUA, 1960,
109 minutos. Terror/Drama. Preto-e-branco. Dirigido por Alfred Hitchcock.
Distribuição: Universal Pictures
Psicose
2
Norman
Bates (Anthony Perkins) deixa o hospital psiquiátrico 20 anos depois de ser
acusado de vários assassinatos. Ele retorna para o velho casarão da família,
aos fundos do decrépito e agora abandonado Bates Motel, e passa a trabalhar em
um restaurante ali perto. Certo dia, influenciado por uma colega de trabalho, a
garçonete Mary (Meg Tilly), resolve reabrir o motel para os clientes. Em poucos
dias novas mortes brutais ocorrem, colocando Norman sob a mira da investigação.
Mais de
duas décadas depois de “Psicose” (1960), numa época tomada pelo cinema slasher,
Hollywood se debruçou em um novo capítulo de sangue do personagem Norman Bates,
voltando a ser interpretado pelo sinistro Anthony Perkins. A história também
segue 20 anos após os assassinatos no Motel Bates; Norman é liberado de um
hospital psiquiátrico, já reabilitado. Ele retorna ao motel da família e também
passa a trabalhar na cozinha de um restaurante, tentando reconstruir a vida. Mas
logo se vê sob tormento ao receber estranhos telefonemas e cartas supostamente
vindas de sua falecida mãe, Norma. Enquanto tenta provar sua sanidade, assassinatos
brutais ocorrem a poucos passos dele, levantando dúvidas sobre a recuperação de
Norman e de quem está por trás dos crimes. Paralelamente surge na história uma
garota chamada Mary (Meg Tilly), garçonete que trabalha com Norman no fast
food, e ainda Lila (Vera Miles), que retorna 20 anos depois em busca de
respostas da morte da irmã, Marion Crane (que no original foi interpretada por
Janet Leigh). “Psicose II” surpreendeu ao não ser apenas uma continuação
oportunista, mas uma obra tão densa quanto a original, que explorava a
fragilidade psicológica de Norman. Ele está reabilitado, mas a voz da mãe volta
a ecoar em sua mente, enquanto ele a vê parada todos os dias na janela de casa
o observando. Dirigido pelo australiano Richard Franklin, discípulo de
Hitchcock e realizador dos filmes de terror e suspense “Patrick” (1978) e
“Enigma da estrada” (1981), o filme vai para a linha do terror sanguinário –
tudo o que Hitchcock economizou de violência lá, por ser outra época, Franklin
descamba aqui, com cenas horrorosas de esfaqueamento, típicas do slasher movie
que predominava naquela época.
O personagem central é retratado como um
atormentado, dividido entre o desejo de normalidade e os fantasmas do passado.
Anthony Perkins entrega uma atuação intensa, humanizando Norman sem perder o
caráter ameaçador. O filme conquistou fãs ao oferecer uma narrativa sólida e
intrigante, e é para mim uma das boas franquias com continuações sólidas (como
“O poderoso chefão” e os dois primeiros “Tubarão”). A atmosfera sombria e
melancólica reflete o peso dos anos sobre o protagonista, e como o seu interior
ainda é abalado. O roteiro foi escrito por Tom Holland, que mais tarde dirigiria
“A hora do espanto” (1985) e “Brinquedo assassino” (1988). Foi rodado em grande
parte nos cenários originais da Universal, preservados desde 1960, e guarda a
ambientação do original, com um desfecho aterrador e cheio de dúvidas, que
seria um convite para novas continuações (o que aconteceu). Disponível em DVD Universal
Pictures, acaba de sair em Bluray na caixa “Coleção Psicose”, da Versátil Home
Video, que contém dois discos, reunindo “Psicose III”, “Psicose IV: O começo” e
o remake de Gus Van Sant “Psicose”, de 1998. No box, mais de quatro horas de
extras, cards colecionáveis e um livreto de 44 páginas (foto abaixo). Também está disponível para
aluguel em streamings como Prime Video, Claro TV e Apple TV.
Psicose
2
(Psycho II). EUA, 1983, 113 minutos. Terror/Drama. Preto-e-branco/Colorido.
Dirigido por Richard Franklin. Distribuição: Universal Pictures e no box “Coleção
Psicose”, da Versátil Home Vídeo
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