segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Especial de cinema

 
49ª Mostra Internacional de Cinema de SP – Melhores filmes
 
A 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo continua até o dia 30 na capital paulista. A programação, aberta no dia 16/10, conta esse ano com 373 títulos de 80 países em 52 salas de cinema, espaços culturais e CEUs de São Paulo. Haverá ainda programação gratuita da Mostra em três streamings parceiros – Itáu Cultural Play, Sesc Digital e SPcine Play.
As vendas dos ingressos avulsos continuam pelo aplicativo do festival, disponível para download, bem como pelo site da Velox Tickets e nas bilheterias das salas parceiras. Mais informações sobre a Mostra de SP 2025 em https://mostra.org/ e no Instagram do Festival. Confira abaixo bons títulos da Mostra, conferidos na última semana.



 
 
Não sei viver sem palavras
(Brasil, 2025, de André Brandão)
 
Documentário sobre um dos nomes de maior destaque da literatura brasileira do século XX, o escritor Ignácio de Loyola Brandão. Nascido no interior de São Paulo, em Araraquara, Ignácio, prestes a completar 90 anos, relembra fatos notáveis de sua longa trajetória no mundo da escrita - de jornalista perseguido na Ditadura Militar a cinéfilo de carteirinha (seu sonho sempre foi ser diretor de filmes), marcou gerações de leitores com seus romances e contos que retratavam as complexidades do Brasil e da terra que adotou, São Paulo. Sentado no escritório de trabalho, ele revira a gaveta de fotos e arquivos pessoais para o filho, André Brandão, que é o diretor do filme – são memórias de família, da saudade da cidade natal, do medo da repressão na Ditadura, de quando, por um triz, não morreu quando descobriu um aneurisma cerebral e das inspirações que o levaram a lançar livros reveladores na década de 70, como ‘Zero’ e ‘Cadeiras proibidas’. E também vemos um Ignácio fazer um mea-culpa sobre a ausência como pai na criação dos filhos, já que se entregou inteiramente no ofício de escrever. Um dos ótimos docs da Mostra desse ano, longa bem narrado, de puro lirismo, em que o público é levado a decifrar os labirintos da mente de um genial escritor. Exibição ainda nos dias 20 e 28/10.
 
 
Urchin
(Reino Unido/EUA, 2025, de Harris Dickinson)
 
Ator britânico de filmes ousados como ‘Triângulo da tristeza’ (2022) e ‘Babygirl’ (2024), Harris Dickinson se lança, neste sólido drama, na direção, uma boa estreia para quem só vinha do cenário da atuação. ‘Urchin’ traz a dura caminhada de um jovem morador de rua na cidade de Londres (Frank Dillane, que pelo bom papel venceu o prêmio de ator na seção ‘Um certo olhar’ do Festival de Cannes). De boa aparência e carisma, mas irritadiço, ele perambula por aí em busca de comida e moradia. Consegue um emprego, mas é demitido por mau comportamento. Junta-se a um grupo de pessoas livres, abandonadas pela família, e entra num ciclo de autodestruição com drogas. É daqueles filmes de rua, com apresentação de um personagem que vai do céu ao inferno em pouco tempo – apesar da dificuldade de viver como sem teto, ele tenta de forma digna retomar as rédeas da vida, até se afundar no vício. Filme independente, gravado em locações pelas ruas de Londres, tem uma vigorosa atuação do ator central, e participação de Dickinson como um colega usuário de drogas. Ganhador também do prêmio da crítica no ‘Um certo olhar’ em Cannes. Exibição na Mostra nos dias 21 e 28/10.
 
 
Ary
(Brasil, 2025, de André Weller)

Achei um barato o documentário que retrata vida e obra do mestre da música brasileira Ary Barroso (1903-1964), compositor de sambas e de músicas carnavalescas de sucesso. Curtinho – tem apenas 71 minutos, é narrado em primeira pessoa por Lima Duarte – ele lê diários e escritos pessoais de Ary. O filme constrói o mosaico que foi a trajetória do artista mineiro – pianista desde os oito anos, compositor a partir dos 15, estudante de Direito, viveu entre o Rio e os Estados Unidos, onde trabalhou como arranjador de filmes em Hollywood. Foi descoberto por Walt Disney e compôs, na década de 40, músicas para antigas animações dos estúdios Disney, como ‘Alô, amigos’ e ‘Você já foi à Bahia?’. Poucos sabem, e no doc mostra, ele chegou a receber indicação ao Oscar de melhor canção original pelo filme ‘Brazil’ (1944). Alegre, descontraído, com um rico material de arquivo dos carnavais no Rio e de trechos musicais dos filmes da Disney com as composições de Ary, o filme mistura ficção, com atores encenando momentos de sua vida – com participação rápida, por exemplo, de Stepan Nercessian e Leo Jaime. Músicas conhecidas do compositor aparecem, como ‘No rancho fundo’, ‘No tabuleiro da baiana’, ‘Risque’, ‘Na baixa do sapateiro’, ‘Os quindins de Iaiá’ e, claro a famosíssima ‘Aquarela do Brasil’, que fez a cabeça dos norte-americanos, virando tema de v´rios filmes hollywoodianos. Direção do documentarista André Weller, de ‘Rubem Braga: Olho as nuvens vagabundas’ (2013). Exibição na Mostra ainda no dia 21.
 
 
Vainilla
(México, 2025, de Mayra Hermosillo)
 
Drama que se passa no México do final da década de 80, mostrando, pelos olhos de uma garotinha, a rotina de uma família composta por oito mulheres. Os dias não são bons, elas enfrentam problemas financeiros, mas nada irá abalar aquelas mulheres, que tentam dar a volta por cima. A atriz mirim Aurora Dávila é a alma desse filme de pura ternura – pelo ponto de vista dela conhecemos as dificuldades das famílias do México do período da recessão econômica, bem como as novas tendências de moda e música que o país começaria a cultivar. Com pitadas de humor, o drama venceu o prêmio dedicado a cineastas mulheres na Jornada dos Autores do Festival de Veneza de 2025. Exibição na Mostra nos dias 22, 24 e 28.
 
 
Massa funkeira
(Brasil, 2025, de Ana Rieper)
 
Documentário musical sobre o universo do funk, gênero musical popular que fala das ruas, com linguagem dinâmica, aborda sexo e modos de viver de maneira livre e, às vezes, arbitrária. O filme capta depoimentos de cantoras e cantores de funk em que contam as inspirações diárias, de sua visão de mundo, e de como as letras e as danças expressam identidade, resistência e desejo. Produzido nas comunidades periféricas do Brasil, o funk ganha ouvintes e adeptos todos os dias. Com cenas de bailes e pancadão, o doc traz o linguajar pesado que sintetiza esse movimento da música que ganhou fama a partir dos anos 90, celebrando a diversidade cultural. Da diretora dos documentários musicais ‘Vou rifar meu coração’ (2012) e ‘Clementina’ (2018), Ana Rieper. Exibição na Mostra nos dias 21 e 23/10.
 
 
Dolores
(Brasil, 2025, de Marcelo Gomes)

O diretor pernambucano Marcelo Gomes, de ‘Cinema, aspirinas e urubus’ (2005), trouxe para a tela um roteiro deixado pelo cineasta Chico Teixeira, falecido há seis anos, que seria o término de uma espécie de trilogia, intitulada de Trilogia dos Afetos, iniciada por ele com ‘A casa de Alice’ (2007) e ‘Ausência’ (2014). Utilizando a obra de Teixeira como base, Gomes realizou um drama tocante, feminino, que trata de sonhos e perspectivas futuras, entrelaçando a rotina de três mulheres em histórias que se cruzam. Dolores acaba de comemorar 65 anos (papel da sempre deslumbrante Carla Ribas) e botou na cabeça que quer comprar um cassino para mudar de condição financeira. Ela frequenta bingos, gastando muito dinheiro nos jogos, e trabalha vendendo roupas íntimas em frente a penitenciárias. A filha, com quem não se dá bem, espera a saída do namorado da cadeia; e a neta, integrante de um clube de tiros, pretende se mudar para os Estados Unidos. Todas elas anseiam por um futuro melhor, planejando mudanças decisivas. Um filme de mulheres fortes, feito por elas e voltado ao público feminino. São grandes interpretações em uma história singela, humana e sem pieguice. Destaque no elenco de Naruna Costa, Ariane Aparecida, Gilda Nomacce, Teca Pereira e participação de Tuna Dwek e Roney Villela. Exibido no Festival de San Sebastián, tem sessão na Mostra ainda no dia 22/10.








sábado, 18 de outubro de 2025

Especial de cinema

 
Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 2
 
À procura de Anne Frank
 
A curta, mas emblemática trajetória da garota judia Anne Frank (1929-1945), morta no Holocausto, ganha novos contornos com esta animação inspiradora, feita por um cineasta aplaudido, que produz pouco, Ari Folman. O diretor e roteirista israelense, da revolucionária animação para adultos indicada ao Oscar ‘Valsa com Bashir’ (2008), narra uma história de fantasia para além do tempo, em torno da verdadeira Anne e de uma amiga imaginária que ela criou, Kitty, que aparece nas páginas de seu famoso diário. São duas fases – a dos anos 40, de Anne Frank escondida no sótão de uma casa em Amsterdã para escapar dos nazistas durante a ocupação nos Países Baixos, e um período mais recente, com Kitty em posse do diário refletindo sobre as crianças refugiadas. O que era para ser triste e deprimente recebe um tratamento mais leve, mas nunca deixando o lado humano das figuras retratadas. O desenho tem traços vigorosos, atraindo olhares curiosos de jovens e adultos. Exibido nos Festivais de Cannes e Toronto de 2021, conta com as vozes das atrizes inglesas Emily Carey e Ruby Stokes. Acaba de entrar no streaming Filmelier+, disponível via Prime Video.
 

 
O último episódio
 
Uma lenda espalhou-se entre os anos 80 e 90 sobre o último episódio da série de TV de animação ‘Caverna do dragão’, lembro muito bem... Havia especulações sobre o parentesco do vilão, o medonho Vingador, com o Mestre dos Magos, e também de como o grupo de amigos voltariam para casa, já que passam as temporadas perdidos num mundo mágico. Pois bem, esse é o mote do filme brasileiro independente que entra em cartaz nos cinemas, da produtora Filmes de Plástico. Na verdade, a ‘Caverna do dragão’ pouco tem a ver com a trama, é apenas um pretexto para aproximar os personagens. Na periferia de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, no início nos anos 90, três amigos adolescentes curtem cinema e cultura pop. Um deles é apaixonado por uma garota e para conquistá-la diz ter uma fita VHS com o tal último episódio de ‘Caverna do dragão’, que fazia a cabeça da moçada na época. Ela aceita ir até sua casa; o jovem, sem saber como prosseguir com aquela mentira, pede ajuda dos dois amigos para achar uma solução. Entre sonhos de adolescência, decepção amorosa e vínculos entre amigos, os três viverão uma jornada de amadurecimento – hoje é muito comum no cinema este tipo de filme, ‘coming of age’. Delicado, com roteiro agradável de acompanhar e de recordar os anos 80, o filme tem relação direta com as memórias do cineasta, o diretor Maurilio Martins, nascido, criado e que ainda mora naquela região. Rodado pelas ruas de BH, com uma fotografia dos ambientes onde o diretor cresceu – e partes reconstruídas do bairro para ficar com jeitão de quatro décadas atrás, o longa é uma simpática homenagem à adolescência e ao cinema. Nos cinemas, distribuído pela Malute com a Embaúba Filmes.
 

 
Entre penas e bicadas
 
Animação chinesa de 2023 que chega agora aos cinemas do Brasil pela A2 Filmes. Nada demais, nada do que nunca vimos em filmes de animação com animais, desta vez com pássaros. Uma águia chamada Pena Dourada, criada entre galinhas, tenta voar, para acabar de vez com a negação que foi imposta a ela, a de que nunca poderia atingir o céu. Ela então embarca num voo para a cidade grande onde conhecerá a verdade de sua família, travando uma batalha entre águias e galinhas. Tolinha, bem infantil, realmente nem sei se chamará a atenção das crianças... Está no circuito comercial, em salas de mais de 50 cidades do país.
 

 
O retrato de Norah
 
Premiado na mostra ‘Um certo olhar’ de Cannes e exibido no Festival do Rio de 2024, chega aos cinemas pela Pandora Filmes esta obra saudita inspirada em um contexto real, da década de 90, na região de Al-Ula, um deserto da Arábia Saudita com cidades muradas e sítios arqueológicos. Um lugar de silêncio e isolamento, com poucas famílias residentes. Norah é uma jovem que luta para sair da condição social que lhe foi imposta; ela mora numa aldeia de tendas em Al-Ula, numa sociedade patriarcal extremamente opressora. A arte também é proibida. Cercada por mulheres vestindo hijab (véus), ela começa a mudar de comportamento ao se aproximar de um professor de artes. Por meio da arte ela tenta se libertar daquele mundo hostil, regido pelos homens. Com diálogos explicativos sobre aquele cenário complexo da protagonista e uma fotografia esplêndida da região desértica da Arábia, o drama saudita é inspirador e necessário, também provocador, que denuncia a dura condição da mulher no país em questão. Dirigido e roteirizado pelo cineasta saudita Tawfik Alzaidi, com um trabalho extraordinário de estreia da atriz principal, Maria Bahrawi, na época com 28 anos e moradora de Al-Ula.
 

 
Por inteiro
 
Lançado em 2024 em festivais como BFI Londres e Toronto, chega agora à AppleTV essa coprodução EUA/Reino Unido, uma fita de drama bem realizada, que se passa num futuro próximo. Assinada pelo diretor e roteirista William Bridges, habituado ao mundo scifi - escreveu episódios de ‘Black Mirror’ e de uma série que levou a este filme, ‘Soulmates’ (2020). Num futuro nada tão tecnológico, que mais parece dias atuais, um homem e uma mulher (Brett Goldstein e Imogen Poots) resolvem participar de um teste que define se serão almas gêmeas. A novidade tornou-se prática comum entre pessoas que se conhecem, para saber se o relacionamento dará certo. Eles se apaixonam enquanto aguardam o resultado do teste. Será que pode haver amor entre aquele casal mesmo se a tecnologia apontar incompatibilidade? Os dois atores têm afinidade e entregam um bom trabalho, com momentos alternando entre humor e drama, numa luta eterna de se manter juntos. A discussão central do longa é o quanto a tecnologia pode definir quem somos. Apesar de não ser tão original, é cativante e surpreende. O ator Brett Goldstein escreveu o roteiro com o diretor.
 

 
Casa de dinamite
 
Desde quinta passada estreou em salas alternativas o novo filme da diretora Kathryn Bigelow, produção da Netflix que entra no catálogo no dia 24/10. Ela retorna com tensão ao tema terrorismo depois de seus dois marcantes e excelentes trabalhos, o Oscarizado ‘Guerra ao terror’ (2008) e ‘A hora mais escura’ (2012). Agora não é mais os Estados Unidos invadindo o Oriente Médio atrás de terroristas e sim um ataque iminente a bombas ao próprio território. O filme acompanha três pontos de vista na controversa e atual conjectura política norte-americana; em 18 minutos mísseis vindos não se sabe de onde cairão sobre Chicago, e a Casa Branca junto com forças de segurança precisará agir. São três núcleos de personagens que correm contra o tempo após a mudança de agenda: os agentes da Inteligência (Rebecca Ferguson e outros), o secretário de Defesa (Jared Harris) e o presidente dos EUA (Idris Elba). A construção do thriller corta e volta para esses grupos de pessoas, aturdidos com a alta probabilidade de destruição do país. Cada grupo negocia entre eles, procuram descobrir a nação inimiga que fez os ataques, tentam destruir os mísseis antes de cair em solo americano. É um filme angustiante de corrida contra o tempo, feito para tensionar, como nos filmes de Bigelow – e lembrando que seus filmes são sempre pessimistas. Montagem impecável e trilha sonora de arrepiar, de premiados com o Oscar, respectivamente do australiano Kirk Baxter, de ‘A rede social’ (2010), e do alemão Volker Bertelmann, de ‘Nada de novo no front’ (2022). Indicado ao Leão de Ouro, deve ser finalista do Oscar 2026 – ainda tem aparições rápidas no elenco de Tracy Letts, Gabriel Basso, Anthony Ramos, Greta Lee, Willa Fitzgerald e Jason Clarke.
 

 
Depois da caçada
 
Dividindo opiniões, o novo filme de Luca Guadagnino, de ‘Me chame pelo seu nome’ e ‘Queer’, segue em cartaz nas salas brasileiras (com distribuição da Sony Pictures), após première no Festival do Rio. Exibido em Veneza, onde concorreu ao Queer Lion, traz atuações soberbas de Julia Roberts e Ayo Edebiri, que se envolvem num jogo de gato e rato que já se tornou memorável. Eu estou do lado dos que gostaram, achei a trama um negócio arrebatador, sustentado pelas reviravoltas e ambiguidades. Nunca sabemos quem é vilão e quem está certo. Julia interpreta Alma, uma professora universitária da área de Filosofia, inteligente e dedicada, que faz de sua casa um ponto de encontro de intelectuais - seus alunos da faculdade e professores, por exemplo. Lá frequenta o professor Hank (Andrew Garfield), que é seu colega de trabalho, e uma aluna brilhante, Maggie (Ayo Edebiri), assumidamente lésbica. No dia seguinte a uma noite regada a vinhos e conversa intelectualizada, uma notícia cai como uma bomba: Hank é acusado de ter abusado Maggie. As versões de Hank e Maggie se chocam e se contradizem, e Alma fica no fogo cruzado sem saber em quem acreditar, colocando seu cargo em risco. Após uma abertura chatinha e arrastada de 15 minutos, o filme se transforma num jogo cruel que vira um caça às bruxas no ambiente universitário, feito com agilidade por Luca. Um roteiro brilhante, com atuações magistrais, incluindo Michael Stuhlbarg, como o marido de Julia, um psicólogo, e Chloë Sevigny como a médica do campus – que deveria ter tido melhor aproveitamento na trama, já que nas pequenas cenas que aparece, rouba tudo. Num dos bons trabalhos recentes da carreira, Julia encarna um papel dúbio, uma mulher que guarda segredos e não se abre para ninguém. Um filmão sobre jogos de poder e de como destruir reputações. Assistam nos cinemas.



terça-feira, 14 de outubro de 2025

Especial de cinema

 
Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 1
 
Totto-chan – A menina na janela
 
Chega às salas uma pequena joia do atual cinema de animação japonesa, que venceu prêmio especial no Annecy Awards, considerado o Oscar infantil. As animações do Japão são apreciadas também pelos adultos, com histórias de vida e superação, como esta aqui, e que vai além do que se produz nos estúdios Ghibli. Conhecemos a trajetória de uma garotinha de sete anos chamada Totto-chan, expulsa da escola por ser agitada demais. Ela é matriculada então em uma nova instituição de ensino, a Tomoe Gakuen, que dá liberdade aos estudantes para que sejam independentes. Lá criará fortes vínculos com amigos e o diretor. Só que o mundo vivencia dias turbulentos, que precedem a entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial. É uma graça os traços técnicos do filme, como se fosse uma delicada pintura, e o aprendizado da menina Totto-chan com lições de solidariedade nos faz refletir. Inspirado no livro de memórias da atriz e apresentadora de TV Tetsuko Kuroyanagi, atualmente embaixadora da Unicef. Direção de Shinnosuke Yakuwa, realizador de animes, como a adaptação do mangá ‘Doraemon’ para TV e cinema. Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2023, o filme está nos cinemas com distribuição pela Sato Company.
 

 
Ruídos
 
Terror com suspense sul-coreano modesto, que dá medo para quem curte histórias sobrenaturais, ainda mais se assistir no escurinho dos cinemas – o filme acaba de estrear nas salas brasileiras pela A2 Filmes. Na trama, uma jovem com deficiência auditiva investiga por conta própria o sumiço da irmã após uma visita ao seu apartamento. Aos poucos um som estranho entra em seus ouvidos, de maneira inexplicável, e ela começa a pressentir algo maligno ao entorno. Recorre então ao namorado da irmã para ajudá-la na busca. Cada passo da personagem a levará a um segredo do passado de sua família que vai se relacionando àquele desaparecimento. Sob influência do J-horror, o horror japonês com assombrações, é um filme de pura atmosfera, muito sombria, que prende e nos deixa apreensivo para sabermos o desfecho. Os sussurros e vultos surgem como jumpscares. Exibido no Festival de Toronto, conta com boa fotografia e efeitos sonoros que conduzem o clima de suspense.
 

 
Praia do silêncio
 
Em cartaz nos cinemas de São Paulo o longa-metragem independente dirigido por Francisco Garcia que trata da incomunicabilidade na relação entre um pai e uma filha. Ele, um professor aposentado (André Gatti), que mora solitariamente em um trailer na mata; ela, uma jovem surda (Ana Abbott), apegado a livros, que foi abandonada pelo pai há duas décadas. Com a morte da mãe, os dois, de forma simbólica, tentam retomar o contato, abrindo velhas feridas do passado. A lembrança da esposa morta o atormenta, assim como a ausência da figura paterna angustia a jovem. Um drama familiar sobre o vazio nas relações, com foco em dois personagens solitários, que não conversam entre si, vivem em seus mundos próprios e que tentam uma improvável reconciliação. Exibido na Mostra Internacional de Cinema de 2022, o filme chega somente agora nos cinemas, pela Kajá Filmes.
 

 
Espiral
 
Mais um drama independente brasileiro estreia nos cinemas – em poucas salas, a maioria no Rio Grande do Sul, onde o filme foi produzido. Em ‘Espiral’, o contexto é a indústria calçadista de Novo Hamburgo (RS), polo nacional na produção de sapatos, situada na região metropolitana de Porto Alegre. Ali duas gerações de uma mesma família que cresceu em uma casa de campo nos últimos 40 anos serão atravessadas por segredos, perdas e afetos. Entre 1982 e 2022 a história é narrada, em momentos atuais e flashbacks, marcadas pela expansão dos negócios no mundo calçadista. O diretor Leonardo Peixoto vivenciou parte da época tratada no filme e para compor esse panorama entrevistou moradores da cidade de Novo Hamburgo, onde ele reside. Fez um filme bem modesto, sem emoção alguma, em que falta um desenvolvimento mais coeso. Esperei mais, já que a ambientação era interessante, mas o filme é esquecível... Produzido pela Convergência Produtora, com coprodução da Bactéria Filmes e Sala Filmes e produção associada da Melancia Filmes. Distribuição nos cinemas pela Contágio.



segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Especial de cinema

 
Festival do Rio: bons filmes para acompanhar – parte 5
 
A repescagem da 27ª edição do Festival do Rio continua até o dia 16/10. Neste ano, o festival exibiu mais de 300 filmes de 85 países, muitos deles em première. Vitrine do cinema brasileiro e um dos festivais mais importantes do país, o Festival do Rio, criado em 1999, é apresentado pelo Ministério da Cultura, Shell e Prefeitura do Rio. Confira abaixo dois bons filmes que conferi no festival e recomendo, e em breve ambos estreiam nos cinemas brasileiros.
 
 
Sonhos
 
O cineasta autoral mexicano Michel Franco não faz concessões em seus filmes; é um diretor de mão pesada, que cria personagens densos e finais amargos. Tem renome no circuito independente e em festivais de cinema, já premiado em Cannes e Veneza. Franco acaba de lançar mais uma fita de drama que nos angustia, na linha dos seus dois últimos trabalhos, ‘Sundown’ (2021) e ‘Memória’ (2023). Nada é o que aparenta neste filme adulto, já que a sinopse divulgada por aí tenta aproximar a obra de um romance água com açúcar – definitivamente não o é. Jessica Chastain interpreta uma socialite de São Francisco que vive em viagem à Cidade do México, onde tem seus negócios e uma casa para curta temporada. Envolve-se com um jovem bailarino mexicano, trinta anos mais novo (Isaac Hernández), que atravessa a fronteira, abandonando os pais para viver ao lado dela. A mulher sai escondida com o rapaz, ocultando o relacionamento de todos ao seu redor. Até que uma crise entre os dois ameaçará não só o relacionamento como a fortuna que ela ergueu. O drama é praticamente os últimos dias desse casal, entre idas e vindas, e a crise instalada que vai destruindo a vida de ambos, principalmente a da mulher, que entra num ciclo de destruição e subserviência com a falta do namorado. Como nos indigestos ‘Depois de Lúcia’ (2012) e ‘Nova ordem’ (2020), o desfecho do novo Franco é de um amargor assustador – sempre recorrendo a cortes secos que já pulam para os créditos finais. Os dois atores, Jessica Chastain e Isaac Hernández, entregam performances soberbas, as cenas de briga e sexo entre eles são ousadas e bem gravadas. Gostei do filme e recomendo. Exibido no Festival de Berlim, onde concorreu ao Urso de Ouro, estreia nos cinemas brasileiros dia 30/10 pela Imagem Filmes.
 

 
Morra, amor
 
Outro filme denso, de uma protagonista feminina em crise, é o aguardado ‘Morra, amor’ (2025), novo longa da cineasta britânica Lynne Ramsay, que apresenta obras complexas, de muitos significados e complexidades nos personagens. Vejo este como o encerramento de uma pequena trilogia, iniciada com ‘Precisamos falar sobre o Kevin’ (2011) e seguida de ‘Você nunca esteve realmente aqui’ (2017). Nos três os protagonistas enfrentam uma cruel batalha interna, ameaçando a própria imagem e identidade. Em ‘Morra, amor’ (um título forte, ambíguo), Jennifer Lawrence explode em cena, num papel que vai aos extremos, tornando-se forte candidata ao Oscar 2026; ela é Grace, uma jovem mãe, que acaba de ter um bebe com o marido, e ambos deixam a cidade grande para morar no campo, numa casa de fazenda de um tio falecido dele, em Montana. Aspirante a escritora, não consegue mais desenvolver seus textos devido a um bloqueio criativo. E também porque enfrenta um inferno astral com a bipolaridade, intensificada por uma depressão pós-parto. Ela cuida sozinha do nenê e de um cachorrinho que ele trouxe para casa; o marido trabalha fora, chegando tarde da noite; a sogra tenta se aproximar dela, só que o temperamento agressivo de Grace a afasta de amigos e da família, vivendo cada vez mais em isolamento e perdendo a sanidade. Há momentos duros de acompanhar, nas cenas da protagonista em crise, quando aos berros destrói banheiros e quebra tudo em casa. Depois da tormenta, a paz... – Lawrence equilibra, sem exageros, os altos e baixos dessa personagem complexa, um trabalho voraz da atriz, difícil de ser feito. Robert Pattinson faz o marido, Sissy Spacek está super bem como a sogra e Nick Nolte faz uma ponta como o sogro doente. É um drama contundente que nos atravessa e, no fim, somos engolidos pela história. Atenção aos detalhes sonoros imprevisíveis, com sons de natureza misturados a música de rock antigo e vidros se estilhaçando nas crises da personagem. Baseado no livro homônimo da escritora argentina Ariana Harwicz, com roteiro de Ramsay em parceria com outras duas roteiristas, conta com um desfecho simbólico que deu origem à nova capa do filme, na floresta incendiada. Rodado em 35mm, com proporção de tela cortada nas laterais, como se fosse em formato de TV. Indicado a Palma de Ouro em Cannes, tem previsão de estreia nos cinemas em 07/11 e a seguir na Mubi.



sábado, 11 de outubro de 2025

Especial de cinema

 
Festival do Rio: bons filmes para acompanhar – parte 4
 
A 27ª edição do Festival do Rio termina amanhã, dia 12/10, porém haverá, como de praxe, a repescagem – entre os dias 13 e 16/10. Neste ano foram exibidos mais de 300 filmes de 87 países, muitos deles em première. Vitrine do cinema brasileiro e um dos festivais mais importantes do país, o Festival do Rio, criado em 1999, é apresentado pelo Ministério da Cultura, Shell e Prefeitura do Rio. Confira abaixo mais títulos que conferi no festival e recomendo.
 
 
Conselhos de um serial killer aposentado
 
Vencedor do prêmio do público no Festival de Tribeca de 2024, este é o primeiro filme americano do diretor turco Tolga Karaçelik, que lá em sua terra fez fitas policial e comédia ousadas. Aqui ele junta os dois gêneros e salpica pitadas de horror, num resultado mega curioso, que merece atenção. Na mirabolante trama, um escritor com bloqueio criativo (John Magaro, de ‘Amores materialistas’) se aproxima de um homem que descobre ser um assassino aposentado (Steve Buscemi, de ‘Fargo’). O encontro casual se transforma numa amizade, e da noite para o dia o velho serial killer vai ajudar o escritor com conselhos terapêuticos para casais em crise. A relação entre os dois se transforma numa espécie de pesadelo – que nunca sabemos como vai terminar. Com humor ácido e por vezes macabro, o filme é marcado por bons diálogos e um crescente clima de tensão – ainda mais quando surge na história a esposa do escritor, interpretado pela vencedora do Emmy Britt Lower, num papel excepcional. Buscemi, especializado em vilões, arrasa no papel-título, um serial killer que se transforma, sem querer, em terapeuta. Ainda haverá sessão hoje no Festival do Rio, dia 11, e na repescagem, no dia 13. Estreia nos cinemas brasileiros pela Synapse Distribution a partir do dia 16/10.
 


O pavão
 
Exibido na Semana da Crítica do Festival de Veneza de 2024, a produção Áustria/Alemanha, da Mubi, é uma comédia dramática cult que marca a estreia em longa-metragem do roteirista e diretor Bernhard Wenger – que demonstra ter boas ideias. O alemão Albrecht Schuch, ator de ‘Transtorno explosivo’ e ‘Nada de novo no front’, protagoniza como Matthias, um rapaz que tem um emprego inusitadíssimo: ele é diretor de uma agência de aluguel de amigos chamada ‘MyCompanion’. E também é o funcionário do próprio negócio – apesar de tímido, ele assume o papel que seus clientes contratam, como um namorado, um motorista ou um colega de treino de academia. Mudando constantemente de personalidade para satisfazer as pessoas que precisam de alguém, Matthias agora precisa autoafirmar a própria identidade. É um barato esse filme que estreou no Festival do Rio, uma sátira social sobre alguém em busca de aprovação na era da rede social – e que por causa disso, deixa o seu ‘eu’ de lado. A comédia rola solta e rimos muito porque o ator é bom, fazendo o filme acontecer. Terá ainda uma última sessão no festival amanhã, dia 12. E a partir de amanhã entra na Mubi, para assinantes.
 

 
O estrangeiro
 
François Ozon, aclamado diretor francês que realiza até dois filmes por ano, fez uma belíssima e atualizada versão para o cinema do clássico livro ‘O estrangeiro’, de Albert Camus, publicado originalmente em 1942. Ultimamente Ozon roda seus filmes em PB e aqui repete a dose, recorrendo a uma fotografia de brilhar os olhos – situada na Argélia da década de 30, quando ainda colônia da França. Observador, Meursault (Benjamin Voisin, que trabalhou com o diretor em ‘Verão de 85’) é um rapaz fechado em seu mundo próprio, sem empatia pelos outros. Faz sexo com uma jovem e diz a ela que não sente atração nem desejo por ninguém. Num dia de sol, comete um assassinato na praia e vai para julgamento. Pensativo sobre a morte recente da mãe, ele se põe a questionar seus feitos, trancado numa cela enquanto aguarda seus dias finais – já que ele pode ser guilhotinado, caso seja culpado pelo crime. Tanto livro quanto a versão de Ozon trabalham temas comuns no universo de Camus, como alienação e indiferença ao mundo e aos outros. Filosófico, na linha do existencialismo, é uma obra madura do cineasta, que marca sua nova fase de criação. Voisin, o ator principal, compila a essência do personagem Meursault com seus olhares apáticos e constante desinteresse pelas pessoas que cruzam seu caminho. Sessão na repescagem do Festival do Rio no dia 14/10.
 

 
Madre
 
Saí de queixo caído da sessão esvaziada de ‘Madre’ ontem à noite no Estação Net Rio, pra mim um dos melhores filmes do Festival do Rio deste ano. Que atuação grandiosa de Noomi Rapace, atriz sueca que ainda não recebeu o devido reconhecimento pela carreira. Exibido na seção Horizons do Festival de Veneza deste ano, o drama se inspira na vida de Madre Teresa antes de se tornar ‘de Calcutá’. São sete dias decisivos na vida da religiosa, trancada numa comunidade que fundou, de ajuda aos pobres na Índia, enquanto aguarda a liberação do Papa para froamlizar sua congregação de irmãs missionárias. Serão sete dias onde conheceremos Teresa e suas complexidades – o trabalho árduo nas ruas levando comida aos esfomeados, curando feridas dos andarilhos e um conflito com uma noviça em que questionará a fé e a moral da igreja. Nascida na Macedônia do Norte e de família albanesa, Madre Teresa tornou-se símbolo da Igreja Católica e da justiça social. Rapace entrega um trabalho perfeito com os altos e baixos da madre, com humanidade e sensatez. Não é uma cinebiografia tradicional, os lances originais estão na estética criada pela diretora, natural da terra de Madre Teresa, a macedônia Teona Strugar Mitevska, de ‘Deus é mulher e seu nome é Petúnia’ – ela escreve e dirige com uma linguagem peculiar, captando ângulos imperfeitos, por baixo e por cima, colocando a atriz fora do quadro, cortando o rosto dela, algumas cenas em stop-motion com trilha de rock e por aí vai. Um filmão que merece exibição nos cinemas. Ainda em exibição no Festival do Rio no dia 12/10.


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Especial de cinema

 
Festival do Rio: bons filmes para acompanhar – parte 3
 
A 27ª edição do Festival do Rio continua até domingo, dia 12 de outubro, na capital carioca, trazendo mais de 300 filmes para o público. Dentre os títulos, longas premiados nos principais festivais do mundo, como Cannes, Sundance, Veneza e Berlim, e alguns pré-selecionados ao Oscar de 2026. Ontem foi anunciado que entre os dias 13 e 18/10 haverá a repescagem do festival – programação já disponível no site oficial do evento e nas redes sociais.
Vitrine do cinema brasileiro e um dos festivais mais importantes do país, o Festival do Rio, criado em 1999, é apresentado pelo Ministério da Cultura, Shell e Prefeitura do Rio. Tem patrocínio master da Shell através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e apoio especial da Prefeitura do Rio – por meio da RioFilme, órgão que integra a Secretaria Municipal de Cultura. Realização: Cinema do Rio e Ministério da Cultura/Governo Federal. Confira abaixo mais títulos que conferi no festival e recomendo.
 
 
Uma mulher diferente
 
A diretora e roteirista francesa Lola Doillon retorna ao cinema quase 10 anos depois do lindíssimo ‘A viagem de Fanny’ (2016) e de uma temporada extensa na TV. Em 'Uma mulher diferente', escreveu e dirigiu uma curiosa trama romântica que trata do autismo por outro prisma, sem ser piegas ou com personagens sofredores. Recorrendo ao fino humor, o filme mostra uma pesquisadora atuante no mercado de documentários que tem um relacionamento morno com seu companheiro. Quando aceita um novo trabalho de pesquisa, recebe o diagnóstico de autismo, o que para ela é ao mesmo tempo libertador e assustador. Ela então lidará com tudo ao mesmo tempo: saúde mental, equilíbrio profissional, o romance com seu namorado e as cobranças do novo job. É uma comédia romântica sobre tomada de decisões a partir das reviravoltas inesperadas da vida, conduzida com sensibilidade pela atriz principal, num forte papel feminino feito com maestria pela atriz Jehnny Beth, de ‘Anatomia de uma queda’ (2023). É bem dosado o momento de humor com as sequências que exigem mais seriedade, principalmente quando envolve o transtorno da protagonista. Ainda em exibição no Festival do Rio nos dias 11 e 12/10. A partir do dia 16/10, o longa chega aos cinemas pela Autoral Filmes.
 

 
Reconstrução
 
O ator britânico Josh O’Connor está no auge da carreira, atuando tanto em filmes independentes de cineastas cultuados quanto em grandes produções. Entre 2023 e 2025 pode ser visto em ‘La chimera’, ‘Lee’, ‘Rivais’, no também exibido no Festival do Rio ‘The mastermind’, e logo em ‘A história do som’ e ‘Vivo ou morto: Um mistério Knives Out’. Ele protagoniza este pouco conhecido ‘Rebuilding’, aqui traduzido por ‘Reconstrução’ (título temporário), interpretando, novamente com sensatez e carisma, um pai divorciado que mora em um acampamento para quem perdeu suas terras nos recentes incêndios florestais que devastaram parte dos Estados Unidos. Em uma comunidade de trailers, convive com outros moradores que estão na mesma situação, à espera da recuperação de seus ranchos. Pouco a pouco, de maneira silenciosa, ele reconstrói o que perdeu, enquanto se reconecta com a ex-mulher e a filha pequena. Rodado no Colorado, nas paisagens de planaltos e desertos – aliás, uma bonita fotografia, o filme aborda um tema muito explorado no cinema, a reconstrução diante da perda, mas aqui com um contexto de uma preocupação social, o dos incêndios florestais que vem maculando regiões inteiras do interior americano. Josh marca bem sua performance, e temos participação da atriz Amy Madigan. Exibido nos festivais de Sundance e São Francisco. Sem sessões no Festival do Rio.
 
 
O primata
 
Um terrorzão assustador invade as telas do Festival do Rio. Vi ontem numa sessão bem tarde da noite, com 20 pessoas na sala, este ‘O primata’, que teve poucas exibições no festival e já tem data para estrear no Brasil: em 08 de janeiro de 2026, pela Paramount Pictures. Nos anos 80 o cinema americano já tinha utilizado o macaco como criatura assassina, em ‘Link’ e ‘Shakma’; agora é um chimpanzé de estimação aparentemente bonzinho que comanda uma intensa história de horror, angústia e aprisionamento. Ele é Ben, criado desde pequeno em uma família de pesquisadores, numa bela casa no Havaí; no local moram o pai, surdo, e suas duas filhas. Certo dia, uma das meninas, de férias da faculdade, convida um grupo de amigas para passar o fim de semana na piscina; ninguém desconfia, mas o primata foi mordido por um roedor e contrai raiva. Naquela noite Ben se torna uma máquina de matar. Quando o macaco demonstra sua fúria, todos se isolam na piscina, único lugar que Ben não entra – por causa da hidrofobia, um dos sintomas da raiva. É um filme de sobrevivência em um lugar pequeno e apertado (a piscina) – boa parte do filme os personagens ficam submersos na água se protegendo do bicho furioso. Fotografia escura que incomoda, mortes cruéis e um macaco com expressões assustadoras trazem todo o clima de tensão que a fita exige – da metade para o fim é um filme de escapada, e os personagens vão morrendo um a um. Ganhador do Oscar de ator coadjuvante por ‘No ritmo do coração’ (2021), Troy Kotsur, que é surdo, faz o pai das meninas e criador do macaco, único que consegue corrigir o chimpanzé. Direção de Johannes Roberts, conhecido por seu trabalho em ‘Medo profundo’ (2017).
 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Especial de cinema

 
Festival do Rio: bons filmes para acompanhar – parte 2
 
A 27ª edição do Festival do Rio continua até o dia 12 de outubro na capital carioca, trazendo mais de 300 filmes para o público. Dentre os títulos, longas premiados nos principais festivais do mundo, como Cannes, Sundance, Veneza e Berlim, e alguns pré-selecionados ao Oscar de 2026. Vitrine do cinema brasileiro e um dos festivais mais importantes do país, o Festival do Rio, criado em 1999, é apresentado pelo Ministério da Cultura, Shell e Prefeitura do Rio. Tem patrocínio master da Shell através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e apoio especial da Prefeitura do Rio – por meio da RioFilme, órgão que integra a Secretaria Municipal de Cultura. Realização: Cinema do Rio e Ministério da Cultura/Governo Federal. Confira abaixo mais títulos que conferi no festival e recomendo.
 
Couture
 
Angelina Jolie é a estrela do novo filme da cineasta francesa Alice Winocour, de ‘Transtorno’ (2015) e ‘A jornada’ (2019), que acaba de estrear no Festival do Rio – ainda sem data para entrar nos cinemas brasileiros e sem título em português (‘Couture’ significa ‘Alta costura’). Angelina está lindíssima e bem fotografada, interpretando o papel de uma diretora de cinema que viaja a Paris para filmar a temporada do Fashion Week. Enquanto prepara o estúdio e as modelos, aguarda ansiosamente os resultados de um exame médico que fez nos Estados Unidos (de câncer). Os fragmentos da trajetória dessa mulher se entrelaçam com os de outras duas personagens femininas: uma modelo sul-sudanesa de 18 anos (Anyier Anei), que está no mesmo evento, em seu primeiro trabalho na passarela, e uma maquiadora (Ella Rumpf) que trabalha sem descanso. Cada uma a seu modo enfrenta os incansáveis dias da Semana de Moda ao mesmo tempo em que lidam com questões íntimas. Um bonito e correto filme sobre o universo feminino no mundo da moda, energicamente interpretado pelo trio central de atrizes. No elenco vemos Vincent Lindon como um médico e Louis Garrel como o par romântico de Angelina. Selecionado para a competição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián 2025, foi exibido nos festivais de Toronto e Roma. Ainda em exibição do Festival do Rio nos dias 10 e 12/10.
 

 
Alpha
 
Depois de despontar no cinema francês com seus filmes visceralmente violentos e indigestos, Julia Ducournau retorna ao body horror neste trabalho mais pessoal, com menos sangue e com alta carga de densidade dramática. Exibido em Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro e ao Queer Palm, o filme faz uma alegoria a Aids ao contar a história de Alpha (Mélissa Boros), uma garota de 13 anos que mora com a mãe, uma médica (Golshifteh Farahani) que cuida de pacientes com uma estranha doença, um vírus transmissível que os transforma em mármore. A cidade registra uma epidemia desta doença cruel, que petrifica as vítimas. Certo dia, Alpha retorna para casa com uma tatuagem no braço, que infecciona. Ela passa a ser cuidada pela mãe e por um tio usuário de drogas, Amin (Tahar Rahim – num papel assustador, em que perdeu bastante peso). Alpha sofre bullying na escola devido àquela inflamação no braço, que sangra a todo momento. Ela também se apaixona por um colega de classe. Não é tão chocante quanto ‘Grave/Raw’ e ‘Titane’, pra mim os dois melhores trabalhos de Ducournau, porém ainda impacta nos causando desconforto. Os elementos visuais são um destaque a parte tanto aqui quanto em seus outros filmes, uns bizarros e outros trágicos. Ainda em exibição do Festival do Rio no dia 10/10.
 

 
Valor sentimental
 
Mais um filme da Mubi que teve sessões lotadas no Festival do Rio e é forte candidato ao Oscar de 2026 – acho que receberá indicações de filme estrangeiro, diretor, roteiro original e elenco (Renate Reinsve, Stellan Skarsgård e Elle Fanning, que estão formidáveis). Produção Noruega/Suécia do renomado diretor e roteirista dinamarquês Joachim Trier, de ‘Oslo, 31 de agosto’ (2011), ‘Thelma’ (2017) e ‘A pior pessoa do mundo’ (2021), é um filme de drama em torno de duas gerações de uma família ligada ao mundo do cinema. As irmãs Nora e Agnes reencontram o pai distante, Gustav, que no passado foi um exímio diretor de filmes. Ele deve retornar em uma nova produção, que contará com Nora num dos papeis. A filha acaba recusando a proposta, e o trabalho é entregue a uma jovem estrela de Hollywood, que viaja até a casa da família para ler o roteiro. A dinâmica familiar é alterada com a presença da garota americana, que passa a conviver com os problemas diários dos Borg. Um filme de sentimentos aflorados, reconciliação e metalinguagem - em que o mundo do cinema se confunde com o real, num trabalho certeiro do primoroso elenco. Fotografia estupenda, e um Trier que sabe explorar as expressões do elenco, desde os olhares tortos aos gestos corporais que ajudam a entender as angústias de cada integrante daquela família em crise. Vencedor do Grand Prix no Festival de Cannes, foi exibido também nos festivais de Locarno, Toronto e San Sebastián. Ainda em exibição do Festival do Rio nos dias 10 e 12/10.
 

 
The mastermind
 
Drama com elementos de suspense que acompanha a ascensão no mundo do crime de um ladrão de quadros na Nova Inglaterra dos anos 70. Josh O’Connor vem brilhando em filmes como ‘Rivais’ e ‘La Chimera’, e aqui bem interpreta o protagonista, um ágil criminoso amador que tem bom gosto e sabe como ninguém surrupiar objetos de arte em museus. Ele é o ‘cabeça’, o ‘mastermind’ de um pequeno grupo de assaltantes – na verdade três, sendo ele e dois atrapalhados comparsas. Ele tem uma família e até utiliza um dos filhos para ajudar nos atos infracionais. Não fica claro o período que transcorre a trama, porém reconhecemos os anos 70 pelo contexto da Guerra do Vietnã e do movimento hippie que aparece nos diálogos e em sinais dos figurantes; aliás, boa composição de direção de arte e figurinos. A fotografia de época com paletas de cores suaves é uma excelência artística da cineasta autoral e que vem do cinema independente Kelly Reichardt, a mesma de ‘Movimentos noturnos’ (2013) e ‘First cow’ (2019). Josh está muito bem, num de seus melhores trabalhos no cinema, ao lado de um elenco afinado, mesmo em participações especiais, como Alana Haim (como a esposa), Hope Davis e Bill Camp (que interpretam os pais dele). Observo muito o design dos créditos, e o de abertura, aqui, todo verticalizado, é o máximo. Lançamento da Mubi em parceria com a Imagem Filmes, tem mais uma exibição no Festival do Rio, no dia 12/10. Estreará nos cinemas em 16/10 e mais pra frente na plataforma da Mubi.
 

 
Órfão
 
Um dos filmes mais emocionantes exibidos no Festival do Rio, o complexo drama biográfico húngaro disputa uma vaga na categoria de filme estrangeiro no Oscar 2026. Também produção da Mubi, traz a desafiadora jornada de um garoto judeu chamado Andor na Budapeste do fim dos anos 50. Ele mora sozinho com a mãe, não sabe quem é seu pai e, decidido a encontrar uma resposta, sai em busca de seu paradeiro. Os dias serão cansativos e cruéis, já que a sociedade em que ele vive é cerceada e vigiada, após uma longa revolta contra o regime comunista. Até que o menino recebe uma informação preciosa – de que seu pai possa ser um açougueiro violento, ligado ao comunismo e que coordena um grupo da resistência clandestina – uma performance fenomenal do ator francês Grégory Gadebois. Assista com atenção redobrada nos diálogos, pois são infinitas as informações que vão chegando sobre esses personagens repletos de camadas e situações de encontros e desencontros. Indicado ao Leão de Ouro em Veneza, é assinado pelo diretor húngaro László Nemes, de ‘O filho de Saul’ (2015), que ganhou o Oscar de filme estrangeiro – repare que ele utiliza aqui a mesma fotografia em tom de amarelo e cinza. Ainda em exibição do Festival do Rio no dia 12/10.



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