quarta-feira, 1 de maio de 2019

Resenha Especial



 Fernão Capelo Gaivota

Uma gaivota de nome Fernão Capelo é rejeitada pelo bando por querer voar mais alto que todas as aves. Sozinha, parte para um novo grupo de gaivotas em outro território onde aprenderá importantes lições de vida.

Escrito e dirigido pelo cineasta independente Hall Bartlett, esta visionária fita de arte, difícil de ser realizada, ganhou em 1974 o Grammy de melhor álbum, produzido exclusivamente para o filme, de Neil Diamond (uma de minhas trilhas de cinema favoritas). É uma espécie de National Geographic poético, só com cenas áreas de uma gaivota voando pelos céus, desbravando territórios e mergulhando no mar, com uma narração off sobre o sentido da vida, repleta de pequenos significados.
O filme saiu três anos depois da publicação da obra homônima de Richard Bach, um clássico mundial que influenciou gerações de leitores, que continha traços biográficos do autor (Bach era piloto da Força Aérea Americana, por isto quase todos seus livros envolviam voos, acrobacias, aventuras no ar etc).
O personagem Fernão seria Bach, ao mesmo tempo que a gaivota assume um perfil divinal, quase um Deus, para nos falar sobre liberdade, coragem, determinação, aprendizado e novos rumos da vida.
Assim como no livro o filme possui três partes: a primeira, com Fernão inconformado com as limitações das aves de seu bando, e por testar acrobacias e voos altos é repreendido pelo líder e posteriormente banido do grupo. A segunda parte acompanha as adaptações de Fernão num outro bando de gaivotas, aprendendo a se autoconhecer e entender os desígnios de seu coração; e na terceira e última parte, Fernão retorna para o velho grupo perdoando quem o baniu e ensinando o que aprendeu. Tudo é mostrado sob o ponto de vista da gaivota, ou seja, em primeira pessoa, inclusive seus pensamentos, que compõe uma fascinante obra de cinema autoral.
Para alguns pode parecer lento, parado, mas é assim mesmo, um filme de arte para ser apreciado com o coração.


O ator James Franciscus dubla Fernão; além dele, astros famosos emprestam a voz, como Richard Crenna, Juliet Mills e Dorothy McGuire.
O filme ganhou também o Globo de Ouro de trilha sonora e foi indicado a dois Oscar (fotografia e edição). Sobre o álbum, adoro a música “Lonely Looking sky”, indicada ao Globo de Ouro de canção, e tem ainda duas bem bonitas no disco, “Dear father” e “Be”. Apreciem este belo filme e se possível ouçam a trilha!

Fernão Capelo Gaivota (Jonathan Livingston Seagull). EUA, 1973, 99 min. Drama. Colorido. Dirigido por Hall Bartlett. Distribuição: Paramount Pictures

sábado, 27 de abril de 2019

Nota do Blogueiro


Estudos de Cinema 

Lançamento imperdível este "Pensando o cinema moçambicano", um livro de ensaios com 11 textos de autores diferentes, organizado pela Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco (UFRJ). Foi publicado em 2018 pela editora Kapulana, especializada em literatura africana, e possui 152 páginas. A obra literária analisa filmes produzidos em Moçambique entre os anos de 1995 e 2012, resultado de um encontro durante a III Mostra de Cinema Africano na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e de um curso sobre cinema na Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, ministrado pela professora Carmen Lúcia na mesma instituição (ambos ocorridos em 2017). Dentre os curtas e os longas-metragens apresentados no livro estão "A árvore dos antepassados", "Virgem Margarida", "O búzio" e "Terra sonâmbula".
Obrigado, equipe da Kapulana, pelo envio do exemplar. :)



sexta-feira, 26 de abril de 2019

Resenha Especial



Mulheres divinas

Em 1971, em um vilarejo na Suíça, um grupo de mulheres liderado pela dona de casa Nora (Marie Leuenberger) aproxima-se dos ideais do Feminismo, que aflorava pelo mundo. Elas dão start a mudanças essenciais na sociedade, visando ampliar a voz das mulheres, especialmente reivindicações pelo voto feminino. Pela frente irão se esbarrar em preconceito, chacota e ameaças.

Representante da Suíça para disputar cadeira no Oscar de filme estrangeiro em 2017, este maravilhoso filme de arte não entrou na lista dos cinco finalistas. Um drama leve, humano, bem-humorado, sobre o movimento feminista na Suíça na década de 70, com foco no sufrágio feminino. Até 1971 na Suíça as mulheres não votavam, e só conquistaram esse direito pela Constituição depois de uma série de reuniões secretas, ampliadas para manifestações pacíficas nas ruas, para reivindicar o voto - os episódios do filme têm embasamentos reais, divulgados pela mídia europeia da época.
Protagoniza “Mulheres divinas” uma excelente atriz, Marie Leuenberger, como Nora, uma dona de casa à mercê do marido, que vive para o lar, cuida dos filhos e recebe ordens do sogro, um senhor preconceituoso. Um dia ouve falar da ebulição cultural que vinha transformando alguns países, como a Contracultura, o Feminismo e o Movimento Hippie. Naquele vilarejo morto onde nada acontecia, ninguém tinha informações sobre tais acontecimentos. Até que é apresentada ao movimento feminista, o que modifica sua mente e a faz quebrar barreiras, juntando uma minoria de mulheres dispostas a contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária.
Em tom de fábula moderna, o filme é um retrato decente de uma época de poderosas transformações culturais no mundo, de como as mulheres deram uma guinada para conquistar espaço na sociedade dominada pelos homens, com discussões pertinentes sobre a atuação da mulher hoje.


O charme da obra está na variação de tipos femininos em cena, mulheres carismáticas, cheias de vida. Numa cena memorável, elas participam de um grupo secreto que as instruem a se tocar e conhecer a anatomia de suas partes íntimas, lugares do corpo que nunca pararam para observar!
Voltada às mulheres, ganhou prêmios no Festival de Tribeca, como atriz, roteiro e um especial de direção (quem dirige é uma mulher, Petra Volpe) e tem uma fotografia deslumbrante do interior gelado da Suíça, que ajuda a dar beleza à obra – o filme foi rodado nos iluminados Cantões Suíços, na região de Appenzell.
Uma fita sensível e necessária, para ser descoberta!

Mulheres divinas (Die göttliche Ordnung). Suíça, 2017, 96 min. Drama. Colorido e Preto-e-branco. Dirigido por Petra Volpe. Distribuição: Mares Filmes

Resenha especial



Crônicas da Tribo Fantasma

Na fronteira da China com a Mongólia, em 1979, exploradores encontram fósseis de estranhas criaturas nas montanhas da região. Um grupo de pesquisa arqueológica é enviada para escavar e auxiliar na investigação. Eles se deparam com uma sucessão de acontecimentos incríveis envolvendo morcegos de fogo, desmoronamentos e a abertura de um portal para um novo mundo.

Sucesso nos cinemas da Ásia, a aventura épica chinesa “Crônicas da Tribo Fantasma” é uma diversão bem bacana, apropriada para públicos que curtem o gênero fantasia, já que no filme há portais para outra dimensão, dragões e muita luta entre humanos e seres fantásticos. Um pouco longo, com trama complexa, a história permeia lugares míticos, como as montanhas de Kunlun, uma das maiores cordilheiras da Ásia, onde pesquisadores descobrem os ancestrais de um povo que habitou a região dez mil anos atrás, chamado de Tribo Fantasma, que tinha relação com alienígenas. Reza a lenda que existiram mesmo e foram dizimados pelos povos que tomaram a Mongólia.


O roteiro foca integralmente os desdobramentos dessa lenda, escrito pelo próprio diretor, Chuan Lu, reconhecido por fitas de ação em sua terra, com colaboração de dois roteiristas americanos (um deles é o diretor Bobby Roth, das séries “Hawaii Five-0”, “Revenge”, “Prison break” e “Grey’s Anatomy”). Para escrever a história se basearam no livro “Ghost blows out the light, de Zhang Muye, alterando boa parte das ações do romance original.
Tem efeitos visuais bem realizados, de criaturas (animais marinhos, morcegos de fogo e até o Demônio de Pagode), uma fotografia estilizada, com cores fortes, figurino adequado dos caçadores e arqueólogos e um elenco de astros e estrelas populares na China, como Mark Chao, Jin Chen, Li Feng, Chen Li e Guangjie Li. Deixo como dica para o final de semana.

Crônicas da Tribo Fantasma (Jiu ceng yao ta). China, 2015, 118 min. Aventura. Colorido. Dirigido por Chuan Lu. Distribuição: Flashstar

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Resenha especial



O programa

Na metade da década de 90, o promissor ciclista norte-americano Lance Armstrong (Ben Foster) vence uma dura batalha contra o câncer e utiliza o esporte como ferramenta de prevenção influenciando milhões de pessoas. Anos mais tarde, adere ao uso de anabolizantes para disputar competições, apontado pela imprensa como líder de um programa de EPO, droga proibida, que o faz ganhar sete vezes consecutivas o famoso Tour de France.

O prestigiado cineasta britânico Stephen Frears, de filmes de época marcantes como “Ligações perigosas” (1988) e “A rainha” (2006), realizou uma fita menor de sua estrondosa carreira, mas muito curiosa, bem produzida e ousada, que refaz a trajetória do discutível ciclista Lance Armstrong. A cinebiografia é baseada no livro do jornalista David Walsh (que desmascarou Armstrong) e divide-se em duas partes: a primeira mostra a superação do esportista quando venceu um câncer que quase o matou, época em que criou uma fundação para combater o câncer infantil - isto deu motivos para continuar seguindo em frente no esporte; e uma segunda parte mais empolgante e derradeira, de quando conheceu o hormônio injetável eritropoietina (EPO), pelas mãos de seu médico, substância proibida que melhorava a performance dos atletas – ele se viciou, por ser um competidor nato injetava altas doses e não bastasse reunia um grupo de esportistas para usar a EPO com ele.


Com atmosfera de denúncia, o filme aponta Armstrong como líder de um esquema de dopping bioquímico. Provas atestam que ele, de 1999 a 2005, ganhou sete vezes o Tour de France por causa das drogas injetadas. Quando descoberto, ele foi banido definitivamente do ciclismo, perdeu títulos notórios e diplomas de honra e teve de devolver os sete prêmios conquistados no Tour de France. Em 2012 confessou a utilização frequente de anabolizantes.
Pouco divulgado no Brasil, o filme tem bastante humor para equilibrar a narrativa. É protagonizado por um personagem difícil de aceitar, controverso, uma junção de mocinho e vilão, uma lenda misturada com farsa e ao mesmo tempo herói, transformado em um monstro pela mídia, e ainda assim continuou reverenciado por uma legião de fãs. O ator Ben Foster ficou parecido com Armstrong debaixo de maquiagem, num de seus melhores papéis no cinema. Além da trajetória dele, outras histórias correm soltam, como a do jornalista David Walsh (Chris O’Dowd) que fica no encalço do ciclista procurando provas sobre o programa de dopping que mais tarde ele revelaria, e a forte relação de Armstrong com o médico Dr. Ferrari (Guillaume Canet, também cheio de maquiagem), que o incentivava no uso dos anabolizantes. E tudo é entrecortado por vídeos reais de competições de Armstrong, numa edição bem movimentada, como se fosse uma corrida de bike. Repare numa rápida passagem do ator Dustin Hoffman. Já em DVD!

O programa (The program). Reino Unido/França, 2015, 99 min. Drama. Colorido. Dirigido por Stephen Frears. Distribuição: Califórnia Filmes

Nota do Blogueiro


"Malorie está remando pelo que parecem ser três horas. Os músculos de seus braços queimam. A água fria balança no fundo do barco, água que ela mesma jogou, pouco a pouco, cada vez que mergulhava os remos. Alguns minutos atrás, a Menina avisou que precisava fazer xixi. A mãe disse que ela podia fazer. Agora a urina da Menina se mistura à água do rio e Malorie sente algo quente batendo em seus sapatos. Está pensando no homem do barco pelo qual passaram".

Trecho do livro "Bird Box - Caixa de pássaros", um best seller mundial, de 2014, que ganhou um boa versão em filme produzido pelo Netflix no final do ano passado, com Sandra Bullock e John Malkovich, também um enorme sucesso de público. No Brasil o livro saiu em 2015 pela editora Intrínseca, e depois teve uma edição especial com luva trazendo na capa uma cena antológica do filme, quando Malorie foge com os filhos por um barco, com os olhos vedados. Esta nova edição saiu em dezembro de 2018 (272 páginas, tradução de Carolina Selvatici).
A trama envolve uma intensa fuga de uma família em busca de sobrevivência, após estranhas manifestações levarem as pessoas ao suicídio. Uma mãe desesperada e seus dois filhos vedam os olhos para não serem contaminados e poder escapar de um mal que os espreita a todo o momento.
O livro é fascinante, e o filme do Netflix, dirigido pela cultuada cineasta dinamarquesa Susanna Bier, segue a mesma linha. Aos fãs do best seller, uma boa notícia: o autor Josh Malerman confirmou presença na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em setembro!
Obrigado, equipe da Intrínseca, pelo envio do exemplar.





terça-feira, 23 de abril de 2019

Resenha Especial


Águas rasas

Nancy (Blake Lively) estuda Medicina e nas horas vagas gosta de surfar. Num dia de sol, viaja sozinha a uma praia deserta no México. O mar está calmo, sem ninguém por perto. Até que Nancy é atacada no meio das águas por um grande tubarão branco. Sem socorro, para sobreviver sobe em uma pedra no meio do mar. Ferida, ela terá de se reinventar para escapar do perigosíssimo animal.

Suspense eletrizante do começo ao fim, com boas doses de ação em alta voltagem, este filme de uma história só, com uma única personagem em foco, é um derivado direto do estrondoso sucesso “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg (o blockbuster setentista gerou imitações infinitas nos anos seguintes, que não chegam nem perto do espetacular resultado de “Águas rasas”).
É um tour-de-force da atriz Blake Lively, sozinha em verdadeiras águas em alto-mar, num de seus papéis de maior destaque (ela não é uma ótima atriz, mas se esforça – muito bonita, é casada desde 2012 com Ryan Reynolds, com quem tem dois filhos). Interpreta a surfista presa numa rocha após um ataque de um tubarão branco mortal. Sem sua prancha, ela está a menos de 200 metros da costa. Debaixo do sol escaldante, cria uma série de planos para escapar de lá, torna-se até “amiga” de uma gaivota machucada, sua única companhia.
Nessa jornada de sobrevivência, há sequências de tirar do fôlego, como o ataque das águas vivas (num espetáculo de cores), tudo captado por uma fotografia magnífica e uma edição parecida com videoclipes, com lances frenéticos de surfe alternando cenas em câmera lenta. Foi todo gravado em praias paradisíacas da costa leste da Austrália, para se parecer com o México, onde a história se passa.


Do produtor e diretor espanhol Jaume Collet-Serra, responsável por quatro fitas de ação com Liam Neeson (“Desconhecido”, “Sem escalas”, “Noite sem fim” e “O passageiro”), “Águas rasas” é o melhor trabalho desse cineasta de alta percepção técnica, que realizou um filme vibrante, em que o público fica agoniado junto da protagonista. Também teve recepção boa de público, além da crítica estrangeira.

Águas rasas (The shallows). EUA, 2016, 86 min. Suspense/Ação. Colorido. Dirigido por Jaume Collet-Serra. Distribuição: Sony Pictures

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