terça-feira, 5 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 4

 
A sombra do meu pai
 
Diretamente da Nigéria chega aos cinemas brasileiros um contundente drama de olhar autobiográfico, feito pelo estreante cineasta Akinola Davies Jr, diretor, roteirista e produtor executivo do longa. Com sensibilidade e mão precisa para contar uma história íntima e profunda, ele resgata, dos fundos da memória, sua infância no interior da Nigéria, e a relação dele com o irmão e a família. Ele mora com o irmão e a mãe na zona rural de uma cidade da Nigéria, até ser estremecido com a vinda inesperada do pai, uma figura enigmática, que retorna para casa depois de longos tempos. Aos poucos o homem se torna presença constante entre os irmãos, e os leva para uma viagem à Lagos, principal cidade do país. Eles chegam em meio ao turbulento cenário político de 1993; a Nigéria (bem como outros países da África) enfrentava agitação política, um período dominado por ditaduras, golpes de Estado e tentativas frustradas de transição democrática. As ruas estão inflamadas, com manifestações por todo canto, e o pai está naquele caos para receber uma dívida. O filme vai muito além da reconstrução de laços familiares, focando na fragilidade de um país em crise. O diretor articula, com magistral maneira de ver o mundo, a ausência paterna com a ausência de estabilidade no cenário social/político/econômico da Nigéria, criando um paralelo entre a busca individual por pertencimento e a busca coletiva por um país justo, democrático e de eleições livres. A escolha de narrar tudo em um único dia intensifica a sensação de urgência daquele reencontro entre filhos e pai ausente, como se o tempo fosse um recurso escasso diante da memória e da perda. Filmado em 16mm, com enquadramentos conceituais, dentre eles closes em rosto e filmagens por trás dos atores, é um filme sobre a busca por identidade individual e a busca por identidade nacional em um país fragmentado. Os meninos são interpretados com extrema naturalidade pelos irmãos reais Chibuike Marvellous Egbo e Godwin Egbo (este faz Akin, abreviação de Akinola, o diretor), e o ator que interpreta Folarin, o pai, é outro artista marcante, Ṣọpẹ́ Dìrísù. A direção de Davies é a alma do filme, um diretor que surgiu com tudo nesse trabalho pessoal feito para emocionar – ele fez anteriormente um curta-metragem exibido em Sundance, “Lizard” (2020), disponível na Mubi. “A sombra do meu pai” venceu o Bafta de melhor diretor estreante, recebeu menção especial no Caméra d’Or no Festival de Cannes e foi premiado em festivais como a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o British Independent Film Award e o Gotham Awards, além de ter sido exibido no Festival de Toronto. Coprodução Nigéria, Irlanda e Reino Unido, está nos cinemas com distribuição pela Filmes da Mostra.


O riso e a faca
 
Chega aos cinemas brasileiros o novo trabalho do proeminente cineasta português Pedro Pinho (de 49 anos), que já teve seus filmes exibidos em festivais como Cannes, Toronto e Munique. A coprodução Portugal, França, Brasil e Romênia é uma saga épica ultracontemporânea, de enorme metragem, 211 minutos (3h31), mais apropriada para público que suporta filmes de arte longos – isso porque é a versão menor, a de cinema, já que o diretor fez uma versão sem cortes, de 330 min (5h30). O filme é uma análise sobre o neocolonialismo, que conta com uma linguagem moderna mesclando ficção e documentário. E também um road movie mágico pelas entranhas da África com toda sua beleza e complexidade. Filmado na Guiné-Bissau em 35mm, o projeto nasceu sem ensaios e com diálogos improvisados, que demorou quase três anos para ser finalizado. Essa demora e lapidação revelam a ambição de construir uma obra épica de cunho íntimo, com cenas demoradas sem cortes, que unem a grandiosidade das paisagens africanas à proximidade dos dramas humanos. A trama acompanha Sérgio, engenheiro português enviado por uma ONG para a África Ocidental para avaliar o impacto ambiental da construção de uma estrada, entre o deserto e a selva. Em meio à missão, ele se envolve com Gui, um rapaz brasileiro, e Diára, mulher de origem cabo-verdiana, formando um triângulo amoroso que funciona como metáfora das tensões entre colonizador e colonizado. Nesse tempo e espaço, o diretor Pedro Pinho capta a essência do neocolonialismo numa África contemporânea, ainda marcada por contradições, articulando temas como imigração, racismo, capitalismo e exploração econômica a dilemas pessoais. O título é inspirado na música “O riso e a faca”, de Tom Zé, lançada em 1970, que chega a ser citada no longa – o filme se apropria dos simbolismos da música, que traduz em palavras as dualidades da vida, das instabilidades nas relações, da alegria (riso) à dor/violência (faca). A atriz cabo-veridana Cleo Tavares (a Cleo Diára) recebeu o prêmio de melhor atriz na Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, neste que é um dos filmes mais desafiadores e corpulentos do ano, falado em seis línguas (português, cabo-verdiano, inglês, francês, espanhol e árabe). No elenco, além da ótima Cleo, tem os atores Sérgio Coragem (português, no papel do engenheiro) e Jonathan Guilherme (brasileiro, que rouba as cenas com um humor impecável – ele é ex-atleta de vôlei, que trocou de profissão, hoje ator e poeta em Barcelona, onde reside). Está nos principais cinemas com distribuição da Vitrine Filmes, em parceria da RioFilme.

Nenhum comentário:

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 4

  A sombra do meu pai   Diretamente da Nigéria chega aos cinemas brasileiros um contundente drama de olhar autobiográfico, feito pelo estrea...