A
sombra do meu pai
Diretamente
da Nigéria chega aos cinemas brasileiros um contundente drama de olhar
autobiográfico, feito pelo estreante cineasta Akinola Davies Jr, diretor,
roteirista e produtor executivo do longa. Com sensibilidade e mão precisa para
contar uma história íntima e profunda, ele resgata, dos fundos da memória, sua infância
no interior da Nigéria, e a relação dele com o irmão e a família. Ele mora com
o irmão e a mãe na zona rural de uma cidade da Nigéria, até ser estremecido com
a vinda inesperada do pai, uma figura enigmática, que retorna para casa depois
de longos tempos. Aos poucos o homem se torna presença constante entre os irmãos,
e os leva para uma viagem à Lagos, principal cidade do país. Eles chegam em
meio ao turbulento cenário político de 1993; a Nigéria (bem como outros países
da África) enfrentava agitação política, um período dominado por ditaduras,
golpes de Estado e tentativas frustradas de transição democrática. As ruas
estão inflamadas, com manifestações por todo canto, e o pai está naquele caos
para receber uma dívida. O filme vai muito além da reconstrução de laços
familiares, focando na fragilidade de um país em crise. O diretor articula, com
magistral maneira de ver o mundo, a ausência paterna com a ausência de
estabilidade no cenário social/político/econômico da Nigéria, criando um
paralelo entre a busca individual por pertencimento e a busca coletiva por um
país justo, democrático e de eleições livres. A escolha de narrar tudo em um
único dia intensifica a sensação de urgência daquele reencontro entre filhos e
pai ausente, como se o tempo fosse um recurso escasso diante da memória e da
perda. Filmado em 16mm, com enquadramentos conceituais, dentre eles closes em
rosto e filmagens por trás dos atores, é um filme sobre a busca por identidade
individual e a busca por identidade nacional em um país fragmentado. Os meninos
são interpretados com extrema naturalidade pelos irmãos reais Chibuike
Marvellous Egbo e Godwin Egbo (este faz Akin, abreviação de Akinola, o diretor),
e o ator que interpreta Folarin, o pai, é outro artista marcante, Ṣọpẹ́ Dìrísù. A direção de Davies é a alma do
filme, um diretor que surgiu com tudo nesse trabalho pessoal feito para
emocionar – ele fez anteriormente um curta-metragem exibido em Sundance, “Lizard”
(2020), disponível na Mubi. “A sombra do meu pai” venceu o Bafta de melhor diretor
estreante, recebeu menção especial no Caméra d’Or no Festival de Cannes e foi
premiado em festivais como a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o
British Independent Film Award e o Gotham Awards, além de ter sido exibido no
Festival de Toronto. Coprodução Nigéria, Irlanda e Reino Unido, está nos
cinemas com distribuição pela Filmes da Mostra.
O
riso e a faca
Chega
aos cinemas brasileiros o novo trabalho do proeminente cineasta português Pedro
Pinho (de 49 anos), que já teve seus filmes exibidos em festivais como Cannes,
Toronto e Munique. A coprodução Portugal, França, Brasil e Romênia é uma saga
épica ultracontemporânea, de enorme metragem, 211 minutos (3h31), mais
apropriada para público que suporta filmes de arte longos – isso porque é a
versão menor, a de cinema, já que o diretor fez uma versão sem cortes, de 330
min (5h30). O filme é uma análise sobre o neocolonialismo, que conta com uma
linguagem moderna mesclando ficção e documentário. E também um road movie
mágico pelas entranhas da África com toda sua beleza e complexidade. Filmado na
Guiné-Bissau em 35mm, o projeto nasceu sem ensaios e com diálogos improvisados,
que demorou quase três anos para ser finalizado. Essa demora e lapidação revelam
a ambição de construir uma obra épica de cunho íntimo, com cenas demoradas sem
cortes, que unem a grandiosidade das paisagens africanas à proximidade dos
dramas humanos. A trama acompanha Sérgio, engenheiro português enviado por uma
ONG para a África Ocidental para avaliar o impacto ambiental da construção de
uma estrada, entre o deserto e a selva. Em meio à missão, ele se envolve com
Gui, um rapaz brasileiro, e Diára, mulher de origem cabo-verdiana, formando um
triângulo amoroso que funciona como metáfora das tensões entre colonizador e
colonizado. Nesse tempo e espaço, o diretor Pedro Pinho capta a essência do
neocolonialismo numa África contemporânea, ainda marcada por contradições, articulando
temas como imigração, racismo, capitalismo e exploração econômica a dilemas
pessoais. O título é inspirado na música “O riso e a faca”, de Tom Zé, lançada
em 1970, que chega a ser citada no longa – o filme se apropria dos simbolismos
da música, que traduz em palavras as dualidades da vida, das instabilidades nas
relações, da alegria (riso) à dor/violência (faca). A atriz cabo-veridana Cleo
Tavares (a Cleo Diára) recebeu o prêmio de melhor atriz na Mostra Um Certo
Olhar do Festival de Cannes, neste que é um dos filmes mais desafiadores e corpulentos
do ano, falado em seis línguas (português, cabo-verdiano, inglês, francês, espanhol
e árabe). No elenco, além da ótima Cleo, tem os atores Sérgio Coragem (português,
no papel do engenheiro) e Jonathan Guilherme (brasileiro, que rouba as cenas com
um humor impecável – ele é ex-atleta de vôlei, que trocou de profissão, hoje
ator e poeta em Barcelona, onde reside). Está nos principais cinemas com
distribuição da Vitrine Filmes, em parceria da RioFilme.
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