Especial “Psicose” - parte 2
Psicose
3
No
motel de sua propriedade, Norman Bates (Anthony Perkins) conhece uma jovem
freira que abandonou o convento após uma tragédia, Maureen (Diana Scarwid). Ela
se hospeda lá, e os dois têm uma forte atração. Dias depois, mortes macabras de
hóspedes ocorrem, e uma repórter, Tracy (Roberta Maxwell), decide investigar os
casos por conta própria.
Fazer
continuações de filmes clássicos é uma prática constante (e antiga) da
indústria de Hollywood. Na década de 1980, a criatividade girava a todo vapor
nos Estados Unidos, uma época de grandes transformações na música, na moda, na
literatura e nas artes em geral. O cinema viu nascer os filmes slasher, o
cinema sangrento que atraía os olhares curiosos do público jovem. Aproveitando
a onda dos slasher movies dos anos 80, surgiu a proposta de duas sequências de
uma obra-prima indiscutível do cinema, “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock.
Ideia ousada, cujo resultado poderia dar muito errado. “Psicose 2” (1983) foi
dirigido pelo australiano Richard Franklin, um cineasta bem hitchcockiano, da
Ozploitation. A sequência trazia o sinistro personagem Norman Bates de volta ao
convívio social, depois de ficar internado 22 anos num sanatório pelos assassinatos
cometidos. Aparentemente estava “curado” de sua doença – o Transtorno
Dissociativo de Imagem (TDI), em que ouvia vozes da mãe morta e atacava as
pessoas em nome dela, vestindo-se como a Sra. Norma Bates. Empregado agora como
chapeiro numa lanchonete, Norman percebe que sua mente começa a bagunçar de
novo, a voz da matriarca reincide em seu ouvido e sua sanha assassina emerge. Ágil,
mata mais gente e descobre uma trama conspiratória envolvendo Lila (Vera Miles),
irmã de Marion Crane (Janet Leigh), assassinada no filme anterior, e a filha
dela, Mary (Meg Tilly), que criam situações bizarras para enlouquecê-lo. E uma
revelação fecha o filme, de uma meiga senhora chamada Srta. Spool (Claudia
Bryar) que confessa ser a verdadeira mãe de Norman, pois é irmã de Norma e foi
ela quem criou o menino na ausência da outra. Como retribuição àquela
informação preciosa, Norman mata a idosa com uma pá... A rotina psicótica de
Norman estaria de volta. Agora, em “Psicose III” (1986), Norman se depara com
uma jovem com traços semelhantes - pelo menos carrega uma morte nas costas e
tem dilemas tenebrosos que levam a sérias perturbações. Em “Psicose III”, duas
histórias se encontram, com dois personagens que se aproximam em suas
condições: Norman Bates e a noviça Maureen (Diana Scarwid, indicada ao Oscar de
atriz coadjuvante por “Bar Max”, de 1981). Ela abandona o convento após se envolver
na morte acidental de uma freira. Maureen duvida de sua fé e pergunta onde está
Deus. Na fuga do convento, pega carona na rua com um lunático (Jeff Fahey, de “O
passageiro do futuro”, de 1992), que, horas depois, na estrada, tenta estuprá-la.
Ela agride o homem e corre por uma área deserta. Enquanto isso, Norman Bates tranquilamente
caça pássaros para fazer taxidermia. Ele empalha os animais com zelo e
perfeição. Relembra quando matou a Srta. Spool, no filme anterior, mas para a
polícia ela está desaparecida (a trama se passa um mês depois dos
acontecimentos do outro longa, e cenas dele em preto-e-branco são inseridas). Reabre
o Bates Motel, mesmo o local estando sujo e abandonado. O destino faz Maureen,
a noviça, reencontrar-se com o estuprador, que agora trabalha temporariamente
no Bates Motel, contratado por Norman. Ela se hospeda lá. Norman então volta a
ouvir a voz da mãe odiosa e vingativa, que morreu há muitos anos. Ele sente
desejo pela mulher, um desejo reprimido a vida toda por Norma, a mãe, a ponto
de espiar Maureen pelo buraco da parede – no original “Psicose”, o personagem
olhava por um buraco escondido atrás de um quadro. A ‘mãe’ o proíbe de chegar
perto daquela ‘prostituta’. Norman resiste e reluta, tendo novos tormentos. Até
que a mãe exige que ele mate Maureen e todas as mulheres que cruzarem o motel
na beira da estrada.


Elementos
do cinema slasher já apareciam no filme 2, como mortes violentas e sanguinárias
e um ‘whodunnit’ - mesmo o público sabendo que é o psicopata Norman com as
roupas da mãe. Mas no terceiro capítulo o slasher vem mais forte, brutal e
evidente, num filme de terror psicológico violento rodado pelo próprio Anthony
Perkins, que nunca tinha dirigido um longa sequer. Roteirista de “A mosca” (1986)
junto de David Cronenberg, Charles Edward Pogue escreveu uma história de delírios
e tormentos, adaptado da ideia original do livro de Robert Bloch, que une os
personagens Norman e Maureen – ele, que acredita falar com a mãe morta, e ela,
uma noviça suicida que coloca à prova sua fé, envolvida na morte de uma freira
que caiu do alto de uma catedral. Enquanto Norman tenta viver sua vida isolado
no motel da família e fazendo taxidermia, ela procura compreender os motivos
que a levaram a deixar o convento. O Motel Bates vai de mal a pior, sem
clientes – numa das cenas vemos o local tomado por poeira da estrada e galhos
secos em volta, e a casa dele, ao fundo, decrépita e assustadora. A guinada na
trama vem com uma nova onda de assassinatos brutais que explode com a chegada
de Maureen no motel – ponto alto do roteiro de Pogue, que cria expectativa no
olhar atento do público que espera por sangue slasheriano. Jovens que fazem uma
parada lá morrem de forma cruel, com o pescoço rasgado ou o corpo perfurado por
faca – na altura do campeonato já sabemos quem mata, não? A polícia inicia uma
intensa investigação, e uma repórter segue no encalço de Norman. As mortes são
mais elaboradas e violentas que nos filmes anteriores, talvez as mais impactantes
da trilogia, com momentos de puro banho de sangue.
Perkins
domina bem a direção por ser um iniciante, entregando uma obra confessional,
autoral, sem meio termo, com ampla liberdade em posicionar seu personagem
visceral. Faz inclusive uma homenagem certeira ao mestre Hitchcock na sequência
final, voltando ao primeiro filme, com Norman detido pela polícia e levado no
banco de trás – ele pensa, pensa, ouve vozes, só que agora carrega consigo a
mão da mãe mumificada.
O filme
veio no terço final da década do slasher, fechando uma trilogia sinistra de
terror psicológico para o cinema. Quatro anos mais tarde resgataram a franquia
num telefilme competente, “Psicose IV: O começo” (1990 – também conhecido por “Psicose
IV: A revelação”), novamente com Perkins num de seus últimos trabalhos – ele
morreria aos 60 anos em 1992, em decorrência de uma pneumonia provocada pela
Aids.

Norman
Bates integra a galeria dos personagens memoráveis da Sétima Arte, uma figura complexa,
enigmática e também assustadora, que até hoje repercute entre os fãs do cinema
devido ao desempenho formidável de Anthony Perkins frente ao papel. “Psicose 2”
e “Psicose III” são continuações pouco conhecidas do grande público e
subestimadas pelos críticos, por estar na sombra da obra-prima original.
Merecem uma atenção, pois em cada um desses filmes novos elementos e
explicações do universo de Bates são erigidos, que ajudam a decifrar a mente
conflitante do célebre personagem. Disponível em DVD pela Universal Pictures,
acaba de sair em Bluray na caixa “Coleção Psicose”, da Versátil Home Video, que
contém dois discos, reunindo “Psicose 2”, “Psicose IV: O começo” e o remake de
Gus Van Sant “Psicose”, de 1998. No box, mais de quatro horas de extras, cards
colecionáveis e um livreto de 44 páginas. Também está disponível para aluguel
em streamings como Prime Video, Youtube Filmes, Claro TV e Apple TV.
* Resenha
publicada no livreto que acompanha a caixa em Bluray “Coleção Psicose”, lançado
recentemente pela Versátil Home Video (texto contém o título “Norman, a mamãe
continua aqui!” – Uma análise de “Psicose III”)
Psicose
3 (Psycho
III). EUA, 1986, 93 minutos. Terror/Drama. Preto-e-branco/Colorido. Dirigido
por Anthony Perkins. Distribuição: Universal Pictures e no box “Coleção
Psicose”, da Versátil Home Vídeo
Psicose
IV: O começo
Velho e
cansado, Norman Bates (Anthony Perkins) ouve no rádio um programa em que a
apresentadora Fran
Ambrose (CCH Pounder) aborda o tema do matricídio (filhos que matam as mães). Pensativo
sobre aquilo, resolve ligar para a emissora e contar sua história, com um nome
falso. Bates relembrará a atormentada juventude ao lado da mãe, Norma (Olivia
Hussey).
Produzido
para a TV, “Psicose IV: O começo” funciona tanto como uma prequela (filme que
conta a origem de um personagem) quanto uma continuação (já que se passa no
tempo presente, em que Norman, velho e cansado, relembra sua juventude). Personagem
icônico do cinema de horror, Norman Bates, agora idoso e sob tratamento
psiquiátrico, participa de um programa de rádio para falar sobre sua criação.
Durante uma longa conversa ao vivo com uma apresentadora, ele relembra a
infância e a juventude, marcadas pela relação abusiva com a mãe, Norma, uma
mulher neurótica e repressora, o que moldaria sua mente perturbada. O longa alterna
entre o presente e flashbacks, revelando como Norman se tornou o assassino que
conhecemos, trazendo uma narrativa mais íntima, sobre trauma e manipulação. Subestimado
na época do lançado e sem o impacto cinematográfico dos dois primeiros filmes,
“Psicose IV: O começo” é relevante por aprofundar a origem psicológica de
Norman (algo que seria destrinchado depois na ótima série de cinco temporadas “Bates
Motel”, com Vera Farmiga e Freddie Highmore). O telefilme se destaca por
oferecer uma perspectiva mais trágica do protagonista, transformando-o em
vítima de circunstâncias familiares - apesar de a produção televisiva limitar a
grandiosidade estética, o longa é valorizado pelos fãs como uma peça-chave para
compreender o que está por trás de Norman Bates.


Perkins
já estava doente, aparecendo pouco no filme (ele faleceria dois anos depois, em
decorrência de uma pneumonia provocada pela Aids), dando espaço para o bom
Henry Thomas como o jovem Norman (ator mirim de “E.T. – O extraterrestre”). O diretor
Mick Garris já era experiente no mundo do terror, realizador de making of de cultuadas
fitas do gênero dos anos 80, como de “Grito de horror” e “Videodrome”, passando
por episódios da série “Histórias maravilhosas” (1985-1987) e do filme “Criaturas
2” (1988). Depois de fazer “Psicose IV”, dirigiu obras de Stephen King para o
audiovisual, como o filme “Sonâmbulos” (1992) e as minisséries “A dança da
morte” (1994) e “O iluminado” (1997). O roteirista do original “Psicose”, Joseph
Stefano, voltou aqui para escrever essa adaptação, procurando garantir traços
fieis da história e do personagem – e seria ele a refazer o roteiro para o
remake de 1998, de Gus Van Sant, aquele filme que ainda divide a opinião da
crítica e do público (para mim, penoso e sofrível). Conta com participação de
duas atrizes muito boas, CCH Pounder, de “Bagdad Café” (1987), como a
apresentadora de rádio que entrevista Norman, e Olivia Hussey, falecida há um
ano, como Norma Bates – Olivia eternizou Julieta de Shakespeare na versão de “Romeu
e Julieta” (1968), de Franco Zeffirelli. PS: Nos anos 90 o filme saiu em VHS pela
CIC com outro subtítulo, “Psicose IV: A revelação”. Agora pode ser visto em boa
resolução em Bluray, na caixa “Coleção Psicose”, da Versátil Home Video, que
contém dois discos, reunindo “Psicose 2”, “Psicose III” e o remake de Gus Van
Sant - no box, mais de quatro horas de extras, cards colecionáveis e um livreto
de 44 páginas.
Psicose
IV: O começo (Psycho
IV: The beginning). EUA, 1990, 96 minutos. Terror/Drama. Colorido. Dirigido por
Mick Garris. Distribuição: No box “Coleção Psicose”, da Versátil Home Vídeo
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