O
drama
Novo
longa da A24 dirigido e roteirizado por Kristoffer Borgli, cineasta norueguês em
seu segundo trabalho nos Estados Unidos (o anterior foi um que gosto muito, o
maluco “O homem dos sonhos”, com Nicolas Cage), que continua em exibição nos
cinemas pela quinta semana consecutiva, com distribuição da Diamond Films. E vem
fazendo uma carreira surpreendente, por ser uma excêntrica comédia dramática
sobre os altos e baixos de dois noivos na véspera do casamento. É estrelado por
Zendaya e Robert Pattinson, que interpretam respectivamente Emma e Charlie.
Eles são um casal apaixonado à espera do casamento dos sonhos. Cada um tem suas
manias e estranhezas; ela é bem tímida, de olhar curioso sobre as pessoas,
enquanto ele, meio bobalhão e atrapalhado. Às vésperas da cerimônia, porém, um
segredo do passado de Emma vem à tona quando ela faz um comentário
aparentemente banal na mesa com amigos, em um encontro regado a vinho. A fala
de Emma causa espanto e ameaça a relação dela com Charlie, enquanto os dois amigos
ali presentes se afastam. As horas, a partir de então, serão uma calamidade,
que colocarão à prova a sobrevivência daquela relação conjugal. Borgli, que explora
dilemas existenciais em todos os seus trabalhos, como nos três longas
anteriores, “Energético” (2017), “Doente de mim mesma” (2022) e “O homem dos sonhos”
(2023), retorna ao tema misturando romance, suspense e comédia mordaz, criando
uma linha tênue entre o drama íntimo e a ironia desconfortável. Contando com
uma atmosfera inquietante, o filme traz à tona uma discussão inevitável nos
tempos de hoje: a fragilidade dos relacionamentos modernos, focando na imaturidade
de um jovem casal que não sabe o que fazer com um segredo do passado. A dupla Zendaya-Pattinson,
cotadíssimos para os prêmios de cinema da temporada de 2027, está perfeita,
numa sintonia fora de série (seja no amor ou no ódio), e o elenco conta com participações
excelentes de Alana Haim (de “Licorice Pizza”), Mamoudou Athie (de “Tipos de gentileza”)
e Hailey Gates (de “Marty Supreme”). A trilha sonora do indicado ao Oscar
Daniel Pemberton intensifica a carga emocional do longa, cuja produção é
assinada por Ari Aster. São 106 minutos que passam voando, deixando um gostinho
de “quero mais”.
Suspiria
Na última
segunda-feira publiquei um texto sobre o relançamento em 4K nos cinemas de “Veneno
para as fadas”, um cultuado folk horror mexicano. O filme voltou às telas na
semana passada, juntamente com a cópia restaurada, também em 4K, de “Suspiria”
(1977), outra emblemática fita de terror que fez a cabeça do público cinéfilo e
se tornou referência no gênero. É considerada a magnum opus do lendário
cineasta italiano Dario Argento, hoje na ativa aos 85 anos, e uma das pérolas
do horror fantástico. Psicodélico, brutal, com cenas fortíssimas de sangue e mortes
escabrosas, o terror bruxo, cuja base é o giallo sobrenatural, acompanha a
história de Suzy Bannion (Jessica Harper), uma jovem dançarina americana que
chega a uma renomada escola de balé em Friburgo, no sul da Alemanha. Hospedada
no local com mais de 10 garotas, que estão lá para serem treinadas para a dança,
pouco a pouco suspeita que a academia é assombrada por uma antiga entidade. A moça
ouve sussurros noturnos, bem como o ronco de uma mulher idosa; vermes aparecem
no teto, e algumas das meninas desaparecem na calada da noite. A apreensão atinge
não só Suzy, mas as colegas de quarto.
As indagações das dançarinas são levadas
para as diretoras da academia de balé, Miss Tanner (Alida Valli) e Madame Blanc
(Joan Bennett), que não dão ouvidos. Até que Suzy vê o mal reinar ao seu lado.
O impacto de “Suspiria” vai além do roteiro fabuloso: está também na estética
visual alucinante, marcada por cores intensas vermelhas, pink e azul neon, ao
lado da iluminação expressionista (inclusive na geometria dos quartos e
enquadramentos, que remetem ao Expressionismo Alemão). A trilha sonora, da
banda Goblin (que aqui assinam “Goblins”, e tinha como mentor o paulistano
Claudio Simonetti), intensifica a experiência sensorial, criando um ambiente
hipnótico, perturbador, claustrofóbico. Não tem jeito: saímos magnetizados de
cada sessão de “Suspiria”, e olha que já vi o filme mais de 10 vezes, um de
meus preferidos do mestre Argento. Olhem só: além do relançamento os cinemas, o
filme ganhou uma edição oficial limitada em VHS no Brasil, gesto que resgata a
aura analógica que marcou os anos 1980 e 1990 (foto abaixo). A cópia restaurada em 4K realça
as cores deslumbrantes dessa obra-prima do cinema de horror, realizada pelo
laboratório alemão TLEFilms, que corrigiu danos nos negativos de 35 mm. Vale lembrar
que “Suspiria” é o primeiro capítulo da trilogia “As três mães”, seguido por “A
mansão do inferno” (1980) e “O retorno da maldição - A mãe das lágrimas”
(2007), que são independentes, mas tratam do mal sobrenatural. Em 2018 o
diretor italiano Luca Guadagnino refez o filme, com uma nova linguagem, que
ficou até boa, “Suspiria: A dança do medo”. Com quase meio século de
existência, o filme continua a ser celebrado pela crítica e pelo público, e que
bom foi redescoberto para voltar para a telona. Continua em cartaz pela segunda
semana, com distribuição da FJ Cines.

Placar:
A revista militante
Assisti
entusiasmado a esse bom documentário realizado em 2025 para se comemorar os 55
anos da revista Placar, da editora Abril. Fundada em 1970, em pleno auge da Ditadura,
a revista, que nasceu para se divulgar o esporte no Brasil, logo começou a estampar
na capa reportagens especiais sobre democracia e política. Críticas sociais vinham
não só no editorial, mas da fala de esportistas consagrados, transformando a
Placar numa revista de linha progressista (e por isso, foi perseguida pelos
militares). O documentário relembra capas
históricas com Pelé e o Santos FC, entrevistas políticas com jogadores de
pensamento progressista, como Sócrates, e furos como a Máfia da Loteria
Esportiva - primeiro grande escândalo de manipulação de resultados no futebol
brasileiro, revelado em outubro de 1982 pela revista e que envolvia mais de 120
nomes de dirigentes e jogadores. Jornalistas e editores da Placar sofreram
censura e ameaças, mas a revista nunca abriu mão de seus posicionamentos fortes.
Contam histórias para o doc jogadores como Casagrande, Afonsinho (que defendeu
a Lei do Passe e foi entrevistado várias vezes sobre o tema) e Zico, e quem é o
ponto focal do filme é o ex-diretor e jornalista esportivo Juca Kfouri. Outros
jornalistas brasileiros trazem seus pontos de vista sobre a Placar, como Celso
Unzelte e Arnaldo Ribeiro, bem como o ex-diretor Carlos Maranhão, o fotógrafo Ronaldo
Kotscho, o treinador e comentarista esportivo Paulo Roberto Falcão e Martha
Esteves, uma das primeiras repórteres femininas da Placar. Em certo momento fazem
um mea culpa ao reconhecer comentários misóginos em algumas edições e sexualização
de esportistas femininas, por exemplo em matérias de jogadoras de futebol de
areia e uma capa com Susane Werner quase seminua segurando uma bola para tapar
os peitos, parecendo capa de Playboy (que era do grupo Abril também). Ao ver o
filme, assista até aos créditos finais, onde tem participação de Pelé em erros
de gravação para o documentário – ele já estava debilitado e faleceria logo
depois. Exibido nos cinemas em agosto do ano passado, está disponível
gratuitamente no Sesc digital até dia 10/05.

O
comunista
Está disponível
gratuitamente até o dia 04/05 no canal do Youtube do CPC-Umes Filmes mais uma
pérola do cinema soviético praticamente desconhecida do grande público. Um
filme vigoroso, de drama, que se passa num período crucial da História da
Rússia: a Revolução Bolchevique. Em 1919, no auge da Guerra Civil, centenas de
trabalhadores chegam de trem à cidade de Zagora, na região da taiga russa
(cercada por florestas boreais que cobrem grande parte da Rússia até a
Sibéria). Eles instalam-se em casebres na localidade para erguer uma usina
elétrica e futuramente uma cidade. O jovem Vassily Gubanov (Evgeniy Urbanskiy),
um homem de poucas palavras, mas de enorme consciência crítica, é nomeado chefe
do grupo. Dia a dia passa a sofrer hostilidade dos funcionários por estar
disposto a denunciar um esquema de corrupção envolvendo parte da equipe. A crise
se instala quando recebe ameaças de morte, o que coloca seu trabalho em jogo. Realizado
na comemoração dos 40 anos da Revolução Russa (iniciada em 1917 e finalizada em
1922), o filme veio em plena transformação do cinema russo moderno, sendo até
hoje uma obra crítica notável, autoral na linguagem e feito sob uma fotografia
excepcional nas reais colinas da taiga russa. Foi o maior filme do diretor Yuli
Raizman, contando com uma grandiosa interpretação de uma lenda do cinema
soviético, Evgeniy Urbanskiy (1932-1965), falecido precocemente de acidente de
carro – ele participou de obras premiadas, como os indicados à Palma de Ouro “A
balada do soldado” (1959) e “A carta que não se enviou” (1960). Em “O comunista”,
seu personagem se torna um herói, um porta-voz que representa a coragem do povo
russo. O filme recebeu menção Honrosa no Festival de Veneza, único festival em
que foi exibido, e agora está no streaming do CPC-Umes em uma excelente cópia
restaurada pela Mosfilm, o centenário estúdio russo que permanece ativo.
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