sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas e no streaming – Parte 2


A rainha do xadrez
 
Produção americana da diretora indicada ao Oscar pelo documentário “Last days in Vietnam” (2014) Rory Kennedy, filha do senador Robert Kennedy (assassinado em 1968, seis meses antes de ela nascer). A documentarista de olhar técnico realiza aqui um bom filme da Netflix, um doc sobre Judit Polgár (1976-), enxadrista húngara reconhecida como a melhor jogadora de xadrez de todos os tempos. Ela foi uma garota prodígio, tornou-se a Grande Mestra mais jovem da História, aos 15 anos, derrotando 11 campeões mundiais, incluindo o sagaz Garry Gasparov. Judit quebrou barreiras de gênero ao competir em um circuito absolutamente masculino. O filme é empolgante, bem realizado e que passa rápido, com depoimentos atuais de Judit e da família, incluindo o pai, László Polgár, que foi mentor por trás de tudo – ele tirou a menina da escola nos anos 80, montou um bunker de xadrez em casa para dar aulas para ela, num treinamento exaustivo que rendeu o resultado esperado. Também tem cenas de torneios que ela participou entre as décadas de 80 e 90, como as competições com Gasparov (retomaram aqui aquela partida polêmica que quase foi judicializada, um incidente em 1994 que ficou conhecido como “Toque-lance”, em que Gasparov moveu o cavalo, mas antes de soltá-lo, ao perceber o erro que poderia custar a partida, reposicionou rapidamente a peça). Um dos tantos documentários ótimos da Netflix, que estreou no início desse mês.
 

 
Living the land
 
Premiado com o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim (para o diretor chinês Huo Meng, em seu segundo filme, que traz traços do anterior, “Guo Zhao Guan”), “Living the land” (em português, “Cultivando a terra” ou “Vivendo a terra”) é um drama cativante que acompanha um longo processo de rituais de vida e trabalho de uma numerosa família na China rural dos anos 90. Filhos, pais, netos, avós e tios trabalham num pequeno lote de terras, onde também residem. Do nascer ao pôr-do-sol, sob sol e sob chuva, a família de agricultores cultiva trigo, matéria-prima de onde tirarão o sustento. Percebem que aldeões da região migraram para cidade em busca de novas oportunidades, porém optam em permanecer ali. Um dos filhos daquele núcleo pretende se casar e ir embora para a metrópole, deixando a família. O filme se mostra na essência daqueles agricultores durante o ciclo de um ano, acompanhando-os em suas passagens/ritos, como casamento e funeral, além dos conflitos cotidianos. É uma fita de arte contemplativa que transforma nosso olhar, registrando um contexto específico de uma época, a da abertura da China na virada dos anos 80 para os 90, com as reformas econômica e social, a mecanização do campo, a migração da área rural para a cidade e o fim das tradições milenares devido à modernidade. O olhar do diretor Meng (também roteirista e montador do longa) é ao mesmo tempo íntimo e panorâmico – ele cria esse embate cênico, com cenas nos detalhes e de repente longas tomadas abertas da propriedade de terras onde a família mora. Há muitas sequências de silêncio, sem trilha ou diálogos, só com a abundante paisagem rural à nossa frente. Personagem carismático do filme, Chuang, de 10 anos, aquele que permanece em sua aldeia enquanto tantos partem para as cidades, funciona como metáfora da resistência e da perda – e o menino é a representação do diretor do filme quando menor, já que a história é inspirada em sua família, criada no campo. A fotografia das terras agrícolas são verdadeiros quadros, uma pintura belíssima, sendo um grande acerto de filmagem, que traduz o que o diretor pretendia passar (e lembrar). Um filme tocante, que mexeu comigo - fiquei maravilhado e também refletindo por horas sobre essa bonita obra cinematográfica. Está disponível nos principais cinemas brasileiros, pela Autoral Filmes.
 
 
Paulo e Eliana
 
Rodado ao longo de 13 anos (2008–2021), o documentário “Paulo e Eliana” revela com rara sensibilidade o cotidiano de dois sobreviventes do surto de poliomielite que atingiu São Paulo nos anos de 1960. Paulo Henrique Machado e Eliana Zagui faziam parte de um grupo de 20 pacientes infantis internados no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo afetados pela pólio. Tetraplégicos, eles foram os únicos que resistiram à doença, vivendo para sempre em uma cama em um mesmo quarto no HC, dependentes de respiradores artificiais. Paulo e Eliana desenvolveram forte vínculo de amizade e transformaram essa condição em matéria de reflexão sobre resistência e desejo de viver. O filme (lançado em 2024, pouquíssimo comentado, e que descobri por acaso na plataforma do Sesc Digital) acompanha a rotina da dupla inseparável, incluindo suas conquistas fora das paredes do hospital. Paulo tornou-se youtuber, criando um canal geek sobre cinema e música e que também compartilhava experiências no HC – mantendo-se ativo até sua morte em 2020, aos 51 anos; já Eliana, encontrou na arte e na escrita uma forma de expressão: pintava e escrevia com a boca, publicou livros, até que em 2019 deixou o hospital para se casar, mudando-se para a casa do marido em Sumaré, no interior paulista. Mesmo diante da dificuldade de locomoção conseguiram viajar, frequentar shows musicais e experimentar pequenas vitórias. O longa acompanha a vida hospitalar como espaço de formação, mostrando a amizade de Paulo e Eliana como uma relação de cumplicidade em um lugar marcado por dependência e isolamento. Em frente às câmeras, mostram como são: sonhadores, brincalhões, criativos e generosos. É uma história de amor pela vida, que emociona os mais sensíveis, e serve como convite à reflexão sobre inclusão e sobrevivência. Lançado em 2024, foi produzido pela Canal Aberto e 11: Onze Filmes, com direção de Neide Duarte e Caue Angeli. Está disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital, em https://sesc.digital

Nota do blogueiro

 
Cine Debate exibe amanhã filme sobre eutanásia com Denise Fraga
 
O Cine Debate, projeto de extensão do Imes Catanduva em parceria com o Sesc, exibe amanhã, dia 28/02, a partir das 14 horas, a comédia dramática “Sonhar com leões” (2024), coprodução Brasil, Espanha e Portugal. O filme participou de festivais internacionais como Tallinn e Guadalajara, foi premiado no Festival de Gramado e tem Denise Fraga no elenco. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, na sala de ginástica do Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida.

Sinopse – Gilda (Denise Fraga) é uma imigrante brasileira que vive em Lisboa. Descobre uma doença terminal, que pode dar a ela apenas um ano de vida. Determinada a assumir o controle do próprio destino, Gilda busca uma organização clandestina que promete ajudá-la a realizar a eutanásia.

 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completa 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. No próximo mês (em 28/03) o filme exibido no projeto será “Suçuarana” (2024), produção brasileira exibida nos festivais de Chicago e Brasília. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Estreias do mês – Nos cinemas - Parte 1


A voz de Hind Rajab
 
Kaouther Ben Hania, cineasta tunisiana conhecida por dois filmes indicados ao Oscar recentemente, “O homem que vendeu sua pele” (2020) e “As 4 filhas de Olfa” (2023), retorna com uma obra visceral, que há tempos não me angustiava tanto. Produzido em 2025, o longa se constrói como um híbrido entre documentário e ficção, utilizando a guerra de Gaza como pano de fundo. Por 1h30 acompanhamos, aflitos, um grupo de voluntários da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho tentando salvar uma garotinha chamada Hind Rajab presa em um carro sob fogo cruzado na Faixa de Gaza, cercado pelas tropas israelenses. O caso ocorreu em janeiro de 2024, e o filme inteiro é dentro de uma sala que serve de comitê dos membros que ficam no telefone em contato com a menina – nunca a vemos, somente a ouvimos (e aí está o impacto do filme: os áudios todos são reais). Eles fazem uma força-tarefa para emplacar um resgate de poucas horas, o que parece inalcançável. De um lado uma criança no carro, encurralada, com a família morta no banco, e do outro, a quilômetros de distância, os voluntários com ela pelo telefone celular. O drama transforma uma ligação de emergência em Gaza em uma corrida contra o tempo, expondo a fragilidade da vida diante da brutalidade da guerra. Dentro da sala instala-se outra crise, envolvendo um dos voluntários que quer salvá-lo a todo custo, e a do chefe de operações, que não sente segurança em liberar o carro de salvamento devido ao perigo que há nas estradas até chegar ao local bombardeado onde está Hind. A diretora obteve autorização para usar os áudios originais da menina Hind Rajab, de apenas seis anos, capturados durante uma noite de terror no bairro nobre de Tel al-Hawa, no sudoeste de Gaza, totalmente bombardeado – ela chora, aflita, pedindo socorro, ajudando na orientação de seu resgate. Esses registros sonoros, acompanhados por legendas do arquivo, em tela preta com a frequência de som oscilando, criam uma experiência cinematográfica que transcende o cinema ficcional (e nos arrebata). É uma obra que testemunha uma crise global, numa das guerras mais devastadoras da História recente, que se arrasta desde 2023 e parece não ter fim. E um chamado à reflexão sobre o poder do cinema em dar voz ao que não pode ser silenciado. Um dos maiores lançamentos do ano, indicado ao Oscar de filme estrangeiro (ele disputará diretamente com o nosso “O agente secreto”). Venceu o Leão de Prata – Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza 2025 e também teve indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Nos cinemas desde o início do mês, distribuído pela Synapse Distribution.
 
 
Zafari
 
Sexto filme da cineasta venezuelana Mariana Rondón, de “Pelo malo” (2013), que costuma tratar em seus trabalhos a crise econômica de seu país pelos olhos do povo – e agora, pela primeira vez, faz um filme ampliando o tema, mas num futuro distópico. Quando falamos em distopia, lembramos de fitas scifi de mundo destruído, ocupado por robôs; não, não é isto aqui no cinema dela. Rondón coloca a ambientação numa realidade nítida, mais próxima da atualidade do que de um futuro não-palpável, mantendo-se fiel à sua filmografia marcada pelas tensões sociais e econômicas da Venezuela. Ela constrói em “Zafari” uma distopia que amplifica a desordem cotidiana de um país colapsado, com ausência de regras, escassez de trabalho e, sobretudo, a fome, que moldam um ambiente insólito, onde a civilidade se desfez e a sobrevivência assume contornos brutais. Nesse cenário, um hipopótamo (de nome Zafari) recém-chegado ao zoológico de Caracas torna-se figura central. Ele é o único ser plenamente alimentado, o que contrasta com a privação que atinge duas famílias: uma privilegiada, agora confinada em um condomínio decadente, que planeja fugir do país, e outra empobrecida, que abandona qualquer resquício de ordem social, vivendo a seu modo. A presença do animal desperta desejos, frustrações e impulsos que revelam o limite ético de cada personagem. Pela definição da diretora (que é a roteirista, junto à parceira de trabalho Marité Ugas), o filme é uma fábula social, recorrendo à ironia e metáforas dentro de um típico cinema de gênero. É um filme simbólico, estranho à primeira vista, que vai se encaixando com o desenrolar do tempo. É político, é crítico, nada fácil de entender, sendo uma obra autoral para público específico – e que faz mais sentido agora, após o sequestro e deposição do presidente Nicolás Maduro. Apresentado na seção “Horizontes Latinos” do Festival de San Sebastián, o longa percorreu festivais na Europa, Ásia e América Latina, incluindo a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Com elenco formado por atores profissionais e não profissionais, é uma coprodução Brasil, Venezuela, Peru, México, França, Chile e República Dominicana. Em exibição nos cinemas pela Vitrine Filmes.
 

 
Dois procuradores
 
Marcou presença no Festival do Rio do ano passado este recente longa de Sergei Loznitsa, diretor russo-ucraniano engajado no cinema político desde quando se lançou na metade da década de 90, e de lá para cá fez filmes notáveis, tanto documentários quanto ficção, como “Donbass” (2018) e “A invasão” (2024). Apresentado no Festival de Cannes, onde disputou a Palma de Ouro e conquistou o Prix François Chalais — honraria dedicada a obras que reafirmam o compromisso do jornalismo com a verdade, “Dois procuradores” é uma obra ficcional inspirada em um duro contexto real, o regime autoritário de Stalin. Em 1937, um jovem procurador, recém-nomeado ao cargo, Alexander Kornyev (Aleksandr Kuznetsov), entra com tudo na investigação do centro de detenção soviético após descobrir práticas de tortura contra um ex-promotor do Partido Comunista. O caso cai em suas mãos após receber uma carta, que deveria ter sido queimada junto a outras, de indivíduos presos injustamente pelo regime stalinista. Movido pelo senso de justiça, Kornyev se empenha em denunciar os métodos arbitrários da polícia secreta de Stalin, intitulada de Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKDV), que praticava violenta repressão aos considerados subversivos (muitos enviados ao temido campo de Gulag, no extremo frio da Sibéria). No meio de um campo de batalha em busca de verdade, o personagem coloca em jogo não só a carreira, mas a própria vida ao investigar o mundo do NKDV – estima-se que entre 1930 e 1950, o NKDV matou milhões de pessoas, em massacres, deportações e no Grande Expurgo. Com muitos diálogos, um bom trabalho dos atores e uma direção de arte com apelo à URSS do período stalinista, é um bom cinema de arte com discussão política, que obviamente faz um diálogo aos desmandos atuais de Vladimir Putin (cujo governo comete atos massivos de repressão aos opositores, bem como perseguição e tortura, crimes de guerra, sem contar políticos e jornalistas críticos ao regime que morreram de forma misteriosa nos últimos 10 anos). O filme se inspira no romance homônimo de Georgy Demidov (1908-1987), físico russo que foi preso pela NKDV, passou 14 anos encarcerado em campos de trabalho forçado e virou escritor – parte dos relatos do livro e do filme são situações reais vividas e outras observadas por ele. Nos cinemas pela Retrato Filmes.



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

  
Festival de Berlim anuncia vencedores; ‘Yellow letters’ ganha o Urso de Ouro
 
Chegou ao fim a Berlinale 2026, com o anúncio dos premiados na última edição do festival. A capital alemã virou palco de um dos festivais mais importantes do cinema entre os dias 11 e 22 de fevereiro. Sob a neve e o frio intenso, a Berlinale reuniu milhares de pessoas nas diversas salas de cinema da cidade. A coprodução Alemanha e Turquia “Yellow letters”, do diretor alemão/turco Ilker Çatak (foto abaixo, recebendo o prêmio), ganhou o principal prêmio, o Urso de Ouro. O Brasil esteve representado: o longa “Feito pipa”, do diretor cearense Allan Deberton, conquistou dois prêmios na mostra Generation - o Crystal Bear e o Grande Prêmio do Júri Internacional na categoria Generation Kplus. Confira abaixo a lista de todos os contemplados em todas as seções e categorias da Berlinale:
 


Competição principal
 
Urso de Ouro: "Yellow letters"
 
Urso de Prata - Grande Prêmio do Júri: "Kurtulus (Salvation)"
 
Urso de Prata - Prêmio do Júri: "Queen at Sea"
 
Urso de Prata de Melhor Diretor: Grant Gee, por "Everybody digs Bill Evans"
 
Urso de Prata de Melhor Atriz: Sandra Hüller, por "Rose"
 
Urso de Prata de Melhor Coadjuvante: Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay, por "Queen at Sea"
 
Urso de Prata de Melhor Roteiro: "Nina Roza", de Geneviève Dulude-de Celles
 
Urso de Prata de Melhor Contribuição Artística: "Yo (Love is a rebellious bird)", de Anna Fitch
 
Melhor Primeiro Filme: "Chronicles from the siege"
 
Melhor Primeiro Filme – Menção Especial do Júri: "Forêt ivre"
 
 
Berlinale Documentary Award
 
Melhor Documentário: "If pigeons turned to gold"
 
Melhor Documentário – Menção Especial do Júri: "Tutu" e "Sometimes, I imagine them all at a party”
 




 
Generation Awards
 
Urso de Cristal de Melhor Filme no Generation Kplus: "Feito pipa"
 
Menção Especial na Generation Kplus: "Não sou um herói"
 
Urso de Cristal de Melhor Curta-Metragem no Generation Kplus: "Baleia 52 – Suíte para homem, menino e baleia"
 
Menção Especial na Generation Kplus: "Sob a onda do pequeno dragão"
 
Urso de Cristal de Melhor Filme no Generation 14Plus: "Chicas tristes"
 
Menção Especial na Generation 14Plus: "Uma família"
 
Urso de Cristal de Melhor Curta-Metragem no Generation 14Plus: "Memórias de uma janela"
 
Menção Especial na Generation 14Plus: "Allá en el cielo"
 
Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme na Generation Kplus: "Feito pipa"
 
Menção Especial no Generation Kplus: "Atlas do universo"
 
Prêmio Especial do Júri Internacional de Melhor Curta-Metragem na Generation Kplus: "Spî"
 
Menção Especial na Generation Kplus: "Sob a onda do pequeno dragão"
 
Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme na Generation 14Plus: "Chicas tristes"
 
Menção Especial na Generation 14Plus: "Matapanki"
 
Prêmio Especial do Júri Internacional Generation para Melhor Curta-Metragem na Generation 14Plus: "O fio"
 
Menção Especial na Generation 14Plus: "Memórias de uma janela"
 
 
Panorama Awards
 
Panorama Audience Award – Feature Film: "Prosecution"
 
Panorama Audience Award – Documentary: "Traces"
 
 
Berlinale Shorts
 
Urso de Ouro de Melhor Curta: "Someday a child"
 
Urso de Prata - Prêmio do Júri de Melhor Curta: "A woman’s place is everywhere"
 
Prêmio Cupra de Melhor Realização: "Kleptomania"
 
Berlin Short Film for the European Film Awards - "Cosmonauts"
 
* Fotos extraídas do site oficial da Berlinale, em https://www.berlinale.de/en/home.html

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
76º Festival de Berlim termina amanhã; vencedores serão anunciados hoje
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) continua a todo vapor até amanhã, dia 22 de fevereiro, na capital alemã, com uma extensa programação de filmes históricos e sociais. Longas e curtas-metragens potentes, escolhidos a dedo, transcendem as narrativas óbvias, com a maior parte deles em première mundial. Um dos filmes que ganhou o louvor da crítica e do público, tornando-se forte candidato ao Urso de Ouro (e amanhã saberemos), é “Josephine”, que comento abaixo. Após a divulgação oficial hoje, trarei aqui a lista dos ganhadores. Confira sobre o filme “Josephine”:
 

Josephine
(EUA – 2026, 114 minutos, de Beth de Araújo)
 
Assisti a 16 longas na Berlinale de 2026, a maior parte em sessão de imprensa na Berlinale Palast, e “Josephine” foi o filme que teve mais aplausos da imprensa (composta por 1200 jornalistas e críticos de cinema do mundo inteiro). O aplauso acalorado como resposta não tem exagero nenhum: é um dos melhores títulos do Festival de Berlim, que me deixou extasiado. Na coletiva de imprensa, uma hora depois da exibição, com a participação do elenco, fui saber, pelas falas da diretora Beth de Araújo, que a história era verídica, baseada em uma ocorrência de estupro que ela presenciou quando tinha oito anos de idade. Tudo fez mais sentido me causando mais impacto. Beth, que tem descendência brasileira por parte de pai e chinesa por parte de mãe, vive em São Francisco há muitas décadas e escreveu o roteiro puxando essa dolorosa imagem do passado, de como foi atravessada por um trauma ao ser testemunha de um crime sexual. O filme começa com Josephine (papel cativante e de pura singularidade da garotinha Mason Reeves), uma menina de oito anos, caminhando pelo parque Golden Gate em São Francisco ao lado do pai, Damien (Channing Tatum). Ela anda mais à frente dele e caminha por um corredor de árvores altas, até que se esconde atrás de um tronco e vê algo estranho a poucos metros: é um homem cometendo estupro contra uma mulher. A garota observa sem entender a cena, até que Damien chega, percebe o ocorrido e corre atrás do criminoso, ligando em seguida para a polícia. Confusa, pois viu uma mulher gritar de dor e ser forçada a algo que não queria, a menina aguarda a polícia. E a partir daí sua rotina infantil é estraçalhada, sendo assombrada constantemente pela figura do abusador sexual (que aparece em suas visões, no quarto, na escola). Josephine desenvolve um comportamento violento, e os pais tentam encontrar uma solução para ajudá-la (quem interpreta a mãe de Josephine é Gemma Chan, em ótimo papel também). Mais uma questão surge e instalará uma nova crise na família e dentro do íntimo da menina, quando ela terá de depor no tribunal sobre o caso, já que é a única testemunha do estupro. Josephine passa a enxergar o mundo com um olhar duro, pessimista, reflexo do que viu no parque e da pressão que sofre agora para ir todo dia na delegacia relembrar o trágico ocorrido. Beth filma a menina em primeiro plano, com closes perfeitos para demonstrar a angústia silenciosa que a pequena protagonista enfrenta – e que é ela, Beth, no passado. A construção do filme mergulha na tensão familiar, com enfoque na instabilidade dos pais e no novo modo de enxergar a vida de Josephine (que perde um pouco do encanto da infância ao levar um baque como aquele). Recebeu o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio do Público em Sundance no mês passado, e agora em Berlim crescem as chances de levar o tão concorrido Urso de Ouro – este ano tem títulos páreos, como “Dao”, “Rose” e “Queen at sea”. Veremos logo mais.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Resenha especial

 
Orwell 2 + 2 = 5
 
Documentário aterrador, porém de estrutura complexa e difícil de digerir, assinado por um cineasta engajado em movimentos sociais, o haitiano Raoul Peck, indicado ao Oscar por “Eu não sou seu negro” (2016) - e realizador de outro filme sobre racismo derivado deste, “Ernest Cole: Achados e perdidos” (2024). Peck agora revisita a biografia do escritor George Orwell (1903-1950), principalmente fazendo uma leitura da ideia de dominação e poder inscrita no famoso e polêmico livro “1984” para os dias de hoje. Ao trazer para o tempo atual, ele faz uma parábola visual sobre o mundo fragmentado pelos discursos extremistas, de mentira, manipulação, de ódio e de ordem. O “2 + 2 = 5” parte do princípio de que nem tudo é uma verdade absoluta, e nos tempos da pós-verdade a mentira pode ser moldada e ganhar espaço de tanta ser reproduzida. As redes sociais e o crescente discurso da extrema-direita no mundo estão nessa linha de frente, que se utilizam de fake News como defesa da liberdade de expressão. A composição do filme é uma compilação de imagens das duas versões para cinema de “1984”, a de Michael Anderson de 1956 (com Edmond O’Brien) e a de Michael Radford de 1984 (com John Hurt) com cenas reais da sociedade em colapso – da violência do estado, do combate à imigração, de guerras civis, das guerras nas redes. O que na concepção de Orwell era um futuro distópico digno da ficção científica mais maluca, hoje se aproxima do que vivemos: discursos autoritários que remetem ao totalitarismo, impedindo as individualidades e ideias opostas. A atualidade também é a do controle pelas máquinas e da vigilância e punição, tudo que estava nas páginas de Orwell. Peck trata do universo da política que se utiliza da mentira para vender a ideia das liberdades, com destaque para líderes populistas como Donald Trump – que com suas falas convencem o indivíduo de que a mentira é mais confortável do que a dúvida. Um filme crítico, para se pensar e ver com a máxima atenção possível. Selecionado para o Festival de Cannes, onde concorreu ao Golden Eye, teve sete indicações ao Critics Choice Documentary, dentre eles melhor filme e melhor diretor, e conta com narração de Damian Lewis (ator de “Era uma vez em... Hollywood”). Está nos cinemas brasileiros com distribuição da Alpha Filmes.



Especial de cinema

 
Festival de Berlim 2026: filmes que exploram complexas relações humanas
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) chega ao nono dia com uma extensa programação de filmes de temáticas diversas. Vitrine do cinema mundial, ele segue até o dia 22/02 com mais de 400 filmes para o público. Confira abaixo títulos que falam sobre relações humanas, que assisti no festival e recomendo:


 
Dao
(França/Senegal/Guiné-Bissau - 2026, 185 minutos, de Alain Gomis)
 
“Dao” abre com uma definição que funciona como um manifesto: “Um movimento perpétuo e circular que flui em tudo e une o mundo”. A partir desse discurso, o filme mergulha numa narrativa que oscila entre o íntimo e o performático, entre o que é vivido e o que é encenado. Gloria (Katy Correa), de 50 anos, é a protagonista, uma mulher africana que preserva na França suas tradições. Ela se prepara para o casamento da filha em Paris, mas a Cidade Luz se mostra como um dos polos desse movimento circular. O outro está em Guiné‑Bissau, onde anos atrás enterrou o pai, numa cerimônia marcada por dança e lembrança dos antepassados. O filme se transpõe entre as duas nações, rompendo as fronteiras entre documentário e ficção ao nos levar para um casting da produção de um filme; “Dao” é construído em duas partes, uma de um filme ficcional e a segunda, de uma espécie de documentário que registra a preparação daquele filme que será encenado. A voz fora de cena, quase onipresente, anuncia que o primeiro passo é formar esta família que surgirá na tela. Atores e não atores são convocados para serem os membros daquele clã familiar - não apenas no papel, mas na construção de uma comunidade temporária que atravessará continentes, rituais e lutos. É como se a obra cinematográfica nos lembrasse que toda família, real ou inventada, é sempre uma ficção partilhada. À medida que viajamos entre Paris e Guiné‑Bissau, as histórias individuais se entrelaçam com heranças comuns. Amor, risos, rituais, dor e memória surgem como fios condutores que costuram um tecido híbrido, onde fatos e imaginação se confundem. O movimento circular anunciado no início reaparece constantemente, não como metáfora abstrata, mas como forma de olhar: tudo retorna, tudo se dobra sobre si mesmo, tudo ecoa. É um filme sobre complexas relações humanas, feito de uma autoralidade que há tempos não via tão bem formatada na tela. Ele não apresenta divisão em capítulos, tudo é encaixado de forma discreta, com cortes que fazem o longa transitar entre a ficção e o documentário. As tradições ritualísticas da cultura de Guiné Bissau, evocadas pelo canto e a dança, seja para o luto ou para a comemoração do casamento, trazem ritmo e brilho para a composição estética desse riquíssimo filme que é o terceiro trabalho do diretor Alain Gomis indicado ao Urso de Ouro, seguido de “Aujourd'hui” (2012) e “Felicidade” (2017). Está na competição oficial da Berlinale, muito cotado para vencer o Urso de Ouro.
 

 
O testamento de Ann Lee
(EUA/Reino Unido - 2025, 137 minutos, de Mona Fastvold)
 
Teve a première alemã na Berlinale este filme que já passou nos Estados Unidos e em vários países da Europa no ano passado, incluindo os Festivais de Veneza e Toronto e BFI Londres. Amanda Seyfried chegou hoje ao solo berlinense para divulgar o drama musical em que entrega uma poderosa interpretação, pela qual recebeu indicação ao Globo de Ouro de atriz de comédia ou musical. É um drama de época com momentos cantados, inspirado em um fato verídico, a vida marcada por perseguição religiosa de Ann Lee (1736–1784), conhecida como Madre Ann Lee (no filme apenas ‘Mother’). Ela foi a líder fundadora dos Shakers, mais tarde chamados Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Aparição de Cristo. Nascida na Inglaterra durante um período de intenso fervor religioso, virou figura marcante tanto no seu país quanto na América - em 1774, após 20 anos envolvida no movimento que daria origem aos Shakers, na Inglaterra, emigrou para Nova Iorque com um pequeno grupo de seguidores. Estabeleceram-se em Niskayuna, no condado de Albany, onde praticavam formas de culto marcadas por danças extáticas, o “shaking”, uma prática de movimento livre e espontâneo, sem coreografias, focada na conexão interior, cura e expressão autêntica, muitas vezes vivida como uma meditação ativa ou ritual, com gritos, cantos e sussurros, em movimentos circulares. Numa época em que poucas mulheres lideravam comunidades religiosas, Ann Lee (papel de muita concentração de Amanda Seyfried) pregava publicamente e era vista como a expressão feminina de Deus, consolidando o seu papel singular na história espiritual dos Estados Unidos. Mas ela incomodou a sociedade do século XVIII, resultando em perseguições severas sistemáticas. O grupo dos Shakers foi desmantelado diversas vezes, por causa de crenças e comportamentos que desafiavam as normas religiosas e sociais da época, como a encarnação de Cristo em uma mulher (apontado como uma heresia), a pregação da igualdade entre gêneros e classes sociais, o celibato absoluto, o que ameaçava o modelo tradicional de família, e a adoração efusiva, marcadas por gritos, danças frenéticas e tremores, que assustava e chocava a população. “O testamento de Ann Lee” não apresenta apenas uma história, mas um estado de espírito e um ânimo social, que reflete a intolerância religiosa e de gênero em séculos passados. Com uma montagem exímia dividindo a biografia de Ann Lee em quatro capítulos essenciais de sua curtíssima trajetória, conta com um olhar cuidadoso da cineasta Mona Fastvold – em nova parceria com o roteirista de “O brutalista” Brady Corbet. Ela capta bem olhares e o ambiente ao redor, trazendo dimensão humana para aquele grupo de pessoas envolvidas com a nova religião (as coreografias são ótimas nos momentos do “shaking”). Soube usar a fotografia das cenas abertas nas florestas, que são de puro capricho, e até as músicas cantaroladas são extraídas dos verdadeiros escritos de Ann Lee, demonstrando ampla pesquisa sobre a personagem. Amanda interpreta uma mulher no limite, uma protagonista cheia de camadas, à beira do desassossego, atravessando um limiar emocional – a atriz entrega um bom papel sem cair no exagero. Ao lado de Amanda há um elenco de coadjuvantes que levam a trama até o final, como Christopher Abbott, Thomasin McKenzie, Lewis Pullman, Tim Blake Nelson e Stacy Martin. Previsão de estreia no Brasil em 12 de março.
 

 
Queen at sea
(EUA/Reino Unido - 2026, 121 minutos, de Lance Hammer)
 
Um dos longas mais belos (e trágicos) do Festival de Berlim de 2026, a coprodução britânica-americana é um devastador retrato sobre a impotência da velhice, que reúne um elenco em estado de graça, cotados para os prêmios principais da Berlinale. Uma família é atravessada pela demência da mãe, Leslie (Anna Calder-Marshall), que já não fala e expressa pouco seus sentimentos. Ela é cuidada pelo atual marido, Martin (Tom Courtenay), ambos com mais de 80 anos. Certa manhã, a filha, Amanda (Juliette Binoche), vai visitar a mãe e leva um choque ao vê-la transando com o padrasto. Ela expulsa Martin da cama e ameaça chamar a polícia – segundo Amanda, ele não deveria mais fazer sexo com Leslie, já que a idosa fica estática, sem reação, alegando uma agressão às vontades da mãe. Martin e Amanda iniciam um duro embate moral que arrastará toda a discussão do filme, trazendo luz para temas como velhice, doença, decisões próprias, cuidado, companhia e solidão. Lance Hammer dirige com maestria seu segundo longa-metragem fazendo um belo filme de atores, com presença marcante do trio composto por Anna Calder-Marshall, Tom Courtenay (numa interpretação notavelmente contundente) e Juliette Binoche. Uma história paralela, menos importante, é traçada, sobre a filha jovem e rebelde de Amanda, Sara (papel de Florence Hunt), que pouco acrescenta à trama original. Nossa atenção toda é voltada para a crescente crise que instala naquela família, fazendo com que nossos olhos não saiam da tela um minuto sequer. Gostei muito e espero que o filme ganhe asas em outros festivais e chegue logo ao Brasil para que o público conheça.
 
 
 
Rosebush pruning
(Alemanha/Itália/Espanha/Reino Unido/Estados Unidos – 2026, 97 minutos, de Karim Aïnouz)
 
O cineasta cearense Karim Aïnouz trouxe para o Festival de Berlim seu segundo filme estrangeiro com elenco internacional, desta vez com nomes a perder de vista: Elle Fanning, Callum Turner, Pamela Anderson, Riley Keough, Lukas Gage, Jamie Bell e Tracy Letts (o anterior foi o indicado à Palma de Ouro “O jogo da rainha”, de 2023, com Jude Law e Alicia Vikander). Deu um chacoalhão no público, dividindo a crítica, em uma obra autoral de extremos, que tem traços do cinema de Yorgos Lanthimos – não por acaso o roteirista é o grego Efthimis Filippou, que escreveu quase todos os filmes de Lanthimos. É um filme incomum, e com certeza muita gente irá chiar – há duas cenas sobre sexo bizarro que ficará na memória (pro bem e pro mal). Sob o sol da Catalunha, quatro irmãos residem com o pai cego (Tracy Letts) em uma casa aconchegante próxima ao mar. A mansão tem peculiar arquitetura, rodeada por vastos roseirais podados diariamente pelo patriarca (daí o título). Herdeiros de uma grande fortuna, os filhos se provocam, têm comportamentos inadequados e se refugiam em roupas de marca, em rituais vazios e na ilusão de que o isolamento pode protegê-los das exigências da sociedade. No jardim de inverno dentro do casarão todos eles cultuam o jazigo da mãe morta (Pamela Anderson). As coisas mudam quando Jack (Jamie Bell), o filho primogênito e o mais resolvido da casa, resolve abandonar o lar para viver com a namorada, Martha (Elle Fanning). A decisão desencadeia uma ruptura na família, atingindo em cheio os irmãos Robert (Lukas Gage) e Anna (Riley Keough). Quem observa com segunda intenção aquele desmoronamento é o irmão mais sorrateiro, Ed (Callum Turner), que impulsionará uma série de eventos eu colocará um contra o outro dando início a uma onda de conflitos violentos. Esse processo de desintegração familiar nas mãos de Aïnouz e Filippou vira uma sátira voraz à família patriarcal tradicional. Assim como no cinema de Lanthimos, há lances chocantes, reviravoltas impressionantes e um certo clima de estranhezas no ar. Eu sou da ala dos que curtiram o filme, e ver um cineasta brasileiro chegar aqui com esta fita de arte estrondosa, é de dar orgulho. Com produção assinada pela Mubi, está na competição principal, na disputa pelo Urso de Ouro – e deve estrear nos cinemas até o fim do ano.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
Berlinale traz mais uma série de filmes com protagonistas femininas
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) entra hoje em seu sétimo dia, com uma rica programação de filmes em première na capital alemã. Um dos festivais de cinema mais reconhecidos do mundo segue até o dia 22/02 apresentando mais de 400 longas e curtas-metragens de diversos países, de temáticas e gêneros diversos. Confira abaixo títulos com personagens femininas que se destacam na tela, que assisti no festival e recomendo:


 
At the sea
(EUA/Hungria - 2026, 112 minutos, de Kornél Mundruczó)
 
Um drama envolvente com uma interpretação mais uma vez estrondosa de Amy Adams, atriz que gosto em particular e que pelo papel aqui deverá ser indicada ao Oscar em 2027. Ela interpreta com frequência papeis de mulheres em vulnerabilidade emocional, repetindo a dose com maestria em “At the sea”. Desta vez ela é Laura, dirigente de uma companhia de balé (herdada do pai), que retorna para casa após seis meses de internação em uma clínica de reabilitação. Ela tem vício em álcool e quase perdeu tudo com o agravamento da adicção. O filme já abre com Laura deixando a clínica e voltando para o lar, onde marido e filhos a esperam – a residência fica à beira da praia (por isso o título), local onde transcorrerá toda a trama. Ela tenta reconstruir os laços com a família – os filhos não a perdoam pelo passado, pois foram traumatizados pelo vício da mãe, enquanto o marido, Martin (ótimo trabalho de Murray Bartlett, de “The White Lotus”), pacientemente dá o tempo necessário para a esposa se reajustar. Laura tem lapsos do passado, de quando era pequena e tinha o pai como apoio – a relação entre eles não fica muito clara, já que são flashes sem diálogos. A resistência dos filhos é dura, mas também vemos que Laura é uma mulher de pouco afeto e carinho – uma é a filha adolescente rebelde (que também gosta de dançar) e o outro é um garotinho que sentiu profundamente a ausência dela. São dias sucessivamente tensos de retomar as funções da casa, do trabalho e do convívio familiar. E para piorar uma crise entre o casal se instala, envolvendo culpa e responsabilidades. O longa permanece do começo ao fim como um drama intenso, com um desfecho de arrancar lágrimas, um filme todo de Amy, num papel complexo. A paisagem marítima funciona como espelho do estado interno da protagonista: ora calma, ora turbulenta, sempre prestes a revelar algo submerso. Amy está fotogênica, entrega tudo - pequenos gestos, hesitações e silêncios dela dizem mais do que qualquer diálogo. A direção acerta no trabalho dos atores, seguindo em ritmo lento a condução das cenas – assinada por Kornél Mundruczó. O cineasta húngaro fez filmes na linha do cinema fantástico, como “Lua de Júpiter” (2017), e aqui é seu segundo trabalho com mulheres problemáticas se reconstruindo; o primeiro foi “Pedaços de uma mulher” (2020), que deu indicação ao Oscar de melhor atriz a Vanessa Kirby, e agora “At the sea”. É um diretor de alma feminina que captura com exatidão a mensagem que quer passar. Integra a competição em busca do Urso de Ouro.
 

Saccharine
(Austrália - 2026, 112 minutos, de Natalie Erika James)
 
Terror psicológico com forte comentário à cultura fitness, é um dos bons filmes de gênero que circula por esses dias na Berlinale. Com ecos de horror corporal, o inquietante longa australiano é o melhor trabalho da cineasta Natalie Erika James, de “Relíquia macabra” (2020) e “Apartamento 7A” (2024). A trama acompanha Hana (Midori Francis), uma estudante de Medicina que descobre uma fórmula mágica para emagrecer: comprimidos manipulados em laboratório com cinzas de pessoas que foram cremadas (é isto mesmo, bizarríssimo). Ela gosta de comer doces e percebe que seu peso estagnou mesmo frequentando academia - e quando experimenta a pílula, vê o resultado em poucos dias. Hana não conta para ninguém sobre o remédio. Paralelo a isto, nas aulas de anatomia, estuda a dissecação de um cadáver de aparência chocante, a de uma mulher com mais de 200 quilos, toda inchada. Hana sente algo estranho naquele corpo estirado na mesa e passa a ter alucinações. O pesadelo na vida da universitária atinge o ápice quando o fantasma da morta aparece para ela em reflexos nos talheres de cozinha. O filme trabalha a ambientação do medo e da paranoia, de uma mulher disposta a qualquer coisa para perder peso. Ao ingerir cápsulas com restos de corpo humano demostra-se a loucura das dietas emagrecedoras milagrosas, tema que o longa procura tecer críticas. Tem um clima opressivo, jumpscares que realmente provocam medo, uma boa fita de clima tenso. Além de Midori, aparecem no elenco Danielle Macdonald (de “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”,aqui no papel da melhor amiga de Hana, também estudante de medicina) e do conhecido ator australiano Robert Taylor (coberto por uma maquiagem pesada, como o pai da protagonista). A première europeia ocorreu na sessão Berlinale Special Midnight.
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Especia de cinema


76º Festival de Berlim reúne obras autorais de impacto temático e visual
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) continua a todo vapor na capital alemã até o dia 22 de fevereiro. Vitrine do cinema mundial e um dos festivais de cinema mais importantes da Europa, a Berlinale apresenta esse ano mais de 400 filmes de diversos países, que exploram temas urgentes, como imigração, identidades de gênero, o papel da mulher na sociedade, intolerância religiosa, extremismo político etc. Obras autorais despertam a atenção pela qualidade técnica, provocando impacto visual imediato. Confira abaixo títulos que assisti no festival e que recomendo:



The moment
(Reino Unido e EUA - 2026, 103 minutos, de Aidan Zamiri)
 
Após estreia mundial no Festival de Sundance em janeiro e duas exibições em cinemas reservados nos Estados Unidos e Canadá, chega à Berlinale o mockumentary produzido e estrelado pela cantora britânica Charli xcx que mergulha nos altos e baixos de um artista pop contemporâneo. É um filme barulhento, de enorme furor, apresentado na seção Panorama e que tem a assinatura da produtora A24. Charli faz uma autointerpretação, em um filme que explora à exaustão os bastidores de um show musical. Sua personagem (ela mesma) enfrenta expectativas esmagadoras impostas tanto pela indústria quanto as que alimenta. A estrela pop, já consolidada, equilibra a pressão, a autocrítica e o desejo de autenticidade no período que antecede a primeira grande turnê da carreira. É de Charli o argumento original, confiado a Aidan Zamiri, cineasta e fotógrafo escocês radicado em Londres, que se tornou uma das figuras centrais da estética pop atual. Seu trabalho, reconhecido em videoclipes de Charli e Billie Eilish, combina um quê dos anos 2000, humor irônico, autocrítica feroz e um estilo lo-fi estilizado. Em “The moment”, ele leva essa assinatura visual para um território mais íntimo, expondo a vulnerabilidade por trás da persona pública de Charli – todo gravado com câmera em movimento, das andanças, erros e acertos da artista e sua equipe na preparação de um show. O filme, uma comédia dramática, caminha entre a fronteira da ficção e da realidade, ironizando o mundo dos músicos pop para revelar uma artista que tenta manter o controle enquanto tudo ao redor parece desmoronar. Charli caçoa da era Brat, estilo que virou fenômeno em 2024, popularizado por ela no álbum de mesmo nome, em que trata da nova juventude, de espírito livre, rebelde e hedonista (a cor verde-limão do disco volta como estética em “The moment”). O resultado é um olhar afiado sobre o significado de performar sucesso num mundo que exige presença constante. Detalhe que até as músicas de Charli tocam na trilha sonora, como “Boom clap” e “360”. No elenco há coadjuvantes curiosíssimos, com destaque para Rosana Arquette, como a empresária prestes a infartar, e o sueco Alexander Skarsgård, num papel que extra risadas sem fim, como o diretor contratado para conduzir o show da cantora. Estreia nos cinemas do Brasil e de outros países nesta semana.
 
 
Nightborn
(Finlândia/França/Reino Unido/Lituânia - 2026, 92 minutos, de Hanna Bergholm)
 
E eis que na Berlinale aparece um body horror com bebê monstro para discutir o papel de mãe em uma sociedade patriarcal, recorrendo a um humor (bem estranho) para amenizar o gore que respinga na tela. É um filme finlandês que se passa inteiramente em uma casa localizada nas adjacências de um bosque, onde mora o casal Saga (Seidi Haarla) e Jon (Rupert Grint). No lar cercado por árvores, onde Saga passou a infância, nasce o bebê deles. Mas desde o parto percebem que ali não existe uma criança igual às outras: o recém-nascido tem pelos por todo o corpo e unhas afiadas. Na amamentação, Saga fica machucada, de seu peito escorre sangue, e na hora de dormir, o bebê a deixa com hematomas no braço de tanto que a aperta. Inquieta, a mãe não consegue dialogar com o marido (sobre nenhum assunto), ambos brigam, e Jon fica mais distante. Resta a Saga cuidar sozinha daquele estranho filho, que passa a ter comportamentos fora do comum. Enquanto o pai não vê nada de errado ali, Saga trava uma batalha contra uma verdade que a assombra, iniciando conflitos com outros familiares, como a mãe controladora. O longa trata da pressão da maternidade e da depressão pós-parto, focando em uma mulher que vai enlouquecendo por não conseguir cuidar do filho recém-nascido. A sociedade exige dela a figura de mãe exemplar, forçada a exercer um papel que a sobrecarrega a ponto de viver apenas para a criança (o trabalho da atriz finlandesa Seidi Haarla, de “Compartimento número 6”, é afiadíssimo, com momentos de tensão, humor e dor). O terror corporal na figura da criança com traços animalescos (em determinado momento o nenezinho só se alimenta de carne crua desenvolvendo um instinto primitivo que o faz se comunicar com a natureza) dá ao filme a dimensão de fantasia e horror como uma fábula. A criança nunca aparece, só a vemos de lado e de costas no colo da mãe, instigando a curiosidade de quem assiste. No passado, filmes com recém-nascidos malditos já levantava questões sobre o desalento da maternidade, como “O bebê de Rosemary”, sendo este “Nightborn” um esperto derivado que serve para uma reflexão sobre o tema. O filme está na competição da Berlinale concorrendo ao Urso de Ouro.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
76º Festival de Berlim se destaca por filmes com protagonismo feminino
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) segue até o dia 22 de fevereiro na capital alemã e apresenta ao público uma programação repleta de filmes históricos e sociais, muitos deles com forte protagonismo feminino. Histórias de mulheres em busca de liberdade, enfrentando o patriarcado e o preconceito e lutando para decidir sobre o próprio corpo. Atrizes premiadas como Sandra Hüller, Amy Adams e Juliette Binoche se destacam nas produções que estão em première mundial na Berlinale. Confira abaixo títulos que assisti:

 
Rose
(Áustria e Alemanha - 2026, 94 minutos, de Markus Schleinzer)
 
“Rose” integra a competição oficial da Berlinale 2026 e é forte candidata ao Urso de Ouro. A fita de arte de altíssimo impacto visual marca o retorno de Markus Schleinzer, diretor de “Angelo” (2018), num trabalho difícil de ser realizado e que tem tudo para render a Sandra Hüller o prêmio de melhor atriz no festival: ela está extraordinária, em uma performance de precisão emocional. A fotografia em preto-e-branco de Gerald Kerkletz é arrebatadora com seus contrastes duros e texturas quase táteis, que dá ao longa uma aura de fábula sombria. Trata-se de um folk tale inspirado em um provável caso real, de uma mulher do início do século XVII que utiliza a identidade de um homem morto para ser aceita em uma sociedade regida pela religião. A história se passa em algum lugar longínquo da Alemanha. Rose é uma desconhecida que chega a um vilarejo protestante e se identifica como um soldado recém-saído da guerra. Com uma queimadura no rosto e uma cicatriz profunda na bochecha (marcas daquela guerra), ela apresenta aos moradores de lá documentos que indicam a herança de um lote de terra abandonado. Rose se instala numa casa na floresta, e naquele pedaço de chão tido como seu, passa a plantar e colher, sendo aceita pelos aldeões. Até que é forçada a se casar; para tanto, apresentam para ela uma mulher vinda de uma cidade vizinha. Sandra Hüller tem uma força de expressão indescritível, traz carga dramática, sentimento no olhar e na delicadeza dos gestos para levar nas costas uma história sobre construção de identidade e combate à intolerância, de uma mulher solitária que tem de se esconder para ser aceita, desde mudar o nome até usar roupas apertadas para apagar os traços de mulher. Schleinzer transforma essa premissa histórica em um estudo sobre moralidade, patriarcado e violência estrutural, sem abrir mão de uma mise-en-scène rigorosa e de um olhar profundamente humano. Sublime na forma, a plasticidade da paisagem salta da tela, verdadeiros quadros fotogênicos. As locações são do Vale de Glasebach (Glasebachtal), localizado no estado alemão da Saxônia-Anhalt. Deve ser finalista do Oscar do próximo ano na categoria de filme estrangeiro, atriz e fotografia.
 
 
Un hijo própio
(México - 2026, 96 minutos, de Maite Alberdi)
 
Com apenas 42 anos de idade, a cineasta chilena Maite Alberdi já se destaca como um dos principais nomes do documentário contemporâneo. Reconhecida por transformar questões sociais e situações cotidianas em narrativas intimistas com linguagem que mistura documentário e ficção, tornou-se a primeira mulher chilena indicada ao Oscar – ela tem duas nomeações, de melhor documentário por “Agente duplo” (2020), uma criativa fusão entre o universo da espionagem e a rotina de um lar de idosos, e “A memória infinita” (2023), um delicado retrato de um casal de jornalistas diante do Alzheimer. Depois de arriscar uma fita ficcional para a Netflix em 2024, “No lugar da outra”, recorrendo a uma história verídica de assassinato e julgamento, retorna ao gênero que a consagrou, sua base de cinema, no documentário “Un hijo próprio”, que teve a première mundial no Festival de Berlim. Filmado no México, ela reconta com suas palavras a história verídica de Alejandra, uma mulher mexicana que simula uma gravidez, após pressão do marido e das expectativas sociais. Ela sofreu três abortos espontâneos, o que a fez desistir de ser mãe. Mas acaba por fingir a espera de um bebê por nove meses, sustentando uma mentira que a lançará em uma armadilha. Família e amigos se afastam, e a mídia transforma o caso num escândalo sem precedentes. Alberdi insere humor agridoce numa trama que seria de muita angústia e adota uma abordagem de docuficção, com depoimentos reais combinados com encenações de atores, como Ana Celeste no papel de Alejandra. Esses elementos fazem seu cinema autoral acontecer, criando um filme de linguagem própria e que, como tema central, explora as imposições culturais relacionadas à maternidade. Produção original da Netflix, ele deve integrar o catálogo da plataforma após sua circulação em festivais.
 
 
Fiz um foguete imaginando que você vinha
(Brasil - 2026, 92 minutos, de Janaina Marques)
 
Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Especial de cinema

 
Berlinale 2026 entra na primeira semana de exibição reunindo filmes autorais de mais de 70 países
 
O 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, chega à edição de 2026 com uma programação marcada por obras de forte caráter histórico e social. Um dos eventos de cinema mais importantes da Europa, o festival, que começou no último dia 12, segue até 22 de fevereiro com mais de 400 filmes na programação, distribuídas em diversas seções e mostras especiais. Neste ano, o júri internacional é presidido pelo cineasta alemão Wim Wenders.
O cinema brasileiro marca presença com oito produções distribuídas por diferentes seções do festival. Entre elas estão: “Se eu fosse vivo... vivia”, de André Novais Oliveira (Panorama), “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai (Generation Kplus), “Papaya”, animação de Priscilla Kellen (Generation Kplus), “Feito pipa”, de Alan Deberton (Generation Kplus), “Quatro meninas”, de Karen Suzane (Generation 14plus), “Fiz um foguete imaginando que você vinha”, de Janaina Marques (Forum) e “Nosso segredo”, dirigido por Grace Passô (Perspectives, nova seção competitiva).



Na competição principal, 22 filmes disputam o Urso de Ouro e o Urso de Prata, muitos deles abordando temas contemporâneos. Entre os destaques estão: “Rosebush pruning”, novo trabalho de Karim Aïnouz, coprodução entre Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha, com elenco estrelado por Callum Turner, Tracy Letts,Riley Keough, Jamie Bell, Elle Fanning e Pamela Anderson; “At the sea”, do húngaro Kornél Mundruczó, com Amy Adams; “A new Dawn”, animação japonesa de Yoshitoshi Shinomiya; “Yellow letters”, do premiado diretor turco İlker Çatak; “Josephine”, da cineasta Beth de Araújo, com Channing Tatum; “Queen at sea”, produção britânica com Juliette Binoche e Tom Courtenay; “Rose”, drama de época austríaco estrelado por Sandra Hüller; e “Nightborn”, drama com elementos de terror corporal protagonizado por Rupert Grint.
Fundada em 1951, a Berlinale consolidou-se como um dos três grandes festivais europeus, ao lado de Cannes e Veneza. Desde 2000, seu principal palco de exibições e recepções é o Theatre am Potsdamer Platz, conhecido como Berlinale Palast. As exibições ocorrem em diversos cinemas da capital alemã, como o Cubix Cine Star, na praça Alexanderplatz, Cinemaxx e Bluemax Theater, ambos na Potsdamer Platz, Uber Eats Music Hall, Urania e Zoo Palast. Ingressos e informações pelo site oficial do festival, em https://www.berlinale.de/en/home.html
Confira abaixo comentários de filmes que conferi na Berlinale 2026:
 
A prayer for the dying
(Suécia, Reino Unido, Grécia e Noruega - 2026, 95 minutos, de Dara Van Dusen)
 
Produção independente falada em inglês e sueco, é a estreia na direção da curtametragista norte-americana Dara Van Dusen, que entrega uma fita autoral de drama com elementos do western e uma história peculiar sobre honra em um cenário desafiador. Também escrito por ela, o filme tem como pano de fundo os primeiros anos após o fim da Guerra Civil Americana. Em 1870, em uma Wisconsin em reconstrução, a pequena cidade de Friendship é de terra arrasada. Os moradores trabalham arduamente em comunidade para reerguer o local. O sol escaldante aliado ao clima seco atormenta o ânimo da população. Um ex-combatente da Guerra de Secessão, que virou herói do povoado, Jacob Hansen (Johnny Flynn, de “Emma.” e “O alfaiate”), é nomeado xerife de Friendship devido à experiência em combates armados. Ele administra a segurança com vigor, espantando bandidos e ajudando os moradores. Casa-se com a jovem esposa e tem um bebê. Hansen também é pastor e levanta uma igreja no centro da cidade. Tudo parece sob controle, até que uma estranha epidemia se alastra pela região. Vários morrem da doença, então ele decide fechar a cidade com o aval de um médico sanitarista (John C. Reilly, de “Chicago”). Impotente e receoso com o futuro, Hansen é atormentado por imagens do passado, de quando há poucos anos viu os horrores da guerra. O filme traz um bom trabalho dos atores centrais em uma trama de ritmo crescente, narrado como um poema trágico, de morte anunciada. A ambientação em uma região árida, com forte presença do sol, aprisiona os personagens, cercados por uma epidemia mortal não identificada (um diálogo com a pandemia que enfrentamos recentemente), e aos poucos as incertezas do futuro emparedam aquele longínquo povoado. O protagonista é um bravo soldado dividido entre a nova família que construiu e os desgastantes ossos do ofício (Johnny Flynn atua de forma certeira, compondo uma figura que anda por uma linha tênue, equilibrando-se para não explodir, um papel maduro e sólido, auxiliado por John C. Reilly, em mais uma interpretação de destaque em sua vasta carreira). Da metade para o final o longa assume um tom catastrofista, em que os personagens sobreviventes são forçados ao vale tudo, com consequências brutais. No elenco, participações de Kristine Kujath Thorp (de “Doente de mim mesma”) e Gustav Lindh (de “O homem do norte”). Première mundial na nova seção da Berlinale, chamada “Perspectives” – o assisti em uma sessão lotada no Cubix, ontem.




Everybody digs Bill Evans
(EUA, Irlanda e Reino Unido - 2026, 102 minutos, de Grant Gee)
 
Em première mundial na Berlinale, concorre ao Urso de Ouro este drama rodado em preto-e-branco que biografa uma pequena parte da vida do pianista norte-americano Bill Evans (1929-1980), focando em quatro pontos entre 1961 e 1973: o relacionamento amoroso conflitante com a primeira esposa, Ellaine Schultz, que cometeu suicídio, a produção de seu disco mais famoso (que dá título ao filme), o retorno para a casa dos pais, na Flórida, e o vício em heroína. O ator norueguês Anders Danielsen Lie (de “Oslo, 31 de agosto”) performa bem como o melancólico pianista, que era referência no jazz, mas que vivia sob efeitos de sedativos e drogas, chegando a dormir na mesa durante as refeições. Lie tem em uma interpretação tácita, de poucas palavras, um cara introspectivo, inseguro e limitado no amor – o filme se concentra nos momentos de silêncio do personagem, quando não está tocando ou gravando, ou seja, em seu momento íntimo. Solitário, ele aguarda a entrega do seu segundo álbum, cujo atraso da gravadora o perturba; ele tem um romance de altos e baixos com Ellaine Schultz, uma namorada quase noiva, que logo comete suicídio, o que o abalará profundamente. Recorre à heroína injetável para suportar o luto e as decepções. Um tanto quanto pessimista, o filme evita sublimar o personagem, buscando exibir seu lado frágil, às vezes decadente. A fotografia em penumbras, com sombras fortes projetando a silhueta de Evans nas paredes, é uma opção forte de estética, que foge da convencionalidade. O único momento de descontração, que torna momentos do filme mais leve, está na aparição dos pais de Evans, interpretados brilhantemente por Bill Pullman e Laurie Metcalf – o casal está formidável, Pullman como um idoso reclamão, e Laurie como a mãe de origem russa, engraçada e ao mesmo tempo atenta aos vícios do filho. Destaque para Bill Pullman, num de seus trabalhos mais humanos, que raramente o vemos desempenhar com tamanha dignidade no cinema. Há escolhas interessantes de montagem: o filme se passa essencialmente em 1961, num PB sagaz, mas há flashforwards (passagens para o tempo futuro) coloridos com tons estourados, de 1973 e 1980 (este sobre a morte prematura do pianista), provocando uma dinâmica especial para a composição das imagens. Quem assina o filme é o diretor inglês Grant Gee, um conhecedor do mundo da música, já indicado ao Grammy e que fez clipes nos anos 90 de Radiohead.
 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Estreias da semana - Nos cinemas e no streaming - Parte 1

 
Dinheiro suspeito
 
Joe Carnahan, conhecido por seu cinema policial eletrizante, anda numa maré de filmes ruins. Lá no passado dirigira o ótimo “Narc” (2002), um de seus primeiros trabalhos, passando por bons entretenimentos de ação como “A última cartada” (2006) e “A perseguição” (2011), mas de uma década para cá tudo mudou, entregando bobagens atrás de bobagens. Agora, com a Netflix, deu a volta por cima numa fita policial engenhosa, que exige muita cabeça para acompanhar a tétrica trama de investigação e traição. É o melhor trabalho dele desta década, um thriller que mistura a brutalidade estilizada do cineasta com uma narrativa intrincada, repleta de reviravoltas. O filme se passa numa noite sem fim, quando um grupo de agentes, numa batida policial casual, depara-se com um esquema financeiro obscuro, envolvendo-os em uma espiral de perseguições e traições. Eles encontram numa casa investigada milhões de dólares escondidos em uma parede no sótão, alimentando uma disputa de quem ficará com a grana. Enquanto parte da equipe decide avisar o chefe da polícia, outros se articulam ali dentro para roubar a bolada. O dinheiro aqui é uma metáfora corrosiva do poder e da ambição, que leva os personagens a dilemas morais. Com uma fotografia sombria e diálogos desafiadores, o filme traz no elenco um bom trabalho de Ben Affleck e Matt Damon, parceiros de longa data, que sustentam a fita com atuações sólidas – aos poucos seus papeis vão se contrapondo, um como policial bom, e outro como o vilão. Joe Carnahan reafirma sua assinatura no cinema que explora a violência policial e a corrupção dentro da instituição de Estado. Um dos destaques do mês da Netflix.
 

 
Me ame com ternura
 
Novo drama pessoal da jovem cineasta francesa Anna Cazenave Cambet, que costuma abordar temáticas LGBTQIAPN+ em seus curtas e longas-metragens. O roteiro, assinado por ela, é inspirado no livro autobiográfico de Constance Debré, advogada e romancista, também francesa. A história acompanha parte da trajetória da verdadeira Constance, após a separação do marido e o novo relacionamento com uma mulher mais jovem, tendo o filho do casal no centro de uma disputa. No filme, a personagem principal é Clémence (Vicky Krieps), que após o divórcio enfrenta uma batalha judicial pela guarda do filho. O ex-marido, profundamente magoado pela decisão de Clémence em se divorciar, provoca o afastamento do menino, alegando que a mãe tem problemas psicológicos (mas fica subentendido o preconceito eu ele alimenta, já que ela está com uma mulher hoje). O filho não quer saber mais de Clémence, mas a mulher faz de tudo para retomar os laços com ele. Exibida no Festival de Cannes, a dramática fita traz uma atuação fora do comum de Vicky Krieps, atriz luxemburguesa que sempre se destaca nos filmes que participa. Ela tem um desempenho excepcional, profundamente equilibrado entre a sensatez de uma mulher em um novo relacionamento e a mãe disposta a tudo para ver o filho. Um papel representativo sobre mulheres independentes marcadas pelo abandono da família e alvo de preconceitos. Trabalha bem o delicado tema sobre maternidade e os desafios impostos pelo patriarcado mais rude. O filme teve exibição em Cannes, onde concorreu ao Queer Palm e ao ‘Um certo olhar’, e no Brasil foi exibido nos festivais do Rio e Mix Brasil. Está nos cinemas pela Imovision.
 

 
Alerta apocalipse
 
Diverti-me muito com esse filme scifi que desbunda para a comédia macabra e o terror corporal e aposta no grotesco e escatológico para fazer rir. É uma história caótica sobre um fungo misterioso que escapa de um laboratório e rapidamente se espalha pelos Estados Unidos, transformando pessoas e animais (como gatos e veados) em criaturas meio zumbis, meio parasitas. O medo se instala quando autoridades de saúde e o próprio governo não conseguem conter a epidemia, que atinge outros países, mergulhando a sociedade em um cenário de paranoia e violência. O visual caótico com cores surreais é um elemento interessante do filme que homenageia o cinema B do passado; explora o horror físico das mutações ao mesmo tempo em que brinca com o absurdo/nonsense. Há pequenas ironias, momentos chocantes, e tudo num contexto que rememora o da pandemia da covid questionando até onde a humanidade consegue manter sua sanidade diante do colapso. Daqueles filmes que não damos um centavo (ele passou despercebido nos cinemas brasileiros), mas que quando assistimos temos a sensação de ter valido a pena. O elenco é liderado por Liam Neeson, no papel de um cientista veterano, Joe Keery (da série “Stranger Things”) e participações especiais das atrizes Lesley Manville e Vanessa Redgrave. Nos cinemas pela Imagem Filmes.
 

 
A morte de um unicórnio
 
A produtora A24 mais uma vez aposta no cinema de horror estilizado e entrega um filme que mistura fantasia sombria, terror e humor ácido. Disponível no Prime Video, o longa parte de uma premissa absurda: um casal atropela acidentalmente um unicórnio na estrada e acaba sacrificando o animal. Eles voltam para casa traumatizados com o ocorrido. Só que a situação se transforma num grande pesadelo quando o bicho retorna dos mortos, agora como um unicórnio zumbi vingativo. Com certa ousadia, o filme brinca com o imaginário infantil, contrastando a magia do unicórnio com a brutalidade do terror sombrio - o animal, símbolo de pureza e inocência, vira uma aberração grotesca que persegue os protagonistas, expondo o ridículo e o sobrenatural da situação. Com jumpscares, mortes sangrentas (o unicórnio ataca com seu chifre) e ação, o filme é um pequeno achado no cinema autoral independente, contando no elenco com Paul Rudd e Jenna Ortega (como o casal caçado pelo monstro), além de Richard E. Grant, Téa Leoni e Will Poulter. Caótico e excêntrico, é mais uma fita que carrega a marca da A24, que sabe transformar o estranho em espetáculo.



Estreias da semana – Nos cinemas

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