Amizade tóxica
Lançado há pouco na
plataforma Paramount Plus, a comédia independente do estreante cineasta Andrew
DeYoung aposta no desconforto como mola propulsora da narrativa, subvertendo um
tema tão batido no cinema, sobre a amizade improvável de dois desconhecidos. Aqui
o inusitado ganha forma nos detalhes da história e na relação dos dois personagens
centrais, mergulhando nos limites da amizade – e de como a intimidade pode escorregar
para a destruição. Na história, dois homens acabam de se conhecer: eles são
novos vizinhos, o solitário e impulsivo Craig (Tim Robinson) e um músico de bem
com a vida, Austin (Paul Rudd). Craig se aproxima de Austin, no primeiro
momento respeitosamente, até que o dois se veem presos em situações cada vez
mais absurdas, onde pequenos atritos do cotidiano se transformam em paranoia e
perseguição. O comediante Tim Robinson, especialista em humor que beira o
constrangimento, entrega uma atuação que mistura fragilidade e excentricidade, num
personagem carente e patético que pra mim já se tornou icônico (vou sempre
lembrar dele aqui), um cara pegajoso que tenta forçar uma amizade com o vizinho.
Paul Rudd, protagonista de “Homem-formiga” (2015), com seu timing preciso, traz
dinamismo ao papel do vizinho que cai numa tremenda cilada ao se encontrar com o
cara que mora ao seu lado – seu trabalho é muito bom, dá ritmo à comédia.
Juntos, eles fazem do desconforto uma ferramenta narrativa, provocando risadas
nervosas e reflexões sobre até onde a convivência pode ir. O filme se inscreve
na tradição das comédias autorais que desafiam o público a rir do incômodo, em
muitos momentos levando para situações-limite. Não é humor casual nem
previsível: é estranho, por vezes cruel, com narrativa ousada. O filme recebeu
indicação ao Critics Choice de melhor comédia neste ano e exibido no Festival
de Toronto.

Kaguya: A princesa espacial
Primeira aposta do ano
da Netflix em anime, “Kaguya: A princesa espacial” (2026) é um bom exemplar de
animação japonesa que mistura de maneira eclética temas e gêneros, que vai do
drama à ficção científica, passando pelo musical e pela comédia adolescente. Faz
uma fusão do folclore ancestral japonês com o scifi moderno repleto de cores
neon e rosa cintilante – Kaguya é a princesa que, segundo a lenda japonesa do século
X, nasceu dentro de um bambu e foi cuidada por um cortador de lenha,
tornando-se uma princesa cobiçada, que recebeu a alcunha de “Filha da Lua” (em
2013 saiu uma delicada animação que contava os detalhes desse folclore, filme indicado
ao Oscar, que recomendo, “O conto da princesa Kaguya”). Aqui a princesa é uma
garota serelepe, e longos cabelos loiros, que foge da Lua e vai parar na Terra.
Ela aparece na casa de uma adolescente emburrada, Iroha, que vive sob estresse
e cansaço da escola. Juntas seguem uma jornada de amizade e descobertas, até que
Kaguya oferece a Iroha uma visita ao seu lar, no espaço sideral. Um filme teenager
com história bacana, movimentada e com muita ação, que trata das incertezas da adolescência,
da procura pela identidade e autonomia. É uma aventura colorida com músicas dançantes
e ritmo frenético. O desenho de produção recorre a elementos da iconografia
clássica japonesa alternado com um design intergaláctico que brilha os olhos. Essa
releitura da lenda de Kaguya para o público jovem antenado nos streamings é um
acerto da Netflix.
Sequestro: Elizabeth
Smart
Novo documentário investigativo
da Netflix que está no top 10 dos filmes mais vistos nessa semana. Volta-se a
um caso policial estranho ocorrido em 2002 em Salt Lake City, no estado americano
de Utah, que permanece como um dos mais misteriosos dos Estados Unidos. Aos 14
anos, Elizabeth Smart foi raptada de dentro de seu quarto enquanto dormia. Ameaçada
com uma faca por um homem chamado Brian David Mitchell, foi levada por ele a um
cativeiro nas montanhas, sem comunicação com a família. Elizabeth ficou aprisionada
por nove meses, enquanto familiares e a polícia a procuravam desesperadamente.
O sequestrador cometia abusos psicológicos com a garota, utilizando para tanto
uma doutrina religiosa que servia para privá-la de tudo. Havia com Brian uma cúmplice,
Wanda Barzee, que vez ou outra saía com a menina pelas ruas, colocando
disfarces em Elizabeth, para que não fosse reconhecida. É um caso instigante e
perverso, contado pela própria sobrevivente, Elizabeth, que expôs as dolorosas
memórias como maneira de exorcizar o passado. Ela conta com detalhes para as câmeras
toda a trajetória de medo e violência sofrida – hoje ela é uma ativista pelos
direitos das crianças e adolescentes. No doc há um extenso material inédito com
fotos e reportagens antigas que ajudam a reconstituir o crime. Uma das
primeiras estreias do ano da Netflix, é um documentário angustiante, dirigido por
Benedict Sanderson, já ganhador de dois Baftas TV.

Quo vadis, Aida?
Disponível gratuitamente
na plataforma do Sesc Digital, este é um dos grandes filmes de 2020, que fiz
questão de rever na última semana – e novamente fiquei impactado com a obra
peculiar da cineasta bósnia Jasmila Zbanic. Não é fácil assisti-lo, é um filme duro,
amargo, que comove, uma história ficcional dentro de um contexto real, o Massacre
de Srebrenica, ocorrido na Bósnia em 1995. No drama de guerra, Aida Selmanagic
(Jasna Djuricic) é uma tradutora da Organização das Nações Unidas (ONU) que presencia
a cidade bósnia de Srebrenica, uma zona segura durante a Guerra da Bósnia, ser tomada
pelo exército sérvio. Dos milhares de reféns estão seus dois filhos e o marido.
Correndo de um abrigo a outro, ela tenta de tudo para colocar o nome dos três
na lista de pessoas a serem protegidas dos guerrilheiros. Jasna Djuricic é um
espetáculo de atriz, dando humanidade e eloquência ao papel da tradutora
confinada na região de guerra na corrida incessante contra o tempo para salvar
sua família (ela é casada de verdade com o ator Boris Isakovic, que faz o
general Ratko Mladić, responsável pelo genocídio em Srebrenica). O filme faz
uma denúncia contundente ao genocídio na Bósnia, recorrendo a um dos fatos mais
marcantes da Guerra da Bósnia, e decisivo para o fim dela, o Massacre de Srebrenica,
em 1995, quando oito mil bósnios muçulmanos foram executados pelo exército
sérvio. As vítimas tinham idade entre 15 e 80 anos, mortos a mando do temido general
Ratko Mladić (muitos anos depois ele foi preso e condenado pelo Tribunal Penal Internacional
por crimes contra a humanidade). O que houve ali foi uma limpeza étnica, em uma
região considerada “zona de segurança” pela ONU, Srebrenica – os corpos dos
bósnios foram enterrados em valas comuns, demorando anos para serem descobertos.
O título é uma expressão latina de origem bíblica, significando “Para onde vai,
Aida?”, que se refere à pergunta do apóstolo Pedro a Cristo ressuscitado quando
fugia da perseguição do imperador Nero aos cristãos. No filme há uma perseguição
nitidamente cruel de um povo a outro, por questões territoriais e religiosas, e
o roteiro preciso não deixa nada se dissipar. Pode ser visto como um thriller
político, e seu forte teor emocional poderá causar mal-estar (o desfecho é um
dos mais amargos que já vi no cinema). A diretora e roteirista bósnia Jasmila
Zbanic conta que o filme serve como uma reparação histórica – ela escreveu o
roteiro adaptado do livro “Under the UN Flag: The international community and
the Srebrenica genocide”, de Hasan Nuhanovic, um sobrevivente do massacre. Indicado
ao Oscar de melhor filme estrangeiro (representando a Bósnia e Herzegovina),
concorreu ao Leão de Ouro em Veneza e foi exibido no Festival de Toronto. Fotografia
e direção de arte ótimas, filmado na cidade de Mostar, a 300 quilômetros de
Srebrenica.