A única saída
Visionário, com seu
típico humor macabro e recorrendo ao clima de paranoia como fez em ‘Old boy’ (2003),
o multipremiado cineasta sul-coreano Park Chan-wook entrega aqui sua versão do
livro ‘The ax’, de Donald E. Westlake, que já havia inspirado a ótima comédia
de suspense ‘O corte’ (2005), de Costa-Gavras. Park transporta a história de
ambição e disputa a todo custo para seu país natal, no tempo atual. Os 25 anos
de experiência como executivo no ramo de fabricação de papel não seguraram no
emprego Man-soo (Lee Byung-hun); ele acaba de ser demitido da empresa com uma
leva de outros funcionários. Seu mundo desaba, já que leva uma boa vida, numa
casa luxuosa com seus dois filhos e a esposa dedicada. Com o passar das
semanas, a crise financeira vem, mas ele não pretende vender a casa nem cortar
gastos. Até que resolve jogar todas as fichas numa vaga em outra empresa do
ramo papeleiro, mesmo que tenha de eliminar a concorrência (no sentido literal
mesmo). Comédia perturbadora, violência e sangue, suspense e sequências
absurdas tomam conta do novo trabalho de Park. É crítico e divertido, um longa
inteligente, para se prestar atenção nos detalhes e nos diálogos, pois é um
vai-e-vem de personagens e subtramas. O ator Lee Byung-hun segura o filme, e é
um primor o domínio do diretor, considerado um dos nomes mais importantes do
cinema contemporâneo, que revolucionou o cinema de ação contemporâneo com ‘Old
boy’ e tantas obras notórias que são uma pancada. Exibido no Festival de Veneza
e no Festival de Toronto, onde recebeu o prêmio do público de melhor filme
internacional, o assisti na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ainda
com o título em inglês, ‘No other choice’. Estranhamente foi esquecido no Oscar
deste ano, não recebendo nenhuma indicação – no Globo de Ouro teve indicações
de melhor filme – comédia ou musical, filme de língua não-inglesa e ator para Lee
Byung-hun. Estreou ontem em cinemas brasileiros de 21 cidades, com distribuição
da Mares Filmes e a Mubi.
O ônibus perdido
Exibido no Festival de
Toronto, o drama de ação inspirado em caso verídico acaba de receber indicação
ao Oscar de melhor efeitos visuais. O filme adapta para as telas o livro ‘Paradise:
One town's struggle to survive an american wildfire’, da jornalista Lizzie
Johnson, então repórter em Los Angeles e hoje correspondente do Washington Post
na Ucrânia. Livro e filme narram a trajetória de um homem que virou herói
nacional durante o devastador caso ‘Camp Fire’, considerado o incêndio mais
letal da história da Califórnia, ocorrido em 2018. Kevin McKay, um motorista
escolar com apenas um mês de experiência na função, conduziu um ônibus perdido
em meio às chamas, levando dentro 22 crianças e uma professora. Sem saber para
onde ir, isolado em uma região sem comunicação, com fumaça para todo lado,
McKay passou horas no volante driblando as chamas para salvar os passageiros. A
narrativa tensa do filme reflete o caos e a coragem que marcaram aquele dia – a
jornalista Lizzie acompanhou a tragédia trazendo para o livro a história desse
homem. O caso Camp Fire envolveu um incêndio que teve início em 8 de novembro
de 2018 em Butte County, causado por falhas em linhas de transmissão de uma
empresa de eletricidade e gás natural. O fogo espalhou-se rapidamente, e a
cidade de Paradise, onde o filme acontece, foi totalmente destruída. O saldo
foi de 85 mortos, 52 mil moradores evacuados e 18 mil casas e comércio destruídos,
e uma área queimada de mais de 62 mil hectares. Os prejuízos giraram em torno
de US$ 16 bilhões. A direção do filme é competente, de um cineasta que admiro e
sigo há muito tempo, o inglês Paul Greengrass, que costuma fazer obras
angustiantes com seu peculiar olhar cinematográfico. Ele segue um estilo documental
e utiliza câmeras de mão para criar realismo. Ex-jornalista, Greengrass dirigiu
longas reais sobre desastres e ataques terroristas, como ‘Domingo sangrento’
(2002), sobre o massacre de manifestantes em uma passeata na Irlanda do Norte
que explodiu em uma terrível guerra civil no país em 1972, ‘Voo United 93’
(2006), que recria os ataques de 11 de setembro, e ‘22 de julho’ (2018), sobre
os atentados na Noruega de 2011 que mataram 77 pessoas, além de sucessos
comerciais como os dois últimos filmes da trilogia de Jason Bourne. Para o
elenco de ‘O ônibus perdido’, escalou Matthew McConaughey, que entrega um tour de
force como o heroico motorista Kevin McKay, e America Ferrera, no papel da
professora que está com as crianças no ônibus. Os dois estão sublimes, em
papeis muito humanos, num filme movimentado, que não deixa de lembrar toda uma mobilização
comunitária que ajudou a socorrer vítimas e a controlar o caótico episódio. Produção
da Apple TV, está disponível no streaming.