quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Cine Cult


Salò, ou Os 120 dias de Sodoma


Em 1944, na República de Salò, no norte da Itália, um grupo de fascistas, dentre eles políticos e empresários, sequestra 16 jovens e aprisiona-os num castelo. Lá, por 120 dias, as vítimas serão alvo de torturas e violência sexual.

Uma das obras mais cruéis e contraditórias do cinema, filme derradeiro de Pier Paolo Pasolini, assassinado no final das gravações em 1975. Indigesto, com imagens fortes e ousadas, veio na fase desregrada e de contestações política e social do cineasta italiano que fez “Mamma Roma” (1962), “Édipo rei” (1967), “Teorema” (1968), “Decameron” (1971) e outros filmes marcantes. Pasolini escreveu o roteiro ao lado de Sergio Citti e Pupi Avati adaptando-o do romance “Os 120 dias de Sodoma” (ou “A escola da libertinagem”, de 1785), do polêmico escritor Marquês de Sade (1740-1814), que viveu no período ferrenho do Absolutismo pouco antes da Revolução Francesa (que viu acontecer). Pasolini transpôs o pano de fundo das orgias da França libertina para a Itália fascista, mais precisamente na republiqueta de Salò, no norte do país. Dividiu o filme em capítulos com estrutura semelhante a “O inferno”, de Dante Aligheri, em ciclos que ficam mais pesados a cada passagem. Na trama, fascistas prendem adolescentes num castelo por 120 dias e lá praticam violência sexual, tortura, sodomização e assassinatos dos mais perversos, com a ajuda de mulheres e homens da sociedade. Pasolini, sem meios termos, criticou aqui ferrenhamente as atrocidades do fascismo italiano que devastou a Europa ao lado do Nazismo nos anos 30 e 40.
Recebeu censura de 18 anos, foi proibido em vários países (no Brasil não chegou a ser exibido, estávamos na ditadura) e unanimemente a crítica rotulava de “depravado”, “repulsivo”, “chocante” (o filme continua forte e toca em questões atuais, mas veja com cuidado!).


Vintes dias antes da estreia no festival de Paris, Pasolini foi encontrado morto na praia de Ostia, perto de Roma, em 2 de novembro de 1975 – quem foi preso e acusado foi um garoto de programa. O crime nunca ficou esclarecido.
Um destaque vai para a parte técnica: os maiores nomes da Itália da época se envolveram no projeto: Alberto Grimaldi assina a produção, Dante Ferretti o design de produção, fotografia de Tonino Delli Colli, figurinos de Danilo Donati e trilha sonora com participação de Ennio Morricone.


Ganhou há poucos meses edição nova, com luva, em disco duplo e duas horas de extras, com metragem original, de 117 min, pela Obras-primas do cinema. Já existia no mercado uma versão antiga, de revista, de mesma metragem, porém com imagem inferior, da extinta Wave Filmes.

Salò (ou Os 120 dias de Sodoma) (Salò o le 120 giornate di Sodoma). Itália/França, 1975, 117 minutos. Drama. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Pier Paolo Pasolini. Distribuição: Obras-primas do cinema

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Cine Cult


Clímax

Uma festa termina em alucinações e mortes quando os jovens ali presentes, sem saber, são drogados com LSD.

Argentino radicado na França, o diretor e roteirista Gaspar Noé chocou o mundo com “Irreversível” (2002), um filme apoteótico e extremamente violento que conta com uma cena insuportável de estupro, que dura 10 minutos. Ele nunca foi um cineasta com obras fáceis. Quatro anos antes de “Irreversível” fez seu primeiro trabalho, o agressivo “Sozinho contra todos” (1998), depois veio o desconcertante “Enter the void: Viagem alucinante” (2009), em seguida mais um drama, “Love” (2015), com cenas de sexo explícito como se fosse um filme pornô, até chegar em “Clímax” (2018), não menos complexo que os anteriores. Deixo claro que é uma fita de arte difícil, violenta, que sobe o tom com o desenrolar da trama, que se passa durante um dia numa festa eletrônica em um internato isolado na floresta. Os jovens ali presentes cantam, bebem, dançam de forma frenética, até serem dopados com LSD na bebida, sem saber. A partir daí têm comportamentos estranhos, passam mal, e alucinados, brigam, gritam e se agridem, a ponto de cometer crimes.
A estética do filme é a cara do diretor: cores fortes (como o vermelho no chão e paredes), luzes de neon (que costuma estar nos créditos), música eletrônica sem cessar, longos planos-sequência, uso de plongée e movimentos malucos de câmera que chegam a rodar 360 graus. Até na inserção dos créditos ele subverte o natural: os nomes estão espalhados ao longo do filme em dois momentos, cheio de cor neon, e não há letreiros finais.


É uma viagem alucinante como fez em “Enter the void”, com cenas brutais de violência, sem contar os diálogos sobre sexo e curtições (classificação é de 18 anos, cuidado!).
Pode ser interminável para boa parte do público, mas não podemos negar a inventividade da obra e o domínio de cena do diretor, que soube controlar bem os atores em apenas um espaço, a pista de dança. Destaque para a atriz e modelo Sophie Boutella no papel central.
PS: Na abertura há longos trechos de entrevistas dos personagens que irão para a tal festa, e ao lado da TV, reparem nas fitas de VHS, que são filmes antigos, além de livros, que inspiraram o diretor e que de certo modo dialogam com “Clímax” – alguns dos filmes são “Possessão” (1981), “Suspiria” (1977), “Um cão andaluz” (1929) e “Querelle” (1982).

Venceu prêmio especial no Festival de Cannes em 2018. Pode ser visto nas plataformas online ou em DVD, pela Imovision.

Clímax (Idem). França/Bélgica, 2018, 97 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Gaspar Noé. Distribuição: Imovision

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Cine Especial


10 segundos para vencer

Dividido entre a família e o esporte, Éder Jofre (Daniel de Oliveira) sonha com o boxe. Vendo de perto a paixão do filho, o treinador Kid Jofre (Osmar Prado) resolve treinar o jovem para se tornar o maior campeão do ringue brasileiro.

Éder Jofre, o mais destacado pugilista brasileiro, dentro e fora do país, faleceu no dia 2 de outubro, aos 86 anos, após longo período doente. Com o apelido de Galo de Ouro, conquistou três vezes o título mundial na categoria peso-pena, destacando-se no boxe por mais de 20 anos. Deixou uma marca histórica até hoje não superada – seu nome foi para o Hall da Fama Internacional do Boxe, nos EUA, único brasileiro a obter tal mérito. Quatro anos atrás fizeram essa cinebiografia competente, bem realizada, sendo uma homenagem emocionante em vida a Jofre. E não é um filme apenas dele, e sim do pai, Kid Jofre, seu treinador na juventude – o pai tem maior destaque que o filho na história, se olharmos bem. O roteiro narra a trajetória de Kid Jofre treinando o filho, até torná-lo quem foi. Kid Jofre era treinador, conquistando títulos no boxe, e com seu jeito turrão de italiano, que dava patadas em todos, levou o filho ao ringue para que ele atingisse o sonho de ser boxeador. A luta foi dura, incansável, e a família enfrentava outros problemas, como o financeiro. E assim, dia a dia, Eder Jofre se sobressaía, entregando-se de corpo e alma para os esportes.


Daniel de Oliveira está bem, mas Osmar Prado dignifica o filme (ele lembra mais o Eder que o Kid). Ambos entregam uma interpretação sincera, sem exageros, e o diretor José Alvarenga Jr consegue fazer um filme delicado, para todos os públicos. Alvarenga, vale lembrar, começou a carreira nos anos 80 dirigindo filmes dos Trapalhões (como “O casamento dos Trapalhões” e “A Princesa Xuxa e os Trapalhões”), além de séries e filmes de comédia (como “Os normais” e “Divã”). É seu melhor filme, inserido na linha de dramas reais/biográficos.
Indicado em festivais internacionais e nacionais, deu a Osmar Prado o Kikito de Ouro de melhor ator no Festival de Gramado, que faz esse personagem formidável, uma performance vinda do coração.

10 segundos para vencer (Idem). Brasil, 2018, 122 minutos. Drama. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por José Alvarenga Jr. Distribuição: Imagem Filmes

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Especial de Cinema


Os melhores filmes da 46ª Mostra Internacional de Cinema de SP – parte 03

A edição 2022 da Mostra de Cinema de SP segue até dia 02/11, com sessões presenciais em 15 cinemas da capital e também em duas plataformas online (com sessões gratuitas), que são o Sesc Digital (https://sesc.digital/home) e SP Cine Play (www.spcineplay.com.br), com limite de views. Confira drops com rápidos comentários dos melhores filmes desse ano da Mostra.

 


Fire of love (EUA/Canadá, 2022, de Sara Dosa)

 

Um documentário emocionante e celebrativo sobre o casal francês Katia e Maurice Krafft, amantes um do outro e apaixonados por vulcões – eles trabalharam por mais de duas décadas investigando erupções vulcânicas ao redor do planeta. Destemidos, chegavam a pouquíssimos metros das crateras expelindo lava. O filme resgata uma série de vídeos curiosos que eles mesmos gravaram e outros disponibilizados pelas equipes que os acompanhavam nas expedições. No doc temos a dimensão do lado heroico e aventureiro dos Kraffts (que infelizmente morreram em 1991 em uma explosão vulcânica no Japão). Vencedor do prêmio de melhor montagem no Festival de Sundance e do Prêmio do Público da seção Grand Angle do festival de documentários Visions du Réel. Exibição presencial em SP ainda no dia 01/11.

 


 

Nação valente (Portugal/França/Angola, 2022, de Carlos Conceição)

 

Misturando drama, guerra, um pouco de humor e um terror que beira o cinema fantástico, essa coprodução Portugal/França/Angola é dos filmes mais interessantes da Mostra desse ano. Saí da sessão de olhos arregalados de surpresa. Nos anos 70 portugueses saíram da Angola quando os nacionalistas iniciaram levantes para reivindicar direito ao território. Daí duas histórias se aproximam: a de uma garota angolana que se apaixona por um soldado português, e a de uma frota de Portugal isolada num casarão para um treinamento, até que estranhas aparições começam a perturbar o grupo. É de um vigor enorme o filme, diferente de tudo que já vi – venceu o prêmio de melhor filme europeu e do prêmio do Júri Jovem no Festival de Locarno.

Exibição presencial em SP ainda no dia 01/11.

 

 

Leonor jamais morrerá (Filipinas, 2022, de Martika Ramirez Escobar)

 

Vencedor do Prêmio Especial do Júri na seção World Cinema Dramatic do Festival de Sundance, o drama filipino mostra a jornada de Leonor Reyes, ex-atriz de uma popular série de filmes de ação que hoje está endividada. Ela entra em coma quando encontra a oportunidade de voltar ao cinema, e no leito do hospital, sua mente a leva para dentro de um estranho filme. Original, bem realizado, é uma boa opção para conhecermos o bom (e pouco comentado) cinema realizado nas Filipinas. Exibição online e gratuita na plataforma do SP Cine Play até dia 02/11 (com limite de views).

 

Noite obscura, folhas selvagens (Suíça/França, 2022, de Sylvain George)

 

É, em termos de duração, um dos filmes mais longos que vi recentemente (totaliza 255 minutos, ou seja, 4h15). A estética é para poucos, assim como o tema: num enclave espanhol no Marrocos, um grupo de jovens anda por aí discutindo políticas migratórias europeias, envolvem-se com problemas e chegam ao seu limite com ações consideradas subversivas. Em preto-e-branco, com muitas imagens fora de sintonia como se fossem um amontoado de pensamentos e desejos, a obra se constrói. Trata das políticas de migração na Europa não deixando de criticar o racismo e a xenofobia. Exibido nos festivais de Viena e Locarno, está online e gratuito na plataforma do SP Cine Play até dia 02/11 (com limite de views).




sábado, 29 de outubro de 2022

Especial de Cinema


Os melhores filmes da 46ª Mostra Internacional de Cinema de SP – parte 02

 

A edição 2022 da Mostra de Cinema de SP segue até dia 02/11, com sessões presenciais em 15 cinemas da capital e também em duas plataformas online (com sessões gratuitas), que são o Sesc Digital (https://sesc.digital/home) e SP Cine Play (www.spcineplay.com.br), com limite de views. Confira drops com rápidos comentários dos melhores filmes desse ano da Mostra.

 

 

Armageddon time (EUA, 2022, de James Gray)

 

Indicado à Palma de Ouro em Cannes, o drama, coprodução EUA/Brasil, é um dos aguardados pelo público da mostra (e deve estrear nacionalmente nos cinemas no dia 10/11). Tem um elenco em bom momento (Anne Hathaway, Anthony Hopkins, Jeremy Strong, rápida participação de Jessica Chastain e o melhor de todos, o protagonista mirim, Banks Repeta), e fala sobre a rotina de altos e baixos de um garoto de classe média às vésperas da eleição de 1981, que elegeu Ronald Reagan. Envolve-se em problemas na escola, é cobrado pelos pais a ter bom comportamento, e tem no avô uma inspiração. Até que um crime banal o coloca frente a frente com policiais. Nas entrelinhas, o drama explora o fim do “sonho americano”, critica o capitalismo à modo Reagan, traz as mudanças de comportamento com o fim dos anos 70 e tem um momento curioso que mostra a família Trump (no caso o pai e a irmã do ex-presidente Donald Trump). O filme tem traços autobiográficos, do da infância e parte da adolescência do diretor James Gray (que fez “Fuga para Odessa”, “Os donos da noite” e outros – é dele o roteiro, bem autoral vale destacar). Exibição presencial em SP ainda nos dias 01 e 02/11.

 


 

Magdala (França, 2021, de Damien Manivel)

 

Teve exibição especial em Cannes esse drama francês que revisita a história bíblica de Maria Madalena. Aqui ela é uma idosa negra, pobre, de cabelos brancos, isolada do mundo depois da morte de Jesus. Vive em uma mata sem contato com o mundo exterior e a todo momento se põe a pensar sobre seu amor perdido. Simbólico, com poucos diálogos, reúne lindas imagens abertas da mata com apenas uma personagem em cena, a de uma mulher no fim da vida, mas com esperança de um possível reencontro (com ela mesma e com o amor que ficou para trás). Exibição presencial em SP no dia 01/11 e sessões gratuitas na plataforma do Sesc Digital até dia 02/11 (com limite de views).

 

 


Distopia (Portugal, 2021, de Tiago Afonso)

 

Documentário português produzido por Rodrigo Areias (cineasta de renome no cinema de Portugal hoje), sobre o processo de gentrificação na cidade de Porto, que ocorre há 15 anos e transformou radicalmente a paisagem urbana de uma das cidades mais importantes do país. Várias cidades do entorno também sofreram o impacto social das medidas, que deixaram de investir em projetos sociais dos mais pobres para abrigar projetos arquitetônicos luxuosos, muitos deles ainda no papel. No meio disso, a especulação imobiliária corre solta, provocando inclusive o fim do comércio tradicional e consequentemente a destruição dos patrimônios culturais. Filme sério, impactante, com depoimentos de pessoas variadas que veem com tristeza o processo enganoso “de progresso urbano”. Exibição presencial em SP no dia 29/10 e sessões gratuitas na plataforma do Sesc Digital até dia 02/11 (com limite de views).

 

 

Objetos de luz (Portugal, 2022, de Acácio de Almeida e Marie Carré)

 

Exibido no Festival de Locarno, esse documentário experimental, também português, trata da luz no cinema, sobre um diretor que investiga a fotografia e os objetos que dela são criadas para as imagens em movimentos. Com enquadramentos diferenciados e muitas metáforas, o filme se constrói – é para público específico, uma obra autoral sobre processos criativos no cinema contemporâneo. Exibição presencial em SP no dia 30/10 e sessões gratuitas na plataforma do Sesc Digital até dia 02/11 (com limite de views).

 

 

As hostilidades (México, 2021, de M. Sebastian Molina)

 

Foi exibido no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA) esse doc mexicano que se passa em uma cidadezinha altamente violenta (Santa Lucia), em que o diretor estuda a criminalidade colhendo depoimentos de familiares (em especial dois primos seus), amigos e moradores de bairros periféricos que são alvo da polícia e de bandidos de forma constante. Reflete uma realidade nua e crua, abandonada à própria sorte... Exibição online na plataforma do Sesc Digital até dia 02/11 (com limite de views).

 

 

A saída está a nossa frente (EUA, 2022, de Rob Rice)

 

Produção independente rodada nos EUA, o filme, que mistura drama e comédia como se fosse um documentário (mas é ficção) acompanha uma família na comunidade de Daggett, onde vivem 200 pessoas no deserto da Califórnia. Um casal que passou a vida toda lá com a filha pequena, encontra formas de dar um futuro melhor para ela. Mas uma notícia dura abalará o casal para sempre. Daqueles filmes rodados com a câmera no ombro, dentro de poucos ambientes, e muito o que contar, focado no cotidiano de uma família em meio a um ambiente hostil, sobrevivendo dia a dia. E para eles não há vestígios do “sonho americano”. Exibição online e gratuita na plataforma do Sesc Digital até dia 02/11 (com limite de views).

 


sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Especial de Cinema


Os melhores filmes da 46ª Mostra Internacional de Cinema de SP – parte 01

A edição 2022 da Mostra de Cinema de SP continua até dia 02/11, em 15 cinemas da capital e em duas plataformas online (Sesc Digital e SP Cine Play). Confira drops com rápidos comentários dos melhores filmes desse ano da Mostra.

 


Nada de novo no front (Alemanha/EUA/Reino Unido, 2022, de Edward Berger)

A Mostra fez a premiére brasileira do novo filme de guerra da Netflix (no dia 21/10), que entrou hoje na plataforma. Essa é a terceira adaptação para o cinema do livro de memórias de Erich Maria Remarque, que lutou nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial como soldado alemão no front ocidental. O filme, muito bem realizado, com apuro técnico e cenas grandiosas de guerra, acompanha a tortuosa jornada do soldado novato no meio de um conflito que matou milhares de pessoas. Tem Daniel Brühl no elenco.

 


Luxemburgo, Luxemburgo (Ucrânia, 2022, de Antonio Lukich)

Um dos melhores filmes da Mostra desse ano, a comédia dramática ucraniana que se passa em Luxemburgo traz uma inusitada história real: dois irmãos gêmeos, um policial e outro motorista de caminhão, viajam para ver o pai doente num hospital. Mas não sabem se quem irão encontrar é mesmo quem eles procuram. A edição é primorosa, o roteiro tem sacadas brilhantes e o humor é inteligente. Indicado ao Venice Horizons no Festival de Veneza, terá exibição presencial em SP ainda no 31/10.

 

Triângulo da tristeza (Suécia/França/Reino Unido/Alemanha, 2022, de Ruben Östlund)

 

Num cruzeiro de luxo, um jovem casal de modelos viaja com figuras excêntricas, como um oligarca russo e um casal de velhinhos que vendiam armas em guerras passadas. O comandante do navio é alcoólatra e está há dias trancado em seu quarto. Até que uma tempestade em alto-mar faz com que o rumo da viagem mude drasticamente, culminando numa noite de pesadelos, com vômitos e mortes. Ainda estou digerindo esse filme levado às últimas consequências pelo diretor de “Força maior” e “The square”, e que venceu a Palma de Ouro em Cannes esse ano. Sem concessão, lança uma série de críticas ao mundo do fashionismo, da elite decandente, dos tempos de redes sociais e da alta gastronomia. Um barato (ah, prepare-se para cenas escatológicas!). Exibição presencial ainda em SP nos dias 28/10 e 02/11.

 


Os anos do Super 8 (França, 2022, de Annie Ernaux)

Indicado ao Golden Eye em Cannes, o doc é dirigido pela recém-ganhadora do Nobel de Literatura, Annie Ernaux. Aqui ela resgata filmes caseiros em super 8 para contar a história de sua família, filhos, casamento e viagens, como se fosse um autêntico livro de memórias bem pessoais. Narrado por ela, é uma obra delicada, íntima e feminina, que ganhou elogios do público não só da Mostra de SP mas de grande parte dos festivais por onde passou (como Cannes, Busan, Roma, NY e Zurique). Exibição presencial em SP ainda nos dias 28 e 30/10.

 

Alcarràs (Espanha/Itália, 2022, de Carla Simón)

 

Vencedor do Urso de Ouro em Berlim, o drama espanhol conta a história de uma família que cultiva pêssegos no interior da Espanha que vê seus dias contados quando são ameaçados de despejo. No local pretende-se instalar placas para energia solar, e a família terá de se mudar. Enquanto lutam para permanecer no local, os pais trabalham e as crianças vivem uma vida feliz no vilarejo de Alcarrás. Gostei muito dessa fita de arte bonitinha, agradável, toda rodada nos campos da Catalunha, com personagens fáceis de nos identificarmos (e torcermos por eles). As crianças são adoráveis, há momentos de humor e drama bem dosados, e um gancho atualíssimo, sobre o embate de pequenos agricultores com as majors que querem a todo custo expandir seus negócios. Exibição presencial em SP ainda no dia 31/10.

 


Você tem que vir e ver (Espanha, 2022, de Jonás Trueba)

 

Numa viagem por Madrid e pelo interior da Espanha, dois casais discutem a essência da vida, seus modos de enxergar o mundo e as crises que rondam cada um. Curtinho (com apenas 65 minutos), é um filme sincero de um jovem diretor, Jonás Trueba, que aprendeu muito com o pai, o notório Fernando Trueba (de “Sedução”). Jonás soube trazer à tela as controversas relações humanas, com diálogos poderosos e uma história universal. Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Karlovy Vary, terá exibição presencial em SP no dia 29/10, e está online (gratuito) no Sesc Digital até dia 02/11.

 

Hamlet (Brasil, 2022, de Zeca Brito)

 

Documentário sobre a crise no mundo da política brasileira a partir de 2016, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (ou o golpe, como quiserem). O diretor gaúcho Zeca Brito, de “O guri” e Legalidade”, foca seu mais novo filme nas manifestações dos estudantes secundaristas que se juntaram aos movimentos sociais para tomar as ruas quando do golpe em 2016, trazendo os desdobramentos desse caos, como a eleição de Bolsonaro em 2018. Ao mesmo tempo, num teatro, Hamlet, o notório personagem de William Shakespeare, procura espaço na sociedade – ele está atormentado pela pergunta “ser ou não ser?”. Rodado em preto-e-branco, é um filme que deve ser visto e discutido.


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Cine Cult


Midsommar: O mal não espera a noite


O casal Dani (Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor) passa por uma crise conjugal. Dani acabou de perder os pais e a irmã numa tragédia familiar, então o namorado a convida para viajar com um grupo de amigos a um festival de verão em uma comunidade fechada na Suécia, onde estranhos fatos irão ocorrer.

Controverso e simbólico, “Midsommar” é um conto de fadas de horror da mente visionária do diretor de “Hereditário” (2018), Ari Aster, um jovem cineasta que fez aqui seu segundo longa-metragem. Partiu de lendas nórdicas e escandinavas criando um universo de tensão e medo constantes, com personagens trancados em uma isolada comunidade sueca durante um festival de verão com culto a deuses e ritos que vão se tornando macabros. A protagonista, Florence Pugh (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por “Adoráveis mulheres”), é uma jovem atormentada pelo suicídio da irmã e pela morte dos pais em uma tragédia. Ela está em crise com o namorado, e para uma reparação, viaja com um grupo de amigos ao tal festival, que dura nove dias e ocorre a cada 90 anos. Lá ela será perseguida por memórias da família ao mesmo tempo que uma série de incidentes horrendos colocam sua vida em jogo, assim como a dos amigos.
Tudo nesse filme é estranho, a fotografia embala um tom onírico, um sonho que mistura pesadelo e alucinações, num lugar que nunca anoitece. A cada dia um acontecimento chama a atenção. A comunidade sueca tem velhos e jovens com comportamentos diferentes, mas sempre sob o signo de uma entidade maior, às vezes ameaçadora.


Há cenas brutais e que perturbam, com momentos indigestos e capciosos. E, nós não ficamos como meros espectadores, somos tragados para dentro da trama até o desfecho bizarro e revelador (até nisso Aster teve um olhar diferenciado, a forma como hipnotizar quem assiste). Com certeza uma obra que não nos deixa indiferentes!
Pertence a uma linha de cinema de terror chamado “folk horror” (terror folclórico), com referência ao maior deles, o britânico “O homem de palha” (1973), contando com uma atmosfera onde o mal paira e ronda todos.
O diretor demorou cinco anos para rodar o filme, escrito durante o duro processo de divórcio dele. E ele faz relações com o anterior, “Hereditário”, seja no tom, nas entrelinhas de algo demoníaco invisível ou nas sequências ritualísticas.
Rodado na Hungria, com orçamento de filme independente (U$ 9 mi), rendeu quase U$ 50 milhões de bilheteria no mundo, garantindo sucesso no pequeno circuito de filmes de terror.


Recentemente ganhou edição de luxo em bluray pela Versátil, em parceria com a Paris Filmes e a A24, com a versão de cinema (147 minutos) e a versão do diretor (172 minutos), muitos extras, cards, livreto e pôsteres.

Midsommar: O mal não espera a noite (Midsommar). EUA/Suécia, 2019, 147 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Ari Aster. Distribuição: Versátil Home Video

Especial de Cinema

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