segunda-feira, 13 de maio de 2019

Resenha Especial



Parceiros de jogo

Jogador número 1 de poker, Gerry (Ben Mendelsohn) enfrenta uma terrível crise pessoal devido às dificuldades financeiras. Tudo poderá mudar quando conhece Curtis (Ryan Reynolds), um jogador mais novo, que o leva a novas partidas de poker pela noite afora. Juntos topam viajar de carro a Nova Orleans, onde haverá um grande campeonato de baralho.

Indicado ao Spirit Award de melhor ator para Ben Mendelsohn (ele está super bem no papel principal, o do jogador afundado em dívidas), este filme desconhecido do grande público participou de festivais independentes nos Estados Unidos e, para mim, foi uma descoberta positiva! Não teve a chance de passar nos cinemas brasileiros, sendo lançado diretamente em home vídeo pela Flashstar – e ainda está no catálogo do Netflix como “Febre do Mississipi”.
É um drama sobre crise de identidade onde o protagonista, um homem viciado em jogos de baralho, precisa urgentemente dar a volta por cima. Endividado, sozinho e desiludido, encontra um parceiro na noite (Ryan Reynolds, um ano antes do sucesso de “Deadpool”) para ganhar dinheiro nas mesas de poker. Sonhando alto, partem para uma viagem rumo a um grande campeonato, atravessando várias cidades até Nova Orleans (da metade ao final vira um road movie, com os personagens cruzando com uma série de pessoas e situações diferentes, e até há momentos de romance). Na estrada ou nos salões de jogos, a fita discute, de forma sucinta e discreta, o vício na jogatina, um mundo cruel onde pessoas fazem altas apostas e em poucas horas podem perder tudo o que ganharam numa vida inteira.


Mendelsohn (um ator de séries da década de 80 e 90, que de uns anos para cá ficou mais famoso) e Reynolds dão veracidade para seus difíceis papéis, num roteiro correto, escrito por uma dupla que também dirigiu o filme, Anna Boden e Ryan Fleck - eles são namorados, ficaram conhecido este ano pela direção de “Capitã Marvel” e fizeram juntos dois bons trabalhos anteriores, “Se enlouquecer não se apaixone” e “Perseguindo um sonho”).
Uma boa pedida para quem gosta de dramas sobre o mundo dos jogos de baralho e das apostas.

Parceiros de jogo (Mississippi Grind). EUA, 2015, 108 min. Drama. Colorido. Dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck. Distribuição: Flashstar

Nota do blogueiro


Ontem faleceu o grande humorista brasileiro Lúcio Mauro, aos 92 anos, e hoje perdemos um ícone da comédia norte-americana, Doris Day (aos 97 anos). RIP



sexta-feira, 10 de maio de 2019

Nota do Blogueiro


"Com as mãos no alto das costas de John, Alice comprimiu o rosto em seu peito e aspirou seu cheiro. Teve vontade de lhe dizer algo mais, de falar do que ele significava para ela, mas não conseguiu encontrar as palavras. John abraçou-a um pouco mais apertado. Ele sabia. Os dois passaram muito tempo parados na cozinha, abraçados um ao outro sem dizer uma palavra".

Trecho do livro "Para sempre Alice", de Lisa Genova, publicado pela primeira vez em 2009 e que acabou de ganhar uma edição comemorativa de 10 anos no Brasil, pela editora Harper Collins do Brasil (2019, 320 páginas, tradução de Vera Ribeiro). Cativante e ao mesmo tempo dramático, conta a história de uma renomada professora universitária, Alice Howland, mãe de três filhos e bem casada, que de repente descobre o Mal de Alzheimer precoce. Abalada com o diagnóstico, recebe total apoio total para superar a triste doença, mesmo sabendo que ela não tem cura. Aos poucos as lembranças de Alice vão embora, ela esquece de coisas corriqueiras, no entanto nunca perde a vontade de viver.
Best seller do The New York Times, o livro originou o bom e dramático filme de mesmo título, que deu a Julianne Moore o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz em 2015.
Já nas livrarias! Obrigado, equipe da Harper Collins, pelo envio do exemplar.



Resenha Especial



Um doce refúgio

O designer gráfico Michel (Bruno Podalydès) sempre foi fascinado por aviões e desde pequeno gostaria de pilotar um. Sem que a esposa saiba, compra um caiaque, que possui aerodinâmica semelhante a uma aeronave, e parte sozinho para uma viagem em busca de um velho sonho.

Uma apaixonante comédia francesa escrita, dirigida e protagonizada por Bruno Podalydès, num papel diferente do que costumamos ver por aí. Ele interpreta um artista gráfico sonhador, que vive aéreo, afundado em pensamentos sobre a vida. Ouve músicas clássicas para fugir da chata realidade, ama tecnologia e é vidrado em aviões. Resolve comprar um caiaque, tira férias sem a esposa desconfiar e segue para uma incrível viagem pelo interior da França, passeando por lindos campos e rios, onde reinventará um avião com muita criatividade e persistência. Os dias que passará afastado do intenso cotidiano mudarão para sempre sua forma de ver o mundo.
Indico para quem curte fitas leves, agradáveis, fáceis de assimilar. O filme é pura poesia, bem-humorado, soa ingênuo com suas alegorias românticas e é muito bucólico (as lindas paisagens campestres do interior da França aguçam nossa vontade de ir para lá).


O ator Bruno Podalydès segue os primeiros passos na direção, sendo um bom exemplo à nova geração de cineastas de seu país. Ele também soube escolher a trilha sonora, com músicas clássicas, como Bach, e outras famosonas norte-americanas, dentre elas duas que gosto demais, “Don't let me be misunderstood” e “Michael row the boat ashore”. E escalou duas atrizes maravilhosas que não passam despercebidas, Sandrine Kiberlain (como a esposa de Michel) e Agnès Jaoui (indicada ao César de atriz coadjuvante por este trabalho). Em DVD pela Mares Filmes.

Um doce refúgio (Comme un avion). França, 2015, 104 min. Comédia dramática. Colorido. Dirigido por Bruno Podalydès. Distribuição: Mares Filmes

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Resenhas Especiais



Guerra Fria

Bandidos mercenários infiltrados na política sequestram um grupo de oficiais da polícia de Hong Kong. Para libertar os reféns, listam uma série de exigências, dentre elas a soltura de um perigoso mentor do crime, que está em uma penitenciária. Para iniciar as negociações entram em jogo dois policiais que não se bicam, Sean Lau (Aaron Kwok) e Waise Lee (Tony Ka Fai Leung).

A China encabeça o ranking das maiores produtoras de filmes do mundo, mas apenas uma pequenina parte chega ao Brasil.  Destaca-se pelos filmes de ação, realizando anualmente uma centena de obras desse gênero, movimentados e com tramas intrigantes. “Guerra fria” (2012) é um bom exemplo, o primeiro de uma trilogia (este capítulo um só está disponível em streaming no Brasil e pode ser assistido no Netflix; a parte II, de 2016, saiu em DVD pela Flashstar, enquanto o capítulo final encontra-se em pré-produção, com previsão de lançamento ainda em 2019 – e todos contam com o mesmo elenco).
Como gênero se encaixa num thriller político, de roteiro complexo, baseado em fatos verídicos e até então confidenciais, de um caso de resgate conhecido por “Cold War”, que ameaçou a Segurança Pública em Hong Kong. Preste muito atenção devido aos muitos diálogos e uma gama de complôs bem esquematizados, envolvendo política interna, polícia e terrorismo. Os astros Aaron Kwok e Tony Ka Fai Leung mandam bem como dois líderes policiais em conflito e na mão deles tudo pode acontecer!
Dois diretores honcongueses escreveram e dirigiram, Lok Man Leung e Kim-Ching Luk, e quatro anos mais tarde voltariam a dirigir “Guerra Fria II”, que é tão bom quanto.

Guerra fria (Hon zin). Hong Kong, 2012, 101 min. Ação. Colorido. Dirigido por: Lok Man Leung e Kim-Ching Luk. Sem distribuição no Brasil


Guerra Fria II

Uma operação de resgate conduzida pelo policial Sean Lau (Aaron Kwok), com apoio do Comissário Waise Lee (Tony Ka Fai Leung), encerrou-se com sucesso. Lau é então nomeado comissário de Polícia de Hong Kong, enquanto Lee se aposenta. Porém um antigo criminoso sai da cadeia e sequestra a esposa e a filha de Lau, exigindo resgate em troca das mulheres. Esta será mais uma dura missão do comissário, que correrá contra o tempo para salvar sua família.

O primeiro “Guerra Fria” foi sucesso nos cinemas da China em 2012 e iniciava uma trilogia de ação, com o mesmo elenco. Esta segunda parte, tão eletrizante quanto a anterior, começa de onde parou o filme 1, com a soltura de um bandido, situação que ameaçava a vida do comissário Lau. Além do sequestro da filha e da esposa do policial recém-nomeado para outra patente, fatos não esclarecidos retornam para uma nova investigação, como uma van desaparecida na União Europeia. Tudo faz com que a polícia de Hong Kong seja amplamente mobilizada, para a segunda fase da Operação Guerra Fria (ou “Cold War”). Agora Lau precisará da ajuda do rival Lee, o vice-comissário, para esclarecer casos policiais que se entrelaçam e que relacionam traições políticas, vingança e terrorismo. Assim como o anterior, há extensos diálogos sobre o mundo policial, revelações surpreendentes, mistérios e momentos de ação bem planejados, na melhor forma do cinema chinês. Para quem curte aberturas de filmes, este traz uma ideia bem legal, com pessoas, objetos, armas e veículos em formato de gelo sendo destruídos.


A dupla central retorna com fúria e vigor, Aaron Kwok e Tony Ka Fai Leung, e uma participação especial abrilhanta o elenco nesta parte dois, Chow Yun-Fat (de “O tigre e o dragão”), um dos maiores astros do cinema de Hong Kong.
Lembrando que o primeiro filme está somente disponível no Brasil em streaming (como o Netflix), enquanto esta parte dois saiu em DVD pela Flashstar (mas com o título “Guerra Fria”, sem a menção ao segundo capítulo) – e o três será lançado até final do ano.

Guerra fria II (Han zhan II). Hong Kong/China, 2016, 109 min. Ação. Colorido. Dirigido por: Lok Man Leung e Kim-Ching Luk. Distribuição: Flashstar

terça-feira, 7 de maio de 2019

Resenha Especial



Descompensada

Por crescer ouvindo de seu pai que a monogamia não deveria existir, Amy (Amy Schumer) nunca acreditou em relacionamentos sérios. Hoje redatora de uma revista, ela troca de ficantes como troca de roupa. Mas seu conceito sobre romances irá mudar quando se apaixona por um charmoso médico, Dr. Aaron (Bill Hader).

A comediante Amy Schumer escreveu o roteiro desse filme engraçado e falsamente romântico que rendeu a ela sua primeira indicação ao Globo de Ouro de atriz, em 2016. Dividiu a opinião do público, no entanto rendeu bilheteria nos Estados Unidos (boa, não excelente) – eu curti na época do lançamento e revi semana passada em DVD.
Gosto do tipo de humor de Schumer, com tiradas afiadas, sem caretas, sem nada de pastelão ou piadas fajutas, humor típico americano da boa geração atual. Com 37 anos, ela é uma atriz notadamente de seriados, que galga carreira no cinema – este foi seu segundo longa, e o primeiro como protagonista. Interpreta uma redatora de revista gordinha e desajeitada, que nunca acreditou em namoros duradouros. No trabalho recebe a pauta de entrevistar um ortopedista, especializado em Medicina Esportiva (Bill Hader, bem aproveitado), e logo acaba se apaixonando pela sua fonte jornalística. Os dois começam um relacionamento que parecia logo terminar, algo que fará Amy modificar seu pensamento, suas atitudes e rotina, ou seja, sua vida em geral.
O título em português prejudica a seriedade da história, com seu drama perspicaz que aos poucos surge ali e acolá. Não sei o que as distribuidoras pensam na hora de planejar o marketing, viu... (ela não é descompensada, e sim infeliz, rejeitada, tristonha – em inglês, o título “Trainwreck” significa “Trem desgovernado”, que é como andam as coisas para Amy, numa linha entre o cômico e o trágico).


Nome de destaque na comédia da atualidade, o criativo diretor Judd Apatow, de “O virgem de 40 anos” (2005) e “Ligeiramente grávidos” (2007), gosta de realizar filmes longos, e este não foge à regra, tem 124 minutos (grande demais por ser comédia). E como de costume aquece as produções com um megadesfile de atores e atrizes em pequenos personagens, aqui com Brie Larson, Ezra Miller, Tilda Swinton, John Cena, Marisa Tomei, Matthew Broderick, o veterano Norman Lloyd e até uma ponta de Daniel Radcliffe.
Apresento “Descompensada” como dica para um bom passatempo! Ah, o filme foi ainda indicado ao Globo de Ouro de melhor comédia ou musical.

Descompensada (Trainwreck). EUA/Japão, 2015, 124 min. Comédia. Colorido. Dirigido por Judd Apatow. Distribuição: Universal Pictures

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Resenhas Especiais



Morte para um monstro

O cientista americano Stephen Reinhart (Nick Adams) viaja de trem até Arkham, uma cidadezinha inglesa, para passar o final de semana na Mansão Witley, onde mora a noiva, Susan (Suzan Farmer). Percebe que os habitantes de lá têm medo dos Witley, e quando chega ao local é recebido com desprezo pelo sogro, Nahum Witley (Boris Karloff). Nas noites de névoa, Reinhart e a Susan descobrem um terrível segredo habitando o casarão, que relaciona os moradores, as plantas da estufa e um estranho objeto do espaço.

Terror, ficção científica e mistério rondam a estranha história desse filme britânico, cultuado na época, sobre um jovem cientista buscando respostas para uma série de fatos obscuros na velha residência da família de sua noiva. O personagem principal está hospedado por uns dias na Mansão Witley, um lugar cheio de quartos sombrios, onde paira névoa, habitado por figuras decrépitas. Ele fica impressionado com cochichos pelos cantos da casa, além de aparições e sons de animais, e juntamente com a noiva vai investigar a fundo cada centímetro do local chegando a respostas horripilantes.
Foi a primeira e melhor adaptação do conto de H.P. Lovecraft, de nome “The colour out of space”, escrito em 1927, para o cinema. Depois vieram curtas-metragens, um filme alemão PB de 2010 e em breve sairá outra versão, com Nicolas Cage.


Destaca-se pelo roteiro com muitas cenas de susto e uma direção de arte que provoca a tensão necessária para embarcarmos na ideia (em especial as do interior da casa, com teias de aranha, tarântulas, caveiras, morcegos, uma mulher de preto etc).
Protagoniza o ator americano Nick Adams, indicado ao Oscar, morto pouco tempo depois aos 36 anos, de overdose. E destaca-se o lendário ator inglês Boris Karloff, como o sogro na cadeira de rodas, provável guardião dos segredos do casarão – foi a fase final da carreira de Karloff (1887–1969), famoso intérprete do cinema de terror, cuja extensa filmografia constam 170 produções! Um marco!
Saiu em DVD mês passado pela Obras-Primas do Cinema, no box “Boris Karloff”, com três outros filmes raros dele: “O zumbi” (1933), “Corredores de sangue” (1958) e “The haunted strangler” (1958). O disco é duplo, com extras variados e cards colecionáveis.



Morte para um monstro (Die, monster, die!). EUA/Reino Unido, 1965, 79 min. Terror/Ficção científica. Colorido. Dirigido Daniel Haller. Distribuição: Obras-primas do Cinema


Quando voam as cegonhas

Veronika (Tatyana Samoylova) e Boris (Aleksey Batalov) são um jovem casal apaixonado, que passam as tardes passeando pelas ruas de Moscou. Na Europa eclode a Segunda Guerra Mundial, e Boris, que havia se alistado no Exército Vermelho, segue com outros colegas para o front. Veronika enfrenta dias de agonia quando o amado vai embora, aguardando ansiosamente seu retorno. Até que surge na vida dela um primo de Boris, com quem inicia um caso.

Ganhador da Palma de Ouro em Cannes em 1958, o contundente e romântico filme soviético foi baseado na peça do dramaturgo Viktor Rozov, e pela importância do tema venceu um prêmio humanitário na URSS.
Fala dos horrores da guerra, ainda mais da pior de todas, a Segunda Guerra Mundial, que separou um casal apaixonado. Veronika e Boris interpretam o ideal dos jovens da época, o espírito de união destroçado pela ganância humana. O diretor Mikhail Kalatozov era um apaixonado pelo seu país, amante da Sétima Arte e crítico às barbáries do homem moderno. Por isto a mensagem antiguerra contida nessa sua obra-prima, atrelada à alta qualidade técnica do filme, impecável em termos de argumento e roteiro, preciso nas cenas, feitas com poesia, contemplação e um lado onírico, que fascina pelo bom uso de enquadramentos e ângulos diferenciados. Tudo em um preto-e-branco que ressalta o sofrimento dos personagens sejam os principais ou coadjuvantes.
A atriz Tatyana Samoylova venceu o prêmio de atriz no Festival de Cannes, além de ter sido indicada ao Bafta juntamente com a produção.


Pequena joia rara, “Quando voam as cegonhas” está disponível em DVD no Brasil pela CPC-Umes Filmes. Saiu na série Cinema Soviético, numa cópia excelente, que passou por restauração digital de imagem e som pela Mosfilm.

Quando voam as cegonhas (Letyat zhuravli). URSS, 1957, 96 min. Drama. Preto-e-branco. Dirigido por Mikhail Kalatozov. Distribuição: CPC-Umes Filmes

* Críticas publicadas na coluna Middia Cinema, da Middia Magazine, edição de abril/maio de 2019

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