segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Na Netflix


Homicídio na Costa do Sol

O desaparecimento de uma jovem em Andaluzia, no sul da Espanha, em 1999, mobiliza a polícia e a comunidade local. Dias depois ela é encontrada morta, e a ex-namorada de sua mãe é presa pelo crime. Poucos anos mais tarde, outra garota é assassinada na região, e os dois casos ganham uma nova perspectiva.

A Netflix investe há tempos em documentários criminais, de séries a filmes realizados em diversos países, muitos deles bem produzidos. “Homicídio na Costa do Sol” é uma dessas atrações especiais, voltada para quem procura um intrigante filme de mistério e revelações chocantes. Trata do caso de Rocío Wanninkhof, jovem assassinada em Andaluzia em 1999, um caso que teve vasta repercussão na mídia espanhola. Na época, a ex-namorada da mãe da vítima foi sentenciada e presa acusada pelo crime, colocando um ponto final naquela tragédia. Porém, anos depois, outra garota, de nome Sonia Carabantes, aparecia morta na região, e os traços do crime assemelhavam-se a de Rocío. A polícia e a opinião pública foram mobilizadas, e pairavam perguntas no ar: A mulher presa no primeiro caso é realmente a criminosa? Será ela integrante de um grupo que assassina meninas indefesas? As respostas são dadas no filme, que reconstrói os casos Wanninkhof-Carabantes de maneira singular, com depoimentos de familiares e autoridades policiais, até atingir uma conclusão estarrecedora.


Sem apelar ao sensacionalismo, o doc é uma obra intrigante que discute o papel da mídia no jornalismo policial e pretende desvendar a mente de perigosos assassinos. É uma das boas novidades no catálogo da Netflix, lançado há poucas semanas. Recomendo.

Homicídio na Costa do Sol (El caso Wanninkhof-Carabantes). Espanha, 2021, 88 minutos. Documentário. Dirigido por Tània Balló. Distribuição: Netflix

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Dica de Livro


"Iris ficou muito surpresa para responder. Olhou incrédula para as terras arenosas e cheias de plantas espinhosas que passavam pela janela, como se esperasse vê-la se transformar em chalés suíços, ou em lagos italianos.
- 'Ó', suspirou ela. 'A senhora é inglesa'.
- 'É claro. Achei que parecesse típica. Gostaria de tomar um chã?'
- 'Sim, é claro'.
Ao caminhar pelo vagão atrás de sua guia, Iris descobriu consternada que sua cabine ficava no final do corredor, bem na ponta do vagão. Parecia que seu quadrado protetor não lhe dava garantias contra acidentes, afinal de contas".

Trecho do clássico romance "A dama oculta" (1936), da escritora inglesa especializada em literatura policial Ethel Lina White, lançado no Brasil pela editora Vestígio, selo da editora Autêntica (2016, 272 páginas, tradução de Rogério Bettoni).
Em uma viagem de trem pela Europa, a jovem socialite Iris fica próxima de uma simpática senhora, Srta Froy. Horas depois, a idosa desaparece de forma misteriosa, sem deixar vestígios. Iris não entende o que ocorre ao questionar as pessoas a bordo, que informam nunca terem visto tal senhora. Então começa uma longa investigação com direito a muitas reviravoltas.
Com momentos de humor e suspense, o livro, aclamado dentro e fora da Europa, originou o filme homônimo de Alfred  Hitchcock, lançado em 1938, com Margaret Lockwood e Paul Kukas (disponível em DVD no Brasil pela Versátil Home Video, relançado recentemente). Procure já o livro!


sábado, 14 de agosto de 2021

Na Netflix



Army of the dead: Invasão em Las Vegas

Grupo de mercenários planeja um assalto milionário em uma Las Vegas tomada por zumbis.

É engraçado reparar como o diretor Zack Snyder tem acentuados altos e baixos na carreira. Dizem assim sobre ele: “ame-o ou deixe-o”, e até certo ponto concordo. Seus filmes, em grande parte, são coloridos, criativos, que dá nova roupagem ao mundo dos super-heróis e ajuda na revisão de gêneros como ação e terror. Snyder surgiu do mundo dos clipes musicais nos anos 90, e se tornou uma promessa do cinema a partir de 2004, quando estreou, com “Madrugada dos mortos”, seu melhor trabalho e que era um remake violento da fita de zumbis de George A. Romero “O despertar dos mortos” (1978). A seguir inovou trazendo a computação gráfica com outra estilização em “300” (2006) e “Watchmen: O filme” (2009), também dois filmes peculiares e muito enérgicos, e a partir dos anos 2010 houve a sua fase de declínio, com longas medianos, esquecíveis e zombados, como “A lenda dos guardiões” (2010), “Sucker punch: Mundo surreal” (2011) e os de heróis da DC Comics “O homem de aço” (2013), “Batman vs. Superman: A origem da justiça” (2016) e “Liga da Justiça” (2017, que esse ano ganhou a versão do diretor, estendida e deve chegar em DVD e Bluray em breve no Brasil). “Army of the dead: Invasão em Las Vegas”, sua nova produção, pela Netflix, é o retorno de Snyder ao bom cinema de ação com terror (lembrando que ele fez a fita de zumbis ‘Madrugada dos mortos’), em que se utiliza de uma licença para fazer o que quiser... uma fita de ação de assalto que vira terror sangrento, do humor escrachado à violência, o falso romance e os jumpscares desmedidos, e até mesmo não se preocupa com a duração (são 148 minutos, o filme de zumbi mais longo da história).



Ele continua dividindo opinião, muita gente avacalhou o longa, e eu confesso que curti muito e quero logo rever. Tenho um fraco por fitas de apocalipse zumbi, então esse me ganhou já nos trailers. Com uma geração de novos atores e parte deles canastrões que condizem com os papéis debochados, a destacar Dave Baustista, Ella Purnell, Garret Dillahunt e Ana de la Reguera, “Army of the dead” vem desse universo do cineasta que dialoga com a cultura pop, a cafonice (Las Vegas é um prato cheio para o lado brega do ser humano), super-heróis de dois jeitos (os sérios e os abestalhados), humor negro incutido na violência gráfica, ou seja, é uma pérola do gênero, esperta e bem construída. Sem contar que reinventou seus monstros, já que os zumbis são fortes, correm, saltam alto, e tem umas sacadas da metade pro final que não revelar... Valeu a intenção e a proposta! Assista sem preocupação, divirta-se com cenas hilariantes, segure-se na cadeira para algumas assustadoras e não critique o brega proposital. Só para aguçar sua curiosidade, tem uma aparição inesquecível, a de um tigre morto-vivo! Já na Netflix.

Army of the dead: Invasão em Las Vegas (Army of the dead). EUA, 2021, 148 minutos. Ação/Terror. Colorido. Dirigido por Zack Snyder. Distribuição: Netflix

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Cine Cult


Neve ardente

Em dezembro de 1942, soldados alemães preparam uma ofensiva contra os soviéticos às margens do Rio Volga, o que irá acarretar num revés para as forças nazistas durante a Segunda Guerra.

Esse filme de guerra soviético, lançado recentemente em DVD pela CPC-Umes Filmes, resgata um caso real na Segunda Guerra Mundial vivido por Yuri Bondarev, na época chefe de artilharia da URSS e que depois se dedicaria à literatura e ao cinema (seria roteirista de vários longas sobre a Segunda Guerra, como “Os últimos disparos” e as duas partes “Libertação”, rodados entre 1960 e 1970). Bondarev escreveu o romance original e adaptou-o para as telas, nessa obra dramática irretocável, com grandiosas cenas de batalha que assustam pelo grau de verdade e realidade. A história se passa durante a Operação Tempestade de Inverno, que durou 11 dias, entre 12 e 23 de dezembro de 1942, logo depois da ofensiva alemã, com blindados da Panzer, que invadiram Stalingrado. Os soviéticos haviam armado um cerco, inibindo 300 mil soldados alemães do general das forças nazistas Friedrich Paulus. Hitler, para quebrar o bloqueio e resgatar a tropa, enviaria uma frota de tanques, comandado por Marechal Manstein, enfrentando, assim, uma bateria antitanque do Exército Vermelho, em uma batalha surpreendente que marcaria os rumos dos dois países na guerra.


Tem um apuro técnico, filmagens em locações abertas como se existisse uma verdadeira guerra, e serve para quem aprecia História, ainda mais aquelas da Segunda Guerra. Tem um roteiro bem trabalhado, e uma montagem que engrandece o resultado. Recomendo conhecer!
É uma grata surpresa assistir a essa fita soviética raríssima, disponível numa cópia exemplar da CPC-Umes (destaco que o filme havia saído muitos anos atrás pela extinta Cultclassic, no entanto a versão da CPC está com melhor imagem e som).

Neve ardente (Goryachiy sneg). URSS, 1972, 102 minutos. Guerra. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Gavriil Egiazarov. Distribuição: CPC-Umes Filmes (DVD de 2021) e Cultclassic (DVD de 2007)

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Cine Clássico


No mundo dos monstros pré-históricos

Na Antártica, quatro pessoas caem numa cratera e vão parar em um mundo pré-histórico, dominado por perigosos dinossauros.

É uma daquelas fitas saudosistas de monstros e dinossauros clássicos realizada nos anos 50, com efeitos especiais chamativos para a época, mas que hoje soam cafonas e ultrapassados. Totalmente rodado em estúdios, com criaturas recriadas a partir de bonecos mecânicos e de pessoas vestindo fantasias. Originalmente produzido pela Universal, saiu há pouco tempo no box “Invasão Sci-fi: Dinossauros”, com outros três filmes da mesma linha: as duas versões de “O mundo perdido” (1925 e 1960) e “O despertar do mundo” (1940).
Vemos aqui um grupo de três homens e uma mulher cair numa cratera profunda na Antártica, que os leva a um mundo paralelo, como se voltassem ao tempo. O local é uma extensa floresta tomada por dinossauros voadores, outros terrestres, que passam a caçar os humanos. O quarteto tem de se proteger e encontrar a saída daquele mundo misterioso.


Em preto-e-branco, o filme tem direção de Virgil Vogel, que foi montador de cinema na década de 50 (editou, por exemplo, o clássico “A marca da maldade”), e posteriormente virou diretor de cinema e de séries televisivas, trabalhando até sua morte, em 1996. “No mundo dos monstros pré-históricos” é seu longa de cinema mais conhecido, bem popular entre os americanos e muito exibido na TV nos Estados Unidos. É um passatempo bacana para quem procura se divertir, para fugir de filmes que exigem demais nossa atenção.


No mundo dos monstros pré-históricos
(The land unknown). EUA, 1957, 78 minutos. Ação/Ficção científica. Preto-e-branco. Dirigido por Virgil Vogel. Distribuição: Obras-primas do Cinema

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Cine Cult


O destino de um homem

Motorista de caminhão do Exército Vermelho, o soldado soviético Andrey Sokolov (Sergey Bondarchuk) é preso pelos alemães durante a Segunda Guerra e levado ao campo de concentração. Quando a guerra termina, retorna para casa e descobre uma tragédia familiar sem precedentes. Ele então passa a refletir sobre a existência, a morte e recorda de momentos da guerra e das pessoas que o ajudaram a chegar até aqui.

Contundente e memorável, o drama de guerra escrito, dirigido e protagonizado por um dos cineastas soviéticos mais importantes de sua geração (Sergey Bondarchuk), é um filme de mensagem antiguerra, de aspecto memorialista – e lançado recentemente em DVD pela CPC-Umes. Dividido em duas partes, na primeira há a exaustiva jornada de um soldado soviético preso pelos nazistas, que sofre no campo de concentração, mas nunca perde a esperança; na segunda parte, com o fim da guerra, esse mesmo soldado retorna ao lar, e se depara com um fato que abalará para sempre sua vida.
O diretor fala sobre os horrores da guerra e a perseguição aos soviéticos pelos nazistas. Há uma trama paralela que fará todo sentido na segunda parte do filme que é a comovente relação entre o soldado e seu filho pequeno. O sólido roteiro é adaptado do romance homônimo de Mikhail Sholokhov, que ganharia o Prêmio Nobel de Literatura em 1965 (eu li o livro, a versão para cinema é muito fiel, e recomendo tanto o filme quanto a obra literária).


A CPC-Umes já lançou filmes do diretor Sergey Bondarchuk, como “A história de um homem de verdade” (1948), “Guerra e paz” (1965-1967), “Eles lutaram pela pátria” (1975) e “Boris Godunov” (1986).

O destino de um homem (Sudba cheloveka). URSS, 1959, 103 minutos. Drama/Guerra. Preto-e-branco. Dirigido por Sergey Bondarchuk. Distribuição: CPC-Umes Filmes

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Cine Lançamento



A casa que Jack construiu

O engenheiro Jack (Matt Dillon) é na realidade um serial killer que ataca mulheres e sofre de TOC. Ele tem um método próprio: após assassinar as vítimas, guarda seus corpos em um frigorífico desativado para um projeto futuro.

Causou indignação com direito a vaias no Festival de Cannes em 2018 o filme mais perverso e polêmico do cineasta dinamarquês Lars von Trier, o mesmo de “Dançando no escuro” (2000), “Dogville” (2003), “Melancolia” (2011) e “Ninfomaníaca – partes 1 e 2” (2013). E é o seu segundo longa na linha de terror psicológico, depois do também controverso “Anticristo” (2009). Na exibição em Cannes, parte da plateia abandonou a sessão, reclamando da violência explícita (exatamente numa das cenas mais chocantes, a caçada em que o protagonista mata crianças com um rifle). O diretor fez esse seu projeto ultrapessoal em resposta às acusações sofridas no festival, de que ele era misógino e nazista. A vingança veio dura, numa fita de arte perturbadora, macabra, indigesta e para público restrito.
Matt Dillon está maduro e super bem no papel difícil do serial killer Jack, um engenheiro que mata mulheres de inúmeras maneiras. O psicopata narra todos seus crimes em cinco capítulos (chamados de “incidentes”) para um interlocutor de nome Virgílio (papel de Bruno Ganz, num de seus últimos trabalhos - ele morreria em 2019 aos 77 anos). Virgílio faz referência ao maior poeta romano, autor de ‘Eneida’, que passa a ouvir as falas e evocações do protagonista, chega a dar conselhos e tramar com ele - Virgílio também teria outras simbologias, como o diabo e até a própria mente de Jack em suas indagações.


Virgílio (com uma voz gutural de amedrontar) e Jack filosofam acerca de obras-primas da História da Arte, falam de momentos históricos (como o Nazismo), onde se discute a grandiosidade e a beleza da arquitetura e das pinturas, e num dado momento até há uma menção ao próprio cinema de Trier, com cenas de seus filmes. E numa belíssima sequência alegórica em slow-motion eles imitam ‘A divina comédia’, de Dante Alighieri, navegando numa barca quando seguem para visitar o inferno.
Enquanto a conversa se desenrola com Virgílio, Jack comete crimes bárbaros, tortura as vítimas, esconde seus corpos em um frigorífico desativado, e até registra fotos dos mortos. Só que ele não é um assassino comum: ele tem TOC, precisa voltar à cena do crime várias vezes para checar se ficou tudo limpo, se nada vai incriminá-lo. E tudo prepara Jack para um objetivo maior: um projeto de engenharia referente à construção de uma casa com materiais únicos (e no desfecho você ficará aturdido com a escolha dele).
Com um humor macabro que chega a ser agressivo, o filme descontrói paradigmas e cria situações incômodas para exibir com sordidez a mente de um psicopata e fazer uma analogia à banalidade da violência no mundo contemporâneo.
Repito que é um filme para poucos, tachado até de doentio, com cenas de mortes brutais (em uma delas ele mutila o seio de uma mulher). Longo em seus 154 minutos e complexo, traz rápidas participações de atores e atrizes em momentos marcantes, como Uma Thurman, Riley Keough, Siobhan Fallon Hogan, David Bailie e Jeremy Davies.


Novamente colabora no roteiro com Trier Jenle Hallund, que haviam feito “Melancolia” e “Ninfomaníaca – volume 1”.
A pedido dos colecionadores, a Versátil lançou o filme em bluray em parceria com a California Filmes; acaba de sair no Brasil em edição especial em disco duplo, contendo, além do filme em BD, um disco em DBD com duas horas de extras, com dois cards, pôster e livreto.

A casa que Jack construiu (The house that Jack built). Dinamarca/ Suécia/ França, 2018, 153 minutos. Drama/Horror. Colorido. Dirigido por Lars Von Trier. Distribuição: Versátil

Especial de Cinema

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