segunda-feira, 24 de maio de 2021

Cine Clássico


A loja da esquina

Na capital da Hungria, Budapeste, Alfred (James Stewart), que é funcionário de uma loja de confecções, flerta com Klara (Margaret Sullavan), e passa a trocar correspondência com ela. A jovem é admitida na loja em que Alfred trabalha e sem saber que é ele o cidadão que manda cartas para ela, começa a hostilizá-lo. Até que uma situação delicada surge na loja, que colocará à prova a paixão de Alfred por Klara.

Uma das comédias românticas mais queridas de Ernst Lubitsch, cineasta judeu nascido na Alemanha, que deixou o país em 1922 para produzir seus filmes em Hollywood - e lá causou com seus toques de sensualidade e erotismo nas décadas de 20 e 30, conseguindo escapar da censura imposta pelo moralista ‘Código Hays’ (o código era uma censura que vigorou 20 anos em Hollywood condenando filmes considerados provocadores, quer seja por críticas à igreja e religião, quer seja pela amostra de nudez, beijos quentes etc). Lubitsch dava toda uma elegância e sofisticação para suas produções, utilizava um humor cínico com diálogos de duplo sentido, tanto que surgiu na época um estilo chamado de ‘Toque Lubitsch’ (diretores tentaram imitá-lo, a fórmula pegou nos Estados Unidos, mas a originalidade estava mesmo nas mãos daquele grande criador).
“A loja da esquina” é um dos mais acessíveis do diretor, baseado numa peça do dramaturgo húngaro naturalizado americano Miklós László. A peça tinha tanto carisma e originalidade que deu origem a dois outros filmes nos EUA, o musical da MGM com Judy Garland “A noiva desconhecida” (1949) e a notória comédia romântica dos anos 90 “Mens@gem para você” (1998), que trazia toques modernos para a antiga história (por exemplo, antes os personagens principais trocavam cartas, nesse aqui o contato era via email).
Há uma excelente química do casal, com momentos de puro humor, um romance no ar e diálogos cheios de atritos, sem contar as reviravoltas típicas de Lubitsch. James Stewart era um ícone do cinema, de comédias clássicas a suspense de Hitchcock (com quem trabalhou várias vezes), e Margaret Sullavan caiu no esquecimento, pouco lembrada hoje (infelizmente morreu de maneira prematura, de overdose de drogas, aos 50 anos).


O diretor Lubitsch se tornou popular em Hollywood, dirigiu 70 filmes, dentre alguns sucessos imortalizados pelo público, como “Sócios no amor” (1933), Ninotchka” (1939 – com Greta Garbo) e “Ser ou não ser” (1942). Recebeu três indicações ao Oscar durante a carreira e ganhou um prêmio honorário da Academia em 1947, poucos anos antes de falecer.
Original da MGM, o filme foi lançado anteriormente pela Warner em DVD e agora acaba de ser relançado pela Classicline.

A loja da esquina (The shop around the corner). EUA, 1940, 99 minutos. Romance. Preto-e-branco. Dirigido por Ernst Lubitsch. Distribuição: Warner Bros. (DVD, de 2001) e Classicline (DVD, de 2021)

sábado, 22 de maio de 2021

Na Netflix


Oxigênio

Liz (Mélanie Laurent) acorda numa cápsula criogênica sem saber como foi parar lá. Ela tem poucas horas para escapar daquele lugar fechado, pois o oxigênio está no fim. Sua única ajuda é a de um robô que controla o sistema onde ela se encontra, chamado M.I.L.O. (voz de Mathieu Amalric).

Suspense eletrizante, o filme scifi continua na parada de sucesso da Netflix Brasil, ainda no ranking como o 3º mais assistido dessa semana. É uma coprodução França /EUA que seria lançada nos cinemas, porém, devido à pandemia, teve os direitos adquiridos pela Netflix, com distribuição mundial há duas semanas.
O filme dá uma agonia danada de ver a personagem o tempo inteiro presa em uma capsula criogênica, com o oxigênio quase no fim, e um robô que a deixa maluca, sem parar de falar. É um tour-de-force da belíssima atriz francesa Mélanie Laurent, amarrada, sem poder se mexer (numa situação parecida com a de Ryan Reynolds em “Enterrado vivo”, lembram?). Enquanto encontra forças e formas para escapar daquele lugar, ela tenta recordar o que a levou até lá. Flashes de sua vida passam na tela como se fossem vagas lembranças da jovem.


Laurent está bem, num papel difícil, mas ela sempre esteve à frente de personagens à prova de bala, como os que fez em Hollywood, “Bastardos inglórios” e “Truque de mestre”. A voz grave de Mathieu Amalric, como o robô, ajuda na tensão daqueles instantes de agonia.
Mais um bom feito do diretor francês de filmes fortes de terror como “Alta tensão” (2003) e “Predadores assassinos” (2019).

Oxigênio (Oxygène). França/EUA, 2021, 100 minutos. Suspense/Ficção científica. Colorido. Dirigido por Alexandre Aja. Distribuição: Netflix


segunda-feira, 17 de maio de 2021

Cine Especial


Texto de estreia da coluna 'Top Cinema', da revista Top, de Catanduva.
Obrigado pelo convite para escrever, Antonio Jayme e Marcelo Fernandes!


Ilha dos cachorros

Na cidade de Megasaki, no Japão, o corrupto prefeito Kobayashi (voz de Kunichi Nomura) põe em prática uma lei para limpar os cachorros das ruas, devido a uma praga canina, abandonando os animais em uma ilha deserta no meio do mar, chamada “Ilha do Lixo”. Um dia o garoto Atari (voz de Koyu Rankin) vê, desesperado, seu cão de estimação. Spots, ser levado para a ilha. Constrói então um pequeno aeroplano para resgatá-lo. Ao chegar na ilha, ajuda os cães a organizar uma revolução contra os abusos de autoridade do prefeito, o que dá início a uma guerra.

Indicado ao Oscar de melhor animação e melhor trilha sonora (e nessas mesmas categorias ao Globo de Ouro e Bafta), essa divertida animação em stop-motion com forte comentário social é assinada pelo visionário cineasta de outra animação adulta, “O fantástico Sr. Raposo” (2009), Wes Anderson. Ele também dirigiu obras premiadas, como “Os excêntricos Tenenbaums” (2001) e “O grande hotel Budapeste” (2014), acumulando sete indicações ao Oscar, que vão de melhor filme a melhor roteiro original.
Pois bem, “Ilha dos cachorros” é a jornada incrível de um garoto de 12 anos num Japão autoritário para salvar os cachorros abandonados em uma ilha deserta. Olhe a coincidência dos nossos tempos, já se falava de um vírus terrível (o filme é de 2018, e o tal vírus é uma espécie de gripe que os cães transmitem aos humanos), e na mentalidade do prefeito corrupto, a contenção do mal era deixar os animais morrerem numa ilha, sem comida, sem água... Até que o garoto ajuda os cachorros a organizar um motim contra os abusos.
Prepare-se para uma aventura criativa, engraçada, cheia de peripécias e de referências políticas – aliás, é um filme politizado, que critica os abusos de autoridade e a corrupção, sem falar dos crimes contra os animais.
Tem a marca autoral do diretor (um cineasta com obras pessoais e incomuns), que criou aqui um visual oriental autêntico, que mistura luxo e decadência, com uma estranha sensação no ar de vingança e brutalidade. Nada voltado às crianças, a animação é para jovens e adultos.


Wes Anderson firmou novamente parceria frente ao roteiro com Roman Coppola (filho do notório diretor e produtor Francis Ford Coppola), escreveu-o também com o ator de seus filmes, Jason Schwartzman, e para o projeto trouxe o roteirista e multiartista japonês Kunichi Nomura (que também empresta a voz para o prefeito). Falando em voz, tem um time de peso na dublagem original, como Bryan Cranston, Edward Norton, Bob Balaban, Jeff Goldblum e Bill Murray, e, claro, um ótimo grupo feminino, Greta Gerwig, Scarlett Johansson, Frances McDormand e até Yoko Ono.
Assista! Disponível em DVD e Bluray pela 20th Century Fox.com muitos extras.

Ilha dos cachorros (Isle of dogs). EUA/Reino Unido/Alemanha/Japão, 2018, 101 minutos. Animação/Aventura. Colorido. Dirigido por Wes Anderson. Distribuição: 20th Century Fox


domingo, 16 de maio de 2021

Dica de Leitura


"Duna: Graphic novel - volume 1" (2021, 176 páginas). Lançamento da @intrinseca, essa é a adaptação em quadrinhos do famoso romance scifi de Frank Herbert por Brian Herbert e Kevin J. Anderson. Uma nova experiência visual do mundo distópico de Duna, cheia de detalhes, imagens fortes e uma trama altamente filosófica, que segue os passos do original. Ótimas ilustrações de Raúl Allén e Patricia Martín. Confira!! 




Cine Especial


A colina escarlate

Órfã, filha de um milionário, Edith (Mia Wasikowska) se casa com um empreendedor inglês chamado Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), e com ele se muda para um velho castelo no meio do nada. Lá reside a irmã de Thomas, Lucille (Jessica Chastain), uma mulher misteriosa. Edith, cada vez mais sozinha, começa a ser assombrada por sinistros fantasmas, que dão um alerta para ela. A jovem então resolve por conta investigar um antigo segredo, guardado a sete-chaves nos porões do castelo.

O estimado cineasta mexicano Guillermo del Toro prestou sua homenagem ao cinema de horror gótico nesse seu filme menos experimental, mais com cara de blockbuster (e orçamento para isso), e ainda assim soturno e com certa inventividade. Escrevendo o roteiro ao lado do veterano Matthew Robbins, que juntos haviam feito o gosmento e escatológico “Mutação” (1997), trouxe traços do Romantismo, com claro diálogo com o romance “Jane Eyre”, um pouco do espírito de Edgar Allan Poe, personagens alusivos ao mundo de Roger Corman, e até do suspense de Hitchcock “Rebecca, a mulher inesquecível” (1940). Tudo isso para contar uma história melancólica, de um terror que oscila entre o psicológico e o evidente, cujo enredo segue numa montanha russa do medo, com reviravoltas envolvendo crimes brutais, espíritos feiosos ensanguentados (que não sabemos se são amigáveis ou mortais) e uma estranha argila que circunda o decrépito castelo.


Notadamente é uma produção bem cuidada e bem cara (custou U$ 55 milhões), com elementos visuais estridentes, de forte impacto, como a fotografia, o figurino e a direção de arte, que lembram o estilo das fitas populares da produtora britânica Hammer (esses elementos ficarão na nossa memória por um bom tempo). Infelizmente não teve a bilheteria esperada (U$ 75 milhões no mundo), e posso dizer que assumiu o lado cult, assim como ocorreu com grande parte da filmografia do diretor.


O elenco se esforça (gosto em particular de Hiddleston, que casa bem com filmes de época), e o filme pode cair no gosto de quem curte “gore” (terror com mortes macabras e muito sangue) – e há até uma investida numa trama de “mistério” (só para aguçar a curiosidade de quem não viu, existe um assassino na história, meio fácil de descobrir quem seja, e só revelado no desfecho).
Assisti no cinema em 2015, depois revi duas vezes, na época do lançamento em DVD pela Universal e essa semana novamente em DVD. Continuo gostando da obra, e confesso que na revisão melhorou... não é um Del Toro megaespecial, mas ele faz jus ao tema, e há seu estilo marcante, com criaturas estranhas, o tom macabro, os elementos visuais com suas cores fortes – dele, na linha do “gore” com fantasia como esse, destaco “Cronos” (sua estreia em longa-metragem, de 1993) e “A espinha do diabo” (2001 – um exercício com espíritos, de forma inventiva), ambos rodados no México.

A colina escarlate (Crimson Peak). EUA/Canadá/México, 2015, 119 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Guillermo Del Toro. Distribuição: Universal Pictures

sábado, 15 de maio de 2021

Cine Cult


A infância de Ivan

Na Segunda Guerra Mundial, o garoto órfão Ivan (Nikolay Burlyaev), de 12 anos, atua como espião no Exército Vermelho, a mando dos soviéticos, cruzando as linhas inimigas para conseguir informações do lado alemão. Ele faz esse trabalho como forma de se vingar dos nazistas, que assassinaram sua família.

Esse foi o longa-metragem de estreia do cineasta Andrei Tarkovsky, na época com 29 anos, que venceu o Leão de Ouro no Festival de Berlim em 1962. Rodado na cidadezinha ucraniana de Kaniv, às margens do rio Dniepre (que corta a Rússia e é um dos extensos do país), é um drama dos mais bem fotografados do cinema, com imagens descomunais que trazem uma carga realista misturada a um tom onírico, de um interminável pesadelo no front de guerra. Aliás, Tarkovsky prezava pela fotografia, que tinha uma voz consonante com a trama e os personagens - vide em seus filmes como ela é um elemento primordial, e todo o rigor técnico capaz de elevar cada filme ao status de obra-prima, dentre eles “Solaris”, “Stalker”, “Andrei Rublev”, “O espelho” e “O sacrifício”. Em “A infância de Ivan” Tarkovsky exercitou suas técnicas que virariam uma marca autoral, como a câmera lenta, as passagens com gruas, o panorama, a profundidade, a manipulação/intervenção de imagens com pura semiótica e deslocamentos. É um diretor único, que infelizmente nos deixou cedo demais, em 1986, aos 54 anos, vítima de câncer no pulmão.

O filme foi um dos primeiros a mostrar o olhar de uma criança diante de uma guerra atroz, depois viriam tantos outros, como o aclamado “Vá e veja” (1985, também russo), o lírico “Esperança e glória” (1987) e o perturbador e recém-lançado “O pássaro pintado” (2019). É baseado num conto de 1957 de Vladimir Bogomolov e Mikhail Papava, que traz um garoto cuja família foi morta pelos nazistas, alia-se aos soviéticos e vira um espião (pelo corpo miúdo, consegue atravessar florestas e cercas sem ser visto, ou seja, escapa com facilidade, e assim se infiltra no meio alemão para obter informações e repassá-las ao outro lado das linhas inimigas). Protegido de oficiais soviéticos, ele permanece até o fim para se vingar dos alemães, mesmo diante de um iminente embate entre as duas tropas.
Na época o bom ator Nikolay Burlyaev tinha 15 anos (interpretando um garoto de 12), sendo essa sua estreia, e depois trabalharia com Tarkovsky no épico “Andrei Rublev” (1966).


Lançado esse mês em DVD e Bluray pela CPC-Umes Filmes, numa cópia restaurada digna de elogios. Vale lembrar que o filme também está disponível em DVD pela Versátil no box “A arte de Andrei Tarkovsky”, junto de “O espelho” (1975), “Nostalgia” (1983) e “Tempo de viagem” (1983).

A infância de Ivan (Ivanovo detstvo). URSS, 1962, 95 minutos. Drama. Preto-e-branco. Dirigido por Andrei Tarkovsky. Distribuição: CPC-Umes Filmes (DVD e Bluray, de 2021) e Versátil Home Video (DVD, de 2015, no box ‘A arte de Andrei Tarkovsky)

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Dos livros para a tela


"Deixo Sue com seu segundo sanduíche de bacon e vou até o consultório de David ligar a máquina de café. De um modo idiota, é como fingir brincar de casinha com ele. Sinto um frio na barriga e não consigo conter a animação. Sempre gostei do trabalho, mas agora há uma outra emoção".

Trecho do livro "Por trás de seus olhos" (2017), de Sarah Pinborough, relançado recentemente pela editora Intrinseca devido ao sucesso da minissérie da Netflix que é uma adaptação da obra literária.
Um dos livros mais vendidos pelas listas do Sunday Times e do New York Times, traduzido em 25 países, o eletrizante romance conta a história de Louise, uma mãe solteira, que trabalha como secretária, e acaba de conhecer um homem num bar. Os dois trocam um beijo, despedem-se, e ela planeja um novo encontro. Quando descobre que o cara é o seu chefe, e é casado, Louise leva um baque, porém não deixa de se envolver, e ambos começam um romance. Numa reviravolta da vida, Louise fica amiga da esposa do amante. Aquele trio então irá se envolver numa série de equívocos surpreendentes.
Misturando suspense, romance e drama, com muitos plot twists, o livro deu origem à minissérie britânica lançada em fevereiro de 2021, produção da Netflix, que conta com os atores Simona Brown, Eve Hewson e Tom Bateman. Leia o livro da Intrínseca e depois assista à série!




Especial de Cinema

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