quinta-feira, 17 de abril de 2025

Especial de Cinema

 
‘É Tudo Verdade’ segue até o dia 30 no streaming com 10 curtas-metragens
 
O Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’ 2025 terminou no último domingo, dia 13, após 11 dias de evento. Nesse ano o festival, que chegou em sua 30ª edição, exibiu gratuitamente 85 filmes de 30 países, em sessões no Rio de Janeiro e em São Paulo. Na cerimônia de encerramento, na Cinemateca, na noite do dia 12, foram apresentados os vencedores do evento 2025. ‘Copan’ e ‘Escrevendo Hawa’ ganharam os prêmios principais, respectivamente nas categorias ‘Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens’ e ‘Competição Internacional de Longas ou Médias-Metragens’. ‘Sukande Kasáká / Terra doente’ e “Eu sou a pessoas mais magra que você já viu?” foram eleitos, respectivamente, os melhores curtas-metragens brasileiro e internacional. E quem não pode estar presencialmente no festival poderá conferir até o dia 30/04 a uma seleção especial de 10 curtas com exclusividade no streaming Itaú Cultural Play, todos gratuitos. É uma parte do festival disponível ao grande público, com exibição de seis títulos da competição brasileira de curtas nacionais deste ano e quatro curtas antigos dirigidos por Vladimir Carvalho, documentarista homenageado na edição 2025 do ‘É Tudo Verdade’. Segue, abaixo, a programação no Itaú Cultural Play, que pode ser acessado pelo link https://www.itauculturalplay.com.br
 

Competição brasileira de curtas-metragens 2025
 
A Bolha
Direção: Caio Baú
Brasil | 18’ | 2025
 
Cartas pela Paz
Direção: Mariana Reade, Thays Acaiabe e Patrick Zeiger
Brasil | 26’ | 2024
 
Chibo
Direção: Gabriela Poester e Henrique Lahude
Brasil | 18’ | 2024
 
Dois Nilos
Direção: Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro
Brasil | 18’ | 2024
 
Mergulho no Escuro
Direção: Anna Costa e Silva e Isis Mello
Brasil | 28’ | 2024
 
Sobre Ruínas
Direção: Carol Benjamin
Brasil | 17’ | 2025
 
 
Curtas em homenagem a Vladimir Carvalho
 
Romeiros da Guia
Brasil | 15’ | 1962
 
A Bolandeira
Brasil | 10’ | 1969
 
Incelência para um Trem de Ferro
Brasil | 25’ | 1972
 
A Pedra da Riqueza
Brasil | 16’ | 1975
 
 
Filmes conferidos no ‘É Tudo Verdade’ de 2025
 
Abaixo seguem drops de documentários que conferi no festival ‘É Tudo Verdade’ de 2025 – alguns deverão ser lançados nos cinemas e no streaming ao longo do ano.
 
Os ruminantes
 
Estreou no Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’ ‘Os ruminantes’ (2025), de Tarsila Araújo e Marcelo Cordeiro de Mello, filme em que o roteirista/cineasta Jean-Claude Bernardet relembra a produção que ficou inacabada de ‘A hora dos ruminantes’, uma adaptação cinematográfica do complexo livro do escritor goiano José J. Veiga, idealizado por ele e pelo cineasta Luiz Sergio Person em 1967. No doc, Bernardet relembra o projeto, as dificuldades para o roteiro e para a produção, os entraves com a Ditadura Militar – já que a obra seguiria os passos do livro com sua história simbólica e crítica àquele período, trazendo uma ampla discussão sobre os percalços de se fazer cinema no Brasil, ainda mais numa época rígida de vigilância e censura nos anos 60 e 70. Marina Person, filha do cineasta falecido prematuramente e também diretora e roteirista de cinema e TV, fala em nome do pai, trazendo pontos nunca antes citados sobre Person, alguns deles chocantes quando revela documentos secretos e inéditos de como o pai, alvo de militares no Brasil, foi banido quando tentou fazer cinema em Hollywood, devido ao contato de militares da ditadura com gente influente de Hollywood. Com depoimentos de Bernardet, Marina e de outros nomes que fazem cinema no Brasil, o documentário é um estudo instigante sobre o cinema brasileiro daquele período.
 

 
Lan, o caricaturista
 
De Pedro Vinicíus, o documentário, gravado pouco antes do falecimento do caricaturista ítalo-brasileiro Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini, ou apenas Lan (1925-2020), faz um resgate da trajetória desse incrível artista no Brasil, conhecido pelos desenhos humorísticos de forte teor político. Ninguém escapava das mãos de Lan, cujos traços únicos, poderosos, criavam formas impressionantes. Nômade - por causa do pai instrumentista membro de orquestra sinfônica, morou na infância e juventude em diversos países, como Uruguai e Argentina, lugar este que o acolheu e lá iniciou os primeiros trabalhos como caricaturista em jornais, aos 20 anos de idade. Até se instalar definitivamente em 1952 no Rio de Janeiro, onde colaborou para jornais de grande circulação, como O Globo, Última Hora e Jornal do Brasil. No filme, Lan e sua esposa, a ex-passista da Portela Olívia Marinho, abrem as portas de sua bucólica residência em meio a matas em Petrópolis, no Rio, para relembrar o passado. Lan mostra álbuns antigos de fotografia e recortes de jornais com suas caricaturas. Portanto, é um filme pessoal e íntimo, de extrema leveza, um dos raros filmes que celebram a caricatura como instrumento artístico e também de contestação por meio do humor.
 


Copan
 
O gigantesco edifício Copan, fincado na avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, é o personagem central desse filme-mosaico interessantíssimo, que agrega elementos notórios em sua produção, como fotografia, som e edição. Coprodução Brasil e França, dirigido por Carine Wallauer, o filme, grande vencedor do ‘É Tudo Verdade’ desse ano, na ‘Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens’, acompanha histórias de moradores e funcionários do antigo prédio, inaugurado em 1966, cuja arquitetura singular de linhas sinuosas foi concebida por Oscar Niemeyer. É considerado o edifício com maior estrutura de concreto armado do país, em seus 115 metros de altura, 32 andares e 1160 apartamentos divididos em seis blocos – e lá residem pessoas de diferentes classes sociais, sem contar os mais de 70 estabelecimentos comerciais. A câmera fica estacionada observando a rotina das pessoas no edifício, dentro e fora dos apartamentos – o filme foi gravado durante a campanha presidencial de 2022, e muito traz desse ambiente, tratando da disputa acirrada entre os candidatos Lula e Bolsonaro, e os ânimos exaltados de apoiadores dos dois lados. O filme faz um reflexo sobre desigualdade social e a questão da moradia na maior cidade da América Latina. O início e o término do filme se completam com uma gravação impressionante, acredito eu que de drone, que lentamente se aproxima do edifício e, no desfecho do doc, vai se afastando. Um dos melhores longas do festival ‘É Tudo Verdade’ de 2025, tem como distribuidora a Vitrine Filmes, que deve lançá-lo em breve nos cinemas. Exibido no CPH:DOX, importante festival de documentários, em Copenhagen.
 

 
Estrada azul – A História de Edna O’Brien
 
Doc irlandês de 2024, assinado por Sinéad O'Shea, sobre a escritora feminista Edna O’Brien (1930-2024) e a relação dela com suas tramas polêmicas e engajadas, que dividiam opiniões. Os romances de Edna focavam na libertação da mulher de uma sociedade misógina e machista, e alguns deles ficaram famosos, como ‘The country girls’ - estreia da escritora em 1960, primeira parte de uma trilogia e que foi banido da Irlanda por ser considerado escandaloso ao tratar da vida sexual das mulheres. O filme traz depoimentos de amigos próximos, como o ator e também escritor Gabriel Byrne e o romancista Walter Mosley, e tem a própria Edna contando fatos de sua carreira, bastante debilitada na época da gravação, aos 93 anos – ela faleceria meses depois. Mostra tanto o lado poético e criativo dela ao escrever seus livros e também da agitada vida social adotada, quando fazia festas em sua elegante residência em Londres, onde participavam Marlon Brando, Jane Fonda e Paul McCartney. Edna faleceu endividada e sozinha, deixando um legado na literatura escrita por mulheres. Quem narra o filme é a atriz indicada ao Oscar por ‘A filha perdida’ (2021) Jessie Buckley. Gostei demais do longa e espero que seja lançado no Brasil após o percurso no Festival ‘É Tudo Verdade’.
 
 
Esperando por Liat
 
Para mim, o melhor documentário internacional que conferi no festival ‘É Tudo Verdade’, possível candidato ao Oscar de melhor documentário em 2026. Produção norte-americana ganhadora de dois prêmios no Festival de Berlim, dentre eles o do Júri Ecumênico na seção ‘Forum’, o doc narra a angustiante jornada de uma família israelense, que reside nos Estados Unidos, à espera de notícias da filha, Liat Atzili, uma professora de História sequestrada juntamento com o marido pelo grupo terrorista Hamas, em outubro de 2023. Em meio a telefonemas incessantes em embaixadas e negociação na Casa Branca, o pai de Liat corre contra o tempo para encontrar uma solução para trazer a filha de volta. Em casa, a mãe de Liat cuida dos netos adolescentes, filhos da mulher sequestrada, e é amparada pelos amigos. É um documentário íntimo, dentro do seio de uma família despedaçada numa espera atordoante – durante o longa-metragem, ouvimos, por telefone, informações sobre o Hamas libertando reféns aos poucos, avisando familiares por meio de listas, e o nome de Liat nunca chega. Por isso é um filme duro, aflitivo, que nos prende até o emocionante desfecho, como se fosse um filme de suspense, mas um suspense das tragédias reais da vida.
 
 
A invasão
 
Premiado em dezenas de festivais de cinema pelo mundo, como Cannes, o cineasta russo Sergei Loznitsa acaba de receber indicação à Palma de Ouro pelo novo trabalho, ‘Two prosecutors’ (2025), ainda sem data para estrear no Brasil. Diretor e roteirista criador de filmes históricos, muitos de guerra, como ‘Na neblina’ (2012), ‘Maidan’ (2014) e ‘Donbass’ (2018), Loznitsa alterna filmes de ficção e documentários. A obra anterior a ‘Two prosecutors’ é esse ‘A invasão’ (2024), doc que concorreu ao Golden Eye em Cannes e que analisa a insana guerra da Rússia contra a Ucrânia e os desdobramentos da invasão de um país ao outro. Coprodução EUA/Holanda/França, o filme é composto por breves fragmentos da rotina dos ucranianos, que tentam reconstruir seu território destroçado por um interminável conflito bélico com a Rússia, que começou em 2014, porém se intensificou com a invasão ao país em 2022, episódio que deixou milhares de mortos e milhões de desabrigados – os números são incertos. No filme, que é bem longo (145’) e exige atenção e paciência do público menos inserido em fitas de arte, vemos um longo processo de captação de imagens sublimes, algumas caóticas e outras poéticas – são civis e soldados ucranianos sendo treinados para a guerra, de sobreviventes que voltaram do conflito sem partes do corpo e hoje fazem fisioterapia, professores que preparam os alunos para fugir quando ouvirem sirene de ataque aéreo, manifestações nas ruas pelo fim da guerra, casamentos e cortejos fúnebres, habitantes de cidades sob escombros recolhendo pertences etc. Sem focar em cenas de violência visual como bombardeios e mortos pelo chão, o filme é um estudo psicológico dos traumas de uma guerra, do mal moral de um conflito insano que nunca cessa, de pessoas inocentes reconstruindo suas vidas. O registro das imagens é preciso, algumas cenas são curiosas, outras realmente contundentes e parte delas simbólicas. Filmado num período de dois anos, é uma crônica sobre a resistência ucraniana.
 

 
O jardineiro, o budista e o espião
 
Coprodução Reino Unido/Noruega/Alemanha de 2025, dirigido por um premiado cineasta norueguês, Håvard Bustnes, é um documentário instigante que fala sobre identidade e espionagem. Rob Moore, produtor de programas de comédia na TV britânica, é hoje um cidadão solitário, que mora só, autodeclara-se budista, faz meditações e cuida minuciosamente do jardim de sua residência. Só que seu passado guarda segredos obscuros - por cinco anos forjou ser jornalista se infiltrando num grupo de ativistas que lutavam contra o uso do amianto, um minério cancerígeno usado em diversos produtos industriais, atualmente proibido em vários países. Ele sempre defendeu que lutava contra a corrupção e contra essa indústria milionária que poluía e matava pessoas, porém investigações mostraram que ele agia como espião da máfia da indústria do amianto. Sua versão é contestada a partir de reportagens da grande mídia. Moore, no filme, dá entrevistas para um jornalista, defendendo-se de todas as acusações contra ele. Fica a pergunta: Moore é bandido ou herói? Bom filme do Festival ‘É Tudo Verdade’, que exige atenção pelas reviravoltas uma atrás da outra, compondo uma incrível e estranha história.


sexta-feira, 11 de abril de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas

 
Regras do amor na cidade grande
 
Agradabilíssima comédia romântica sul-coreana para fãs de histórias de amor água com açúcar, inspirada no romance de sucesso do escritor Sang Young Park. Com altos e baixos e momentos bem dramáticos, de arrancar lágrimas dos apaixonados, o filme acompanha uma jovem estilosa, de espírito livre, e o relacionamento de amizade com um rapaz que divide a casa com ela e toca sua vida de maneira especial - porém guarda um segredo a sete-chaves. Entre amor e dor, risos e lágrimas, eles dividem o tempo juntos no mesmo espaço, confidenciando fatos marcantes e tendo apoio um do outro. Na movimentada capital Seul, os dois encaram uma jornada transformadora de amizade e lealdade, enfrentando inclusive preconceito de gênero – ao assistir você verá o porquê. A dupla central está bem, composta pela atriz Kim Go-eun, do terror ‘Exhuma’ (2024), e pelo ator Steve Sanghyun Noh, da série ‘Pachinko’ (2022-2024). Pode até parecer mais um título da safra inesgotável de K-dramas e Doramas que invade os streamings de hoje, mas não é – é um bom filme para jovens e adultos, com resoluções não tão sentimentais e piegas como o estilo de filmes e séries de K-drama costuma realizar. Exibido no Festival de Toronto, o singelo longa-metragem chega aos cinemas brasileiros pela A2 Filmes.
 


 
Força bruta: Punição
 
Porrada, tiro e pancadaria invadem a telona nesse fim de semana com a estreia do explosivo ‘Força bruta: Punição’, o quarto capítulo da cinessérie sul-coreana de enorme bilheteria no país asiático e que fez carreira em outros países, inclusive exibido no Festival de Berlim de 2024 e no Brasil na última edição do Festival do Rio – lá o filme passou com o título ‘Força bruta: Condenação’.
Dessa vez, o detetive fortão Ma Seok-do (Ma Dong-seok, apelidado de Don Lee, ator de toda a franquia ‘Força bruta’ e de ‘Invasão zumbi’) se alia a uma equipe especializada em crimes cibernéticos para caçar um perigoso bandido que chefia um esquema de jogos de azar online e tráfico de drogas. Para isso, o policial entrará de cabeça no submundo do crime de dois países, Coreia do Sul e Filipinas, colocando sua vida em jogo. Ágil, funcional para seu propósito e um humor agressivo, traz cenas estrondosas de brigas, algumas ininterruptas, com quebra-quebra generalizado, típico dos filmes chineses e japoneses de Yakuza e de Bruce Lee. E trata de um tema atual que abriu os olhos do mundo nos últimos anos, os jogos de aposta online, que movimentam bilhões de dólares e são proibidos em muitos lugares. Os filmes anteriores da franquia são ‘Cidade do crime’ (2017 – exibido no Brasil no Prime como ‘Os fora-da-lei’), ‘Força bruta’ (2022) e ‘Força bruta: Sem saída’ (2023), este a maior bilheteria da franquia, estreando em quase 3000 salas de 165 países. A franquia ‘Força bruta’ se consolida com o quarto capítulo e demonstra a força do cinema sul-coreano. Nos cinemas pela Sato Company.
 


 
As primeiras
 
Documentário brasileiro que registra o cotidiano, hoje, de um grupo de ex-jogadoras da Seleção Brasileira Feminina de Futebol que fez carreira nos anos 80 e 90, composto por nomes de destaque na época como Elane dos Santos Rego, Leda Maria Cozer Abreu, Maria Lucia da Silva Lima (Fia), Marilza Martins da Silva (Pelé), Marisa Pires Nogueira e Rosilane Camargo Motta (Fanta). No passado, as distintas mulheres formaram o primeiro time feminino em campo, atuando pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e ganhando títulos em campeonatos. Com o passar dos anos, devido a salários baixíssimos pagos pelo futebol, tiveram de seguir rumos diferentes que não o esporte; parte delas entrou no trabalho informal, como motorista e ambulante, enquanto outras se dedicaram a projetos sociais. Atualmente, vivem no subúrbio do Rio de Janeiro, e no filme abrem a porta de suas casas para contar sobre a trajetória de antes e de agora. O filme tece um reflexo dramático, às vezes com um leve humor, sobre sonhos perdidos, desilusão, o ‘ser mulher’ e o envelhecimento. As entrevistadas ainda mantêm vínculos, algumas são amigas inseparáveis, mostrando assim como o esporte as uniu para superar as barreiras. Elas se encontram uma vez por ano para uma ‘pelada’, e até assistem Copa do Mundo juntas.
O doc teve première mundial na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular. Entrou em cartaz ontem no Espaço Petrobras de Cinema (Rua Augusta, 1475), em São Paulo (SP), e fica disponível até o dia 16 de abril. No próximo fim de semana entrará no streaming da ClaroTV e Vivo Play (via Canal Brasil), seguido de estreia no Canal Brasil, no dia 17 de maio. Dirigido por Adriana Yañez, do contundente documentário sobre exploração sexual infantil ‘Um crime entre nós’ (2020), o filme foi produzido pela Olé Produções, que o distribuiu nas salas brasileiras.
 


 
Antônio Bandeira – O poeta das cores
 
Outro bom documentário brasileiro entra em circuito em algumas salas de cinema alternativo aqui do país. O longa, com encenações que lembram um ‘docudrama’, resgata a trajetória perdida e pouco conhecida do artista plástico e desenhista cearense Antônio Bandeira (1922-1967), representante da arte abstrata e do Modernismo. Por meio de um estudo criterioso, o filme analisa dois momentos da vida do pintor – do nascimento até os 23 anos no Brasil, época em que entrou para o mundo das artes plásticas, e sua estadia/moradia na França, de 1946, quando ganhou uma bolsa de estudo e foi para Paris, até sua morte na capital francesa. Viveu metade da curta vida na Cidade-Luz onde participou de salões e expos em diversos países da Europa, tornando-se figura ímpar do Abstracionismo – Bandeira ficou mais notório lá fora do que no país onde nasceu. Quem conduz as histórias é o sobrinho Francisco Bandeira, um dos herdeiros de sua obra – enquanto há um ator que atua como Antônio, fotos, reportagens e telas verdadeiras dele aparecem no quadro, como uma maneira de desvendar a inquietude artística desse homem genial, que infelizmente partiu cedo, aos 45 anos, durante uma cirurgia malsucedida.
O doc recebeu o troféu Mucuripe de melhor longa na mostra ‘Olhar do Ceará’, no Cine Ceará de 2024, e acaba de estrear nos cinemas com distribuição da Sereia Filmes.
 


 
Pindorama – Uma História do Brasil ancestral
 
Realizado na cidade de Campinas (SP) e no distrito vizinho de Sousas, o documentário educativo e etnográfico nos leva a uma jornada ancestral ao Brasil da época do ‘descobrimento’, quando as terras dos indígenas que aqui moravam foram invadidas pelos portugueses em suas naus. Conta-se que ‘Pindorama’ foi o primeiro nome dado ao Brasil, pelos tupis-guaranis, que significa ‘Terra das palmeiras’. É um filme de narrativa decolonial, que conta uma história nada romântica, de um território nu e ingênuo, mantido e organizado pelas comunidades originárias, que foi brutalmente colonizado pelos europeus. Com a chegada dos portugueses, eliminou-se a cultura ancestral, substituindo-a pela cultura branca – sem contar a destruição das matas, estupros e assassinatos de indígenas e aculturação forçada. Dirigido pelo jornalista Marcos Rogatto, conta com produção de Patrícia Ogando e realização da Vista Filmes. Para o longa-metragem, a equipe entrevistou 43 pesquisadoras e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, de universidades renomadas, como Unicamp, diretores de museus, e de indígenas, resultando num material amplo e inédito sobre o tema. Há passagens em sítios arqueológicos e paleontológicos como Lapa Vermelha (MG), Toca do Boqueirão (PI) e da cidade vizinha à minha Monte alto (SP). É um filme explicativo, didático, que entrelaça temas como arqueologia, meio ambiente e ancestralidade, com forte pesquisa científica que ajuda a reconstruirmos a verdadeira História do Brasil. Exibido ontem no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo, o filme terá em breve novas exibições pelo país – algumas estão agendadas, como dia 06 de maio às 20h, na Cinemateca do MAM Rio de Janeiro, e 23 de maio às 19h30, na Rabeca Cultural, no Distrito de Sousas, próximo a Campinas.



quinta-feira, 10 de abril de 2025

Especial de Cinema

 
‘É Tudo Verdade’ segue até dia 13 de abril com exibição de dezenas de documentários
 
A 30ª edição do Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’, que começou no dia 03 de abril, segue até o dia 13 com dezenas de filmes na programação. O festival completa 30 anos. São 85 filmes de 30 países, todos gratuitos, na edição de 2025, com sessões no Rio de Janeiro, em São Paulo e no streaming, além de conferências e debates. O ETV conta com Mostras Competitivas de Longas/Médias-metragens Brasileiros, Longas/Médias-metragens Internacionais, Curtas-metragens Brasileiros e Curtas-metragens Internacionais, e em Mostras Não-competitivas, que são Programas Especiais, O Estado das Coisas, Foco Latino-Americano e Clássicos ‘É Tudo Verdade’.
A cerimônia de premiação será realizada em 12/04, às 19h30, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. As produções premiadas pelos júris oficiais terão reapresentações em SP e no RJ no dia seguinte. Pelo reconhecimento de “Qualifying Festival” pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, os quatro filmes vencedores dos prêmios dos júris oficiais para as Competições Brasileiras e Internacionais de Longas/Média-metragens e de Curtas-metragens estarão classificados para apreciação à disputa do Oscar do ano que vem em ambas as categorias.



 
Programação: Filmes e retrospectivas
 
Dentre os longas brasileiros em competição destacam-se “Bruscky: Um autorretrato” (2025, de Eryk Rocha), “Rua do Pescador, nº6” (2025, de Bárbara Paz) e “Um olhar inquieto: O cinema de Jorge Bodanzky” (2024, de Liliane Maia e Jorge Bodanzky). “Ritas” (2025), de Oswaldo Santana, e “Viva Marília” (2024), de Zelito Viana, foram os filmes de abertura em SP e RJ, respectivamente.
Dentre os longas-metragens internacionais exibidos em competição esse ano no ETV destacam-se o suíço “Culpar” (2025), o cubano “Crônicas do absurdo” (2024 – exibido no Festival de Havana), o holandês “O propagandista” (2024) e a coprodução França/Holanda/EUA do premiado diretor Sergei Loznitsa “A invasão” (2024 – exibido em Cannes). O filme ‘Trens’ (2024), do polonês Maciej Drygas, irá encerrar o festival, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro – vencedor de dois prêmios no Festival de Amsterdã, o filme resgata imagens de arquivo de viagens de trem pela Europa ao longo do século 20.
No ‘Programas Especiais’ haverá a exibição do novo trabalho de Lucia Murat, “Hora do recreio” (2025), e no ‘Clássicos É Tudo Verdade’, diversos títulos lançamentos e antigos, como “Quem não conhece o Silva?” (1979) e o lançamento de “Os ruminantes” (2025), de Tarsila Araújo e Marcelo Cordeiro de Mello, em que o roteirista/cineasta Jean-Claude Bernardet relembra a produção que ficou inacabada de ‘A hora dos ruminantes’, uma adaptação cinematográfica do complexo livro do escritor goiano José J. Veiga, idealizado por ele e pelo cineasta Luiz Sergio Person em 1967. No doc, Bernardet relembra o projeto, as dificuldades para o roteiro e para a produção, os entraves com a Ditadura Militar – já que a obra seguiria os passos do livro com sua história simbólica e crítica àquele período, trazendo uma ampla discussão sobre os percalços de se fazer cinema no Brasil, ainda mais numa época rígida de vigilância e censura nos anos 60 e 70. Marina Person, filha do cineasta falecido prematuramente e também diretora e roteirista de cinema e TV, fala em nome do pai, trazendo pontos nunca antes citados sobre o pai, alguns deles chocantes quando revela documentos secretos e inéditos de como Person, alvo de militares no Brasil, foi banido quando tentou fazer cinema em Hollywood, devido ao contato de militares da ditadura com gente influente de Hollywood - a próxima sessão do filme será no 12/04 às 18h no IMS Paulista.



 
Homenagens
 
O ETV de 2025 homenageia Vladimir Carvalho (1935-2024) com uma retrospectiva, trazendo nove longas-metragens realizados por ele em 50 anos, como “O país de São Saruê” (1971), “O homem de areia” (1981), “O evangelho segundo Teotônio” (1984) e seu último trabalho, “Giocondo Dias - O ilustre clandestino” (2019). Na retrospectiva internacional, uma celebração à obra do diretor britânico Humphrey Jennings (1907-1950) – serão exibidos oito de seus trabalhos, como “Fires were started” (1943) e “Family portrait” (1950 – indicado ao Bafta), além do documentário que revive sua trajetória, dirigido por Kevin Macdonald, “Humphrey Jennings – O homem que ouvia a Grã-Bretanha” (2000).
Para celebrar os 30 anos ininterruptos do festival, fundado em 1996, os organizadores trazem projeções e encontros especiais. Serão exibidos três docs marcantes de edições passadas do evento: “Cabra marcado para morrer” (1984), de Eduardo Coutinho - que inspira a capa do catálogo; “O velho – A História de Luiz Carlos Prestes” (1997), de Toni Venturi, e “Noel Field – A lenda de um espião” (1996), do suíço Werner Schweizer.
 


Salas de exibição e streaming
 
Em 2025, as salas participantes que exibirão os filmes são: em São Paulo, CineSesc, Cinemateca Brasileira (Salas Grande Otelo e Oscarito), Instituto Moreira Salles/IMS Paulista e o Centro Cultural São Paulo; e no Rio, as sessões ocorrem nos Estações NET Botafogo e NET Rio e na Sala José Wilker, do recém-inaugurado CineCarioca.
Mais uma vez, pensando em democratizar o acesso ao festival, os organizadores lançarão parte da programação em plataforma de streaming, no caso o Itaú Cultural Play, com exibições entre 14 e 30 de abril – serão seis curtas-metragens da competição brasileira de 2025 e quatro curtas antigos de Vladimir Carvalho.
O ‘É Tudo Verdade’ conta com patrocínio do Itaú, parceria do Sesc-SP, e Apoio Cultural da Spcine, da RioFilme, do Galo da Manhã e do Itaú Cultural. Realização: Ministério da Cultura do Governo Federal, através da Lei de Incentivo à Cultura (Lei N. 8313). Mais informações pelo site do evento, em https://etudoverdade.com.br/br/home/

terça-feira, 8 de abril de 2025

Estreias da semana - Nos cinemas

 
Dois filmes de terror independentes nos cinemas brasileiros
 
Presença
 
Família se muda para uma nova casa. Aos poucos a adolescente Chloe (Callina Lang) sente uma força estranha que vem do seu armário. Nem os pais, Rebekah (Lucy Liu) e Chris (Chris Sullivan), nem o irmão, Tyler (Eddy Maday) acreditam nela, que fala haver ali algo sobrenatural. Porém aos poucos situações assustadoras farão com que a família repense em suas crenças.
 
Projeto pessoal do cineasta Steven Soderbegh, que realizou aqui um filme curto, de apenas 84 minutos, experimental, filmado inteiramente em cômodos de um sobrado de dois andares, onde alguém espreita os passos de uma família recém-mudada. Para causar a impressão de algo que observa, a câmera assume o ponto de vista (do que seria um espírito ou fantasma, mas nunca o vemos de frente) – todo o momento é a visão dessa entidade, com momentos que alternam a câmera 360 graus, que distorce as laterais do quadro, sem close ou filmagem próxima dos atores. De repente, esse espírito movimenta objetos, chacoalha a cama e derruba copos e livros da prateleira – a explicação virá somente no fim, com um plot twist macabro. Apesar de ser vendido como terror, é mais drama psicológico do que horror sobrenatural.
Foram feitas apenas 30 tomadas, a maioria em planos-sequência, filmado em três semanas em uma mesma casa com poucos atores em cena – senão me engano são oito personagens ao todo. Da metade para frente duas subtramas são criadas que darão sentido ao desfecho: o relacionamento da adolescente com um rapaz popular da escola, que é amigo de seu irmão, e a chegada de uma sensitiva especializada em detectar fantasmas.
Direção, fotografia e montagem de Soderbergh e roteiro de David Koepp, que já escreveu filmes de fantasmas e sobrenaturais, como um que lembra esse, a adaptação do livro de Richard Matheson, ‘Ecos do além’ (1999), com Kevin Bacon.
Pasmem, a história é inspirada numa situação real vivida por Soderbergh – ele e a esposa adquiriram uma residência em Los Angeles onde, segundo consta, uma mãe foi assassinada pela filha. Durante meses o casal vivenciou eventos estranhos e inexplicáveis na residência, como luzes apagando misteriosamente e objetos encontrados em outros lugares.
Exibido nos festivais de Sundance e Toronto de 2024, custou U$ 2 milhões, ou seja, uma fita independente – foi exibido nos EUA em alguns cinemas em 2024, faturou pelo mundo U$ 11 milhões e essa semana chegou aos cinemas brasileiros, com distribuição da Diamond Films.
Soderbergh ganhou o Oscar de melhor direção por ‘Traffic’ (2000) e já realizou filmes populares e cult, como ‘Sexo, mentiras e videotape’ (1989), ‘Onze homens e um segredo’ (2001) e ‘Erin Brockovich: Uma mulher de talento’ (2000). O elenco está bem, com especial menção às duas atrizes de origem chinesa, Lucy Liu interpretando a mãe, e Callina Liang, a filha, cuja história fica em seu entorno. Gostei e recomendo.
 
Presença (Presence). EUA, 2024, 84 minutos. Horror/Drama. Colorido. Dirigido por Steven Soderbergh. Distribuição: Diamond Films (nos cinemas)
 
 

Desconhecidos
 
Uma jovem (Willa Fitzgerald) foge de maneira descontrolada, de carro, de um homem que quer matá-la a todo custo (Kyle Gallner). Ela está sozinha numa estrada perdida, em uma região remota cercada por uma mata. Então bate na porta de uma residência, onde mora um casal idoso (Ed Begley Jr. e Barbara Hershey). Ela se esconde lá, até que o rapaz ensandecido os encontra.
 
Segundo longa do diretor e roteirista JT Mollner, uma fita de terror de 2023 de baixo orçamento e que somente agora chega aos cinemas brasileiros. São poucos atores em cena, contando com a atriz Willa Fitzgerald, de um filme que está também nos cinemas, o fraquíssimo policial ‘Código Alarum’ (2025 – com Sylvester Stallone e participação da brasileira Isis Valverde) e com o jovem ator Kyle Gallner, de ‘Sorria’ (2022), além da participação dos veteranos Ed Begley Jr. e Barbara Hershey.
Nada é o que parece nesse thriller violento apresentado como terror. Haverá uma reviravolta surpreendente na metade, que, confesso, deixou-me de queixo caído tamanha a ousadia, o que rompe com a tradição de filmes de psicopatas – aqui um slasher. E o ritmo da fita fica cada vez mais frenético, com cenas sanguinárias – por isso recebeu classificação de 18 anos. Começa pelo meio, e pelos flashbacks vamos concatenando as ideias, entendendo o passado dos dois personagens centrais, a moça que foge e seu algoz – eles não têm nome, apenas apelidados de ‘The lady’ e ‘The demon’.
Dos produtores de dois ótimos filmes recentes de terror, e bem tensos, ‘Noites brutais’ (2022) e ‘Entrevista com o demônio’ (2023), é uma fita a se conhecer, principalmente fãs do gênero.
 
Desconhecidos (Strange darling). EUA, 2023, 97 minutos. Horror/Ação. Colorido. Dirigido por JT Mollner. Distribuição: Paris Filmes (nos cinemas)

domingo, 6 de abril de 2025

Estreias da semana – No streaming


Texano por acaso (2023)
 
Comédia dramática independente que ninguém ouviu falar e tampouco estreou nos cinemas brasileiros - nos Estados Unidos passou em algumas salas após ser exibido em festivais menores, como Dallas e Hill County. É a história de um jovem ator chamado Erwin Vandeveer (Rudy Pankow, da série da Netflix ‘Outer banks’), recém-formado na Universidade de Harvard, que sofre um revés num set de filmagem. Ele é demitido de uma produção e acaba se mudando para uma cidadezinha no interior do Texas. No primeiro dia na cidade nova, conhece um perfurador de petróleo, o rancheiro solitário e falido Merle (Thomas Haden Church, indicado ao Oscar de ator coadjuvante por ‘Sideways: Entre umas e outras’). A garçonete que chefia a cafeteria onde estão, Faye (Carrie-Anne Moss, a Trinity da trilogia ‘Matrix’), ajuda Erwin e Merle a denunciar fraudes de uma companhia petrolífera. Os dois então juntam as malas para uma incrível jornada. É um filme simples, bem feito e que trata de amizades improváveis, com um bom trabalho do elenco – além de Church, Pankow e Carrie-Anne, tem veterano ator duas vezes indicado ao Oscar Bruce Dern, de ‘Nebraska’ (2013), pai da atriz Laura Dern, na pele de um fazendeiro. Foi todo filmado na minúscula Buffalo Gap, de 600 habitantes, uma das menores cidades do Texas, localizado a 350 quilômetros da capital do estado, Austin. Baseado no livro de Cole Thompson, escrito em 2000, o filme é dos mesmos estúdios de outra boa fita independente de festival, a dramédia também pouco conhecida ‘O falcão manteiga de amendoim’ (2019), com Shia Labeouf, Dakota Johson e participações dos atores de ‘Texano por acaso’ Bruce Dern e Thomas Haden Church. Disponível para aluguel nos principais streamings, como Prime Video e AppleTV, com distribuição da A2 Filmes.
 


 
Mamãe golpista (2025)
 
Para você que gosta de filmes intrigantes, o documentário recém-lançado no catálogo Netflix ‘Mamãe golpista’ (2025) servirá como um bom exemplar. Produzido no Reino Unido, fala de um caso extraordinário e sórdido no mundo dos golpes da internet. O renomado chef de cozinha britânico Graham Hornigold tem sua vida e o da esposa revirada com a chegada da mãe ausente após quatro décadas incomunicável. Uma elegante senhora entra em contato com Graham, via email, em 2020, afirmando ser a mãe dele – o chef foi adotado aos dois anos de idade e nunca soube do paradeiro da mãe biológica. Ele sempre quis conhecê-la e havia tentado procura-la no passado. Por causa dos traços físicos, ele acredita que aquela senhora é sua mãe. No entanto, ela afirma estar com câncer terminal e gostaria de passar uma temporada ao lado dele, sempre enviando mensagens carinhosas e fotos dramáticas. Graham topa e inicia uma série de viagens com ela. Só que a simpática idosa aos poucos demonstra sua real intenção, querendo mais e mais dinheiro para gastar em hotéis luxuosos e comidas caras. É um filme de história tensa e crescente, sobre uma golpista de primeira linha disposta a enganar e se dar bem com o dinheiro dos outros. Do diretor indicado ao Bafta Nick Green. Estreou na Netflix na última semana de março.

Estreias da semana - Nos cinemas

 
Parthenope – Os amores de Nápoles
 
Cineasta italiano nitidamente influenciado por Federico Fellini, Paolo Sorrentino presenteou o mundo com o imaginativo ‘A grande beleza’ (2013), ganhador do Oscar de filme estrangeiro. Diretor, roteirista, produtor, é uma das vozes mais autorais do cinema italiano atual, realizador de ‘Um homem a mais’ (2002), ‘As consequências do amor’ (2004) e ‘O divo’ (2008), e depois com coproduções em outras terras, como EUA e Reino Unido, com astros renomados, ‘Aqui é o meu lugar’ (2011, com Sean Penn), ‘Juventude’ (2015, com Harvey Keitel e Michael Caine) e ‘A mão de Deus’ (2020), da Netflix, passando por duas minisséries incríveis e questionadoras, que são continuação,  ‘O jovem Papa’ (2016) e ‘O novo Papa’ (2020), ambas com Jude Law. Agora chega aos cinemas brasileiros seu novo trabalho, um Sorrentino de menor potência visual, mas ainda perspicaz, ‘Parthenope – Os amores de Nápoles’ (2024), coprodução Itália e França, filmada na estonteante costa de Nápoles e na vizinha ilha de Capri. Inspirado no mito grego de Partenope, a virgem com face de menina, considerada sereia, a fundadora da cidade de Neápolis, depois Nápoles, o drama acompanha 70 anos na vida de Parthenope (interpretada por Celeste Dalla Porta na juventude e por Stefania Sandrelli na vida adulta). Ela é uma belíssima jovem que chama a atenção por onde passa; nos anos 70, ela vive intensamente em busca de prazer e liberdade, uma mulher à frente de seu tempo. Em Nápoles, perambula em um hotel na beira do mar, onde conhece pessoas excêntricas, apaixona-se e exibe seu corpo no mar resplandecente. Torna-se amiga de um escritor deprimido e alcoólatra, John Cheever (sim, o verdadeiro contista americano ganhador do Pulitzer, o ‘Chekov da América suburbana’, num papel de Gary Oldman em momento brilhante) e tem um caso fugaz com um padre (Peppe Lanzettaque) cujo estilo e adornos parece um mafioso – como sempre, Sorrentino destila sua crítica feroz à igreja. Parthenope não pensa em julgamentos da sociedade, crie seu estilo próprio de absorver os deleites da vida mundana. Belíssimo nas locações, com roteiro ágil com seus personagens estranhos e caóticos, é um Sorrentino a se conhecer – assisti numa sessão do Festival do Rio do ano passado em que o público vibrou.
Indicado à Palma de Ouro e vencedor de um prêmio especial em Cannes, é produzido pela A24, e no Brasil chega aos cinemas pela Paris Filmes.
 


 
Código Alarum
 
Chega aos cinemas brasileiros mais um filme de ação com Sylvester Stallone, só que dessa vez o ator em papel meramente coadjuvante. Há dois meses a distribuidora Imagem Filmes trouxe para cá ‘Blindado’ (2024), com ele e Jason Patric, e agora apresenta ‘Código Alarum’ (2025), protagonizado pelo filho de Clint Eastwood, Scott Eastwood, de ‘Esquadrão suicida’ (2016). No pôster do longa adaptado para o Brasil chama a atenção a atriz Isis Valverde, que tem uma participação pequenina em sua estreia internacional. A trama, o que posso dizer, é sofrível... muito mais do mesmo daquelas fitinhas corriqueiras de espionagem, com cenas rápidas de perseguição e reviravoltas inconvincentes. Um casal de agentes secretos (Scott Eastwood e Willa Fitzgerald, atriz de outra estreia da semana, o bom e tenso terror de psicopata ‘Desconhecidos’) abandona o mundo da espionagem. Durante as férias com uma amiga em comum (Isis Valverde), os dois deparam-se com uma conspiração por causa de um pendrive com informações ultraconfidenciais. Eles viram presas de um grupo armado e perigoso, liderado por um agente da CIA em fim de carreira (Sylvester Stallone). Com jeitão de filme B, daquelas antigas sessões noturnas do SBT e Record, é um filme superficial, sem gosto, chamativo para nós por um único fato: a participação de Isis representando o Brasil no cinema hollywoodiano. E fãs de Stallone, uma notícia decepcionante: o veterano ator aparece minutos na tela, no início e no desfecho, com ar de desprezo e cansaço.
 


 
O Bixiga é nosso!
 
Os documentários brasileiros de cunho social estão em alta, e nesse ano já estrearam nos cinemas uma série de filmes sobre luta e resistência de grupos sociais minoritários. ‘O Bixiga é nosso!’ (2024), de Rubens Crispim Jr., é um deles e traz uma discussão que perdura há quatro décadas no tradicional bairro paulistano: a destruição de áreas patrimoniais por causa da especulação imobiliária e da instalação de grandes empreendimentos comerciais. Em 1980, no bairro do Bixiga, fundado e ocupado por imigrantes italianos, iniciou-se o processo de tombamento por apresentar uma rica arquitetura e manter traços típicos da cultura da Itália. No local há cantinas/tratorias, residências, comércio e a notória companhia de teatro que revolucionou as artes, o Teatro Oficina, hoje Cia. Uzyna Uzona. A área ocupada pela companhia está há décadas em disputa judicial com o Grupo Silvio Santos, que quer construir ali prédios comerciais, o que descaracterizaria o patrimônio cultural daquela região. E recentemente, em 2022, devido à escavação de túneis para obras do metrô na Praça 14 Bis, uma revelação se apresentou: vestígios de um quilombo urbano, de nome Saracura, um dos primeiros da capital, ou seja, mais um motivo para a preservação do bairro. Assim, comunidades italianas, negras, moradores e apoiadores se juntaram para uma luta incansável contra o apagamento do bairro, com gritos de ‘O Bixiga é nosso!’. O doc reúne imagens das reuniões dos grupos, de manifestações e momentos de lembrança e história do Bixiga, além de depoimentos de ativistas, historiadores e moradores, com participação de integrantes de movimentos populares como o Teatro Oficina, Mobiliza Saracura Vai Vai – a escola de samba Vai Vai fica no bairro, Bloco Afro Ilu Oba de Min, Casa Mestre Ananias e Museu do Bixiga. Teve a première na 13ª Mostra Ecofalante, em 2024, onde recebeu o prêmio concedido pelo público. No dia 31 de março houve a pré-estreia gratuita do filme em São Paulo, e entre os dias 03 e 09 de abril ficará em exibição no Espaço Petrobras de Cinema (Rua Augusta, 1475 – Consolação, em São Paulo). Enxuto com seus 73 minutos de duração, é um filme político, reflexivo e contestador.



 
 
Todo dia é dia de feira
 
Outro bom documentário brasileiro na telona! ‘Todo dia é dia de feira’ faz um preciso registro sobre a rotina de feirantes do Rio de Janeiro, com foco em quatro personagens da vida real, Arnaldo, Luiz, Fernando e Cristina. Eles contam sua trajetória nas feiras livres, e os vemos no incansável batente preparando pasteis e expondo itens como flores e frutas que vendem nas barracas. É o agitado bastidor de uma tradição ameaçada, seja pelo descaso das prefeituras e autoridades ou pela concorrência desleal com mercados. Os feirantes usam da voz e da simpatia para chamar o cliente, para eles há dias bons de vendas e há aqueles de prejuízo. Atualmente as feiras livres são uma instituição nacional, um empreendimento popular e que movimenta as economias formal e informal, e o filme demonstra essa força.
Frequentadora de feiras, a diretora Silvia Fraiha dá protagonismo a essas pessoas anônimas que vivem da venda diária de seus produtos nas barracas do Rio e é ela quem narra o filme. O doc vai além, e não só dentro das feiras – a cineasta acompanha os quatro protagonistas voltando para seus bairros nas comunidades do Rio de Janeiro, em momentos privados com a família, que misturam alegria e sofrimento, mostrando o ser humano com seus dilemas e a profunda desigualdade social no país. Apesar do recorte ser no Rio, o filme representa todas as feiras livres que resistem pelo Brasil afora, semelhantes no negócio e com histórias de vida parecidas. Gostei muito e recomendo. Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da California Filmes.



terça-feira, 1 de abril de 2025

Estreias da semana - Nos cinemas - Parte 2

 
Onda nova
 
Atletas femininas formam o primeiro time de mulheres assim que a Ditadura Militar começa a perder forças, o ‘Gayvotas Futebol Clube’. De espírito livre, contra qualquer tipo de preconceito, elas curtem a vida de forma plena, enquanto lidam com problemas familiares e se preparam para uma partida contra a Seleção da Itália.
Alvo de censura na época, ‘Onda nova’ (1983) retornou aos cinemas brasileiros no fim de semana passado, em cópia restaurada e remasterizada em 4K, um trabalho minucioso feito pela Cinemateca Brasileira, que digitalizou o material - os negativos originais de 35mm de som e imagem foram restaurados com coordenação e supervisão de Julia Duarte e Aclara Produções, com apoio da família de um dos diretores, José Antônio Garcia, falecido em 2005, da Zumbi Post e JLS Facilidades Sonoras. É uma comédia anárquica libertária, produzida no final do ciclo da Pornochanchada, nos últimos suspiros da Ditadura Militar, em que as pessoas pediam liberdade contra o autoritarismo. É um apanhado de historietas de personagens femininas que jogam num time de futebol, o Gayvotas – repare na palavra ‘Gay’, fundado no ano em que o esporte foi regulamentado no país, após 40 anos banido. Elas sonham com o futuro, almejam uma carreira, desfrutam do amor e do sexo sem se preocupar com pudor ou puritanismo.
Na época, a censura apontou a comédia como ‘amoral’, pois, segundo os censores, fazia apologia à bissexualidade, ao amor livre e ao comportamento sexual irresponsável – ele foi vetado assim que teve a première na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1983, e só voltaria aos cinemas um ano e meio depois - e olhe só, o filme foi reexibido nessa cópia restaurada na última edição da Mostra de SP, em outubro de 2024.
Uma obra vibrante, engraçada, que também fala sobre sexismo no esporte e como quebrar essas barreiras. Há sim cenas de sexo a la Pornochanchada, mais erótico e subentendido do que explícito, e mesmo assim, por aparecer corpos nus na tela grande, causava burburinhos. No elenco temos rostos conhecidos do cinema daquele período, como as estreantes Carla Camurati, Cristina Mutarelli, Vera Zimmermann e Regina Casé, as cantoras e atrizes Cida Moreira e Tania Alves, e participações especiais dos veteranos Sérgio Hingst e Ênio Gonçalves. Há ainda aparição dos jogadores Casagrande e Pitta, do cantor Caetano Veloso e do falecido ator argentino Patricio Bisso num irreverente papel feminino, como era de costume - ele também foi figurista de filmes brasileiros importantes dos anos 80, como ‘O beijo da mulher aranha’ (1985).
Assisti a ‘Onda nova’ há uns 20 anos numa sessão noturna do Canal Brasil, mas na cópia antiga - se puder veja na tela grande, pois a restauração em 4K está excelente, é outro filme. Está em cartaz em 20 cinemas brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Belém e Brasília, com distribuição pela Vitrine Filmes. Classificação indicativa de 18 anos. Uma curiosidade – o novo pôster foi recriado pelas mãos de Helena Garcia, filha do cineasta José Antônio Garcia, que fez o filme ao lado de Ícaro Martins – juntos a dupla dirigiu comédias do final da Pornochanchada, como ‘O olho mágico do amor’ (1982) e ‘A estrela nua’ (1984), todas com Carla Camurati.



Observem a trilha sonora com hits do início dos anos 80, ‘Cor de rosa choque’ e ‘Agora só falta você’, de Rita Lee, ‘Beat it’, de Michael Jackson, e Laura Finocchiaro cantando a canção título, ‘Onda nova’. A montagem é do meu querido amigo e meu conterrâneo catanduvense, o já falecido Eder Mazzini, montador de dezenas de longas brasileiros.
 
Onda nova (Idem). Brasil, 1983, 103 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por José Antônio Garcia e Ícaro Martins. Distribuição: Vitrine Filmes (nos cinemas)

Especial de Cinema

  Mostra Internacional de Cinema de SP comemora 50 anos e dá início na próxima semana   A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo comemo...