quarta-feira, 10 de maio de 2017

Cine Lançamento


Animais noturnos

Susan (Amy Adams) é uma artista contemporânea insatisfeita com o trabalho e com seu casamento. Um dia recebe em casa o manuscrito do novo romance do ex-marido que há tempos não vê, Edward (Jake Gyllenhaal), dedicado a ela. De conteúdo violento, o livro causa angústia imediata em Susan – a cada página, relembra, com peso na consciência, as poucas alegrias e muitas tragédias vividas ao lado do ex. Até o término da obra, Susan será envolvida num turbilhão de sentimentos devastadores, fazendo-a encarar fantasmas do passado.

Exibido em sessão especial lotada de gente na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro passado, onde assisti pela primeira vez e gostei, o novo filme do diretor e roteirista Tom Ford é um exímio exercício de roteiro, que constrói um complexo quebra-cabeça em três frentes: o suspense psicológico (tenso, perturbador e angustiante), o drama (austero e bem triste) e o policial investigativo (violento sem ser gratuito). Esses gêneros coexistem dentro de um filme metalinguístico e soberbamente simbólico, feito para um público adulto exigente, que curte cinema inteligente.
A história é contada pelo ponto de vista da mulher, no caso a personagem principal, uma elegante artista infeliz no trabalho e no casamento. Depois de receber o manuscrito do ex, ao ler o material, projeta para nós as cenas imaginadas naquelas páginas, que compõem um romance brutal sobre uma família (marido, esposa e filha adolescente) que se envolve num acidente de carro no meio do deserto. As duas mulheres da ficção tornam-se vítimas de sequestro por um trio de bandidos – como líder, o jovem Aaron Taylor-Johnson, indicado ao Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante, enquanto o marido e pai de família é abandonado na beira da estrada. Em meio a um calor infernal, ele procura ajuda, auxiliado por um policial, Andes, no estilo de xerife texano, ótimo trabalho de Michael Shannon, indicado ao Oscar de coadjuvante esse ano. No desenrolar da história, os dois saem numa jornada cruel em busca de respostas para o caso. Isto tudo ocorre no livro, lido por Susan, com cenas jogadas para o telespectador a partir do que ela cria em mente. Em paralelo, no tempo presente, fora da ficção literária, Susan perde o sono, sacrificada com o conteúdo que tem em mãos, aquela obra domina seu íntimo, fica atônita com as semelhanças do manuscrito com coisas da vida real e questiona o motivo de ser mencionada pelo ex na dedicatória – para causar essa aproximação de ficção e realidade, Jake Gyllenhaal interpreta dois papéis: Tony, no livro, e Edward, o ex-marido, num formato original de metalinguagem cênica. Bom trabalho de um mestre chamado Tom Ford.
Além da literatura, o filme dialoga com o atual panorama da arte e da moda norte-americana, realçado no estonteante figurino minimalista de Arianne Phillips (duas vezes indicadas ao Oscar) e na fotografia explosiva do premiado Seamus McGarvey, com altos contrastes de cores frias e quentes. Impressiona desde a bizarra abertura, a dança das senhoras obesas seminuas, vestidas apenas com quepe e acessórios em formato de bandeira dos Estados Unidos, numa clara alegoria à decadência e ao feísmo na cultura contemporânea. Há outros elementos de impacto em “Animais noturnos”, como a simetria fotográfica em frames, sobreposições de imagens fortes, que lembram pinturas estilosas, a edição de flashbacks e de interrupções brutas quando a personagem abre e fecha o livro.
O filme ainda trata, por ora, de relacionamentos em fase terminal e da crise econômica mundial, ou seja, caminha muito além do complexo suspense/drama/policial.
Recebeu indicação ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2016 (ganhou o Leão de Prata), oito indicações ao Bafta, três ao Globo de Ouro (melhor diretor, ator coadjuvante e roteiro) e uma ao Oscar (Shannon), além de outros 12 prêmios internacionais.
Também vemos no elenco de apoio Michael Sheen, Laura Linney e Jena Malone, os três com papéis excêntricos, saídos de um filme de Wes Anderson! Mas aqui quem dá as cartas é Tom Ford, em seu segundo trabalho como diretor, sete anos depois do belíssimo drama “Direito de amar” – ele escreveu o roteiro baseado no romance “Tony & Susan”, de 1993, do falecido autor e crítico literário norte-americano Austin Wright.
Filme importante, imperdível e que requer uma revisão para melhor entendimento. Em DVD pela Universal – no disco há um único extra, um making of de 11 minutos, com boas explicações acerca da produção.


Animais noturnos (Nocturnal animals). EUA, 2016, 116 min. Suspense/Drama. Dirigido por Tom Ford. Distribuição: Universal Pictures

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Comentários do blogueiro


"Era por isso que sua cabeça tinha dado a impressão de estar mais baixa que suas pernas. Porque ele não tinha pernas. Era natural que parecessem leves. O ar também é leve. Até mesmo uma unha do pé é pesada comparada com o ar".
Trecho do contundente romance "Johnny vai à guerra", premiado livro de Dalton Trumbo, lançamento imperdível da Globo Livros com o selo Biblioteca Azul (2017, 231 páginas, tradução de José Geraldo Couto).
Publicada em 1939, a cultuada obra máxima de Trumbo é um doloroso grito antiguerra, sobre um jovem recruta que retorna dos campos de batalha na Primeira Guerra, sem membros e sem os sentidos, condenado a uma cama de hospital. Em 1971 o próprio escritor dirigiu para o cinema a versão de seu livro, muito fiel por sinal.
Um livro para ler e refletir. Ah, e a recém-lançada edição no Brasil traz dois textos extras: uma introdução de Trumbo, de 1959, e um adendo, de 1970. Obrigado, Globo Livros/ Editora Globo, pelo envio do lindo exemplar.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Cine Lançamento


Fúria Cannabis

Em uma comunidade rural na Carolina do Norte, nas Montanhas Apalaches, um jovem rebelde chamado Travis (Jeremy Irvine) luta para deixar o passado violento. Foge de casa, devido ao pai opressor, e abriga-se na casa de Leonard (Noah Wyle), um professor que também esconde um passado de tragédias. O destino dos dois será traçado diante de uma sociedade bruta e corrupta, regida pelas próprias leis locais.

Ficou fora do circuito e quase ninguém assistiu esse bom filme independente norte-americano, podendo ser conferido agora em home vídeo, com selo da Flashstar. Duro, trágico, violento e com desfecho incômodo, “Fúria Cannabis” (esqueçam o título infeliz!) projeta o cotidiano de um jovem com um passado condenável, massacrado em casa pelo pai, e que procura liberdade e afeto na casa de um professor, que também guarda fortes segredos de família (revelados ao longo do filme). Unidos, um completa o outro em seus dias difíceis, indecisões e no ambiente de trabalho, repelidos por uma sociedade ameaçadora, ideia reforçada na comunidade rural onde moram, com paisagens incríveis de árvores secas e extensos riachos, na região montanhosa do oeste do estado da Carolina do Norte. Lá, 150 anos atrás, foi palco da Guerra Civil Americana, que ainda guarda resquícios de escravidão, truculência na posse de terras e execuções a mando dos proprietários das áreas férteis. A Cannabis do título traduzido para o português aparece na história para retratar a questão da posse de terras dominadas pelo plantio da droga, que irá ligar os dois personagens centrais aos “vilões”.
Pouco conhecidos no Brasil, Noah Wyle e Jeremy Irvine aproveitaram o projeto fílmico para demonstrar que são atores capazes de uma interpretação mais realista e sincera – tem até participação de Haley Joel Osment, garotinho de “O sexto sentido”, hoje obeso e aceitando papéis em fitas bem ruins.
A fotografia é um exercício à parte, sublime e exato no resultado (as gravações ocorreram em Asheville, um condado de Buncombe, na própria Carolina do Norte). Recomendação da semana em DVD!


Fúria Cannabis (The world made straight). EUA, 2015, 119 min. Drama. Dirigido por David Burris. Distribuição: Flashstar

Nota do blogueiro


Cinema Soviético

Olhem só o supercatálogo da CPC Umes Filmes (Centro Popular de Cultura, da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo). Uma grande novidade (e oportunidade) no mercado brasileiro de DVDs com a série "Cinema Soviético". São 20 títulos raros, com matriz restaurada e licenciada pela Mosfilm, e a equipe me enviou quatro deles esses mês: Aleksandr Nevsky (1938), Tratoristas (1939), O quadragésimo primeiro (1956) e Vá e veja (1985). Logo terá resenhas no blog. A CPC Umes já atuava com uma frente na área de arte e cultura, e agora entrou no mercado com a distribuição de filmes soviéticos. Conheça o selo pelo site oficial e aproveite os valores promocionais dos DVDs, à venda por lá:
http://cpcumesfilmes.org.br/prestashop/index.php
Valeu, Bernardo e CPC Umes Filmes!


terça-feira, 2 de maio de 2017

Cine Lançamento


Lolo – O filho da minha namorada

Em férias no sul da França, Violette (Julie Delpy), uma quarentona workaholic que trabalha com Moda, apaixona-se por Jean-René (Dany Boon), nerd na área de informática, recém-divorciado. Rola uma química entre os dois, que passam dias juntos. Pouco tempo se passa, ele retorna com Violette para a cidade dela, Paris, e na casa da amada encontrará um obstáculo: o filho rebelde Lolo (Vincent Lacoste), de 19 anos, que não aceita qualquer tipo de relacionamento da mãe com outros homens.

Nova comédia francesa dirigida pela atriz Julie Delpy, agradável para o público comum, que com certeza o assistirá com prazer, pois há todos os ingredientes de uma típica fita de gosto popular, “água com açúcar”, bem intencionada, resoluções passageiras, reviravoltas cômicas e, em cena, bons atores franceses atuais afinados no humor, com destaque para dois coadjuvantes, Dany Boon, o namorado, centro das intrigas do filho de Violette, e Karin Viard, a melhor amiga (e conselheira) dela.
Uma história sobre duas pessoas com suas singularidades e duas vidas de mundos bem opostos: Violette, rica, fashionista, descolada, residente na capital, workaholic, com filho, e Jean-René, nerd interiorano, atrapalhado, visto como idiota e caipira, ou seja, dificilmente haveria um romance entre a dama e o patinho feio. Posto em prova o namoro, a partir de detalhes do relacionamento entre o novo casal nascerão todos os conflitos do enredo, sobre afinidades, aceitação e permissividade, contado com ânimo e jovialidade.
Julie Delpy acertou na direção e no roteiro, e mesmo sob a estrutura de uma rápida comédia romântica criou um ambiente favorável para discutir se todas as formas de amor são possíveis e sinceras. Disponível em DVD pela Mares Filmes.


Lolo – O filho da minha namorada (Lolo). França, 2015, 98 min. Comédia. Dirigido por Julie Delpy. Distribuição: Mares Filmes

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Nota do blogueiro


"Ele observava a atitude dos robôs pela visitela. Eram centelhas cor de bronze em suave movimento contra os rochedos obscuros do asteroide sem ar. Estavam em formação de marcha agora [...]". Trecho de "É preciso pegar o coelho", um dos nove contos sobre robôs inteligentes e a tecnologia dos autômatos escritos pelo russo Isaac Asimov, que compõem um de seus livros mais fascinantes, "Eu, robô", publicado no Brasil pela Editora Aleph (2014, 317 páginas, tradução de Aline Storto Pereira). Lançado em 1950, esse clássico da ficção científica é indispensável para quem gosta do gênero - e também originou um filme de mesmo título em 2004, indicado a Oscar. Obrigado, equipe da @editoraaleph, pelo envio do lindo livro.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Nota do blogueiro


Chegou o lindíssimo catálogo oficial do 43o. Festival Sesc Melhores Filmes, com a votação do público e da crítica. Minha escolha de os melhores de 2016 está lá! Eu e outros 121 críticos de cinema brasileiros votamos! Viva o cinema! :)



Especial de Cinema

  Mostra Internacional de Cinema de SP comemora 50 anos e dá início na próxima semana   A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo comemo...