Confira
resenhas de seis documentários imperdíveis – três deles em exibição nos
principais cinemas do Brasil e outros três nos streamings Sesc Digital e
Netflix.
Miguel
Ángel Blanco: As 48 horas que mudaram a Espanha
Documentário
investigativo da Netflix, feito na Espanha, sobre o “Caso Miguel Ángel Blanco”,
um sequestro seguido de morte que vitimou o jovem político espanhol de 29 anos,
cometido pelo grupo separatista basco ETA em 1997. Economista de formação, Blanco
era na época vereador do Partido Popular (partido liberal e conservador). Conhecido
pela vida simples, era apaixonado por música e esportes. Em julho de 1997, foi
sequestrado por membros do ETA, que exigia do governo espanhol a transferência
de seus presos para cárceres no País Basco em até 48 horas, sob ameaça de
executar Blanco. O ultimato gerou uma onda de protestos pela Espanha inteira,
que tomou conta das ruas das principais cidades, com milhões de pessoas que
pediam a libertação do político. A mobilização, social e política, era uma
tentativa de impedir o assassinato de Blanco. Quando o prazo expirou, o ETA
cumpriu a ameaça, baleando o político com um tiro na cabeça. O jovem ficou
vários dias no hospital lutando pela vida, gerando nova onda de comoção no
país. Na época, o ETA tocava o terror na região – fundado em 1959, o “Euskadi
Ta Askatasuna”, que em basco significa "Pátria Basca e Liberdade",
assassinou até aquela data 800 indivíduos, como policiais, militares, políticos
e funcionários do governo espanhol. O caso de Miguel Blanco tornou-se um
divisor de águas na relação da sociedade espanhola com o terrorismo: o país
uniu todos os partidos políticos em prol da criação de novas leis para
criminalizar o ETA e os atentados terroristas em geral. O que também colaborou
para o declínio do grupo separatista, que encerrou a luta armada em 2011 e se
dissolveu por completo em 2018. O documentário é composto por vasto arquivo de
época, como reportagens de TV e entrevistas, além de depoimentos atuais de
pessoas ligadas ao caso. Filme feito com seriedade e ampla pesquisa, tratando
como a mídia sensacionalizou o caso, mas também foca no despertar da
consciência coletiva em torno de uma tragédia que virou um símbolo de
resistência e luta.

Amor
tóxico
Outro
documentário investigativo da Netflix na linha de true crime, desta vez um
complexo triângulo amoroso com inúmeras reviravoltas. Como são três personagens
envolvidos em uma imbricada história de casamento, obsessão e manipulação
psicológica, é bom prestar bastante atenção para não perder o fio da meada. O
caso em questão ocorreu na cidade de Anaheim, Califórnia, entre 2016 e 2021. A
história gira em torno de Ian Diaz, um oficial de justiça recém-casado com a
esposa Angela Connell, grávida na época, e a ex-noiva dele, Michelle Hadley,
que acabou acusada de perseguição (stalker). Tudo começou quando Angela passou
a receber emails ameaçadores de um remetente anônimo que se identificava como
“Lilithistruth”. As mensagens, algumas obscenas, outras de ameaça de morte, falavam
em vingança, num tom perturbador. Angela acionou a polícia duas ou três vezes
(e o filme mostra todas as gravações caseiras da época, de celular e câmeras de
vigilância internas da casa), porém a situação escalou para uma invasão à casa
de Diaz e a tentativa de estupro da mulher. Michelle, a ex, foi acusada dos
crimes e presa após minuciosa investigação de que ela estaria por trás do envio
dos emails. A mídia a retratou como vilã em uma narrativa de ciúme e vingança.
No entanto, uma nova linha de investigação se abriu, descobrindo que o caso era
muito mais complexo: tanto Angela quanto Ian atuavam diretamente numa rede de
manipulação digital e falsificação de provas, que confundiu autoridades
policiais, juízes e, claro, a opinião pública. O documentário, com plot twists
absurdos, que parecem ter saaídos de filmes eletrizantes de ação (só que aqui é
a vida real), mostra como esse episódio se transformou em um verdadeiro “circo
midiático” acusando pessoas injustamente. Fiquei na frente da TV sem piscar,
nesse bom documentário da Netflix que instiga e nos faz pensar como a justiça
pode ser falha, jogando para a cadeia pessoas inocentes.

Ecos
do Teatro Experimental do Negro
A
Pandora Filmes lançou nos cinemas no final de semana passado esse grande (e
praticamente desconhecido) documentário independente que vale o ingresso (e
muito mais a reflexão). “Ecos do Teatro Experimental do Negro” tece um olhar
cuidadoso, e com muita pesquisa e entrevistas, sobre os atores e atrizes pretos
no palco brasileiro. O filme foca no surgimento do Teatro Experimental do Negro
(TEN), fundado em 1944 por Abdias do Nascimento, e as históricas encenações
mantidas pelo grupo por duas décadas (até 1961). Nascimento foi um artista múltiplo,
ator, poeta, escritor, dramaturgo e artista plástico, além de professor
universitário, senador e ativista dos direitos humanos. Apesar do temperamento
difícil como apontam alguns entrevistados, foi uma das vozes para consolidar a
arte negra nos palcos e nas telas, rompendo padrões e estereótipos da época. O TEN
virou um marco cultural ao colocar elenco inteiramente negro no centro da cena
teatral e transformar o teatro em espaço de afirmação política e estética
contra o racismo. O TEN nasceu da indignação de Abdias do Nascimento ao que na
época era a naturalização da blackface (um ator branco se pintar de tinta preta
para interpretar um personagem negro). A blackface foi um recurso muito
utilizado no cinema desde seus primórdios, além da TV e no teatro, levando o
TEN a criar um projeto que propiciasse protagonismo a atores negros, bem como
sua formação profissional (na época uma das defesas do uso da blackface foi de
que haviam poucos atores e atrizes negros, o que de fato existiu mesmo, conforme
apontam entrevistados do documentário). O TEN colaborou para a reafirmação da
identidade negra e um local para se expandir a conscientização social. Reunia
gente comum que queria ser ator: trabalhadores, empregadas domésticas e pessoas
sem formação artística, oferecendo cursos de alfabetização e iniciação cultural
para que pudessem atuar. Contribuíram para o grupo pensadores e dramaturgos
brancos, como Darcy Ribeiro, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues (que escreveu
peças para o TEN, como “Anjo Negro”). A primeira peça do TEN ocorreu em 1945,
no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com “O imperador Jones”, uma peça
clássica de Eugene O’Neill, tradicionalmente feita por brancos, só que agora por
um elenco negro (citado no filme). No documentário vemos nomes ligados ao TEN,
como Ruth de Souza e Léa Garcia, que se tornariam grandes atrizes do país. Outros
entrevistados contam a influência do TEN em suas carreiras, como os veteranos atores
Zezé Motta e Milton Gonçalves, a poetisa Leda Maria Martins, o cineasta Joel
Zito Araújo e nomes da TV e do cinema atuais, como Taís Araújo, Lázaro Ramos e
Ailton Graça. Daqueles filmes para sair pensando e olhar como as artes
evoluíram de meio século para cá na questão racial (mesmo sabendo que ainda há
muito a ser construído para se chegar à igualdade social).
A
fabulosa máquina de colher ouro
Interessantíssimo
documentário independente chileno dirigido por Alfredo Pourailly que está disponível
gratuitamente na plataforma do Sesc Digital. Rodado em 2024, traz denúncia
social e poesia visual para narrar a vida de Toto, um garimpeiro de 60 anos que
vive na Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina. Ele trabalhou por mais de 40
anos nas minas de ouro no pé de uma montanha andina em condições duríssimas,
sem direito à seguridade social; hoje, debilitado pela idade e pelo esforço
físico, percebe que sua sobrevivência está sob ameaça. Seu filho, Jorge, um jovem
vaqueiro, planeja a construção de uma máquina artesanal, com sucata, capaz de
colher ouro com mais eficiência. O rapaz modela a máquina no computador, faz
esboços, recolhe peças antigas e sucatas e cria uma espécie de colheitadeira que
escava as pedras e retira o ouro – símbolo de esperança e futuro para uma
região perdida. O pai adoece, parece estar em seus dias finais, mas acredita
que viverá um tempo trabalhando com o filho na nova máquina de colher ouro. O doc
denuncia o trabalho extenuante e a precariedade social enfrentados por
trabalhadores em lugares remotos, ao mesmo tempo que celebra a resiliência e a
criatividade popular. A máquina criada pelo vaqueiro não é apenas uma solução
prática: ela se torna metáfora de dignidade, sobrevivência e reinvenção da
vida. Mostra o dia a dia daquela família no meio do gelo, um vínculo terno entre
pai e filho, que se torna o motor da narrativa, mostrando como o cuidado
familiar pode substituir políticas públicas ausentes – e na visão de Jorge como
o empreendedorismo sustentável pode transformar realidades cada vez mais
apagadas. O documentário chileno traz ainda ricas paisagens da Terra do Fogo,
cercada por geleiras e os Andes, com uma atmosfera melancólica, porém poética. Premiado
no Festival de Guadalajara, o filme foi exibido em importantes festivais de cinema
documentário, como Hot Docs no Canadá, IDFA na Holanda e Doc NYC nos Estados
Unidos.
Não
sei viver sem palavras
Estreia
hoje nos cinemas pela Bretz Filmes esse documentário sobre um dos nomes de
maior destaque da literatura brasileira do século XX, o escritor Ignácio de
Loyola Brandão. Nascido no interior de São Paulo, em Araraquara, Ignácio,
prestes a completar 90 anos, relembra fatos notáveis de sua longa trajetória no
mundo da escrita - de jornalista perseguido na Ditadura Militar a cinéfilo de
carteirinha (seu sonho sempre foi ser diretor de filmes e acabou sendo crítico
de cinema), marcou gerações de leitores com seus romances e contos que
retratavam as complexidades do Brasil e da terra que adotou, São Paulo. Sentado
no escritório de trabalho, ele revira a gaveta de fotos e arquivos pessoais
para o filho, André Brandão, que é o diretor do filme – são memórias de
família, da saudade da cidade natal, do medo da repressão na Ditadura, de
quando, por um triz, não morreu quando descobriu um aneurisma cerebral e das
inspirações que o levaram a lançar livros reveladores na década de 70, como
‘Zero’ e ‘Cadeiras proibidas’. E também vemos um Ignácio fazer um mea-culpa
sobre a ausência como pai na criação dos filhos, já que se entregou
inteiramente no ofício de escrever. Exibido no Festival do Rio e na Mostra de
Cinema de SP de 2025, o longa é bem narrado, com puro lirismo, em que o público
é levado a decifrar os labirintos da mente de um genial escritor.
A
fabulosa máquina do tempo
Sensação
no Festival de Berlim desse ano, onde concorreu aos prêmios Crystal Bear (na
seção Generation Kplus, voltado a filmes infanto-juvenis) e o de melhor
documentário, o filme da diretora de “Incompatível com a vida” (2023), Eliza
Capai, é uma joia a ser descoberta – e espero que o público o encontre logo.
Com uma mistura de fantasia e aventura em uma narrativa marcada pela busca de
reconexão com o passado e pela descoberta de futuros possíveis, o doc (que em
muitas vezes lembra ficção) acompanha um grupo de meninas na cidadezinha de
Guaribas, no sul de Piauí, lugar que ficou conhecido por receber o projeto-piloto
“Fome Zero”, em 2003, por ser um município com baixo IDH, sem saneamento básico
e de extrema pobreza. Elas têm imaginação fértil, falam o que vem na mente e,
numa das brincadeiras diárias, planejam inventar uma máquina do tempo que as
transporte para épocas distintas. O filme é uma viagem na mente das meninas,
todo composto pela cultura oral, de histórias da carochinha, lendas e folclore,
intercaladas pelas crenças religiosas e de perspectivas para um futuro próximo.
Nessa jornada de descobertas, as crianças, em meio a um local marcado pela
seca, relembram histórias da avó, sobre a fome que assolou a região, bem como
do machismo estrutural que ainda permeia a sociedade onde vivem. As imagens são
carregadas de forte teor visual/psicológico, principalmente as locações em
Guaribas, localizado nas entranhas do sertão. Assisti na Berlinale desse ano, e
para mim foi um dos melhores filmes do Festival. Também foi exibido no “É Tudo
Verdade” 2026 e estreia hoje nos principais cinemas brasileiros pela Descoloniza Filmes.
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