terça-feira, 28 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2


Xica da Silva
 
50 anos se passaram do lançamento de “Xica da Silva”, filme de enorme bilheteria na época e uma das maiores obras de Cacá Diegues. Agora, o filme histórico retorna para as principais salas de cinema do país em inédita versão restaurada, na Sessão Vitrine Petrobras (da Vitrine Filmes). Clássico realizado pela Embrafilme em plena ditadura militar, o longa que consagrou Zezé Motta volta com recuperação de imagem e som (lembrando que muitos filmes brasileiros em película perderam qualidade com o tempo, e agora as restaurações digitais recuperam cenas perdidas e limpam trechos com ruídos, riscos e problemas técnicos). “Xica da Silva” foi um marco absoluto da cinematografia brasileira; lançado originalmente em 1976, levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas, inserindo uma protagonista preta no centro da história (o que rompia com estereótipos e paradigmas de representação). Sem contar o peso dessa história real, que aborda temas como poder, liberdade, desejo e desigualdade social. Xica da Silva foi uma figura real da História do Brasil Colônia. Nascida Francisca da Silva de Oliveira por volta de 1732 no Arraial do Milho Verde, atual município de Serro, em Minas Gerais, era filha de Antônio Caetano de Sá, um militar português, e de Maria da Costa, uma africana escravizada trazida da Costa da Mina. Durante a juventude, Xica foi propriedade de diferentes senhores, chegando a ter um filho com o médico Manuel Pires Sardinha. Em 1753, foi comprada por João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes representante da Coroa Portuguesa e um dos homens mais ricos da colônia (no filme interpretado por Walmor Chagas). A relação entre os dois transformou sua vida: João Fernandes concedeu-lhe liberdade e manteve com ela uma união estável por cerca de 15 anos, da qual nasceram treze filhos. A partir desse momento, Xica passou a ser chamada de Francisca da Silva de Oliveira e conquistou prestígio e poder em uma sociedade que, em geral, marginalizava pessoas pretas e ex-escravizadas. Sua ascensão social foi notável e controversa: Xica viveu em uma luxuosa residência, frequentou círculos da elite e tornou-se uma figura influente no Arraial do Tijuco (hoje Diamantina). Essa posição incomodava parte da aristocracia branca, que via com resistência a presença de uma mulher negra em espaços de poder e riqueza. Ainda assim, sua história se consolidou como símbolo de mobilidade social e resistência às estruturas raciais e sociais da época. Xica virou parte do imaginário cultural brasileiro, inspirando livros, peças de teatro, música, série e filme, lembrada como “a escrava que virou rainha”. No filme, Cacá Diegues estabelece a historiografia como didática, contando detalhes de sua vida numa interpretação soberba de Zezé Motta. Os figurinos coloridos lembram algo carnavalesco, e a narrativa fluida alternando drama e romance com piadas e humor jocoso se tornam recurso para prender a atenção do espectador. Um filme caro para a época, suntuoso, rodado em lindas locações reais do interior de Minas Gerais, como Diamantina, cuja arquitetura realça o barroco brasileiro (época dos arraias e vilas e a predominância do estilo de casas portuguesas). Jorge Ben compôs a música para o filme, que se tornaria famosa, até hoje cantada. O roteiro de Antonio Callado e de Diegues foi baseado tanto no livro “Xica da Silva”, de João Felício dos Santos, quanto no livro-documento histórico de 1868 de seu tio, o historiador Joaquim Felício dos Santos, “Memórias do Distrito de Diamantina”. No elenco uma série de nomes conhecidos, como Elke Maravilha, Altair Lima, Rodolfo Aren, José Wilker, Stepan Nercessian e Clementino Kelé. Uma preciosidade do cinema brasileiro de volta às telonas.






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