Xica
da Silva
50 anos
se passaram do lançamento de “Xica da Silva”, filme de enorme bilheteria na
época e uma das maiores obras de Cacá Diegues. Agora, o filme histórico retorna
para as principais salas de cinema do país em inédita versão restaurada, na
Sessão Vitrine Petrobras (da Vitrine Filmes). Clássico realizado pela
Embrafilme em plena ditadura militar, o longa que consagrou Zezé Motta volta
com recuperação de imagem e som (lembrando que muitos filmes brasileiros em
película perderam qualidade com o tempo, e agora as restaurações digitais recuperam
cenas perdidas e limpam trechos com ruídos, riscos e problemas técnicos). “Xica
da Silva” foi um marco absoluto da cinematografia brasileira; lançado
originalmente em 1976, levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas,
inserindo uma protagonista preta no centro da história (o que rompia com
estereótipos e paradigmas de representação). Sem contar o peso dessa história
real, que aborda temas como poder, liberdade, desejo e desigualdade social. Xica
da Silva foi uma figura real da História do Brasil Colônia. Nascida Francisca
da Silva de Oliveira por volta de 1732 no Arraial do Milho Verde, atual
município de Serro, em Minas Gerais, era filha de Antônio Caetano de Sá, um
militar português, e de Maria da Costa, uma africana escravizada trazida da
Costa da Mina. Durante a juventude, Xica foi propriedade de diferentes
senhores, chegando a ter um filho com o médico Manuel Pires Sardinha. Em 1753,
foi comprada por João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes representante
da Coroa Portuguesa e um dos homens mais ricos da colônia (no filme
interpretado por Walmor Chagas). A relação entre os dois transformou sua vida:
João Fernandes concedeu-lhe liberdade e manteve com ela uma união estável por
cerca de 15 anos, da qual nasceram treze filhos. A partir desse momento, Xica
passou a ser chamada de Francisca da Silva de Oliveira e conquistou prestígio e
poder em uma sociedade que, em geral, marginalizava pessoas pretas e
ex-escravizadas. Sua ascensão social foi notável e controversa: Xica viveu em
uma luxuosa residência, frequentou círculos da elite e tornou-se uma figura
influente no Arraial do Tijuco (hoje Diamantina). Essa posição incomodava parte
da aristocracia branca, que via com resistência a presença de uma mulher negra
em espaços de poder e riqueza. Ainda assim, sua história se consolidou como
símbolo de mobilidade social e resistência às estruturas raciais e sociais da
época. Xica virou parte do imaginário cultural brasileiro, inspirando livros,
peças de teatro, música, série e filme, lembrada como “a escrava que virou
rainha”. No filme, Cacá Diegues estabelece a historiografia como didática,
contando detalhes de sua vida numa interpretação soberba de Zezé Motta. Os
figurinos coloridos lembram algo carnavalesco, e a narrativa fluida alternando
drama e romance com piadas e humor jocoso se tornam recurso para prender a
atenção do espectador. Um filme caro para a época, suntuoso, rodado em lindas
locações reais do interior de Minas Gerais, como Diamantina, cuja arquitetura
realça o barroco brasileiro (época dos arraias e vilas e a predominância do
estilo de casas portuguesas). Jorge Ben compôs a música para o filme, que se
tornaria famosa, até hoje cantada. O roteiro de Antonio Callado e de Diegues
foi baseado tanto no livro “Xica da Silva”, de João Felício dos Santos, quanto
no livro-documento histórico de 1868 de seu tio, o historiador Joaquim Felício
dos Santos, “Memórias do Distrito de Diamantina”. No elenco uma série de nomes
conhecidos, como Elke Maravilha, Altair Lima, Rodolfo Aren, José Wilker, Stepan
Nercessian e Clementino Kelé. Uma preciosidade do cinema brasileiro de volta às
telonas.



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