domingo, 26 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 1


Futuro futuro
 
Está em cartaz nos cinemas essa ficção científica distópica brasileira, novo trabalho de Davi Pretto, diretor de “Rifle” (2016) e “Continente” (2024), que foi o vencedor do Troféu Candango de melhor longa no Festival de Brasília, além de ter ganhado lá também os prêmios de roteiro, montagem e menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador (uma descoberta incrível esse ator). É um drama scifi desafiador que cria uma Porto Alegre chuvosa, uma metrópole decadente, conflitante e labiríntica, marcada pela presença da Inteligência Artificial e por uma estranha síndrome neurológica. Na trama, acompanhamos K (Zé Maria Pescador), um homem que andarilha pela cidade, sem memória. Ele é acolhido por um senhor solitário (João Carlos Castanha) em seu simples casebre. A relação entre os dois vira um misto de sexo e companheirismo, até K se viciar em um dispositivo tecnológico: sentado à frente da peça, o objeto lança um triângulo infravermelho em sua testa, que o faz conhecer uma outra cidade e situações absurdas. O filme funciona como metáfora para os dilemas contemporâneos: a dependência tecnológica, a fragilidade da memória num mundo tomado pela rapidez das coisas e a luta por sentido em um mundo cada vez mais fragmentado e mediado por máquinas. Filme de atmosfera sombria e pessimista, faz críticas diretas em como a tecnologia nos molda, com dispositivos viciantes, transformando sem volta os humanos. Filme de festival, com pegada diferente e nada fácil de digerir (por isso mesmo interessante, que vale conhecer). Exibido no Festival Olhar de Cinema, está nos principais cinemas do país, com distribuição da Cajuína Filmes.



Toquinho: Encontros e um violão
 
Documentário que celebra os 80 anos do cantor e compositor Toquinho (nascido Antonio Pecci Filho), um músico notável, que percorreu o samba, os afrosambas e a MPB, tendo longa parceria com Vinicius de Moraes. Dirigido por Erica Bernardini, diretora do Festival de Cinema Italiano no Brasil (onde o filme estreou na edição de 2024), o doc acompanha as cinco décadas de carreira do artista, entrelaçando memórias pessoais a entrevistas antigas e imagens de arquivo (muitas da infância e juventude dele, além de turnês no Brasil e na Itália, sua segunda “casa”). É uma obra afetuosa, com Toquinho gravado especialmente para o longa, falando para a câmera e tocando palinhas, enquanto as imagens de outrora dele cobrem o filme. Há depoimentos de amigos que relembram parcerias na música com Toquinho, como Ivan Lins, Jane Duboc, Carlinhos Vergueiro e até a icônica cantora italiana que gravou suas canções Ornella Vanoni (falecida no final do ano passado). O violão surge como protagonista, não apenas como instrumento, mas como extensão da identidade de Toquinho, e revela sua habilidade em unir técnica refinada e sensibilidade popular. No filme viajamos com canções do artista que fizeram sucesso, como “Tarde em Itapuã” e “Regra três”, estas em parceria com Vinicius, e “Aquarela”. É um filme simples na forma, na própria edição sem muitos recursos, mas bem intencionado, que celebra merecidamente a vida e a trajetória desse grande músico brasileiro. Está em cartaz nos principais cinemas do país com distribuição da Pandora Filmes.


Nós acreditamos em você
 
Está na minha lista particular das melhores estreias do ano esse drama belga de forte impacto emocional, dirigido e roteirizado pela dupla estreante Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Recebeu Menção Especial de Melhor Primeiro Longa-Metragem na Berlinale 2025, e agora está nos principais cinemas brasileiros pela distribuidora Filmes do Estação. É uma história tensa que olhar atento aos detalhes, cuja trama acontece integralmente em poucas horas, em uma sala fechada. Ali está Alice, uma mãe que trava uma batalha judicial pela guarda dos filhos após acusar o ex-companheiro de crimes sexuais contra eles (menores de idade). O que deveria ser um processo centrado na proteção das crianças vira do avesso, em um julgamento da própria conduta da mãe, revelando um sistema que fragiliza a vítima. Na sala estão a juíza do caso, assistentes jurídicos, agentes de segurança, advogados e o pai, acusado do crime. A angústia cresce a cada depoimento, e o filme trabalha muito bem esse ponto, com foco na protagonista, interpretada brilhantemente pela belga Myriem Akheddiou, atriz de “O garoto da bicicleta” (2011) e “Titane” (2021). O longa aborda um tema discutido amplamente na sociedade hoje, a violência sexual contra crianças dentro do ambiente doméstico, e trabalha a coragem, a dor e a urgência dessa mãe na tentativa de provar os crimes sobre seus filhos - mas descredibilizada a todo instante pelo olhar da justiça, que duvida de suas palavras. Gravado no formato 4:3 (ou 1.33:1, conhecido por “tela cheia”), tem predominância de primeiros planos, que tornam o filme angustiante e claustrofóbico, aproximando o espectador das expressões e silêncios dos personagens. Conciso em seus 78 minutos de duração, é uma obra séria e competente, que merece ser vista e debatida.


Marsupilami – Confusões a bordo

Comédia de aventura infantil feita na França, o filme estreou nos cinemas no último fim de semana, pela Paris Filmes. É um passatempo (bem passatempo mesmo), tipo uma Sessão da Tarde, para crianças, que mistura atores reais e animação digital. E que resgata um personagem famoso na França, criado em quadrinhos nos anos 50 por André Franquin, o Marsupilami. No passado, Marsupilami ganhou seriado animado, telefilme, e agora é a maior produção sobre ele, dirigido e estrelado pelo comediante Philippe Lacheau. A história acompanha um funcionário de um zoológico que, para salvar seu emprego, aceita transportar secretamente um pacote vindo de um país chamado Palômbia. Ele viaja de cruzeiro ao lado da ex-esposa, do filho e de um colega atrapalhado, e descobrem que estão carregando um filhote de Marsupilami, criatura rara e travessa (uma espécie de marsupial, amarelo, com traços de onça pintada). Só que atrás deles estará uma gangue que quer capturar o animalzinho, dando início a uma sucessão de confusões. É uma história cheia de corre-corre, para crianças pequenas, que conhecerão um novo formato do famoso personagem, agora em computação gráfica (isso o atualiza e dá novos rumos para as antigas histórias de Franquin). Atores franceses conhecidos aparecem no longa, como Jamel Debbouze e Jean Reno. Achei engraçadinho, mas nada além do trivial em filmes desse naipe.

Nenhum comentário:

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 1

Futuro futuro   Está em cartaz nos cinemas essa ficção científica distópica brasileira, novo trabalho de Davi Pretto, diretor de “Rifle” (20...